Pokémon - Onde os Laços São Mais Estreitos
6 De volta ao lar dos insetos
Notas iniciais
Eram cerca de duas horas da tarde. Luna, Alven e Nathan estavam dentro do quarto que fora reservado para eles, sem fazer absolutamente nada. Dew e Kend brincavam com uma bolinha de borracha, lançando-a na parede e fazendo-a quicar e voltar. O outro tinha de repetir o processo com suas mãos ou cipós. Flame cochilava no colo de Luna enquanto Cross estava parado de braços cruzados na parede ao lado da porta. Winer dormia em uma almofada no chão.
Alven lia uma revista aleatória sobre pokémon enquanto Luna lia a Insetopédia. Nathan apenas tentava fazer malabarismo com duas de suas pokébolas.
— Está chato aqui. — disse o garoto sem desviar o olhar para não derrubar as esferas.
— Realmente. — concordaram. Um barulho de páginas folheando ecoou.
Nathan os encarou por alguns segundos derrubando uma das balls no ato. Agarrou a outra com força, mas a que caiu liberou Mudie através de seu brilho. A esfera voltou para as mãos de Nathan, criando impulso no ar, enquanto a pequena salamandra encarava seu treinador em silêncio.
— Oi. — disse ao Pokémon, sem jeito. O Mudkip continuou encarando até que Nathan resolveu pegá-lo no colo.
Mudie deu alguns passos para trás, estanhando o contato repentino, mas logo cedeu e foi para as mãos de seu treinador.
Alven viu o momento e deu uma cotovelada em Luna. A garota também percebeu o que se passava e eles começaram a encarar Nathan e Mudie, em silêncio.
A salamandra se aconchegou nas pernas do garoto e fechou os olhos. Nathan deu um suspiro de alívio, e percebeu que estava sendo espionado.
— O que vocês dois estão olhando? — indagou.
— Nada. — disse Alven, instantaneamente.
— Apenas observando sua pequena interação. — Luna folheou algumas páginas e fechou o livro. Após isso pegou sua mochila e retirou uma cola, uma caneta, algumas fotos em um bolso escondido e seu álbum. Começou a legendar as imagens e colá-las no livro, nas páginas em branco.
— Será que eles gostam de mim? — Nathan sussurrou na direção de Alven, que deu de ombros e continuou encarando o Mudkip.
— Tente ser mais amoroso com eles. — sugeriu o garoto.
— Tente tirá-los da pokébola por mais tempo. — completou Luna.
— Se é isso que eu tenho que fazer... — concordou o garoto. Luna terminou de colar as poucas fotos e guardou tudo dentro de sua mochila. Descansou as costas e começou a encarar o nada.
Passou tempo suficiente para Alven terminar o que estava lendo, guardando a revista na gaveta da cômoda, onde ela estava antes de ser pega. Tudo ficou silencioso e só barulho de pessoas falando ao longe e árvores sendo balançadas com o vento eram audíveis.
— Por que não vamos pra aquela floresta na rota 104? — sugeriu Luna.
— É mesmo, nem demos um tempinho quando passamos por lá. Alven é que não vai gostar, lá é cheio de insetos.
— É melhor do que passar calor aqui. Mas se algum inseto tocar em mim eu jogo ele na cara de vocês.
— Pra isso você precisaria tocá-los. — argumentou Nathan. Alven deu de ombros e disse que seria bom ir.
— Está bem. — Luna colocou a mochila nas costas, acordou Flame e se virou para a porta, mas percebeu que era a única pronta. — Vamos, gente! Tempo é diversão!
Os garotos se levantaram e pegaram suas mochilas. Nathan decidiu levar Mudie fora da pokébola, enquanto Alven já carregava Kend e Dew em seu colo. Winer percebeu o movimento, se espreguiçou e acompanhou os adolescentes.
No caminho se encontraram com Fábio e disseram que iriam dar uma passada na rota 104. O estagiário concordou e se despediu, parecia ter pressa. Os três checaram se estavam prontos e saíram pela porta principal.
(...)
Não estava muito calor, a temperatura havia amenizado desde o almoço. Para a alegria de Alven, nuvens cinzentas cobriam o céu, como se fosse chover a qualquer momento. Não ventava forte, mas uma brisa refrescante passeava por aquela parte da cidade.
— A ponte para a rota 104 está lá, se apressem. — Luna apontou para a grande ponte de madeira, onde poucas pessoas passavam.
Começaram a caminhar, nada de interessante foi visto no início. Quando se aproximaram das árvores viram alguns Treeckos, lagartos verdes humanoides com longas caudas que usam para batalhar e se locomover nas árvores. Alven ficou tentado a capturar um, mas Dew o impediu.
— Mas esse Pokémon é do tipo Grama, como você... — disse o garoto, triste por ter perdido a oportunidade.
— Parece que ela é ciumenta. — Dew grunhiu com raiva ao ouvir este comentário de Nathan, que analisou a entrada da floresta mas não viu nada além de árvores e mais árvores. — Parece que vamos ter que nos aprofundar para achar alguma coisa aqui.
— O que você está procurando, exatamente? — Luna preparava sua câmera para gravar algo interessante em um momento oportuno.
— Eu não sei. Você é que teve a ideia de vir nesse lugar. — respondeu o garoto.
Entraram na floresta e deram alguns passos adentro para se certificarem de que estavam em um bom local para se estabelecerem. Mudie desceu do colo de Nathan e se sentou na grama, observando o lugar novo.
— Bem, eu não sei vocês... — Luna se levantou e checou sua câmera novamente. Também tinha algumas Net Balls no bolso. — Mas eu vou procurar insetos bonitinhos nesse mato todo aqui.
— E o que nós vamos fazer? — indagou Nathan.
— É, quem vai atrair os insetos fazendo eles ficarem longe de mim? — continuou Alven.
—Eu não vou demorar muito, só vou dar uma olhada. — A garota chamou Cross para sua busca, pois Flame já estava em seu colo. O besouro concordou e foi para perto de sua treinadora. Seguiram uma pequena estrada que supostamente levaria ao meio da floresta e desapareceram dentre arbustos e árvores.
Nathan e Alven encaravam fixamente os rastros deixados pela garota, como folhas e galhos quebrados. Não tinham o que fazer, especialmente num local como aquele.
— Essa garota é doida. — Nathan colocou as costas no tronco de uma árvore e ficou observando Mudie.
— O que você vai fazer esse tempo inteiro? Ficar deitado aí? — Alven parecia odiar a ociosidade. Queria ao menos ter algum objetivo.
— Não reclame, ao menos aqui é silencioso. Sente e relaxe.
— Eu não quero relaxar! — O garoto levantou e tirou a terra do short com as mãos. — Quero fazer outra coisa!
— Porque não vai atrás da Luna?
— Caçar insetos? Isso nunca! — Alven bufou e se apoiou em uma árvore. Dew continuava sorridente apesar de estar entediada, enquanto Kend observava o resto do ambiente com alguns bocejos ocasionais.
— Você realmente nãos sabe lidar com tédio, né? — O garoto encarou Alven, que assentiu orgulhosamente. — Por que não sai caçando plantas? Onde há insetos, geralmente tem plantas.
— Mas onde há plantas geralmente tem insetos... — gemeu.
— Então eu não sei. — Nathan suspirou, claramente irritado, e deitou na grama. — Estou tentando ter um momento de paz.
— Ah, como você é chato.
O garoto entediado se sentou e olhou para todos os lugares tentando achar algo interessante. Alguns minutos tediosos se passaram e Kend decidiu sair da cola de Dew e Alven, indo fazer companhia ao solitário Mudkip.
“Quer companhia?” Kend se ofereceu, recebendo um bocejo como resposta.
“Ah, oi.” Mudie saiu de sua posição de sono e se sentou ao lado do Ralts.
“Você se chama Mudie, né?”
“Foi o nome que a mãe do meu humano colocou em mim.”
Silêncio.
“Escuta, o que você acha do seu treinador?” perguntou Kend. Foi uma pergunta direta e até um pouco arriscada, pois não sentia muita afinidade entre Nathan e Mudie. Talvez fosse até uma conversa na qual o Mudkip evitava entrar em detalhes.
“Como assim o que eu acho?” A salamandra voltou-se para o Pokémon psíquico ao seu lado. Não havia pensado muito naquilo desde que saiu em jornada com Nathan e Loty.
“Se você gosta dele ou não.” respondeu, sendo direto mais uma vez.
“Não tenho opinião formada sobre isso.” argumentou.
Sem mais disposição para insistir no assunto, Kend virou o olhar para o lugar: árvores, grama, folhas, madeira. Envolvido pelo tédio assim como seu treinador, resolveu voltar para onde estava antes.
Antes que ele chegasse perto de Dew e Alven, Mudie resolveu continuar a conversa.
“Ei... volte.”
“Eu achei que você não queria conversa.” provocou Kend.
“Você quer se livrar do tédio ou não?” exclamou o Mudkip, tentando soar o mais decidido possível. Kend riu. Os dois olharam para o lado e viram Loty se aproximando amigavelmente para participar da conversa.
“O Nathan me tirou da ball e disse que eu devia tomar ar puro com vocês.” disse. Todos olharam na direção do garoto, que percebeu e deu um sorriso improvisado. Puxaram papo entre si, e o tempo começou a passar mais rápido.
(...)
Andavam á espreita: a garota e seu besouro. Cross andava pelos obstáculos da mata como se fosse uma pista de dança, enquanto Luna caminhava em silêncio para não estragar quaisquer chances de encontrar um Pokémon selvagem. Na frente dos dois, Flame prosseguia com passos instáveis sem medo aparente de qualquer coisa.
— Há quanto tempo estamos caminhando? — Luna estava impaciente. O Heracross deu de ombros e começou a vasculhar o local com o olhar. Luna suspirou.
Flame tropeçava ás vezes por conta das pequenas pedras espalhadas por todos os lados, mas Luna o colocava de pé novamente sempre. Ele podia ser pequeno e desengonçado como todo pintinho, mas era corajoso e disposto: uma qualidade bem normal para um Torchic.
— Cross, como está sendo a relação entre os outros Pokémon? Está todo mundo se dando bem?
O besouro olhou para ela e simulou um “Sim” com o rosto, mas aparentou querer falar mais. Luna se lembrou de que ela não entendia o que ele falava e uma expressão séria tomou conta de seu rosto.
— Sabe... Ás vezes eu só queria poder conversar com vocês normalmente, entender o que vocês falam. — lamentou. Cross e Flame pararam por alguns instantes, com expressões chateadas em seus rostos. Afinal, nunca haviam pensado nisso antes: não poder conversar com sua melhor amiga. Era a coisa mais normal do mundo — Afinal, Pokémon são animais — mas chegava a doer ás vezes.
Na verdade chegava a doer sempre que se lembravam disso.
(...)
Alven havia se cansado de observar as folhas das árvores. Se levantou e chamou Kend e Dew para irem com ele em algum lugar. Dew comia berries ao lado de Kend, que fazia o mesmo. Mudie e Loty conversavam agora a sós, enquanto Winer pulava pelas pernas do seu adolescente.
— Aonde você vai? — disse Nathan, sonolento.
— Passear e tentar encontrar Luna, ué.
— Você ao menos sabe onde ela está?
Alven parou por alguns segundos. Não fazia ideia de onde a garota estava.
— Por que você não vai comigo? — Abriu um grande sorriso e se ajoelhou ao lado de Nathan.
— Não faça carinhas fofas achando que vai conseguir o que quer. Não comigo.
— Mas você não está fazendo nada! — resmungou. Dew e Kend terminaram de comer e voltaram para o colo do garoto.
— Eu estou muito bem e numa paz incrível. Ir com você seria como abandonar uma nuvem macia e subir em cima de um carro de sorvete musical.
— Sorvete é gostoso! — argumentou.
— Não está calor, Alven. Pelo contrário, o ar está frio e tem chuva vindo aí.
— Tá. — resmungou o garoto, se levantando e ajeitando seus Pokémon no colo. Andou alguns passos até chegar perto de uma trilha que seguia pelo meio da mata. — Mas fique sabendo que a comida e água estão na minha mochila.
— Luna não seria tola o suficiente para colocar toda a comida em uma mochila só. — argumentou Nathan, virando as costas para Alven.
— Na minha mochila está a comida, na sua as coisas de emergência e na dela material pra caçar Pokémon. Enfim, adeus.
Nathan ignorou o comentário do garoto e continuou na mesma posição, até um flash de memória o lembrar de que toda a comida do lanche estava com Alven. Foi então que ouviu um ronco vindo de seu estômago.
— Droga, esse garoto deve ter algum tipo de magia... — resmungou. Chamou Mudie, Loty e Winer, deixando somente o lobo fora da pokébola. O Poochyena o acompanhou até o começo da trilha onde Luna e Alven haviam entrado.
— Por que eu sempre acabo cedendo as coisas pra você? — reclamou ao se aproximar de Alven por trás.
— Porque você nunca tem opção melhor. — respondeu. O garoto andava calmamente enquanto seguia as pegadas deixadas por Luna na terra. Winer saiu na frente, cheirando o ar para localizar a garota e seu Heracross enquanto Nathan continuou caminhando aos bocejos. Nada acontecia na floresta.
(...)
— Algum de vocês sabe localizar insetos ou algo assim? — perguntou Luna. Flame piou em negação, mas Cross ficou em silêncio. A garota acompanhou o olhar do besouro até ver um pequeno fio branco no chão. — Isso é... Teia de aranha?
Cross continuou andando normalmente, apesar de detestar aracnídeos. Aranhas e outros desse grupo eram predadores naturais dos insetos.
— Eu sabia que num lugar como esse teriam aranhas, mas não nessa parte da floresta. Aqui não tem uma mata muito densa.
“Flame.” sussurrou o Heracross.
“O que é?”
“Se uma aranha pular em nossa direção não tenha dó e ataque com suas bolas de fogo.”
“Tá bem.” O pintinho continuou agindo como se nada estivesse acontecendo — Como de fato ainda não estava.
Começaram a tomar cautela em cada passo que davam, coisa rara vinda de Cross. Flame olhava com mais atenção para onde pisava e Luna deixava sua câmera no ponto para o caso de uma oportunidade de tirar uma bela foto surgir.
A garota olhou para trás: um longo caminho de terra se estendia quase que infinitamente. Já haviam andado muito sem nem perceberem e no mínimo estariam próximos do centro da floresta. Preocupação e animação guerreavam dentro de Luna, pois ela sabia que podia existir perigo por perto, mas resolveu continuar. Afinal, tinha Cross e Flame para defendê-la.
Voltou o olhar para frente afim de checar a situação de seus Pokémon, mas não os viu. Uma gota de suor escorreu pela sua testa.
— Cross? Flame? Voltem já aqui, querem me matar de susto? — disse, baixinho. Onde quer que eles tenham ido, não foram muito longe, pensou.
Uma das garras do besouro saiu de um arbusto, dando um pequeno susto em Luna. Cross surgiu por inteiro do monte de folhas e fez um gesto para que a garota o acompanhasse.
Foi então que ela, ao atravessar o arbusto já na companhia de seus Pokémon, avistou uma enorme teia de uns cinco metros espalhada pelas árvores. Rapidamente um flash surgiu: uma nova foto para o álbum da garota.
Um Wurmple se contorcia, preso no monte de linhas grudentas. Luna se quebrantou. A pena que sentiu da lagarta se materializou em sua expressão.
— Vocês tem algo contra á ideia de tirá-lo daí? Porque eu vou tirá-lo daí. — murmurou, sem deixar de olhar para a cena.
Luna levava calma e silenciosamente suas mãos até a lagarta vermelha, quando foi surpreendida por um jato de teia vindo da direita, acertando sua bochecha. A garota olhou para o lado e viu uma enorme aranha com corpo coberto de pelos amarelos. De suas seis pernas, quatro eram grandes e terminavam em garras azuis pontudas. Tinha dois olhos grandes e quatro pequenos, todos azuis focados friamente em Luna.
A aranha avançou na garota, que conseguiu desviar por alguns centímetros. Cross se deu conta da situação e disparou com um Horn Attack, derrubando a aranha.
— É um Galvantula! — exclamou, assustada. — Flame, Sand Attack! — O Torchic se virou para trás e disparou o máximo de areia que pode na direção do aracnídeo.
A aranha fechou os olhos, nos quais esfregava as patas para retirar a sujeira que a impedia de enxegar. Neste momento Luna jogou uma Net Ball no Wurmple e pegou Flame no colo, além de chamar atenção de Cross para a fuga. Aproveitaram a oportunidade sem nem checarem se a captura foi feita com sucesso e saíram correndo pela trilha.
(...)
Nathan e Alven discutiam sobre o clima. Nathan teimava afirmando que iria chover por causa da formação enquanto Alven negava usando como base o argumento de que não havia caído uma única gota de chuva.
— Isso não faz sentido. — disse Nathan, cansado de discutir. — Você não acha que as folhas das árvores impediriam a água de cair em cima da gente?
— Mas você disse que vai chover, e não que está chovendo agora! — teimou Alven. Dew comia uma Sitrus sem ligar para a discussão enquanto Kend bocejava quieto. Winer farejava algo, indo mais fundo na floresta a cada passo.
— Eu estou querendo dizer que quando chover, nós não vamos saber por conta das árvores! — exclamou.
Minutos de silêncio se passaram.
— Faz sentido... — murmurou Alven, pensativo. Nathan bufou de raiva e apressou o passo até dar de cara com uma garota segurando uma lagarta, na companhia de um pintinho e um besouro.
— Finalmente nós te achamos! — disse, se virando para Alven. — Para sua infelicidade temos companhia, Alven. — Um sorriso se abriu no rosto de Nathan de um segundo para outro.
Alven olhou para a garota. Os cabelos de Luna estavam desarrumados e seu casaco, sujo. Em sua bochecha, uma marca da presença do Galvantula: um pedaço de fio de teia.
— O que aconteceu com você, afinal? — disse.
— Fomos atacados por um Galvantula. — A garota murmurava as palavras, visto que sua respiração estava agitada.
— Por um o quê? — Nathan esticou o rosto na tentativa de ouvir melhor.
— Salvamos esse Wurmple e um Galvantula nos atacou.
Os garotos continuaram encarando-a, em silêncio.
— Galvantula é uma aranha gigante amarela que pode usar eletricidade. Ela coloca isso nas teias e é por isso que esse Wurmple ficou paralisado logo depois de nós chegarmos até ele! — exclamou, em disparada. Depois da fala Luna teve que recuperar o fôlego.
— Ah, tá. — disseram os garotos, em coro.
Kend e Cross se encararam. O Ralts inclinou a cabeça para analisar a situação. Flame agora estava no chão e andava de um lado para o outro.
“O que aconteceu?” perguntou a Cross.
“Invadimos o território de uma aranha. Ela nos atacou, mas conseguimos fugir. Luna resgatou um Wurmple que estava prestes a virar comida.”
“Ela era amarela e enorme!” complementou o pintinho. Kend assentiu e voltou-se para os adolescentes, que analisavam a situação da lagarta vermelha.
Estava paralisada por conta da eletricidade. Fazia poucos movimentos, estes sofrendo retardo. Nathan tirou um vaso de spray pequeno e amarelo de sua mochila, ao passo que Luna segurou a lagarta de modo que todo o corpo dela pudesse ser beneficiado com o remédio. O garoto borrifou algumas vezes e o inseto deu os primeiros sinais de cura mexendo as patas e depois subindo no ombro da sua heroína.
— Você vai ficar com essa coisinha? — perguntou Alven, tentando parecer o mais amigável possível apesar de se sentir incomodado com a presença do Wurmple.
— Claro que eu vou! — exclamou a garota. — Sempre quis ter um Wurmple, para ser mais clara.
— Estamos parecendo uma espécie de patrulha salvando Pokémon de algum perigo todo dia! — afirmou Alven.
Nathan puxou os dois adolescentes para dar pressão e saírem logo dali.
(...)
Já na entrada da floresta, todos se sentaram na grama para tentar entender o que havia acontecido, afinal Luna só explicara a parte do susto. O Wurmple já estava fora da pokébola na qual foi capturado.
— O que vocês foram fazer em uma teia de aranha? — começou Nathan.
— A gente estava andando por aquela trilha quando Flame e Cross acharam um Wurmple preso numa teia. Eu resolvi tirar ele dali, mas o Galvantula foi mais rápida.
— Pra quê vocês foram inventar de tirar a comida dela da teia? — reclamou Alven.
— Porque eu gosto muito mais de lagartas do que de aracnídeos. E não se refira a essa coisinha fofa como comida!
— Só por que eles comem insetos você não gosta? — argumentou o garoto.
— Espera, Galvantula não é um inseto? — Nathan agarrou a mochila de Alven e retirou o lanche dali: berries numa vasilha, suco, vitaminas e alguns sanduíches, além de tigelas para os monstrinhos.
— Claro que não. Ele é do tipo inseto, mas é um aracnídeo. — explicou a garota, dando uma primeira mordida no seu sanduíche. — O tipo é só um rótulo, uma classificação que leva em consideração fraquezas e vantagens.
Alven encarava o nada mudando de olhar lentamente para o lado, entendendo lentamente o que Luna explicou.
— Esqueçam isso. O importante é que eu consegui o que eu mais queria: um Wurmple! — A garota levou a mão aos lábios para comer novamente, mas se deparou com um Wurmple faminto devorando o sanduíche. — Ei, coisinha! Vocês tem sua própria comida!
Ela apontou para pequenas tigelas com ração e frutas sendo servidas para cada Pokémon do grupo. Os que estavam em suas balls agora estavam comendo do lado de fora.
— Folgado. — Nathan deu um sanduíche para Alven e os dois começaram a comer enquanto observavam Luna tentando ensinar modos alimentares para o inseto.
— Esse é! — Ela levantou a lagarta por trás e a colocou na frente de um dos potes de comida Pokémon. — Devore!
“Olá.” disse Cross ao se aproximar do novo integrante da equipe.
“Oi. Você é um Heracross, né?” A lagarta comeu o último floco de ração presente na tigela, a qual foi examinada á procura de qualquer sobra.
Como é gulosa! pensou.
“Sim, e pode me chamar só de Cross, mesmo. Todo mundo me chama por esse nome.”
“Tá bom.” O Wurmple jogou a tigela para perto de Nathan e foi em direção aos demais monstrinhos, que conversavam entre si.
“Ei, espera!” Cross acompanhou a lagarta na esperança de estabelecer um diálogo.
“O que foi? Eu tenho pressa. Quero aproveitar do meu jeito legal com os outros também.”
Os insetos se aproximaram dos demais Pokémon e foram recebidos com alguns cumprimentos, a maioria para a Wurmple. Flame logo se aproximou e encheu a lagarta de perguntas.
“Você vai ficar com a Luna?”
“Quem é Luna?” questionou ela.
“É a garota que te salvou!” respondeu o pintinho.
“Ah, ela é dona de um orfanato ou algo assim?”
Mudie riu. Loty e Kend se entreolharam e quase soltaram uma gargalhada.
“Claro que não. Ela é nossa treinadora. Nós andamos com ela o tempo todo.” Flame se aproximou do inseto e começou a examiná-lo.
“Ela foi legal em me tirar daquela teia. Eu não conseguia me mover.”
“Então, você quer ficar com ela e passear com a gente?” Winer foi logo ao ponto.
Vários olhares focaram na lagarta, que se encheu de orgulho com a atenção.
“Talvez eu fique. Gostei dela.” respondeu.
“Na primeira oportunidade você vai ser trancada em uma pokébola.” Resmungou Mudie. Agora olhares confusos viajavam na direção da salamandra. “O que foi? Apenas estou falando a verdade.”
“Não é essa a verdade absoluta.” Kend se pronunciou levantando a mão.
“Não seja tão amargo assim.” Loty se pronunciou, fazendo os olhares se voltarem para ele. Não falava muito, era de uma natureza quieta e observadora.
“Não estou sendo amargo, e sim realista. Também não estou dizendo que viver com eles é ruim.” Neste momento apontou o olhar para os três humanos, que comiam e conversavam enquanto juntavam a bagunça. “Só estou dizendo que ficar dentro daquela pequena máquina redonda é ruim.”
“Mas todos nós sabemos disso.” argumentou Kend. “E é por isso que ficamos na maior parte do tempo fora da pokébola.”
Silêncio desconfortável novamente.
“Talvez você tenha razão.” murmurou a salamandra. Loty revirou os olhos. Winer e Flame o seguiram.
“Ele é legal, mas é meio pessimista.” Disse Kend á lagarta. A Wurmple foi acompanhada pelo Heracross ao voltar para Luna, e Kend logo depoi retornou á companhia de Dew e Alven.
Luna agarrou a Wurmple no colo logo que a viu.
— Você quer vir com a gente, né? — disse ela ao colocar o inseto no ombro.
— Você já está se oferecendo? — resmungou Nathan. — Deixe ela ao menos se acostumar com a gente.
— Vai que essa coisinha prefira ficar aqui na floresta? — disse Alven, bolando uma hipótese para não levar a lagarta com eles. O garoto já levava Dew e Kend no colo, enquanto Winer corria pelo chão. Cross estava ao lado de Luna, observando o inseto.
Luna pediu silêncio com o indicador sobre a boca e deixou a decisão nas mãos — Ou melhor, patas — da Wurmple.
— E então? — A lagarta pensou um pouco e então colocou o primeiro par de patas no nariz da garota, insinuando um “sim”. — Awn, que amor!
“Você disse que ao final do dia nós batalharíamos!” reclamou Winer, com os dentes cerrados. Alven percebeu a comunicação e começou a observar os dois, mesmo sem entender.
“Calma, é só uma questão de tempo para preparação.” respondeu o Ralts, olhando para baixo.
“Até que dia sua preparação vai durar? Vou ver se o Cross quer batalhar depois, então!” O lobo saiu correndo na direção do besouro.
Alven riu e chamou a atenção do Pokémon psíquico.
— Ele é bem insistente. — disse Kend, usando sua telepatia. Alven parou por alguns segundos mudando totalmente de expressão.
— Então é... Você que... Provoca essa voz? Como você... — balbuciou surpreso. Dew continuava com sorriso em seu rosto.
— Que tal você colocar logo ela dentro da pokébola dela para irmos embora? Lá no Centro você brinca com essa lagarta o tempo que quiser. — pronunciou Nathan, desviando a atenção de Alven para Luna, que brincava com sua nova companheira.
— Tá, que seja! Vamos! — Ela sorriu e fixou o olhar no inseto em seus braços.
Luna saiu correndo pela estrada ao devolver a lagarta para a Net Ball, pulando de alegria. Alven e Nathan se entreolharam e riram, e seguiram a garota enquanto Mudie e Loty vinham atrás.
“Aquela crítica repentina sobre as pokébolas... Ela foi uma indireta para o Nathan, não é?” perguntou Loty, com o olhar fixado na frente.
“Talvez.” Mudie respondeu. A resposta estava em sua voz.
“Dê uma chance ao garoto, ele está melhorando.”
“Tá, eu vou dar uma chance. Mas eu estou bem desestimulado a viajar com ele.”
“Não fique assim.” disse Loty, dando um pequeno empurrão no seu amigo.
“Difícil é não ficar assim.” A salamandra tinha um sorriso forçado no rosto, e os dois continuaram andando.
Mal sabiam que ali, no meio da escuridão entre as árvores, seis olhos azuis observavam de longe a ladra de lagartas e seus possíveis comparsas. Uma teia foi disparada de volta para o meio da floresta, e a aranha adentrou novamente a mata.
Fale com o autor