Pokémon - Onde os Laços São Mais Estreitos
2 Pondo o pé na estrada
Notas iniciais
Os dois garotos chegaram á rota já visitada por Nathan. Nada de anormal: várias árvores, alguns Pokémon camuflados na grama alta. Um breve silêncio flutuava por entre os meninos recém-conhecidos. Apenas ouvia-se o barulho dos passos sobre a grama, cada vez mais altos. Dew sorria, aconchegada no colo de Alven. Nathan dava passos firmes, com as duas mãos nas alças de sua mochila.
— Então... pra onde iremos agora? — diz Alven sem olhar para o garoto.
— Vou passar em Oldale para me despedir do pessoal lá de casa.
— Não fez isso antes? — Alven encara Nathan achando que o garoto se esquecera de dar tchau para sua família.
— Eu fiz — disse Nathan, estalando a língua —mas lembrei que tenho uma coisa pra fazer.
— Tá — Alven olhava com ar chateado para o garoto. Rapidamente desfez o mesmo e voltou a se concentrar no caminho.
Dew começou a grunhir, virando seus pequenos olhinhos para o garoto que a tinha no colo. Alven sorriu e acariciou a Pokémon.
— Está com fome, Dew?
— Achei que plantas não comiam tipo, que elas só absorviam luz do sol e pronto.
— Sabe, existe alguma diferença entre plantas comuns e Pokémon plantas. Apesar de tirarem energia do sol e nutrientes do solo, eles comem comida comum.
— Ah, tá.
Alven deu uma pausa em sua caminhada e pegou uma Oran dentro da mochila. Dew pulou de alegria ao devorar a frutinha.
— Você vai evoluir linda e saudável, menina!
— Evoluir?
— Meus pais disseram que ela vai evoluir algum dia. Não sei qual Pokémon ela vai virar e nem quando ela vai se transformar, mas eles disseram que a evolução dela é linda.
— Provavelmente vai demorar.
Alguns segundos de silêncio desconfortável pairaram por entre os dois.
— Já que você vai para sua casa, acho que irei á lojinha de Oldale comprar algumas coisas.
— Tá.
— Você é sempre tão sério?
— Como assim? — Nathan caminhava agora com as mãos cruzadas atrás de sua cabeça, e teve um pouco de dificuldade para virar-se para o garoto.
— Você não reage a nada — Alven olhava para o garoto, descepcionado.
— Você que é animado demais.
— Vamos viajar por toda Hoenn, com Pokémon do nosso lado! Vamos ter a oportunidade de conhecer várias coisas! Não está empolgado?
— Não costumo demonstrar.
— Então você é do tipo calado? Perigoso — disse com uma cara risonha e desconfiada.
— Não sei se dou risada ou se acho ridículo.
— Na dúvida, sorria e acene.
Nathan deu um leve sorriso e continuaram andando. Mais alguns passos foram dados, e chegaram a Oldale. Alven correu para a loja que vende artigos para Pokémon. Nathan acompanhou o garoto com olhar. Assim que Alven adentrou o estabelecimento, Nathan bocejou e andou na direção de sua casa. Bateu na porta algumas vezes e foi recebido com o sorriso bondoso de sua mãe.
— Filho, que bom te ver! Você mal saiu e eu já estava com saudade.
— Mãe, não faz nem duas horas que eu saí...
— Você nunca vai compreender o coração de uma mãe... — disse Rose, com um olhar carinhoso.
— Então, eu vim pegar aq-
— O tênis novo que você iria inaugurar?
— Sim — Nathan completou, surpreso.
— Entre, peguei os tênis e coloquei do lado da cadeira pra ninguém tropeçar, estava no meio do seu quarto — disse Rose, enquanto apontava para os calçados perto de uma cadeira — então, qual Pokémon o professor te deu?
— Ele me deu dois, na verdade.
— Dois?
— É, tivemos alguns imprevistos e no final eu recebi dois.
— Não vai me mostrar? — perguntou a mãe do garoto, os braços apoiados na pia, atrás das costas.
— Ok, lá vai.
Nathan terminou de amarrar os cadarços do tênis e caçou as pokébolas em sua mochila. Apalpou cada bolso até encontrar as esferas. Apertou o botão de cada uma e feixes de luz atravessaram o ar.
Dos objetos saíram os dois monstrinhos: Mudkip e Lotad. No primeiro momento os dois estranharam o ambiente. Existe uma grande diferença entre um jardim e uma cozinha.
— Como são bonitinhos! Deu nomes pra eles? — Rose se agachou e acariciou os Pokémon. Os dois grunhiram em resposta. Após isso, os dois se viraram e começaram a brincar no meio da cozinha.
— Não pensei nisso, ainda.
— Não vai deixar os dois sem nome, não é?
— Talvez?
— Ah, por favor, Nathan — Rose suspirou e coçou a testa, pensativa — eles precisam ter identidade própria.
— Bem, sei pouco sobre esses dois. O azul é o Mudkip e o que tem a planta na cabeça é um Lotad. Eles são uma dupla de amigos.
— Mudie e Loty!
— O quê? — exclamou o garoto, sem entender.
— Eles são uma dupla, certo? Mudie e Loty são bons nomes.
— Nossa... — Nathan deu uma risada acompanhada de um suspiro — Alven vai gostar desses nomes. Cadê a Chloe?
— Está na sala, assistindo — o garoto ascenou para sua irmã, que correspondeu da sala — quem é Alven?
— É o garoto que está em uma jornada junto comigo — disse Nathan, enquanto colocava Mudie e Loty nas pokébolas novamente.
— E você nem me apresenta ele?
— Ele foi na loja Pokémon aqui perto de casa. Já deve estar cheg— — A fala de Nathan foi interrompida com a chegada de um Shroomish selvagem que adentrara a casa.
— Ah não, de novo não — Nathan subiu em cima de uma cadeira, apreensivo.
— Eles não são perigosos, filho — respondeu a mãe do rapaz, com ar de desapontamento — você só não deve irrit—
— Toma! Sai daqui! — Nathan jogou um livro que estava em cima da mesa no pokémon.
— Irritá-los... — suspirou Rose.
O Shroomish grunhiu assustado, e começou a borrifar poeira de esporos na cozinha. Nathan pirou. Ele não gostava nem um pouco do tipo grama, pois viveu experiências traumatizantes com esse tipo de monstrinho. Rose pegou uma berrie no cesto de frutas ao lado da geladeira e tentou oferecer para o cogumelo, mas o mesmo não aceitou e continuou borrifando esporos, assustado.
— Assim ele vai nos paralizar!
Rose tapou o nariz e tentou acariciar o Pokémon. Neste momento se ouviu uma voz preocupada vinda do lado de fora da casa.
— O que tá acontecendo? Ouvi a voz desesperada de Nathan do lado de fora... — Alven surgira pela porta, segurando uma sacola com algumas poções, antídotos e outros remédios.
— Alven, o que está fazendo aqui? — gritou Nathan, descendo rapidamente da cadeira, tentando parecer indiferente ao problema para esconder seu medo.
— Vim ver se você já estava pronto — disse Alven, lançando um olhar de desapontamento para Nathan.
— E já estou — continuou o garoto — pronto para ser devorado por poeira de esporos!
— Calma — Alven suspirou — o coitadinho só está se defendendo.
Alven colocou a sacola no chão, pegou a mochila e abriu um compartimento quase imperceptível, e jogou máscaras médicas para a mãe e seu filho, além de colocar uma em si mesmo. Em seguida, começou a acariciar o Shroomish por trás, o que fez o monstrinho se assustar de primeira.
Fez uma expressão amigável para o Pokémon, que respondeu se acalmando. Segundos depois, parou de borrifar poeira de esporos, e foi presenteado com uma Rawst. Sorriu e foi embora.
— A poeira de esporos desaparece com o tempo. Vocês não aspiraram ela, né? — disse Alven, tirando a máscara médica e jogando-a no lixo no canto da cozinha.
— Não — Rose tirou as máscaras do seu rosto e do de seu filho.
— Antes de tudo, bom dia, mãe do Nathan — disse, sorrindo.
— Bom dia, você é o garoto que vai acompanhar Nathan, certo?
— Sim, sou eu — Alven deu uma rápida olhada para o garoto, que estava sentado, encarando os sapatos novos.
— Diga-me, você gosta de Pokémon planta?
— Se eu gosto? — Alven abriu um grande sorriso — eu amo o tipo grama. É meu tipo preferido, amo plantas.
— Então, por favor, ensine a meu filho que eles não são uma ameaça.
— Pode deixar — Alven lançou um olhar e sorriso maléficos para Nathan, que engoliu seco.
— Não iriam pensar assim se vissem aquela planta horrível que me perseguiu na infância.
— Vocês não estão atrasados?
— Para quê? — responderam os meninos em coro.
— Para sair, ué! Vocês devem ir pra Petalburg, o primeiro ginásio fica lá.
— Ok, estamos indo. Mas antes toma essas coisas, Nathan — Alven pegou a sacola novamente e deu ao garoto algumas poções e antídotos. Após isso, pegou uma pokébola de seu bolso e apertou o botão do meio. Da luz emitida pela esfera saiu Dew.
— Que adorável, este bichinho!
— É uma garotinha tão fofa, né?
— E seu dever como “pai” seria mantê-la longe de mim — rebateu Nathan.
Alven arrumou as poções e remédios dentro de sua mochila e depois pegou Dew no colo. Nathan pegou suas coisas novamente, e ambos se despediram da mãe do garoto e saíram da casa.
(...)
Grandes nuvens cobriam o céu quando Alven e Nathan chegaram á rota 102. Um calor anormal penetrava as vestimentas dos garotos, ultrapassando sua pele e provocando um suor descomunal.
— Eu odeio esse calor — disse Alven. Ele estava suado, e passava a mão na testa o tempo todo, tirando o suor e o cabelo úmido de sua visão.
— Não diria que odeio, mas incomoda bastante — Nathan não parecia tão afetado pela temperatura alta — além disso, você não gosta de plantas? O frio não faz bem pra elas — disse, com um tom sarcástico.
— Não estou falando de frio. Estou falando de uma temperatura amena tipo, vinte e cinco graus...
O silêncio preponderou. Apenas se podia ouvir o som ofegante da respiração dos garotos e os passos na grama. Dew grunhiu algumas vezes, o que fez Alven lhe dar algumas berries. Foram desafiados algumas vezes por treinadores iniciantes que paravam para treinar naquela rota, inclusive treinadores de insetos. Dew foi a que mais batalhou: ela gostava de batalhas, principalmente quando usava Absorb. Nathan só colocou Mudie e Loty algumas vezes fora da pokébola para lutar, usando golpes como Antonish e Mud Slap.
— Como sabe quais golpes seus Pokémon usam? Você nem os conhece direito...
— Simples. Na Pokédex consta os golpes que eles tem. Deveria explorar mais as funções dessa coisa — respondeu Nathan, agitando o objeto e guardando-o no bolso.
Os meninos viram alguns Pokémon enquanto passavam perto da grama alta. Um deles era um Zigzagoon: um guaxinim com diferentes tons de marrom pelo corpo, e listras em formato de zigue-zague. Também havia alguns Wurmples: lagartinhas vermelhas com alguns espinhos na parte traseira do corpo e na cabeça.
O calor continuou, e uma silenciosa chuva começou a cair.
— Então é por isso que estava tanto calor...
— Como assim? — Nathan diminuiu o passo e olhou para Alven.
— Sabe, meu pai tem contato com o cara que trabalha naquele Instituto da Meteorologia, por isso ele sabe alguma coisa sobre o clima de Hoenn e me explica algo ás vezes. Uma das coisas que ele me explicou é que quando faz muito calor, geralmente chove. Não é uma regra geral, mas normalmente acontece.
— Ah, ok.
A chuva começou a ficar forte, o que fez Dew grunhir, indicando seus olhinhos pidões para Alven. Os garotos apressaram o passo, mas não puderam acompanhar. Chegaram a uma parte do caminho onde a estrada era levemente íngreme, e dali poderiam ver Petalburg.
— Se estivéssemos vindo antes, já estaríamos lá — disse Nathan, chateado.
Alven e Nathan foram rapidamente se abrigar abaixo das árvores presentes ali. Havia um lugar agradável para fazer um piquenique logo antes da pequena descida, e resolveram se sentar ali, já que estava seco abaixo das folhas das árvores, para descansar. Barrigas roncaram.
— Já estou com fome? — Nathan reclamou.
— Eu ainda não comi hoje. Vim de carona no Tropius da minha mãe, nem senti fome — Alven abria a mochila enquanto se sentava e colocava Dew no chão.
— O que é Tropius?
— É um Pokémon de grama, que voa! — os olhos de Alven brilhavam de admiração — Ele é tão lindo, parece uma bananeira misturada com um dinossauro.
— Vindo de você, é bem suspeito elogiar.
— Não entendo por que tem tanto medo de plantas.
— Já tive experiências com uma planta horrível na infância — disse Nathan, sacudindo a cabeça na tentativa de esquecer a lembrança — não lembro como era, só sei que ela era assustadora.
— Disso eu já sei, mas elas são pacíficas, não fariam mal a ninguém, principalmente a uma criança. Como ela era?
— Eu não sei. Não consigo me lembrar.
— Ok, vamos comer — decidiu Alven, pegando duas Mago Berries de uma vasilha.
— Não vejo a hora de dar uma mordida nesses sanduíches que minha mãe fez — Nathan passava a língua ao redor da boca, apreciando com o olhar a aparência do sanduíche.
Os dois deram uma grande mordida no lanche. Mastigaram fazendo caretas de satisfação, como se não comessem á semanas. Alven levava a berrie á boca de Dew, para alimentá-la. Os pingos pesados de chuva causavam batidas ao cair no chão, formando pequenas poças. O céu estava totalmente branco, encoberto por nuvens, sem sinal do sol. O calor diminuíra: agora soprava um vento frio na direção dos garotos.
— Eu amo esse clima — disse Alven, engolindo — amo chuva, amo tempo nublado.
— Sério? Eu prefiro quando o sol está quente, é mais animador.
— Você falar de animação é até estranho.
— Apenas sou reservado, isso é normal.
— Me pergunto se devo acreditar em você. Você tem irmãos?
— Sim, uma de dez anos chamada Chloe. Ela é um amor, mas sabe ser irritante quando quer. E você, Alven?
— Tenho um irmão de doze anos. Ele sabe muito bem encher o saco. E ele... — fez uma pequena pausa e suspirou — ele gosta de Pokémon de fogo. Tudo que envolve fogo o atrai.
— A ovelha negra da família — disse Nathan, rindo.
— Já brigamos várias vezes quando ele queria brincar com um Growlithe soltanto brasas no jardim. Sabe, as flores são a parte em que sou responsável lá no centro. Tenho muito ciúme e me preocupo bastante com elas.
— Centro? Que centro?
— O Centro Vegetal de Fortree. Lá é praticamente uma área de preservação, onde tem muitas plantas e Pokémon plantas. Você deve ir lá um dia — disse, com o mesmo sorriso maléfico de antes.
— Nunca — Nathan gelou.
— Lá, eu sou responsável pelo jardim, ou seja, pelas flores, meu pai, pelas árvores e plantas maiores e minha mãe, pelas plantas mais exóticas, como as carnívoras e vitórias régias. É um lugar lindo.
— Voltando ao assunto — disse Nathan, para desviar o foco do assunto do reino vegetal — qual a sua idade?
— Tenho quatorze anos.
— Quase...
— Como assim?
— Tenho quinze.
— Ah, tá. A diferença em si é bem pouca, achei que você tinha mais.
— E eu, que você tinha menos.
— Sempre me dizem isso — Alven suspirou.
— Sempre me dizem isso, também. É irritante. Uma garota já me perguntou se eu tinha dezoito anos.
— Nunca fizeram algo parecido, mas eu sou bem mais animado e infantil pra um adolescente de quatorze.
Os dois garotos pararam e novamente morderam os lanches que seguravam.
— Essas berries são tão deliciosas...
— Falando em berries, sua Pokémon está tão quieta, ela é sempre assim?
— Ela ainda é um bebê, não fala muito. E ela gosta muito de comer.
— Falando em Pokémon, por que não tira o Mudkip e o Lotad das pokébolas? Eles gostam de ficar fora daquela prisão.
— Eles não gostam muito de sair. Além do mais, essa chuva forte não é um bom clima pra admirar a paisagem.
— Mas eles são Pokémon de água...
— Depois eles saem, fique tranquilo — disse Nathan, nervoso. Ele sabia que não poderia manter esta desculpa por muito tempo.
— Então tá, né... — Alven acariciava Dew enquanto ela saboreava sua Mago. Em uma última mordida, Alven terminou de comer sua berrie e então endireitou sua posição, para que ficasse mais confortável.
A chuva diminuía pouco a pouco, mas não fazia menção de parar. Algumas folhas caíam em volta dos garotos: era início de outono. As árvores começavam a ficar amareladas, mudando o ambiente junto. As chuvas e a abundância de berries se tornariam mais constantes com o florescer da estação, era só uma questão de tempo até tudo estar transformado. Este é o poder da natureza: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.
— Você não se importa de estar viajando com um estranho? — Nathan quebrou o silêncio dominado pela chuva.
— Como assim, estranho? — disse Alven, levantando o olhar de repente.
— Você sabe, mal nos conhecemos. Não preferiria viajar sozinho?
— É chato viajar sozinho. É melhor com amigos, pra onde quer que seja.
— Você não está com amigos. Como eu disse, mal nos conhecemos — neste momento Alven desmanchou o olhar brilhante de sempre.
— Você acha isso?
— Quer dizer, não estou dizendo que não somos amigos, estou dizendo que não nos conhecemos direito, e isso nos impede de sermos...
— Não — um olhar triste e esperançoso surgiu em Alven — não diga esse tipo de coisa.
— O que você quer dizer?
—Estou querendo dizer que, eu ainda crio esperança de ter uma amizade com você. Posso parecer sentimental demais, mas é isso.
Neste momento ambos baixaram a cabeça. Dew terminou de comer e grunhiu, voltando para o colo de seu dono. Nathan tentava compreender aquelas palavras: não estava acostumado com esse tipo de discurso super amigável. Alguns minutos depois, a voz de Nathan surgiu por entre o barulho:
— Você precisa saber de uma coisa.
Alven levantou o rosto rapidamente, com um ar de dúvida. Nathan abriu a boca para falar, mas passos foram ouvidos por entre os arbustos.
— Ouviu isso? — alertou Nathan, quebrando o clima silencioso.
— Acho que sim!
— Está vindo do seu lado — Nathan apontou para um conjunto de folhas espaçosas entre si, que estavam se mexendo levemente.
Alven levou a mão ao arbusto e puxou as folhas calmamente. Os garotos olharam para dentro.
Lá estava uma criatura tímida, se protegendo das gotas de chuva em baixo de uma folha grande. Possuía um corpo branco e fino, braços pequenos e pernas que se alongavam enquanto desciam até o pé, como uma criança que vestia uma calça de adulto. Possuía um “cabelo” em formato de tigela de cor azul-claro, cobrindo seus olhos. Na sua testa e nuca, dois chifres em formato de triângulo na cor laranja.
— Que bonitinho! Que Pokémon será esse?
— Ele provavelmente está assustado com a chuva forte — completou Nathan, olhando de longe, agachado.
— Não se assuste, bichinho, venha pra cá, está seco aqui — Alven pegou discretamente uma Sitrus pequena e ofereceu ao Pokémon, que relutou por alguns instantes — não precisa ter medo, estamos aqui pra ajudar!
Alven aproximou sua mão da criatura, tocando seu chifre. O Pokémon grunhiu, se afastando alguns centímetros, e cobriu o rosto com as mãos.
— Você não gosta que toquem seu chifre, não é? Não se preocupe, não vou repetir. Venha comigo, por favor!
O garoto aproximou novamente sua mão, mas dessa vez acariciou o Pokémon sem encostar em seu chifre laranja. O monstrinho tirou as mãos do rosto, e deu um sorriso tímido. Alven ofereceu novamente a Berry, que foi aceita pelo Pokémon com alguns segundos de resistência. Ele deu algumas mordidas e grunhiu de felicidade.
— Você vem comigo, agora? — Alven sorriu e estendeu a palma da mão para o Pokémon. Ele abraçou os dedos do garoto, sorrindo — Que bom que você veio!
Alven deu um pequeno abraço no Pokémon, e os dois saíram do arbusto onde estavam.
— Perdi alguma coisa? — perguntou Nathan, enquanto esticava os braços.
— Este garotinho vem com a gente!
“Ralts, o Pokémon sentimento. Ele sente as emoções das pessoas com o pequeno chifre em sua cabeça. Se capta sentimentos ruins, ele tenta se proteger” disse a Pokédex na mão de Nathan.
— Vou registrar na sua também, me dá a pokédex aí.
— Olhando bem, ele é bem bonitinho — disse Nathan enquanto manuseava o aparelho — espera, olha só isso.
— O quê?
— Na pokédex a imagem do Ralts tem a cabeça verde, mas o seu tem a cabeça azul!
— É? — Alven pegou a sua pokédex e comparou com o Ralts ao seu lado — que estranho, será que ele está doente?
— Não aparenta estar — Nathan apontou para a expressão contente do Pokémon — quando formos pra Petalburg você leva ele pro Centro Pokémon. Já capturou ele?
— Como assim?
— Ué, colocá-lo na pokébola — Alven parou e olhou rapidamente para a criaturinha ao seu lado.
— E se ele não quiser? — sussurou.
— Pergunte, então.
— Então, coisinha — Alven virou-se e pegou uma Premier Ball de sua mochila. Esta era uma pokébola totalmente branca, com exceção de sua divisória e botão, que eram vermelhos — como você brilha e é fofinho, pode ficar com essa bolinha aqui.
O monstrinho encarou o objeto por alguns segundos. Alven acariciava suas costas, para que ele não ficasse desconfiado e fosse embora.
— Você quer ficar comigo? Vai entrar nessa bolinha, mas vai ser só uma vez. Você vai ficar o dia inteiro fora dela, ok?
— Que direto... — Nathan colocou a mão sobre o rosto.
— Se você não quiser, eu compreendo, ok
O Pokémon olhou para o garoto desconfiado, mas depois sorriu e pegou a Premier Ball.
— Ok, vou entender isso como um sim. Lá vai!
Alven pegou a esfera das mãos do Pokémon e colocou-a um pouco acima de sua cabeça. Depois deixou-a cair sobre o monstrinho, fazendo com que ele fosse para dentro do objeto. A Premier Ball caiu no chão e balançou três vezes, enquanto a luz no seu centro piscava. Segundos depois, a mesma parou de balançar e tornou-se completamente imóvel.
— E... temos um novo membro na equipe! — exclamou Alven, alegre.
— E... a chuva parou magicamente — Nathan apontou para o céu. As nuvens espalhavam-se, mostrando o sol que fora encoberto horas atrás.
— Agora, como prometido, ele não vai ficar nessa pokébola — Alven pegou a esfera e apertou no botão de seu centro, libertando o Pokémon.
— Seja bem-vindo ao time, amiguinho! — disse Alven, sorrindo.
— Ok, agora que já comemos e a chuva parou, vamos pra Petalburg. Sabe que horas são?
— Não.
— Duas da tarde — afirmou o garoto, checando um relógio de pulso que estava em um bolso de sua mochila e o colocando-o em seu antebraço.
— Dew? Quer colo, bebê? — disse Alven, estendendo os braços para a Budew. Ela sorriu para o Ralts enquanto subia no colo de seu dono, que retribuiu o sorriso e foi para perto de Alven — tudo pronto? Vamos.
Os dois garotos desceram a pequena inclinação no terreno e continuaram andando pela estrada. O ar estava limpo perto da cidade, varrido pela chuva que havia caído á pouco. O cheiro de terra molhada invadia as narinas de humanos e Pokémon, trazendo a sensação de estar próximo do verde, como realmente estavam.
Assim que chegaram à cidade, avistaram um cenário simples ao mesmo tempo que agradável. As casas eram rodeadas de flores e pequenos muros feitos de folhas, como em labirintos de jardim. O Centro Pokémon chamava atenção destacando-se com seu telhado vermelho, enquanto que a Loja Pokémon era mais discreta. O Ralts andava ao lado de Alven. Dew olhava em volta, explorando o local com seus olhinhos. Nathan avistou uma placa no centro da vila.
— “Petalburg: onde todos vivem em plena harmonia.” Não deve haver muitos problemas por aqui.
Andaram mais um pouco até que deram de cara com o ginásio. Era um grande estabelecimento branco e dourado com uma placa na frente: “Ginásio de Petalburg, Líder Norman, um homem que busca o poder!”.
— Er... já entrou em um ginásio antes? — questionou Nathan.
— Não, nem no que tem na minha cidade.
— Será que estamos prontos para batalhar?
— Bem, Dew sabe alguns golpes, e sobre o Ralts, vou treiná-lo depois.
— Mudie e Loty sabem uma boa quantidade de ataques, mas não sei se são eficientes.
— De qualquer forma, vamos entrar. Não saberemos o que tem dentro se não abrirmos a porta.
Alven se aproximou da porta do ginásio. Era transparente, mas reluzia bem mais o lado de fora do que o lado de dentro do ginásio. A porta abriu com a presença do garoto, que ficou surpreso. Ambos entraram.
Não viram nada além de uma sala de tamanho médio, com paredes beges, um carpete na entrada e duas portas, uma em cada canto da sala. Ficaram imóveis, e deram mais alguns passos, até que um homem apareceu.
— Olá, garotos. São treinadores?
Ele era alto e magro. Possuía cabelos negros que eram densos no centro da testa, formando triângulos acima das sobrancelhas. Tinha pele branca, e olhos negros. Usava uma jaqueta vinho com a parte inferior cinza, com uma linha negra na cintura, e uma blusa branca por baixo. Tinha uma calça longa e cinza, e sandálias feitas de uma madeira quadrada e plana, marrons.
— Olá, viemos aqui para verificar o ginásio.
— Sejam bem-vindos, meu nome é Norman, e sou o líder deste ginásio — disse o homem, estendendo as mãos para os garotos. Nathan apertou sua mão, e Alven apenas deu um tímido “oi” — quantas insígnias vocês tem?
— Pra dizer a verdade, nenhuma — respondeu Alven, acariciando Dew. Ela grunhiu em confirmação, enquanto Ralts se escondia atrás de uma das pernas do garoto.
— Olá, pessoal — Norman se agachou e ascenou para a Budew e o Ralts. Dew novamente grunhiu. Já o Ralts apenas tapou o rosto com as mãos, numa ação tímida.
— Esta é a Dew. Esse aí em baixo é o Ralts, ele é tímido, por isso não respondeu — Alven foi para o lado, exibindo o pequeno Ralts — Dê oi para Norman, garotinho!
— Juro que de todos os Ralts que já vi, nunca tinha visto um com essas cores!
— Eu vou levá-lo ao Centro Pokémon mais tarde, vimos a diferença quando olhamos as pokédex.
— Olá? Pequeno Ralts? — procurou Norman.
O Ralts descobriu o rosto e ascenou com uma das mãos, deixando a outra nas costas. Imediatamente baixou a cabeça depois disso. Alven o pegou no colo, o deixando ao lado de Dew. Norman acariciou sua cabeça, fazendo com que o Ralts se sentisse mais tranquilo.
— Então, vocês não tem nenhuma insígnia, certo?
— É, esse é o primeiro ginásio que visitamos — afirmou Nathan, coçando a testa — qual o problema?
— É que este é o ginásio que abriga a quinta insígnia, ou seja, vocês vão precisar passar por quatro ginásios antes de voltar aqui. Mas não se preocupem, não irá demorar muito para me desafiarem.
— Entendemos, obrigado pela explicação — concordou Alven, chateado.
— Voltaremos mais tarde! — Nathan ascenou e saiu.
— Com liscença, Norman, como funciona o sistema de insígnias? Não estou muito familiarizado com as batalhas oficiais de ginásio.
— Bem, existem oito ginásios espalhados pelas cidades de Hoenn. Ao vencer o treinador mais forte do ginásio, no caso o líder, você ganha uma insígnia. Ao conseguir todas as oito insígnias, você estará qualificado a batalhar na Liga Hoenn. Se vencer todos os desafiantes por lá, você será o campeão.
— Ah, ok — Alven parou por alguns segundos e, olhando para a parede, refletiu um pouco sobre aquela história — obrigado por tudo, tchau!
Alven saiu do ginásio e ao tentar avistar Nathan com os olhos, o encontrou conversando com uma garota desconhecida. Foi em direção aos dois com um ar curioso.
— Ah, olha ele aí! — disse Nathan, quando avistou o garoto.
— Olá, seu nome é Alven, né?
Era uma garota relativamente alta, com longos cabelos castanho-claros amarrados em um rabo de cavalo que ia até o fim das costas. Tinha olhos castanhos, era magra. Usava uma camiseta branca com alças finas, e short jeans até o joelho. Usava um casaco rosa amarrado na cintura, e tênis pretos. Carregava uma mochila rosa choque com várias silhuetas de cachorro estampadas em marrom. Em sua mochila, havia um bolso raso transparente na frente, onde descansavam duas pokébolas em tamanho reduzido.
— Sim — Alven endireitou seu colo para Dew ficar mais confortável e voltou seu olhar curioso para a garota — quem é você?
— Ela também está na missão de ser treinadora.
— Exato — disse ela, fazendo um sinal de V com a mão — e vou acompanhar vocês!
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