Pokémon - Revoluções
4 Pokémon é apenas uma questão de graça.
Notas iniciais
3) Pokémon é apenas uma questão de graça.
10/05/20XX – Sexta, 7:37
Dawn caminhou com um sorriso por entre os familiares corredores do colégio até a sala do 2º ano A, dando um pequeno aceno com a cabeça ao passar por conhecidos e não-tão-conhecidos-assim.
Andou sem pressa até seu acento na primeira carteira e deu-se a chance de observar seus colegas de classe. Como sempre, não haviam muitos alunos presentes faltando ainda 20 minutos para o início das aulas... Ela era um pouco pontual de mais. Desejou que May tivesse o costume de chegar cedo para que as duas tivessem chance de conversar, mas a amiga sequer conseguia lembrar-se de sua mochila – ela já a havia esquecido torno de três vezes aquele semestre – não conseguiria e nem desejaria acordar meia hora mais cedo apenas para chegar no horário.
Deixou escapar um suspiro, apoiando a cabeça em uma das mãos.
Chegaria amanhã.
Seu peito se aqueceu com um pouco de ansiedade enquanto pensava no jogo e na palestra que assistira, mas logo o calor confortável da empolgação se tornou uma chama um pouco quente de mais de vergonha ao pensar que estava escondendo isso de May.
A amiga entenderia, certo? Afinal, ela tinha um bom motivo para jogar. Sua família, Berlitz, havia financiado boa parte do jogo e ela conhecia muito bem o Senhor Rowan, um dos produtores deste. E mais: sua mãe havia testado a modalidade dos Contests antes mesmo das primeiras levas de Betas serem selecionadas, sempre comentando com ela como tudo era perfeito de mais lá. Sua MÃE. Não sabia se achava isso empolgante ou constrangedor.
Havia anos que o jogo estava em desenvolvimento e ela acabou por se interessar por ele, com tantas influências. Ela havia lido todo manual de instruções e estudado bastante sobre todo seu universo, Pokémons, comandos e funções. Tudo que vira na palestra de sábado havia sido apenas uma revisão do que já sabia.
Bufou ao pensar que May estivera lá também. Deu graças a Deus – e a Arceus também, pelo seu mais novo vício – que elas não se encontraram. Teria muito a explicar. A morena passara a semana reclamando do quão entediante havia sido ficar em seu tão precioso dia de acordar tarde, sentar no sofá e ver “The Rick’s Comedy Show” com um bando de ‘pirralhos babando em pixeis’. Se May soubesse que ela se interessava por isso, deixaria de ser sua amiga?
Dawn não tinha muitos outros amigos. Não é como se ela não fosse popular, muito pelo contrário, muitos diriam que ela atraía naturalmente as pessoas ao seu redor, havia sido eleita presidente de turma e já havia rejeitado muitos garotos em sua sala – ela ainda sonhava com o príncipe encantado – mas suas experiências de vida a levavam a entender que tudo era por causa da riqueza de sua família. Desde pequena havia aturado constantes sequestros e pessoas que estavam atrás dela apenas para conseguir benefícios. Desde o dia que descobriu que Kenny, seu melhor amigo de infância, havia se aproximado dela apenas por pedido dos pais, que queriam se aproximar da família Berlitz, ela ficara muito receosa em confiar nas outras pessoas. Ela e Kenny eram muito pequenos para ter noção de alguma coisa na época, mas agora era diferente.
Talvez fosse por isso que ela gostava tanto de May. Ela era desligada ao ponto de não saber dos murmúrios sobre suas origens, sincera ao ponto de sempre contar tudo que a incomodava e direta de um modo que Dawn sempre desejou ser. Não queria perder sua amizade.
Afastando aqueles pensamentos ruins da cabeça, Dawn sacou o espelho de sua bolsa, dando uma última conferida em sua aparência. Cabelos negros como a noite, escorridos, pele um pouco clara de mais e lábios muito pequenos e rosados, acompanhados por um par de olhos azuis escuro. Sinceramente, ela não se achava tão bonita quanto diziam.
– Dawn! Bom dia! – Observou enquanto uma garota ruiva, de cabelos encaracolados e com olhos azuis como duas piscinas ia em sua direção.
– Kasumi, bom dia! – Respondeu com um sorriso, feliz em encontrar alguém no qual podia ter alguma conversa. Kasumi era uma garota independente cujas notas eram tão boas quanto as dela. Ela era muito gentil com a maioria das pessoas, tirando alguns garotos que gostavam de fazer bagunça no fundo da sala. Dawn achava que ela seria uma representante melhor si mesma.
– Por favor, me diz que o Satoshi entregou o trabalho de física pra você! – Os olhos dela fitaram a representante esperançosos. Dawn sentiu pena dela. As duplas daquele trabalho haviam sido aleatórias e ela acabara ficando exatamente com um dos garotos no qual ela não se dava bem. A morena não achava que Satoshi fosse uma má pessoa, apenas que ele tinha... Seu próprio ritmo para fazer as coisas...
– Sinto muito... Ele não me entregou nada... – Dawn pediu desculpas com os olhos, já imaginando a reação da amiga.
– Aquele maldito... – Ela explodiu – Eu peço para ele fazer uma coisa... Só UMA! Minha impressora quebrou e ele só tinha que imprimir e te entregar ontem...!
Nesse momento, uma cabeleira negra e desgrenhada surgiu pela porta, bocejando. Dawn jurou que por um segundo os olhos azul-piscina de Kasumi ficaram vermelhos. Satoshi estremeceu, como se um calafrio percorresse sua espinha, olhou para a ruiva, murmurou algo em pânico e saiu correndo.
– Ketchum!!! Volte aqui!
E lá se foram os dois, mais velozes que May em um buffet. Dawn riu ao compara-los com sua amiga e um certo loiro dos olhos esmeralda.
Naquele trabalho Dawn havia ficado com outra garota que a lembrava de Kasumi em vários aspectos... Menos pelo fato que ela fazia Karatê e podia muito bem dar uma lição mais dolorida nos inconvenientes no fundo. Deu outra risada ao lembrar-se das brigas entre Kris e Ethan. Ethan tinha o costume de dar em cima de qualquer garota que visse pela frente, e Kris não era exceção com seus lindos olhos cristalinos e cabelos lisos num tom entre castanho e preto que Dawn achava maravilhoso. Ela também tinha um bom senso de estilo, sempre combinando estrelas em todos seus looks. Kris, porém, não aceitava de maneira alguma ser cortejada, mas Gold não desistia, sempre acabando por levar uma boa surra... Apesar que Dawn achava que, de algum modo, eles haviam se tornado bem próximos no decorrer do ano. Como, ela não sabia, mas eles pareciam bem amigos, e as cantadas de Gold de algum modo ficaram diferentes com ela. Perguntou-se se eles haviam se encontrado em algum lugar fora da escola, ou se, talvez tivessem achado algo em comum.
Deixando seu senso romântico de lado, decidiu preparar-se para as aulas, uma vez que agora não faltava muito mais de cinco minutos para que estas começassem.
***
Servidor acessado.
Username: PlatinumWORLD00
Password: ************
Carregando...
Login Completado. Bem vinda Platina.
Mundo: Sinnoh – Status: Conectado.
Sem instabilidades no servidor.
Platina deu outra olhada ao redor da mansão que havia recebido no jogo. Móveis luxuosos e artefatos de aparência antiga davam à ela um ar de antiguidade moderna, se é que isso existia. Tudo era real de mais, como haviam lhe contado, mas ela já esperava por isso.
Caminhou até a janela e encarou o céu, pincelado com realísticos tons de laranja. Já estava ficando tarde.
Sebastian e suas benditas sugestões exageradas de proteção.
O jogo havia chegado aquela manhã, mas seu mordomo, preocupado que o mundo virtual fosse ser perigoso demais, deu a brilhante sugestão a seu pai de que fossem contratados dois guardas costas para que a acompanhassem por todo jogo. Sem falar que ela teria de usar o sistema de ocultação de usuário, para que os outros jogadores sequer pudessem ver seu nickname. Estava esperando o dia inteiro por uma ligação com a confirmações desses guardas.
Ela olhou para os itens que haviam sido dados de presente à ela pelo professor Rowan: Uma maleta contendo os três iniciais de Sinnoh, com todos os IVs máximos e Natures especialmente selecionadas – um para ela e os outros seus dois guarda costas — um Ponyta, um Pokémon cavalo que a levaria com mais velocidade para os lugares até que ela tivesse nível suficiente para usar o Fly e um trio de Poketechs, aparelhos que seriam super caros em jogo, com uma série de funções extras que facilitam a vida do usuário. Dois deles também seriam entregados a seus guarda-costas.
Não podia se esquecer também de sua própria mansão. Os usuários mais experientes normalmente conseguiam juntar dinheiro o suficiente para comprar uma pequena casa no jogo, mas ela havia recebido um grande terreno cheio de criados NPCs e uma quantidade absurda de Poké Dollars.
Apesar de tudo, Platina estava muito ansiosa. Ela, que sempre ficara em casa, presa, temendo sequestradores e ladrões, não tendo nada para fazer além de assistir às aulas dos milhões de professores particulares contratados para ensinar-lhe desde piano até política, saindo sozinha – ou em parte – numa aventura onde poderia testar todo seu conhecimento e ver novas pessoas e lugares. Mesmo que fosse tudo um jogo, era como um sonho.
Mas como sempre, havia uma condição. Para provar que ela conseguia se virar sozinha, ela precisava ir a um lugar chamado Monte Coronet e reunir um certo item que sua mãe também havia conseguido em sua jornada. Sacou em sua bolsa a fita que sua mãe havia lhe entregado virtualmente – a primeira fita que ela havia recebido nos contests. Ela definitivamente testaria aquela modalidade de jogo.
Caminhou até o grande espelho em seu quarto. Olhos azuis escuros, como seus cabelos, que eram lisos e compridos, com algumas mechas presas para trás por duas presilhas douradas. Vestia uma blusa branca sem mangas com um colete preto, uma meia ¾ da mesma cor e uma bota rosa, com uma saia rosa com detalhes pretos. Na cabeça, uma touca branca com uma Pokébola rosa se destacava. Nada mal para um jogo.
Um aviso apareceu em sua tela. Uma mensagem do Senhor Rowan dizendo que os guarda costas estavam confirmados. Deu um sorriso, sentindo que finalmente poderia começar. De acordo com a mensagem, eles eram Betas da primeira leva, treinadores habilidosos e guarda-costas na vida real também. Eles se reconheceriam por dois lenços que ambos usariam em jogo, um vermelho e um verde.
Platina checou o lugar onde seria o encontro – Em frente ao prédio de Jublife. Era mais ou menos longe de sua mansão, chegaria em pouco tempo em seu Ponyta.
Aquele era o início de tudo.
***
Servidor acessado.
Username: Pearl9SPACE
Password: **********
Carregando...
Login Completado. Bem-vindo Pearl.
Mundo: Sinnoh – Status: Conectado.
Sem instabilidades no servidor.
Pearl olhou em volta à procura de Diamond. Onde aquele garoto havia se metido? Entrou nas opções e diminuiu a opacidade do jogo, revelando uma imagem tênue de sua sala de estar – ele gostava de jogar com a opacidade máxima para ficar mais realístico.
Diamond estava sentado ao seu lado a menos de 3 segundos, mas agora desaparecera.
– LUCAS! – Barry gritou, ciente que Pearl o imitava em jogo.
Um garoto de cabelos e olhos escuros surgiu pela porta que – como Barry esperava – levava até a cozinha, com um pacote de chips em suas mãos.
– Oi – Ele falou de boca cheia, caminhando sem pressa até o sofá. – Que foi Barry?
– O Show vai começar em meia hora! Vem logo! A gente precisa se preparar!
– Ah... Ta bom – As vezes ele achava que seu amigo tinha défice de atenção... Mas Lucas ainda sim tirava mais que ele em quase todas as matérias.
Pearl voltou a opacidade para 100 e olhou em volta do lugar onde aconteceria o concurso em que estavam participando. Aquela era a cidade de Jublife, uma das mais movimentadas de Sinnoh, e eles se apresentariam ao vivo no dia em que os jogadores novatos receberiam o jogo, como uma boas-vindas, que seria transmitida para todos os mundos instantaneamente.
Pokémon possuía centenas de funções além das batalhas, desde fotografia até musicais, e os jogadores poderiam escolher o que eles desejavam ser. Pearl e Diamond podiam não ter os Pokémons mais fortes e raros ou serem os melhores betas, mas eles tinham um objetivo: Serem os melhores COMEDIANTES do jogo.
Pearl piscou ao ver a imagem de Diamond se materializar à sua frente, reclamando outra vez de sua demora. Aquele seria o grande dia deles, o dia para serem conhecidos em todos os cantos do Mundo Pokémon, e haviam ensaiado muito para saírem vitoriosos.
Deu um meio sorriso e arrastou o amigo para dentro da área reservada, onde um palco estava montado. Nada podia ficar entre ele e a vitória.
***
O coração de Pearl estava a mil. Ele estava se apresentando para um grande público cheio de NPCs, Betas experientes e uma série de novatos. Ele usava uma roupa de Shellos e caminhava pelo palco com Chatler voando perto dele, também com um figurino que o fazia parecer um peixe. O cenário era o fundo do mar. Tudo ia como planejado.
Aquele seria o momento em que Lax deveria aparecer, vestido de Wailmer, todo ferido, e ele iria até Diamond, que estava escondido e vestido de Tentacruel. Ele daria uma bronca dramática no amigo, com um holofote sob si, dizendo que um dia ele já tinha sido ‘cool’.
Chatler usaria sua habilidade Chatter para repetir “Cruel”, enquanto voava ao redor de Lax.
Quem não riria disso?
Agora, Pearl não esperava que no momento que Lax aparecesse ele estivesse tomando uma garrafa de Soda Pop, como se fosse algo completamente natural. Um calafrio percorreu sua espinha e eles se lamentou por ter deixado a opacidade no máximo outra vez. Não conseguia ver se Lucas estava ao seu lado.
Se embolando um pouco nas falas, ele caminhou até o lugar onde Diamond deveria estar escondido, tendo suas expectativas comprometidas – Lá estava ele, comendo um Castelia Cone, de costas para o palco.
Pearl deu uma olhada para a plateia, engolindo em seco. Pigarreou.
– Cara! O que houve? Isso foi mesmo uma evolução? Eu nem reconheço você! – As palavras travavam em sua boca enquanto torcia para Diamond LARGAR aquele sorvete, que por falar nisso, nem era comida de verdade.
Diamond virou-se, parecendo perceber que tinha uma plateia. Ele hesitou um pouco – Pearl sabia que ele havia esquecido sua fala.
– Um.... Nice to Meat you? – Houve algumas risadas na plateia enquanto Diamond engolia o final de seu sorvete/item importado.
– Ah, claro, nice to meat you too- Como se fosse! – E deu um tapa claramente forte demais no amigo.
Naquele momento ele soube que sua cena estava arruinada.
***
– Grrrrrr..... Explique-se Dia!
Pearl estava bravo. Não. Mais que isso, ele estava FURIOSO. Tanto trabalho e ensaios... E uma oportunidade daquela não aparecia todo dia! E tudo por agua abaixo... Como os sorvetes derretendo que Diamond ainda comia.
– Explicar o que Pearl? – Ah, ele ia estrangular aquele menino.
– Não se faça de bobo! Por que você não seguiu o Script?!
– Ah... Teve um evento logo antes de começar, sabe? Pros iniciantes. Tavam dando de graça esse item exclusivo lá do Mundo de Unova.
– Esse item não devia ser para os POKÉMONS? E por que Lax estava com um Soda Pop? – Pearl ameaçou dar outro soco no companheiro. Pena que o jogo tinha controle de dor.
– Ah, mas é bom mesmo assim, né? Fica meio geladinho. Esse jogo é incrível. E ué, o Lax ganhou refri porque ele não ganharia sorvete. – Diamond estendeu uma das casquinhas para o amigo, um sorriso inocente no rosto. Pearl se afastou para um canto mais desolado da recepção do evento, se encolhendo em um formato de bolinha.
– Acabou...
Diamond quase jurou ver a alma do amigo saindo pela boca.
– Ah, não foi tão ruim! O público riu, não foi? – Diamond deu uma meia risada, comendo o Castelia Cone que antes oferecera para Pearl.
– Isso! – Pearl se levantou – Todos ficaram completamente hipnotizados pelo seu incrível improviso!
– Como se fosse!! – E logo Diamond estava com mais outro galo virtual para sua coleção. Ao menos eles doíam menos que os da vida real. – Eles estavam rindo do fracasso que foi a piada!
Ele encarou a tela da recepção, onde outra dupla de comediantes fazia uma encenação sobre um garoto que confundia um Voltorb com uma Pokébola. Eles podiam ter sido melhores que ele.
– Oh Dia, você consegue ouvir o som estrondoso do público rachando de rir?
Quando voltou seu olhar de volta ao colega, percebeu a mensagem de “Em pausa” significando que ele havia retirado os óculos. Grunhiu.
– LUCAS!
Alguns segundos depois, a imagem de Diamond voltou a se mexer, comendo mimicamente algum tipo de biscoito. Pearl presumiu que ele havia feio outra visita a cozinha – e que teria que passar no supermercado no dia seguinte.
Eles precisavam conversar muito seriamente.
– Diga Dia, não, Diamond. – Ele pegou o amigo virtualmente pelos ombros. – Você se lembra da promessa que fizemos pouco depois de começarmos a jogar?
Pela primeira vez no dia tinha a atenção completa do garoto. Considerou aquilo por si só uma vitória.
– O jogo tinha sido lançado a dois meses, e apesar de ser super tecnológico, já estava começando a enjoar, como qualquer outro RPG, lembra?!
Dai aqueles Betas de Johto, Pippi e Purin fizeram um show tão incrível, que nos deu vontade de jogar novamente! Mais que ser um treinador, decidimos ser iguais a eles! Lembra dessa promessa? O motivo de nosso trabalho duro?!
Diamond deu o primeiro sorriso verdadeiro desde que aquele dia havia começado. Sim, ele se lembrava. E não era só isso, ele e Pearl haviam se conhecido vendo um show de comédia. Eles estavam na informática da escola, ainda com uns 10 anos, e descobriram que ambos preferiam ficar o recreio vendo “The Rick’s Comedy Show” no computador que ficar jogando futebol com os outros meninos. Eram inseparáveis desde então.
– Sim!
Pearl correspondeu o sorriso do amigo.
– Excelente! Não podemos fazer nada sobre hoje. Vamos praticar para nosso próximo grande show! – E antes que pudesse perceber, Diamond já estava sendo bruscamente arrastado prédio afora. Bem, ele não detestava esse tipo de vida. – E para de comer!
– Ah, aí estão vocês! – Os companheiros se viraram para um dos NPCs que eles reconheceram por ajudar a organizar o jogo. – Diamond e Pearl, certo? A votação acabou de acabar... e vocês dois ganharam o prêmio especial!
– O quê?! – A frase foi dita em coro. Aquele não havia sido um dia tão ruim.
Uma mensagem apareceu na tela com um “parabéns”, e uma carta branca materializou-se em suas mãos.
– Agora subam no palco! Vamos fazer as comemorações para os ganhadores!
E o NPC saiu andando, sem mais outra palavra, deixando um Diamond e Pearl estáticos. Eles se olharam antes de dar um pulo de alegria, se preparando para sair correndo.
Se não fosse pelo senhor que eles haviam atropelado.
– Onde estão seus modos?!! Vocês acham que só por que aqui é um jogo, podem ficar pulando como se fosse a casa da mãe Joana? – O homem usava um Sprite com cabelos grisalhos, um bigode branco e costeletas. Ele parecia levemente familiar.
– Uh... sentimos muito senhor... Estamos com pressa – Pearl também comentou o quanto ele era assustador... Mas só em sua cabeça.
Após aquela breve desculpa, os dois cataram suas coisas do chão e saíram correndo. Rowan bufou. Os jovens de hoje em dia...
Apanhou a carta direcionada aos guarda-costas de Platina do chão e a guardou em seu inventário – assim ficaria mais segura – nos dias de hoje não se podia mais andar com itens na mão. Teria que aperfeiçoar aquela função antes que a versão oficial do jogo lançasse.
Agora, só teria de ir ao encontro dos homens que o Senhor Berlitz contratara e mandar confirmar com a garota.
Com toda a história de novos Betas, ele não havia tido folga. Finalmente estaria livre.
***
Platina caminhou até a frente do grande prédio de Jublife. Aquele era o local, mas parecia que seus companheiros ainda não haviam chegado. Olhou pela imagem translucida de seu quarto até localizar o relógio pregado a parede — 17:00. Bem no horário.
Guardou seu Ponyta na Pokébola e sentou-se, retirando do inventário a maleta com os itens que Rowan a havia entregado. Pegou para si um um Poketech e a Pokebola de Piplup, o Pokémon que já havia decido escolher.
Saudando o pinguim com um aceno de cabeça, ela encarou as duas outras esferas que jaziam em suas mãos. Os Pokémons do jogo, tal como os NPCs, possuíam um sistema especial super complexo que os permitia ter algo parecido com emoções e personalidades, e, é claro, eles conseguiam entender os mais diferenciados comandos. Uma mega inteligência artificial.
Liberou Turtwig e Chimchar.
– Logo dois homens vão chegar. Escolham quem mais gostarem e deem esses itens para eles. – Entregou aos monstrinhos virtuais as Poketech, achando algo natural conversar com eles, que responderam com um barulho típico das devidas espécies num tom que ela entendeu como felicidade.
Logo a imagem de dois garotos passou a surgir da tela. Platina reconheceu um garoto loiro com um casaco listrado laranja e verde e um cachecol verde no pescoço, acompanhado por outro de cabelos negros e um chapéu vermelho com um cachecol da mesma cor. Deviam ser eles.
– Hey Pearl, não acha isso meio estranho? – Diamond perguntou, encarando a carta do prêmio outra vez. – Nós estamos indo em uma viagem pro Monte Coronet, não é? Mas que tipo de viagem turística começa no mesmo dia da competição e vem com uma “missão” pra completar? E que história é essa de “recompensa”?
Pearl deu um leve tapa na nuca do amigo, logo cruzando os braços.
– Dia, não seja idiota! – O Chatter de Chatler ecoou um segundo “Idiota” no fundo – Nós sempre assistimos aqueles programas onde eles pegam artistas em situações bizarras e capturam suas reações com câmeras escondidas!
– Oh!
Pearl chegou perto do amigo, sussurrando “Esse é um jogo super tecnológico, aposto que tem altos meios de nos filmar! Devem ter câmeras em todas as partes!”
– O que? Onde?! – Diamond passou a olhar em volta, logo sendo puxado de volta por Pearl
– Idiota, finja que não percebeu!
Os dois caminharam de maneira suspeita pelo caminho que levava até o prédio de Jublife, eles eram espertos demais para cair em um truque daqueles!
Foi então que a visão de cada um foi completamente coberta por dois seres que reconheceram por iniciais da região. Ambos haviam escolhido o Pack de inicial alternativo sendo que pretendiam ser treinadores no início do jogo, mas ainda assim os reconheciam. Um Turtwig pulara em cima de Diamond fazendo-o desabar ao chão, enquanto um Chimchar se balançava em Pearl como se este fosse uma arvore, ambos seguravam um estranho tipo de relógio e os ofereciam para os garotos.
– Mas o que? – Diamond soltou um grito abafado, tentando tirar o Pokémon de cima de si
– Ei, me solta! – Pearl se direcionou a Diamond, percebendo que não deviam estar parecendo muito maneiros frente a suposta câmera — Vamos Dia, diga algo!
Diamond observou os arredores, passando a ficar imóvel quando a imagem de uma bela garota de olhos e cabelos azuis aparecia na tela. Aquela pessoa havia caprichado na criação do personagem: elegante, quase como uma princesa.
– Dia, pare de ficar sonhando! Faça algo! – Pearl deu um sussurro gritado ao ver que o companheiro parecia um zumbi com uma planta ambulante subindo em sua cabeça.
A garota se aproximou, fazendo os Pokémons se acalmarem perto deles. Ela fez um movimento com a mão, abrindo um painel. Logo uma imagem apareceu na tela
“Você recebeu ‘Poketech’
Você recebeu Chinchar/Turtwig”
Pearl se apressou para olhar o nickname da garota, mas este não estava disponível para exibição. Só haviam duas explicações para isso – Ou ela havia ocultado, ou ela era um NPC de menos importância no jogo, e por isso não possuía nome.
– Uh... Essa garota é a guia turística? – Ele sussurrou para Diamond, mas o amigo parecia estar em uma espécie de transe.
Platina encarou os dois garotos com curiosidade. Eles pareciam ter a mesma idade que ela – seria algum tipo de erro?
Riu de seu próprio pensamento – Aquilo era um jogo, eles podiam parecer ter a idade que quisessem, tudo era tão real que se esquecera. Aqueles dois foram contratados por seu pai e o Prof. Rowan, deviam ser profissionais que escolheram essa aparência para parecer algo natural, como amigos jogando juntos. Agradeceu por seus guarda-costas não serem dois esquisitões de terno e óculos escuros, como na vida real seu pai costumava escolher.
– Me digam suas designações – Ela disse, fria. Não podia conversar com estranhos, e em jogos, nunca se sabe quem está do outro lado da tela. Eles possuíam apenas uma relação profissional, se tentasse se aproximar provavelmente acabaria deixando escapar algumas informações importantes e quem deveria protege-la se tornaria seu assaltante.
– Oi? – Ambos disseram em coro. Ela franziu as sobrancelhas.
– Vocês têm codinomes, certo? Me digam quais são.
Pearl tombou a cabeça. Codinomes? Ela estava falando de seus Nicknames? Por que não simplesmente lia no menu? Talvez ela fosse uma NPC afinal, ninguém falava tão formalmente num jogo.
– Eu sou Pearl
Diamond pareceu acordar do transe.
– E eu sou Diamond.
Ela se virou, sem dizer mais nada.
– Ei! Não vai nos dizer seu nome? – Pearl bufou, irritado por ser ignorado. Aquilo era normal de NPCs menos bem trabalhados, mas com sua raridade e o tempo em que ficara jogando Pokémon se acostumara com personagens que eram quase como humanos reais.
Lá estava. Platina bufou. Já estavam começando a coletar informações. Os avisos de Sabastian, seu mordomo, a atormentavam.
– Não digo meu nome para qualquer um. – Ela quase riu ao ver a reação de fúria exagerada do garoto – Agora, vamos para o Monte Coronet.
***Em algum lugar não muito longe dali***
Os dois homens de terno preto e óculos escuros esperavam na frente do parque de Sandagem, onde haviam acabado de sair de um passeio gratuito de bicicletas. Aquele era um início de missão estranha.
– Ela está atrasada... – Um deles disse, bufando ao ver seu colega de trabalho concordar. Rowan tinha um modo estranho de fazer as coisas.
Fale com o autor