Pokémon - Reconquest

10 Capítulo 9: Contínuo


Notas iniciais
Com algumas horas de atraso, mas tá aí. Boa leitura!

O sol a pino parecia debochar abertamente das pessoas reunidas na ala militar do cemitério de Azalea. Inúmeros homens e algumas mulheres agrupavam-se em torno de um caixão preto completamente fechado, indicando uma morte violenta que impossibilitava a vítima de ser mostrada durante o enterro.

Ao lado do caixão uma senhora de baixíssima estatura estava agarrada a um homem muito gordo de expressão amargurada. Ela soluçava. Finalmente, seis dias após sua morte, o corpo de Dan Hisaki fora liberado pelos legistas forenses para ser velado.

À exceção de mais alguns civis ao redor, o pessoal era composto basicamente por camadas e mais camadas de policiais devidamente uniformizados e perfilados militarmente. A última dessas fileiras trazia um círculo de homens armados ao redor dos demais.

O Comandante Baromy caminhou à periferia do grupo, olhando de forma medonha para o cerco de homenagens dentro do qual só se ouviam os soluços da mãe de Dan. Em suas mãos cruzadas às costas, havia um enorme pedaço de pano amarrotado.

Ele penetrou facilmente na multidão, indo diretamente ao caixão. Olhando fixamente nos olhos do pai de Dan, ele estirou a bandeira e assentou-a sobre o caixão com violência. Em seguida, ergueu-a e deixou-a cair brandamente, ficando uniformemente distribuída.

O caixão de Dan estava agora encimado por uma gigantesca bandeira da Polícia Militar de Johto. Comandante Baromy gostaria de se isolar, mas sentia-se na obrigação de encarar o pai de seu subalterno, sustentando seu olhar até o fim quase sem piscar.

Uma voz ressoou ao longe:

- ATENÇÃO! SENTIDO! — um ruído uniforme de pernas e mãos batendo preencheu todo o local – PREPARAR ARMAS! – houve o rumorejar generalizado de metal roçando no tecido – FOGO!

A primeira rodada de disparos ergueu uma chuva de metal no ar. A mulher apertou-se mais ao marido, soluçando com muito mais ruído, como se quisesse que sua dor fosse mais audível que os rifles.

Mais dois comandos se seguiram, acompanhados de sua respectiva chuva de balas. Em seguida, houve o comando para descansar armas e dois coveiros se adiantaram, retirando a tampa de mármore do túmulo já cavado e baixando o caixão sobre o buraco.

Ao fundo tocava uma marcha fúnebre e a maioria esmagadora dos policiais presentes levou a mão direita à testa numa silenciosa continência, incluindo o Comandante Baromy, cujos lábios tremiam de raiva.

Algumas flores depois, as pessoas se dispersavam e o Comandante Baromy ia até seu carro com a cabeça doendo de tantos pensamentos que se atropelavam. Subitamente, ele viu seu caminho barrado por um homem de farda azul, repleto de bandeiras e sinais sobre o ombro direito.

- General Holx. – cumprimentou Baromy sem prestar continência.

- Coronel Baromy. Lamento muito pela sua per...

- Lamenta uma ova, general. – interrompeu Baromy, grosseiramente.

O General Kaiza Holx era um homem estupidamente alto, cuja idade já avançada não lhe furtara as forças. Tinha traços e músculos fortalecidos pelo antigo tempo de exercícios e uma postura imponente, típica dos líderes militares.

Ele não deixaria passar em branco aquela insubordinação, mesmo proveniente de outra corporação. Mal abrira, porém, a boca e o Comandante Baromy continuava a destilar as palavras odiosamente, num sussurro enfurecido e acompanhadas por uma série de gestos bruscos e grotescos de mão:

- Tem sangue daquele garoto nas mãos de vocês! Eu já disse centenas de vezes que precisamos parar de crucificar os suspeitos antes que se comprove a culpa deles. Veja o que aconteceu. Vocês do alto escalão e a mídia me pressionaram para culpar o garoto logo e o verdadeiro maníaco estava à solta para continuar cometendo crimes enquanto eu me ocupava compulsivamente com um inocente.

- Comandante Baromy, você precisa entender...

- Ainda não terminei, General! O futuro da polícia não são velhos retrógrados e desacreditados como nós. O futuro da polícia são garotos como aquele que está embaixo da terra! Ele era estabanado, empolgado demais... mas ele tinha sonhos! Ele acreditava na utopia de uma polícia decente. Ainda acreditava no princípio fundamental que aprendemos na academia de servir e proteger. Ele estava interessado em descobrir a verdade por trás dos crimes, não em atribuir culpados para dar justificativas sociais para nossas falhas!

O velho general encarava Baromy com os lábios crispados. Há anos não estava habituado a alguém falar com ele daquela forma e sua vontade era arrancar a cabeça de Baromy a dentadas ali mesmo. Por outro lado, sabia que não havia como contestar os argumentos dele.

- Policiais só deveriam morrer em serviço por fatos circunstanciais, não por falhas operacionais, o senhor sabe disso! Quando mudamos o rumo lógico de nossas investigações por causa de pressão midiática, fale o que quiser, mas estamos sendo negligentes com a segurança das pessoas. Deixamos de caçar aquele maluco para nos justificar diante da mídia e o desgraçado invade a minha delegacia e mata um de meus homens. Eu não posso aceitar isso, general.

Os dois homens se encararam como dois ursos prestes a entrar em disputa pela única fêmea disponível. Faltava pouco saírem faíscas dos olhos de ambos. Após uma pausa desagradável, foi o general que falou:

- Espero que saiba que essa sua pequena insubordinação não passará despercebida, Coronel Baromy. O senhor será notificado oficialmente dentro de alguns dias a respeito de sua punição.

- Mexa seus pauzinhos o quanto quiser, General. Francamente eu não me importo. Apenas saiba que vou lhe dar duas opções. O senhor pode interceder junto ao governador para me dar a direção desse caso ou pode aceitar a minha demissão. E não pense que eu deixarei a corporação de boca fechada.

Baromy saiu do cemitério pisando firme sem pedir permissão de retirada, sem sequer se despedir. O velho e astuto general olhava-o pelas costas, sabendo que estava numa grande sinuca de bico.

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A primeira coisa que notou foi a têmpora que latejava como se tivessem lhe martelado a cabeça. Seus braços, perna e cabeça estavam pesados demais para se mexer, o máximo que conseguiu foi dobrar alguns dedos. Tinha certeza de que já abrira os olhos totalmente, mas tudo que conseguia ver era um grande borrão branco entre as pálpebras.

- KRISTEN!

Sentiu uma dor ainda mais viva quando o peso do corpo da menina se sobrepôs ao seu. Aos riscos brancos somavam-se outras cores e o brilho diminuía lentamente como se alguém estivesse ajustando a televisão.

- SEU DESGRAÇADO! MALDITO! QUE SUSTO VOCÊ ME DEU!

- Ryla-chan...? Está... me machucando.

Ryla soltou-o, percebendo finalmente a força que fazia sobre seus lençóis.

- O que... aconteceu?

- Você caiu do Charizard. Não se lembra?

Tentar se lembrar doía, como Kristen constatou ao forçar a mente. Com os olhos lacrimejando, olhou ao redor em busca de um copo d’água e só então percebeu que havia outra pessoa no quarto.

Um pouco mais afastado havia um homem de meia idade com os braços cruzados, observando a dupla de amigos. Seus cabelos azuis rebeldes e mal repartidos deixavam como produto uma franja cômica para alguém tão velho.

- Ah... olá. – cumprimentou Kristen, timidamente.

- Que bom que está bem, rapaz. – respondeu o homem, numa voz pomposa e um pouco arrogante – A cidade toda não fala em outra coisa. Vão gostar de saber que abriu os olhos e que está falando.

- Me desculpe, mas... quem...?

- Meu nome é Falkner, perdoe a falta de educação. – disse o homem, se aproximando da cama – Naquela hora você ia cair de cabeça no chão, mas um de meus Pidgeots conseguiu apará-lo. Infelizmente, ele estava com as asas chamuscadas do embate com o Charizard e não foi suficiente pra impedir a queda... apenas retardou um pouco. Pelo menos você não quebrou nada.

- Obrigado... a que altura eu...?

- Estão todos calculando que estavam a uns oito metros no momento da queda, mas é uma conta difícil porque o Charizard estava justamente subindo. – disse Ryla, acenando para o monitor de televisão desligado com a cabeça – Graças ao Pidgeot, você caiu de apenas dois metros. Não quebrou nada, mas o choque o fez desmaiar muito feio.

- Há quanto tempo estou aqui?

Antes que alguém pudesse responder, a porta se abriu e um médico jovem, de rosto gorducho e sorriso espontâneo entrou empurrando um carrinho cheio de parafernálias.

- Ora, não é verdade que ele acordou? Prazer, Kristen-san, eu sou o Dr. Zilberg e estou cuidando do seu caso. Como está se sentindo? – perguntou o homem, tomando o antebraço de Kristen e medindo sua pulsação.

- Fome... também não consigo me mexer direito...

- Não se preocupe. Todos nós nos sentiríamos assim após cinco dias de sono profundo...

- Cinco... dias...?

Kristen teria gritado se conseguisse, mas não foi capaz de expressar seu espanto. Estivera em coma?

- Não se preocupe, não foi um coma ou nada parecido. – explicou Dr. Zilberg como se lesse pensamentos – Apenas não era possível mensurar a sua dor quando acordasse, então o mantivemos à base de remédios até que as ressonâncias tivessem um padrão maior. Suspendemos a medicação há umas – consultou o relógio no pulso esquerdo – quatro horas e agora você acordou relativamente bem.

- Meus... Pokémon...

- Não se preocupe, Kris, eles estão bem. Estão ali na mochila. – Ryla apontou para as bolsas pesadas de ambos atiradas a um canto do banco, parecendo chateada – Infelizmente eles não podem ficar soltos em hospitais de humanos, então tive que confiná-los nas Pokébolas. Mas o Tyrogue entendeu.

- E Ponye... e Cyndaquil?

- Estão ótimos. – o sorriso de Ryla ficou imediatamente radiante e Kristen pensou estar diante de uma pessoa dez vezes mais bonita – Cyndaquil já teve alta, está na bolsa com os outros. Eu só preciso dar a vitamina a ele junto com as refeições, levá-lo pra tomar sol e passar a pomada uma vez ao dia. No fim de semana ele já será capaz de usar suas chamas sem se machucar. Ponye está no hospital se recuperando, mas a cirurgia foi um sucesso! Dentro de dois dias vão retirar os pontos e ela estará pronta para enxergar, batalhar e fazer qualquer outra coisa que queira!

Kristen realmente detestou o fato de só conseguir demonstrar sua euforia com um discreto sorriso. Sequer percebera que, enquanto Ryla fazia suas explicações, Dr. Zilberg medira a temperatura numa das axilas e a pressão no mesmo braço.

- Bom, Kristen-san... está tudo ótimo com você. Parece que seus exercícios diários ajudam bastante a manter a saúde, não? Só precisa de mais uns dias de repouso para se acostumar à alimentação normal outra vez e poderão seguir viagem.

- Obrigado, doutor.

- Achei algumas inconsistências... várias fissuras mal calcificadas em alguns pontos do corpo e uma cartilagem totalmente fora de lugar no ombro esquerdo. Mas parecem lesões antigas, sem relação com o incidente...

- Tudo bem, doutor, estou ciente delas.

- Bom, eu vou indo. Se precisarem de algo, apertem o botão. – Dr. Zilberg apontou o botão de emergência próximo ao soro

- Eu vou indo também. – emendou Falkner, esperando o médico passar com seu carrinho.

- Hey! Eu gostaria de agradecê-lo decentemente depois, Falkner-san. Ao senhor e ao seu Pidgeot.

- Certamente teremos chance. – respondeu Falkner sem olhar para trás – Sua amiga aqui me disse que sua próxima parada é no ginásio.

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Sentado na escadaria do hotel, Kristen amarrava os cadarços enquanto esperava Ryla voltar com sua bagagem. Em sua mente repassavam-se a todo instante as imagens que havia acabado de ver na televisão do saguão: a própria silhueta recortada contra a lua trocando golpes desajeitados com um estranho sobre um Charizard em pleno vôo; depois estava mergulhando na direção de algumas árvores baixas na orla da cidade quando um Pidgeot aparou sua queda...

Foi despertado de suas reflexões pelo conhecido arrastar de pés de Ryla, que vinha até ele com sua mochila às costas e ladeada por Tyrogue, que carregava uma sacola de papel. Ryla não podia se arriscar a amassar a pomada e a vitamina, de modo que não pôde espremê-las na bagunça que era sua bolsa.

- Kris-kun! Como está Ponye?

- Nova em folha. – respondeu Kristen, tocando com orgulho na Pokébola que acabara de buscar no centro cirúrgico – Ainda um pouco incomodada com a luz do sol, então mantive ela na Pokébola enquanto ele está forte. Vamos andando?

Ambos caminhavam serenamente pela principal rua, àquela hora recheadas de carros, mas sem retenção no tráfego. De acordo com o velho que o informara, apenas três quilômetros separavam o hotel do ginásio. Kristen andava flexionando os braços, ainda incomodado pela fragilidade muscular que meros dez dias de ócio podiam proporcionar a uma pessoa habituada às atividades físicas diárias desde que podia se lembrar.

- Por que tão calado, Kris-kun? – perguntou Ryla, que tagarelara sem parar nos últimos minutos sem ouvir qualquer resposta.

- Ahn... nada de especial, estava apenas pensando. Desculpe.

- Ainda está com aquilo tudo na cabeça? – indagou ela cautelosamente.

- Bom, mais ou menos...

- Era só um maluco, deixa pra lá. Sabemos que existem pessoas como ele aos borbotões por aí.

- Não é ele que me preocupa.

- Como assim?

Ambos haviam parado diante de um semáforo, esperando que fechasse para poderem atravessar ao outro lado. Já era possível enxergar a enorme torre avermelhada duas quadras adiante. Kristen chutou uma pedrinha melancolicamente, sem ter certeza se desejava verbalizar aquilo em que vinha pensando desde que acordara.

- Sabe... os Pokémon dele. Eles pareciam odiar humanos.

- O que está dizendo? O que mais tem por aí são Pokémon que odeiam humanos hoje em dia. Lendo os livros, eu realmente sinto saudade do tempo em que eu não vivi, em que havia uma harmonia mais justa...

- Você não entendeu, Ryla. – ambos atravessaram quando a fileira de carros estacou – Selvagens têm medo, sentem-se acuados. Mas aquele Kabutops mata humanos sem hesitar. Se queria tirar o policial do caminho, podia ter feito um corte na perna ou no braço... mas ele atacou precisamente o pescoço, o cara estava desarmado e com um braço engessado. Aquele Charizard também me deu a impressão de que carbonizaria qualquer humano que se metesse na frente sem hesitar.

- Não devia pensar tanto nessas coisas, Kris. Assim como existem humanos bons e ruins, acho que seria natural pensar que o mesmo se aplica aos Pokémon.

- Talvez, Ryla-chan... talvez...

Ambos haviam chegado em frente à torre. Contrastando com o vermelho, um enorme letreiro com algo que parecia uma ferradura invertida – que Kristen identificou como sendo um par de asas – encimada pelas letras GYM.

Acima da torre havia toda uma parafernália de antenas, cabos e receptores de rádio, televisão e até de satélite. O homem forte diante das portas duplas sorriu e cumprimentou-os, abrindo a passagem.

Kristen entrou e tudo era muito diferente do que imaginou ser o interior de um ginásio Pokémon. Havia uma confusão de pessoas portando câmeras e microfones, outras carregando fiação pesada e ainda outras pessoas sem identificação plausível andando de um lado para o outro apressadamente, praticamente escondendo o balcão branco no qual um jovem de olhos puxados e cabelos ralos sorriu para eles

Muitos anos haviam se passado desde as épicas jornadas de Ash ao redor do mundo. As Ligas Pokémon haviam enriquecido consideravelmente e isso se refletira em suas instalações e funcionários.

O principal sonho da maioria dos treinadores que buscavam a independência financeira era tornar-se um líder de ginásio ou um membro permanente do quadro da Elite Four, garantindo, assim, uma luxuosa moradia em seu local de trabalho e os maiores salários do país, além de gordos fundos de financiamento para criação de Pokémon e, em alguns casos, para pesquisas também.

Para sustentar esse império, a Elite Four não podia mais se dar ao luxo de sobreviver apenas com taxas de treinadores e demais associados. Estas haviam aumentado substancialmente, mas a principal fonte de renda das instituições era o marketing.

Além das inúmeras campanhas espalhadas por toda parte em todas as mídias, cada ginásio possuía seu próprio canal de televisão. Durante o horário oficial de funcionamento do ginásio, os desafios ao líder eram transmitidos em rede nacional e, no tempo restante, transmitia-se desde documentários sobre a vida do treinador e do tipo de Pokémon que ele treinava até reprises de batalhas épicas antigas.

Também era possível pagar por um dos escassos lugares nas arquibancadas, embora o desafiante tivesse direito a três lugares – para possíveis amigos que viajassem com ele – e prioridade na compra de ingressos.

Todo treinador, com sua inscrição na Liga, tinha direito a um desafio grátis em cada ginásio. Em caso de derrota, o treinador só poderia solicitar um novo desafio sete dias depois, além de ter de pagar uma taxa para repeti-lo.

Os vencedores, independente da quantidade de tentativas que tivessem feito, ganhavam uma quantia relativa a quatro salários mínimos no ginásio de Violet, sendo aumentada em dois salários a cada ginásio que se passava. Era daí que a maior parte dos treinadores como Ryla, que saía de casa sem dinheiro em caixa, tirava sua renda para financiar a jornada.

Os líderes eram conhecidos por ter em seu poder diversos Pokémon dos mais fortes em seus tipos respectivos, mas também por estar sempre criando Pokémon em todos os níveis, que pudessem ser usados para nivelar suas batalhas de acordo com a posição cronológica do ginásio no ranking da Liga.

Após apresentar seus cartões, o jovem secretário teclou solicitamente por uns instantes. A impressora industrial ao lado dele emitiu dois pequenos pares de cartelas, que ele destacou, entregando as de Ryla e Kristen e guardando as outras duas consigo.

- Aqui está. No momento, Falkner-sama está terminando sua pausa de duas horas entre o turno da manhã e o da tarde, as lutas de vocês são as primeiras após esse período.

- Certo. – Kristen consultou o relógio – Onde podemos passar os minutos restantes?

- Ah, na verdade, Kristen-san... Falkner-sama deixou um comunicado aqui junto de seu registro. Ele deseja vê-lo na sala de repouso antes da luta.

Guiados por um segurança carrancudo, ele e Ryla subiram seis andares num elevador, seguindo até uma porta no fim do corredor, enquanto seus Pokémon haviam sido deixados na recepção para passar pela inspeção médica.

Quando o segurança destrancou a porta e indicou-lhes que entrassem, o aroma floral invadiu imediatamente os pulmões dele. Estavam no meio de uma grande estufa a céu aberto, recheada de verde por todo lado. Estavam diante de uma grande sacada na parte de trás do prédio, na qual podia-se ver perfeitamente o céu azul lotado de nuvens brancas e fofas que encobriam uma gigantesca montanha.

- Hey, Kristen-kun, Ryla-chan!

Ambos viram Falkner acenar para eles, sentado de pernas cruzadas no chão a alguns metros à direita. Um saco de ração para aves comuns estava aberto ao seu lado e ele estava cercado por dúzias de Spearows e Pidgeys, que procuravam os grãos que ele distribuía pelo chão.

Ao lado dele havia um pomposo Pidgeot sentado numa pose bastante reservada, observando os demais pássaros. Kristen notou que o pássaro era bem maior que o próprio treinador e que trazia longas faixas brancas enroladas nas penas das asas.

- Hey, Falkner-san! – Kristen se aproximou-, reverenciando-o – São todos seus?

- Ah, estes? Talvez um dia. – respondeu ele, acariciando longamente um Pidgey, que parecia gostar – Estes são apenas os da cidade. Como o verde está diminuindo por aqui, nem todos têm espaço na floresta... um jeito de evitar que as pessoas os maltratem na cidade é oferecer comida e água aqui.

Mas Kristen mal ouvia. Olhava ao redor, de boca aberta. Havia Pidgeys e Pidgeottos descansando em grandes ninhos na copa de meia dúzia das árvores maiores, Hoothoots e Noctowls dormindo sobre os galhos das mais escondidas com a cabeça oculta sob a asa, um grande Fearow servindo grãos na boca de uma ninhada de jovens Spearows... Kristen tinha certeza de que encontraria ainda mais Pokémon ocultos na modesta vegetação se andasse alguns metros para dentro.

- Gosta daqui, Kristen-kun?

- É maravilhoso... – respondeu Kristen, deslumbrado.

- Pois é. Alguns colegas me criticaram por usar os fundos de criação para construir um lugar voltado mais aos tratos dos Pokémon que ao treinamento, mas eu não ligo. Eu amo demais os Pokémon voadores.

Passaram vários minutos diante de Falkner, enquanto ele continuava a alimentar os pássaros selvagens e explicava as propriedades de algumas das plantas, até que uma batida na porta os distraiu. Sem receber resposta, um adolescente pálido entrou trazendo duas bolsas plásticas cinzentas lacradas e etiquetadas com os nomes de Kristen e Ryla.

- Bom – disse Falkner, se levantando e lacrando o saco de grãos -, parece que está na hora. Quem de vocês será o primeiro?

- Sou eu. – disse Kristen num tom determinado, rasgando o saco e retirando suas duas Pokébolas de dentro.

- Ótimo. Vamos subir então...

Saindo da estufa, o trio foi saudado pelo mesmo segurança de antes, que começou a explicar algo sobre elevadores diferenciados para desafiantes, mas foi interrompido por um gesto de mão de Falkner.

- Não se preocupe, eles subirão comigo. Obrigado.

Ambos galgaram o último andar de elevador e já era possível ouvir o locutor berrando a apresentação da próxima luta. Kristen sentiu a garganta secar quando ouviu a apresentação sensacionalista: o grande artista marcial, filho de um ex Elite Four, em seu primeiro desafio oficial da Liga, como se sairia?

Quando finalmente deixaram o elevador, Kristen viu-se num corredor mais escuro e maltratado do que achou que seria. Dois lances subiam circularmente em direções distintas, além do corredor à esquerda. Falkner estendeu-lhe a mão e ele apertou.

- Nos separamos aqui. Quando chegarmos lá em cima, estaremos em lados opostos do ringue... pra usar o seu linguajar.

- Vai ser uma honra, Falkner-san.

- Você, senhorita... pode seguir direto pelo corredor e sentar numa das cadeiras azuis na primeira fileira.

Dito isso, Falkner subiu pela escada da direita e Kristen retirou das costas a própria mochila, entregando-a a Ryla.

- Aqui... cuide bem do ovo. E observe a luta com atenção, vai te ajudar na sua.

- Certo. Boa sorte, Kris-kun!

Contendo a vontade de abraçá-lo, Ryla ganhou o longo corredor, desaparecendo da vista de Kristen. Este estalou as juntas, encarando as escadas e ouvindo o clamor apoteótico que julgou ser a aparição de Falkner sobre a arena.

Somente quando já estava na metade da escada, parou para pensar na estratégia que traçara com seus Pokémon: quem iria primeiro, as posturas que tomariam diante de ataques voadores... ter um Pokémon lutador como o principal de seu time lhe dava sérias desvantagens práticas, mas ele confiava em Tyrogue e, principalmente, sabia que não podiam quebrar a promessa que haviam feito a si mesmos após a derrota anterior.

Estreitando os olhos por causa do repentino clarão, Kristen viu-se na borda de uma arena retangular desenhada no chão de terra batida. A multidão bradou, empolgada, batendo as mãos e os pés. Do outro lado, Falkner o encarava bastante sorridente, já com uma Pokébola na mão esquerda.

- E aí está ele! – ressoou pelo ginásio a voz do locutor – O jovem lutador que todos esperavam! Após se envolver num perigoso acidente semana passada, ele está aqui para mostrar ao mundo mais uma vez que é capaz de dar a volta por cima!

Kristen sequer se dava conta do barulho que faziam o locutor ou a multidão. Sua vida precoce de competições lhe ensinara a ignorar o ruído massivo desse tipo de situação, mantendo o foco integralmente na luta. Não tirava os olhos de Falkner e este não tirava os seus dele também.

Um homem de roupa listrada em cinza e preto se adiantou até o meio, ainda do lado de fora da linha branca que delimitava a arena. Atrás dele, Ryla sentava-se com Eevee e Cyndaquil em suas pernas.

- Nesta batalha, cada treinador terá o direito de usar dois Pokémon. – entoou o juiz mecanicamente — Não há qualquer interdição de espécie, tipo ou golpe por parte do desafiante. Ao líder, está restrita apenas a utilização de Pokémon do tipo voador em level inferior ao 12. Todos os Pokémon de ambos os lutadores foram cuidadosamente inspecionados antes da luta. Está pronto? – ele apontou repentinamente para Kristen, que meneou a cabeça afirmativamente, apertando uma Pokébola na mão direita – Pronto? – Falkner apenas ergueu a própria Pokébola bem alto – COMECEM!

Ambos atiraram suas Pokébolas ao mesmo tempo e Kristen viu surgir uma pequena coruja redonda diante de sua Ponyta. Ela tinha olhos vermelhos bem expressivos e sobrancelhas em forma de seta, possuindo, também, um corpo marrom e creme sustentado por uma única garra.

- E a luta começaaaaaaaaa! – berrou o locutor — Hoothoot de Falkner contra Ponyta de Kristen! Aparentemente, o nosso jovem desafiante começa em vantagem, mas ambos sabemos que não se deve subestimar as aves bem treinadas do líder Falkner!

Ponye relinchou ruidosamente enquanto Hoothoot apenas subia e descia no mesmo lugar.

- Ponye, tudo bem com a luz?

O sol já não estava tão causticante quanto antes, mas Kristen ainda reparava que sua Ponyta estreitava os olhos para ver a pequena figura que alterava sua altitude. Em resposta, a égua relinchou novamente, retesando-se nas patas traseiras.

- Muito bem, Hoothoot, vamos estudar o território. Apenas voe ao redor dela!

Kristen rapidamente reparou que Hoothoot voava de forma desajeitada para uma ave, mas decidiu não subestimá-lo. Quando ela descreveu o primeiro círculo, Ponyta cuspiu um jorro de brasas na direção dele, que desviou com alguma dificuldade.

- Excelente, Ponye! Mantenha-se assim, uma hora conseguirá atingi-lo!

- Rebata com as lâminas de ar!

Quando a segunda rajada de chamas veio na direção de Hoothoot, este parou de bater suas asas, abrindo-as e disparando três pares de pequenas concentrações de ar que eram visíveis de tão fortes. Os golpes colidiram e se desfizeram em pleno ar.

- Como era de se esperar de Falkner! Um golpe de alto nível num Pokémon tão jovem, excelente!

- Mude a estratégia, Ponye! Corra na direção dele, atirando suas brasas ao mesmo tempo!

Ponyta galopou com uma velocidade surpreendente na direção de Hoothoot enquanto cuspia meia dúzia de brasas. A estratégia de Kristen era genial, pois o Hoothoot corria sérios riscos de ser atingido se tentasse desviar e, diferente de Ponye, não podia se mover e atacar de forma eficiente ao mesmo tempo. Fatalmente, ela se aproximaria o suficiente para atingi-lo com um golpe físico.

O próprio Falkner pareceu perceber o perigo quando as lâminas de ar continuavam a dissipar as brasas, mas nada podia fazer para evitar a impactante cabeçada que Ponyta acertou em Hoothoot, fazendo-o cair relativamente próximo às patas dela.

- Finalize com as chamas, Ponye!

- Profecia, Hoothoot!

O público soltou um urro quando os olhos de Hoothoot brilharam em roxo e ele desviou do golpe, andando para trás. Kristen imediatamente percebeu que havia algo estranho no sorriso de Falkner.

- Agora você caiu no meu jogo.

- O que é isso?

- E Hoothoot fiiiiinalmente manifesta seus poderes psíquicos! Agora a coisa encrencou para o jovem Kristen!

Hoothoot levantou vôo outra vez e fechou os olhos, mantendo-se a uma distância razoavelmente segura de Ponye, que relinchava devagar para ele.

- Tsc... use as chamas novamente, Ponye!

As brasas passaram bem longe de Hoothoot, mesmo este se privando da visão. Kristen não pôde deitar de notar que ele não tivera a menor dificuldade para desviar.

- O que significa isso? Ele ficou mais rápido?

- Não, meu caro amigo. – respondeu Falkner – Agora ele pode prever o que sua Ponyta fará. Lâminas de ar, Hoothoot!

Duas lâminas atingiram o chão onde Ponye estava antes, mas quando ela olhou para a frente novamente após a fantástica evasiva, mal teve tempo de vislumbrar as afiadas garras que abriram um desagradável grupo de cortes em seu pescoço.

- PONYE!

- Agora ele pode prever livremente os movimentos de seus Pokémon, Kristen. E então, o que vai fazer?

- Tsc, tome cuidado com as distrações, Ponye!

Ponye lançou brasas mais uma vez e Hoothoot desviou sem problema, retribuindo com duas lâminas de ar. Uma atingiu de raspão o dorso de Ponye e a distração serviu para que Hoothoot abrisse nova ferida com as garras, desta vez no rosto da égua.

Alguns movimentos depois, Ponye trazia a parte frontal do corpo repleta de arranhões. Kristen esteve a ponto de retorná-la, mas viu algo de decisivo em sua expressão enquanto ela friccionava uma pata traseira no chão. Largou a Pokébola, optando por erguer o punho à frente do rosto.

- Força, Ponye! Seja lá o que tiver planejado, confio em você!

Um burburinho se espalhou rapidamente pelo ginásio enquanto Ryla roia as unhas nervosamente.

- Opa... parece que nosso jovem Kristen entregou a batalha! Deixou na mão do próprio Pokémon!

A jovem Ponyta correu até Hoothoot, alheia às críticas. Quando quase o alcançava, Hoothoot disparou outras duas lâminas de ar, prontamente desviadas.

- Use o bico ao invés das garras, Hoothoot. Vamos finalizar! – ordenou Falkner.

Kristen viu com um crescente frio na barriga o bico de Hoothoot se aproximar do rosto de Ponye. Esta, porém, equilibrou-se nas duas patas traseiras logo que desviou do golpe adversário, relinchando numa altura absurda. No meio do som, porém, ele tornou-se agudo, e Hoothoot trancou seus movimentos, batendo asas, incomodado com o barulho. O brilho roxo desaparecera.

- Isso! Finalize agora com uma investida flamejante, Ponye!

Retomando o equilíbrio, a Ponyta de Kristen venceu os poucos passos que os separavam e saltou, atingindo a ave em cheio com sua nuca; as chamas irromperam da mesma no exato momento do contato. Com o impacto, Hoothoot foi atirado a muitos metros de distância, caindo aos pés de Falkner, que imediatamente retornou-o, para delírio dos torcedores.

- Inacreditáááááável! Kristen acaba de virar uma luta completamente a favor do líder Falkner! Eis o poder do filho de Bruno Jounochi!

- Parabéns, Kristen-kun. – disse Falkner, ainda sorridente – Não achei que fosse perder essa. Mas agora eu não vou mais perder, sua Ponyta está ferida.

- Ponye ainda agüenta lutar!

Ponye relinchou decidida em resposta, apesar dos inúmeros arranhões expostos que ardiam, alguns esporádicos deitando sangue.

- Que seja então. Vá, Pidgey!

A ave revelada manteve as garras pousadas no chão, com um olhar sério para Ponyta numa distância segura. Tinha as mesmas cores que Hoothoot, mas não era preciso ser gênio para detectar que sua aerodinâmica era muito mais propensa ao vôo e seu bico e garras muito mais ameaçadores. Pelo menos – pensou Kristen – estava livre dos tais poderes psíquicos.

- As brasas novamente, Ponye!

- Sabe o que fazer, Pidgey.

Ponye apenas abrira a boca para forjar suas brasas quando Pidgey abriu as asas e endereçou corretamente um pequeno tornado, suficiente para fazer a égua se atrapalhar com as próprias chamas, que espocaram em seu rosto. Ela perdeu o controle de si, fechando os olhos por instinto mesmo sem ter se ferido e escoiceando a esmo com as patas da frente.

- Fique calma, Ponye! Fique calma, não tem nada ameaçando seus olhos, foi só um susto!

Tarde demais. O sangue espirrou em Kristen quando o afiado bico abriu um corte na parte inferior do tronco da Ponyta, que tombou de lado sentindo dor.

- PONYE!

- Finalize, Pidgey!

Ponye não fazia nenhuma menção de tentar levantar, apesar de estar visivelmente acordada, e um brilho vermelho recolheu-a antes que Pidgey chegasse até ela. A multidão foi novamente à loucura.

- Depois de sua performance espeeeeeeetacular contra Hoothoot, agora Ponyta foi rapidamente nocauteada pelo Pidgey com uma estratégia inteligente de Falkner! Qual será o segundo Pokémon de Kristen! A luta de verdade começa agora, senhoras e senhores!

Kristen puxou a Pokébola de Tyrogue, olhando-a com um orgulho que não sabia definir. Desvantagem de tipos, a experiência de Falkner... nada disso importava. Ele apenas confiava em seu Pokémon. Simplesmente tinha certeza de que sua força de vontade o faria sair dali vencedor.

- Conto com você, Tyrogue! – gritou Kristen no momento em que atirava sua Pokébola.

Notas finais
Quinta vou viajar e volto na segunda que vem. Assim que voltar, mais um capítulo. Um abraço!