Pokémon - Reconquest

16 Capítulo 14: Percepção


Notas iniciais
Boa leitura, senhores. :~

Com uma blusa social que parecia ter sido costurada para alguém duas vezes maior que ela, Lucy atravessou a rua com os braços cruzados e apertados contra o peito como se sentisse frio, apesar do sol a pino que pairava acima.

Vista à distância, ela ainda conservava a beleza exótica de uma ruiva de olhos claros, mas quando chegou mais perto, o vigia armado e fardado que guardava o portão de veículos notou que seus cabelos pareciam feitos de palha e que até mesmo o verde de seus olhos estava ofuscado pelas gigantescas olheiras.

- Lucy-chan! – chamou o guarda com intimidade quando Lucy passou direto por ele, apenas com um aceno de cabeça.

- Hey, Ted-san... desculpe, estou com um pouco de pressa. – mentiu Lucy descaradamente apenas para não bater papo, como sempre fazia.

- Sei... onde está o carro hoje?

- Ah.... não estava bem pra dirigir.

Ela já se preparava para dar as costas a ele e entrar na delegacia quando ele se esgueirou pelo lado dela e se colocou entre ela e a portaria.

- Ah... tenho um recado do comandante para você.

- Diga. – incitou Lucy, tentando parecer desinteressada, mas com um péssimo pressentimento.

- Ele... ah... pediu para que você passasse na sala dele hoje antes de fazer qualquer outra coisa. Nenhum serviço, nem de rotina... nada de assinar papéis ou falar com ninguém... simplesmente bater o ponto e ir direto à sala dele. – comunicou o segurança, parecendo bastante constrangido.

- Hum... ele disse o motivo? – perguntou Lucy, ainda mais desconfiada.

- Não sei, só sei que ele disse que era importantíssimo. – disse ele, dando de ombros – E ele me parecia estar falando sério. Será que descobriu algo importante sobre a investigação? Algo que tenha que discutir com você antes de levar a público? – acrescentou, excitado.

- Talvez... – disse Lucy, ciente de que algo da magnitude que Ted supunha teria feito o comandante Baromy pegar o telefone e ligar para ela no exato instante em que essa coisa surgisse, mesmo que fosse às três da manhã – Bom, só vou descobrir se for até lá. Até mais, Ted.

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Pela primeira vez em muito tempo, Ryla sentia-se completamente acordada antes das oito da manhã. Ela tinha agora uma visão completamente diferente do dojan da AMP em relação à experiência da noite anterior. Ao contrário da impressão que tivera de estar lidando com um velho galpão abandonado de algum lutador solitário, agora o local parecia uma imensa feira bizarra onde Pokémon e humanos se misturavam com objetivos que ela não compreendia por completo, mas que a fascinavam.

O falatório era geral e havia pelo menos uma dúzia de sacos de espuma pendurados por todo o local, tirando a imagem de coisas abandonadas num canto escuro. Ela estava sentada ao lado do aparelho de som desligado, no mesmo banco onde haviam parado para conversar na noite anterior; Adolf fizera a gentileza de colocá-lo ali.

A um canto o próprio Adolf se alongava com um jovem loiro de rosto astuto, ambos conversando animadamente entre si. Pelo resto da sala, aproximadamente vinte Pokémon lutadores diversos e mais uma dúzia de humanos faziam estardalhaços metálicos na aparelhagem de musculação ou golpeavam distraidamente os sacos ou materiais nas mãos dos colegas.

Ela se sentia como se estivesse num grande formigueiro, onde grupos isolados se formam para cada atividade, mas a atmosfera fazia pensar que todos se comunicavam de alguma forma. Era impressionante, principalmente, a habilidade que todos pareciam possuir de se deslocar quase que distraidamente de uma atividade a outra sem atrapalhar os colegas uma única vez.

Os minutos se passaram tranqüilamente e Pokémon e humanos iam entrando no local, às vezes em grupos. Todos seguiam o mesmo ritual: entravam, procuravam Adolf com os olhos, reverenciavam-no e se punham a desempenhar alguma das várias atividades que o local disponibilizava. Ryla avistara ao menos cinco ou seis mulheres, mas era difícil fazer contas precisas naquela movimentação constante.

Ryla nunca fora dada a atividades físicas e, durante aquelas semanas que passara com Kristen, se cansava só de ver os primeiros cinco minutos de aquecimento de seu treino diário. Mas aquela atmosfera era tão boa, tão amigável que até ela tinha vontade de levantar e fazer alguma coisa, de fazer parte daquele fluxo.

Quando o relógio marcava nove e meia em ponto, a sala já estava lotada com quase uma centena de indivíduos, lembrando proporcionalmente o centro de uma grande metrópole, embora todos ainda conservassem a bizarra habilidade de não interferir no treinamento alheio.

Perto do canto onde Adolf treinava sozinho na noite anterior, uma roda de humanos acrescida do maior Machamp que ela já vira na vida se formara ao redor do próprio Adolf. Só ele falava, gesticulando bastante, enquanto os outros se limitavam a acenar em concordância com a cabeça a intervalos de alguns segundos.

A porta se abriu novamente, mas dessa vez todos os olhares voltaram-se para ela como se fossem um único indivíduo, confirmando a suspeita de Ryla de que todos tinham uma breve consciência de quem entrava e saía, mesmo que não prestassem muita atenção individual às pessoas.

As reações eram as mais diversas. De olhos arregalados, bocas abertas, tímidos olhares de admiração e até lágrimas aqui e ali, Ryla viu de tudo. Era impressionante como a figura de Kristen, tão familiar agora para ela, fora capaz de impactar a todos os presentes, com as únicas exceções dela própria e de Adolf, já vacinados.

O próprio Adolf, ciente da surpresa, abriu um sorriso tão grande quanto seu rosto era capaz de suportar, abrindo caminho entre alguns alunos e ficando de frente para Kristen. Quando seus olhares se cruzaram, Adolf berrou algo num idioma que Ryla não conhecia. Instantaneamente todos os presentes enrijeceram o corpo de frente para a porta, colando as mãos ruidosamente à lateral das pernas. A um segundo comando alto e firme de Adolf, todos se curvaram demoradamente, incluindo ele próprio.

No instante seguinte, todos avançaram de uma só vez na direção de Kristen, que se adiantou com um sorriso. Só então Ryla reparou que ele usava roupas brancas pesadas e abrangentes com golas pretas simples e símbolos em idiomas antigos estampados nas costas. Uma faixa preta desbotada estava amarrada à sua cintura, com duas pontas projetadas diante do corpo até a altura dos joelhos.

Na Antiga Humanidade, as roupas usadas para a prática da maioria das artes marciais na parte ocidental do planeta eram semelhantes. Mesmo com as drásticas mudanças culturais de uma sociedade para outra, vários pontos cruciais haviam se preservado, incluindo as tradições marciais.

Kristen apertou muitas mãos e até abraçou diversos alunos, entre humanos e Pokémon. Ryla assistia a tudo, maravilhada com o carinho sincero que cada sorriso emanava. Definitivamente a humanidade não era ruim: ela apenas havia conhecido as pessoas erradas.

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Por responderem pelo comando da Divisão Nacional, Baromy e seus subordinados diretos possuíam um escritório em cada delegacia do país a qualquer momento que desejassem. Mesmo as menores delegacias tinham de arrumar instantaneamente um local onde pudessem conectar sua rede de equipamentos e instalá-los confortavelmente sempre que eles estivessem realizando investigações na região.

A pequena delegacia de Cherrygrove já havia se habituado à presente tensão de Baromy, Lucy e os dois guarda-costas calados de quem ninguém nunca lembrava o nome. Habituados ao marasmo e às ocorrências casuais de uma cidade pouco habitada, a maior parte dos policiais ficava até bastante satisfeito de ter algo que fazer.

Apenas Lucy não parecia contente. Por um lado morava perto, portanto não fora necessário gastar recursos com nenhum hotel. Por outro lado, ela tinha uma ânsia nociva de capturar logo as pessoas por trás da morte de Dan e, de preferência, poder ficar trancada numa sala com elas por cinco minutos. Principalmente por causa disso, seu humor disposto e caloroso fora substituído por uma frieza que intimidava e penalizava as pessoas ao mesmo tempo.

Sentia, porém, sua convicção policial escorrer pelas pernas como urina quente. Ali, de pé diante do Comandante Baromy, este sentado à mesa de seu computador com a expressão indecifrável, ela encarava o chão boquiaberta, sem se preocupar em tentar conter as lágrimas. Ele sabia de tudo.

- Curioso, Lucy... Você vive dizendo aos novatos que tomem cuidado, pois nada escapa aos meus olhos e ouvidos. Por que achou que você seria imune?

- O senhor não tinha o direito...

- Não tinha o direito de que, Agente? – cortou Baromy friamente – É minha função verificar se meus subordinados têm condições de cumprir com seu serviço. Você está deixando a emoção atrapalhá-la.

- O senhor está sendo injusto! – gritou Lucy, ajeitando-se para encará-lo – Fala como se não quisesse o mesmo que eu. Todos estamos emotivos, é claro, mas só a Lucy merece ser repreendida por isso.

- Você está deixando isso subir à cabeça e transtorná-la, Lucy.

- Estou cumprindo minhas funções do jeito de sempre, não estou? Por que a implicância?

- Por favor, arregace as mangas, Agente Lucy. – falou bem baixo o comandante, encarando o tampo da mesa.

Lucy sentiu um baque violento em sua determinação argumentativa. No fundo ela sabia que ele percebera, mas ainda assim não estava pronta para aquele momento. O momento em que seria vergonhosamente desnudada de seus problemas pessoais, como uma criança pega roubando chiclete no mercado.

- E-eu não entendo como arregaçar as minhas mangas pode nos levar a...

- Por favor, Agente Lucy. Não faça isso ser pior do que já é. Estou lhe pedindo para me mostrar os braços.

- Com todo o respeito, Comandante, isso é ridículo! – acuada, tentou a tática da indignação – Eu nunca lhe dei motivo pra desconfiar de mim! Sempre cumpri com todas as minhas funções e estou trabalhando neste caso com o mesmo afinco de sempre!

- Agente Lucy... – cortou Baromy mais uma vez, retirando uma folha da pilha que estava na mesa e estendendo-a à sua frente – Tenha a bondade.

Ela se adiantou e pegou a folha com um pouco mais de força do que desejava. Bastante trêmula, sentiu o suor escorrer frio pela testa quando leu “FORMULÁRIO DE REQUERIMENTO PSIQUIÁTRICO” no cabeçalho do ofício, acompanhado de seu nome e número de registro, além da mesma bela foto que havia em seu distintivo.

- Isso... isso é...

- Eu não quero ter de fazer isso, Agente Lucy. – disse Baromy em tom fúnebre – Por favor, não me obrigue.

- O senhor... eu... eu não estou louca!

- Eu sei que não. Por isso você não vai se recusar a fazer algo simples como me mostrar os seus braços.

Lucy encarou-o muito friamente e foi com uma forte dor no peito que ele notou o ódio que ela destilava, embora sentisse que, no fundo, não era destinado a ele.

- Bom... estou fazendo um pedido bastante simples. Caso se recuse, estará automaticamente afastada de suas funções como policial por 72 horas sem perda de remuneração. Uma viatura virá buscá-la dentro das próximas horas para levá-la ao Centro Médico Geral da Polícia, em Olivine, onde você será instalada da forma mais confortável possível. Será analisada física e psicologicamente por médicos da Corporação dentro desse período de afastamento, que poderá ser prorrogado caso o relatório médico final aponte necessidade de tratamento. Se este for o caso, sua licença policial será suspensa e será internada para o tratamento pelo tempo que os médicos julgarem necessário e isso será acrescido à sua ficha policial.

Lucy encarava Baromy duramente. Mesmo achando difícil suportar a situação decadente e desesperadora dela, Baromy sustentou o olhar, pois sabia que estava agindo da melhor forma para com ela e que se fosse para ela ficar chateada com ele, que assim fosse.

Ela depositou a folha sobre a mesa de forma grosseira e começou a desabotoar a blusa, ainda encarando-o com os olhos gelados. Sentiu a mão roçar na camiseta regata que usava por baixo e no cordão que trazia por dentro da roupa, pensando que quando ele visse o que desejava ver, recomendaria a análise psiquiátrica do mesmo jeito. Mas pelo menos ela cairia com um pouco de dignidade.

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Após os primeiros minutos na presença de seu mestre, os alunos haviam retornado à sua rotina normal. Ryla continuava sentada distante, satisfeita com o ambiente, enquanto humanos e Pokémon treinavam em grupos distintos.

Todos, sem absolutamente nenhuma exceção, lançavam olhares esporádicos a Kristen, prontos a se juntar ao que quer que ele fosse fazer. Mas ele ainda se alongava paciente e demoradamente a um canto, junto de seu Tyrogue.

Adolf aparava um saco de pancadas com as duas mãos para os pesados golpes de uma menina pouco maior que Ryla quando a porta de entrada se abriu novamente e mais uma vez o silêncio se instaurou. O próprio Kristen interrompeu o que fazia e ficou de pé, observando as duas figuras que entraram de mãos dadas com um nostálgico sorriso.

Ryla tinha certeza de que nunca veria duas pessoas tão idênticas e ao mesmo tempo tão diferentes em toda sua vida. Apesar dos traços inegavelmente univitelinos, a postura, expressão e as vestimentas das duas meninas não podiam ser mais distintas.

Ambas possuíam olhos idênticos aos de Kristen e faces delicadas. A que vinha à frente, porém, tingira o castanho de seu cabelo com um ruivo intenso e alisara-o, além de usar um forte batom vermelho nos lábios e andar com o tronco erguido como um militar. Seu longo vestido preto era ajustado à cintura fina por um cinto prateado chamativo e sapatos vermelhos de salto alto davam a diferença primordial de alguns centímetros para com sua gêmea.

Logo atrás, a outra parecia muito mais delicada. Sem maquiagem ou preocupações excessivas com o cabelo, o único detalhe estético visível era um enfeite de borboleta nas mechas castanhas e cacheadas que conservava até o meio das costas, diferente da irmã, que os cortara rentes à nuca. Trajava uma calça confortável e uma camisa branca simples, além de um lindo colar artesanal enfeitado por flores e uma confortável sandália de dedos, que ela tirou delicadamente antes de pisar no tatame.

- Kin, Kaya! Que surpresa agradável!

Kristen fez uma longa reverência, imitada à risca pela segunda gêmea, enquanto a outra apenas meneou a cabeça com alguma impaciência. Kristen se adiantou e abraçou as duas irmãs ao mesmo tempo, apertando-as com força. Até mesmo a mais rígida sorriu de forma sincera e levou vários segundos para que ele as soltasse.

- Que coisa... Adolf, por que não me disse nada?

- Pedimos a ele, Onii-san. – explicou Kin, a gêmea mais delicada, com sua voz tão angelical quanto sua aparência – Queríamos fazer surpresa.

- Que coisa, haha. Essa aqui é a Ryla! – disse Kristen, procurando-a com os olhos – Tem viajado comigo.

Ryla bem que tentou se encolher até desaparecer atrás do aparelho de som, mas foi inevitável ter de se levantar e cumprimentá-las, cheia de vergonha. Kristen já lhe falara sobre elas de passagem, mas não entrara muito em detalhes e elas não podiam ser mais chocantemente diferentes para um par de gêmeas.

- Hum... então arrumou uma garota bonita, Kris. – disse Kaya prontamente – Eu lembro de ter te avisado que se continuasse mantendo todo seu foco nos campeonatos, todas as garotas legais ficariam ocupadas e só te sobrariam as feias e chatas. Que bom que se deu conta antes que não tivesse jeito.

- Ah, Kaya-san... – interpelou Ryla timidamente – Não se engane, não somos...

- Sei, sei. – cortou Kaya com impaciência – Então... de volta ao lar. Não posso dizer que não estava com saudades daqui.

Ela passou um rápido olhar por toda a sala, que havia cessado suas atividades para encará-la. Ryla notou que elas não haviam manifestado o tamanho colossal de Kristen, mas ainda assim eram bem maiores que ela própria.

- Você... é Kaya-sama? O maior nome feminino da história da academia?

Todos os olhares convergiram para a menina que treinava antes com Adolf, mais pelo incontido tom de desprezo em sua voz do que pela pergunta em si.

- Algum problema com isso? – perguntou Kaya com um arrogante sorriso.

- Nada, só... não parece tudo isso. – ela deu de ombros.

- Yui-chan, você está indo um pouco longe...

O braço estendido de Kaya fez Kristen parar de falar imediatamente. Kaya tinha um sorriso ainda mais arrogante no rosto quando se adiantou dois passos, deixando marcas rasas de salto agulha no tatame. Ela andava de forma bastante leve para alguém de postura tão rígida.

- Calado, Kris. Está se metendo por quê? Desde quando o menos graduado se pronuncia diante do mais graduado sem autorização?

Hierarquicamente destratado, para surpresa de muitos, Kristen se limitou a fazer uma cordial reverência, seguida de um sorriso melancólico. Yui parecia apreensiva, como quem percebe que falou besteira, mas ainda assim era possível notar certo orgulho por ter abalado a tão badalada lutadora, quando esperava que ela nem fosse dar atenção. Kin revirou os olhos para o alto, balançando a cabeça de forma insatisfeita.

- Eu aprecio a coragem, garota. – disse Kaya, sem perder a pose arrogante nem por um segundo – Mas para ter opiniões corajosas, é preciso ter peito pra prová-las na prática, senão viram pura estupidez.

- E quem disse que eu estou só falando da boca pra fora? – provocou Yui, incapaz de resistir.

O sorriso amarelo no canto dos lábios de Kaya fez a maioria das pessoas recuar alguns passos instintivamente quando ela se adiantou mais alguns, parando exatamente na metade da distância entre a porta e Yui.

Kin se postara de braços cruzados entre Kristen e Ryla, balançando negativamente a cabeça.

- Gênio forte o dela, não? – sussurrou Ryla, se sentindo tão intimidada quanto se Kaya estivesse falando diretamente com ela.

- Não viu nada ainda. – disse Kristen sem se dar ao trabalho de baixar a voz — Se acha que eu tenho a personalidade forte, precisa conversar com ela por dez minutos.

O clima beirava às faíscas entre as duas mulheres e Adolf engolia em seco, pensando no quanto ia ouvir depois pelo abuso de Yui. Uma tradição popular inexplicável passava adiante o fato de que Kaya Jounochi era a maior lenda feminina das história da AMP, mas Yui, que já ostentava dois campeonatos nacionais e um vice-campeonato mundial em sua curta carreira, não aceitava bem essa veneração cega. A maioria nunca sequer a vira e ela nunca disputara campeonatos externos de grande expressão. Ela tinha para si que aquele status era devido única e exclusivamente ao sobrenome.

- Se está pronta para provar, o que está esperando? – provocou Kaya, abrindo os braços – Estou bem aqui diante de você, não?

- Você devia pelo menos trocar essa roupa, não? – perguntou Yui, com as sobrancelhas erguidas.

- Que diferença isso vai fazer? Anda logo, vem pra cima. Não tenho o dia todo.

- Não vai nem tirar os sapatos? Vai ter dificuldade pra se equilibrar nisso aí, não? – perguntou Yui, olhando ceticamente para os saltos de Kaya.

- Quem disse que preciso de equilíbrio pra derrubar uma novata cheirando a leite?

Finalmente mordida onde doía mais, Yui ergueu os dois punhos diante do rosto, estreitando os olhos.

- Se quer assim...

Ela avançou na direção de Kaya e Ryla olhava de forma duvidosa para a confiante irmã de Kristen. Nunca vira ninguém lutar num vestido desconfortável como aquele. Pior, não se imaginava nem andando dez metros de salto sem tropeçar, dirá entrando num combate.

Yui girava ao redor de Kaya, que nem se movia, mantendo os braços para baixo. Às vezes ela movia uma das mãos no ar despretensiosamente, encarando-a bem fundo nos olhos, mas Kaya não dava a menor demonstração de ser afetada pela finta.

Alguns dos alunos mais experientes notaram em Kaya de cara a mesma peculiaridade que tornara Kristen famoso: a ausência total de guarda. Ela encarava a adversária com bastante frieza e dispensava a defesa, arriscando-se a sofrer as conseqüências de um golpe bem encaixado a qualquer momento.

Quando o primeiro punho veio finalmente ao alcance do rosto de Kaya, esta desviou-se cirurgicamente apenas movendo a cabeça. Atiçada pela falta de reação, Yui avançou mais decidida, desferindo seu melhor cruzado de direita. Três segundos depois estava no chão, com fortes dores nas costelas.

Quase ninguém entendeu o que se passara durante a confusão de braços e pernas, mas Kristen enxergara os movimentos claramente. Yui não sabia com quem estava mexendo.

Após conter o golpe com um surpreendente braço surgido do nada, Kaya atingiu-a em cheio no esterno com a outra mão, complementando o golpe com uma joelhada no flanco e respondendo a uma reação desajeitada da mão livre de Yui com uma torção de punho, conduzindo-a direto ao chão com a força do próprio movimento.

Com a mão ao lado do corpo, Yui se levantou desajeitada, parecendo furiosa por Kaya ter continuado parada no lugar, movendo apenas a ela. A desgraçada estava só brincando com ela.

Gritando, ela se ajeitou e avançou contra Kaya, desferindo vários socos em seqüência. Esta, por sua vez, desviou-se da maioria apenas com movimentos de tronco e cabeça, bloqueando os mais contundentes apenas com a mão esquerda.

- Ela não devia perder a cabeça contra a Kaya... – comentou Kristen displicentemente.

Cansando-se da brincadeira, Kaya defendeu um dos socos com mais firmeza, emendando um humilhante tapa estalado na face esquerda da oponente. Esta chegou a levar uma das mãos ao rosto, chocada, mas logo em seguida partiu numa raivosa investida.

Kaya desviou-se do soco apenas colocando um pé mais para trás. Quando o chute veio no flanco esquerdo, Kaya simplesmente avançou num movimento absurdamente rápido, deixando a perna de Yui suspensa sem sentido no ar enquanto afundava a mão direita ruidosamente no rosto dela.

Um burburinho ecoou pela multidão reunida pelo dojan, que esperava ver sangue e dentes a menos quando Yui se levantasse. Quando esta afastou as mãos do rosto, porém, tudo que viram foi uma vermelhidão absurda em sua testa. Ela sentia uma dor abusiva, como se tivesse sido atingida por um instrumento de ferro. Não se conformava com o fato de ter sido apenas uma mão feminina esquelética com as unhas chamativamente vermelhas.

- Seus movimentos são previsíveis demais. Você tem um jogo de corpo legal, mas não é nada além de uma lutadora comum.

Yui fazia menção de querer levantar, mas seu corpo encontrava dificuldades. O impacto do golpe fora realmente sério, embora Kaya propositalmente tivesse evitado pontos que pudessem tê-la ferido.

- Não dou a mínima pra essa história de melhor mulher da história da AMP, mas se forem garotas arrogantes e comuns como você que estiverem aspirando ao cargo... acho que é mais saudável que eu me mantenha nele.

Quando Kaya deu as costas e começou a caminhar, Yui conseguiu se pôr de pé, avançando contra ela com raiva. Kaya se virou bem a tempo de aparar o golpe e torcer seu braço esquerdo, talvez com um pouco mais de força do que pretendesse. Este gritou como um rato pisoteado e não teve reação alguma quando Kaya puxou-a com uma tremenda facilidade, passando a perna por trás das dela durante o movimento.

Muitos desviaram os olhos quando Yui enfiou o rosto com força no saco de pancada pendurado mais próximo. Ela ainda tentou se escorar no mesmo, mas, desnorteada que estava, escorregou até o chão.

- Bom... e tudo que eu queria era te chamar pra comer, Kris. – disse Kaya, saindo do tatame sem olhar para trás, ignorando a silenciosa reprovação de sua irmã, de quem tomou a mão sem pedir autorização – Vamos parar pro almoço, depois quem sabe voltamos.

- É justo... venha comer conosco, Ryla-chan. – disse Kristen, seguindo as irmãs com um sorriso indecifrável, enquanto elas saíam pela porta.

Ryla ainda estava boquiaberta diante do acontecido, encarando a menina que se contorcia no chão com as mãos no rosto, cercada por vários colegas. Parecia ter visto a versão feminina de Kristen em ação. Lutar para eles era tão natural quanto andar ou respirar.

“E ela praticamente nem saiu do lugar... O salto realmente não fez diferença.” – pensou Ryla antes de deixar o recinto.

Notas finais
Espero que tenham gostado, senhores. Novos projetos vêm por aí (fugindo um pouco da esfera de Pokémon, admito). Forte abraço e até semana que vem.