Notas iniciais
Resolvi que ia postar mais cedo hoje. Bem bem, nesse novo capítulo, vamos descobrir um pouco mais sobre essa personagem nova e a "irmãzinha", hehe. Eu realmente gostei de tê-lo feito. Espero que também gostem! o/

Os olhos de Alex se abriram com um bocejo, e ele resmungou na medida em que era capaz de assimilar as coisas ao redor. Juntamente com elas, vieram as lembranças, tanto mentais quanto físicas. De repente, seu corpo achou que era uma boa hora lembrar que havia dormido numa floresta, ao lado de uma fogueira, num saco de dormir, e por isso seu corpo estava doendo. Para ajudar, também lhe ajudaram a perceber que foram os primeiros raios de sol que o despertaram.

E isso era algo completamente raro para Alex. Nunca que, em algum dia de sua vida, se não fosse por meio de um despertador, que conseguiria acordar ao nascer do sol. Era muito frio, não, muito cedo para essas coisas, e o fato de que ele dormia tarde não ajudava em sua vontade para sair da cama àquela hora. Era surpreendente que o menino sequer conseguisse abrir os olhos a essa hora.

Mais surpreendente, porém, não era esse estranho fato. E sim o de que Chiyo e Natsuhi pareciam ter acordado muito antes dele. Estavam ao lado da fogueira, os olhos fixos no fogo, por vezes suspirando, como se estivessem se perguntando quando a comida ficaria pronta. Alex bocejou novamente, sentando-se no saco de dormir. O som chamou a atenção de Chiyo, e ela lhe mostrou uma expressão de desgosto.

— Bom dia — murmurou ele, levantando-se sem quaisquer sinais de que realmente gostaria de o estar fazendo. De resposta, conseguiu alguns poucos acenos de cabeça, tão sonolentos quanto sua voz.

Não demorou muito para que Alex, assim que se levantou realmente, se sentisse entediado. Incomodado com a falta de coisas pra fazer e com o fato de não ser ele a se encarregar do café. Em pouco tempo, acabou por organizar as próprias coisas, e tentava pensar em algum assunto para fazer as meninas conversarem, em vão. Alex não era a pessoa mais sociável do mundo, muito pelo contrário. Era tímido em iniciar conversas com pessoas novas, então, por mais que pensasse em algo bom para iniciar e continuar a conversa não se via capaz de mover os lábios e proferir as palavras necessárias. Chiyo, também, não parecia disposta a fazer algo para mudar o silêncio, de qualquer maneira.

E, para ajudar, não achava que seria prudente conversar com Margareth na presença das duas; suspeita era o que menos queria no momento. Só lhe restou, então, se sentar em um canto, e esperar a comida ou que sua mente lhe desse algum assunto, o que viesse primeiro.

Por esse motivo, permitiu que a mente vagasse, os olhos pairando por sobre Chiyo e Natsuhi. Ainda estava se perguntando qual o motivo dela e da irmã de estarem viajando a noite, mas esse não era sua preocupação principal. O que realmente estava incomodando era sua irmã. Não era costume de pessoas tão novas saírem em jornada com seus familiares. A maioria deles os julgava incapazes e chatos demais para fazê-lo, além de que eram menores de idade. Não haveria muito que pudessem fazer para ajudar na jornada, se é que existia algo realmente.

Definitivamente, algo curioso. Mas que, é claro, ele não ousava perguntar sobre. Talvez fosse alguma coisa em especial, ou talvez Chiyo tivesse seus motivos, os quais certamente não eram de sua conta. Esse pensamento era o único motivo de não ter usado isso como assunto para algo para conversar.

Alex suspirou. O tédio e a impaciência estavam realmente lhe dando nos nervos, e o menino se perguntou quanto tempo levaria para perguntar como o dia estava bonito, ignorando a timidez. Felizmente, assim que um breve minuto se passou, não fez nenhuma pergunta do tipo, e sim uma consideravelmente menos estúpida. Aproximou-se do fogo ao invés, e observou a panela que Natsuhi observava, curioso.

— O que está fazendo? — A pergunta obrigou-o a separar os lábios, trazendo curiosidade em suas palavras. O peito retumbava com as batidas de seu coração, temendo uma reação negativa da garota ou de sua irmã.

Demorou um momento, mas Natsuhi olhou para ele, o único olho visível piscando. A confusão estava clara em sua expressão, e, por um momento, Alex quis rir de sua timidez, tão semelhante a sua. Imediatamente, o rosto de Natsuhi se virou para Chiyo, esperando que ela tivesse a resposta para a pergunta do garoto. Ela, por sua vez, piscou de volta, e deu de ombros, como um sinal para que Natsuhi fizesse o que bem entendesse.

— Uh... — murmurou, a voz soando falha. Como o menino pensara, era bastante infantil. — Nada de mais... Só... Sopa.

Alex ergueu uma sobrancelha.

— Sopa de que?

No momento seguinte, Alex se arrependeu de ter feito a pergunta. De forma súbita e mais rápida do que sequer poderia esperar, ambos os rostos foram virados em sua direção, a surpresa e a curiosidade estampada em suas expressões. Recuou por um momento, e mordeu o lábio. Havia dito algo ruim?

— Ahn... Legumes — respondeu, poucos segundos depois. Havia um sorriso em seu rosto, mas os olhos exibiam uma surpresa incomum. Sentiu-se desconfortável diante de tais olhares. — Gosta...?

— Acho ok às vezes, mas não sempre — comentou. Ignorar o olhar de Chiyo sobre si estava ficando cada vez mais difícil. — Quer ajuda?

Deu-lhe um sorriso nervoso, e Alex o interpretou como sendo um apenas por educação.

— Não precisa. Não quero incomodar.

— Mas eu não estou fazendo nada. Não vai ser problema.

E deu de ombros. Natsuhi abriu a boca para protestar, mas Alex foi mais rápido. Não demorou a se aproximar da mais nova, colocando-se ao lado e aproximando-se para ajudá-la em qualquer coisa que fosse preciso, enfim afastando seu tédio.

Contudo, não foi isso que aconteceu.

O que realmente aconteceu foi muito, muito diferente do esperado.

Inicialmente, Alex pensou que talvez fosse ser sua imaginação. Depois, os olhos se arregalaram, e ele duvidou de seus sentidos. Não, não seria possível que seus ouvidos pudessem ouvir rosnados vindo de uma menina muitas vezes mais nova que ele. Quanto mais que seus olhos realmente estivessem vendo os cabelos se moverem, muito mais que o normal para um movimento brusco. Não era possível que houvesse mais fios que o normal, e não era possível que o que deveria ser um rabo de cavalo estivesse...

Os grunhidos quase grotescos aumentaram cada vez mais, e tudo o que ocorreu em seguida foi súbito. A massa de cabelos negros se ergueu em sua direção, e simplesmente avançou contra Alex. A reação foi rápida. Um grito escapou de seus lábios quando se jogou para trás, perdendo o equilíbrio e acabando por cair sentado no chão, próximo a Chiyo.

Olhava, com descrença, para a bagunça de cabelos negros e dentes que o encarava, o que julgou serem olhos amarelos brilhando em fúria. Agora, aquilo não era mais um simples rabo de cavalo.

— A-Akatsuki! — A voz da menina soou, repleta de uma mistura estranha de raiva e surpresa. — O que foi que eu te disse sobre atacar os outros!?

Um grunhido foi a resposta, mas, pelo menos, os rosnados pararam. Ao menos os que eram dirigidos a Alex. Agora, pelo o que parecia, ambos haviam entrado numa discussão em uma língua desconhecida, repleta de grunhidos e palavras completamente desconhecidas para o menino. Confusas, ele diria, mas, nesse ponto, toda aquela situação estava estranha demais para tirar algum tipo de conclusão.

A mente estava uma bagunça, então, escolheu a primeira opção dentre as muitas vagando em sua mente, na mesma velocidade em que o coração batia, escolheu virar-se para Chiyo. Para aumentar ainda mais sua surpresa, a menina não parecia tão preocupada com ele. Na verdade, ela até tinha uma expressão de aborrecimento no rosto, e fazia breves gestos de desaprovação para Natsuhi.

— Ch-Chiyo! — chamou Alex, a voz parecendo ser incapaz de passar toda a confusão de sentimentos. — Porque a sua irmã tem um monstro no cabelo dela!? O que... O que está acontecendo aqui!?

— Ele não é um monstro. — Bufou Natsuhi, interrompendo a resposta que Chiyo planejava dar. O não-monstro o encarava da mesma forma, parecendo ofendido. — Ele é o Akatsuki.

— É só o Akatsuki — explicou Chiyo, dispensando as palavras que ecoava da mais nova. Deu de ombros, como se a cena que estava se desenrolando ali fosse completamente normal, que acontecia todos os dias e não precisava de tanto escândalo desse jeito.

Alex se levantou, e não conseguiu encontrar suas palavras por um momento. O coração batia rápido, tão alto que o garoto temia ser ouvido pelo restante do grupo.

— Como assim "é só o Akatsuki"? Porque a sua irmã tem um... um... essa coisa no cabelo dela!?

— É o que todos os Mawiles têm no topo da cabeça. Não é tão estranho quanto você faz parecer.

Alex franziu o cenho, ainda mais confuso do que antes. Parecia que quanto mais tentava buscar ou recebia respostas, mais perguntas ganhava.

— Mawile...? — O nome pareceu familiar aos lábios, porém, o cenho franzido indicava que não se lembrava de onde o havia ouvido e que parecia tentar.

Foi então que, de repente, ele se lembrou. Mawile. Um Pokémon de aparência humanoide, e que possuía uma segunda boca no topo da cabeça, longa e peluda, repleta de dentes pontudos, controlada por seu dono.

Um Pokémon.

Seus olhos se arregalaram novamente. Agora, a incredulidade era duas vezes maior. Natsuhi, a irmã de Chiyo, um Pokémon? Uma Mawile? Parecia surreal. Porque a chamaria de irmã, se esse fosse o caso? E que ela se parecia tanto com uma criança normal, num kimono e com cabelo excessivamente grande?

Apesar disso, aquelas perguntas e as coisas não pareciam tão surreais assim. Apenas olhando para a criatura que chamavam de Akatsuki já era algo bastante intimidador, e levantava mais perguntas que uma criança de sua idade poderia explicar. Até o momento, era completamente impossível que algo assim acontecesse com humanos, de repente os fios de cabelo se tornarem vida e assustá-lo com a fileira de dentes afiados que possuía, uma ameaça para manter-se afastado de seu dono. Somente Pokémons o podiam, e dentre eles, apenas a espécie citada por Chiyo era capaz de o tal.

Ainda assim, não via justificação para Chiyo chamá-la de irmã o tempo todo. Não era comum chamar Pokémons assim, e ainda havia o fato de que ela provavelmente não podia entender os Pokémons, também, mas ainda assim era uma treinadora. Por outro lado, até agora não vira seu Pokémon, e até agora não vira nenhum sinal de que a garota entendia ou não a fala de Natsuhi, caso aquele fosse o caso.

Por outro lado, o próprio Alex não sabia muito quanto à sua habilidade de entender a fala do Pokémons. Uma fala humana e uma Pokémon lhe pareceriam as mesmas, a não ser que o Pokémon fizesse algum som característico ao de seu espécie. Ouvindo-o sem ver quem era, ficaria fácil para assumir ser um humano e conversar normalmente. E, agora, aquilo se provava aplicar a Pokémons e forma muito semelhante à humana.

— Quer dizer que vocês me enganaram esse tempo todo? — As palavras foram escolhidas e ditas com cuidado, evitando demonstrar algum sentimento e falhando inutilmente nessa tarefa. — Vocês... Fizeram isso pra descobrir se eu realmente falo com Pokémons...?

— Não exatamente — murmurou Chiyo, parecendo não se abalar com a acusação. — Mas a culpa foi sua por não perceber.

— Minha... Minha culpa?! — A incredulidade estava mais do que clara. — Não fui eu quem chamou a porra de uma Mawile de irmã, como se fosse uma criança qualquer.

— Mas nós somos irmãs — Interveio Natsuhi. Alex lançou um olhar de ameaça para ela, mas recuou ao ver os olhos brilhantes de Akatsuki, exibindo ainda mais ameaça que o próprio Alex achava ser possível.

— Ah, tanto faz — disse, simplesmente, e foi até sua mochila. Pegou a Pokéball em que deixara Margareth, e pegou sua mochila, a qual, felizmente, já estava arrumada e com todos os seus pertences. — Eu não quero saber mais.

Natsuhi pareceu surpresa.

— Vai continuar sem tomar café?

— Melhor do que ficar aqui — rebateu Alex, a raiva se mostrando clara em sua voz.

E, simples assim, voltou até a estrada. Caminhou rápida e com passos pesados, bufando de raiva a cada momento em que se passava. Ainda não acreditava que as duas pudessem ter feito aquilo com ele, sendo acidente ou não. Ainda o levaram acreditar que Natsuhi era uma criança, e quase o fizeram ter sua confiança. Repreendeu-se por se preocupar com as duas viajando sozinhas, ainda com muito chão para percorrer. Preocupara-se com a menor, e até pensara em se oferecer para acompanhá-las. Não que Alex fosse ser de grande ajuda em uma situação de risco, mas, ainda assim...

Balançou a cabeça, afastando os pensamentos. Estava aborrecido demais pra ser gentil no momento. Mais tarde pensaria no fato de que as duas sabiam de seu segredo, e mais tarde pensaria em comer alguma coisa. Agora, tudo o que desejava era continuar a viagem, afastar-se o mais longe possível de Chiyo e sua Pokémon. Não estava em condições boas o suficiente para lidar com elas, de qualquer forma, então foi com esse pensamento que o menino continuou caminhando, concentrando-se no som pesado de suas botas esmagando a grama sobre si.

Pelo menos, até ouvir o som de passos atrás de si.

Virou o rosto, adotando uma expressão incrédula assim que o fez. Chiyo e Natsuhi estavam caminhando atrás dele, com a criatura estranha que Akatsuki era ainda o encarando. Natsuhi era a única, dentre as duas, que parecia verdadeiramente preocupada.

— Aleeeex — chamou, as pernas curtas e típicas de uma criança se esforçando para tentar acompanhá-lo. Aquele pensamento o fez estremecer. — Alex, mas e a sopa?

— Parem de me seguir! — exclamou, esperando que a voz não soasse tão desesperada quanto se sentia. Infelizmente, aquele não foi o caso.

— Já disse, não estamos te seguindo. Só seguindo o mesmo caminho que você. — Chiyo sorriu em resposta.

— Indo na mesma direção com panela e tudo na mão? — Uma sobrancelha foi erguida. O passo se apressou novamente, ameaçando cruzar a linha entre o caminhar e o correr. — Suas loucas.

E continuou caminhando, apressando o passo ao máximo. Primeiro, em um ritmo rápido, para então aumentá-lo aos poucos, ao passo em que estava correndo. Correndo até já não ser mais capaz de ouvir os passos atrás de si, e correndo até que, quando virou o rosto, não viu mais as duas esforçando-se para segui-lo. Em pouco tempo, estava sozinho de novo, finalmente podendo suspirar de alívio. Era bom estar assim novamente.

Um suspiro deixou seus lábios, finalmente tendo a paz que tanto merecera, sem se sentir observado ou ouvir passos insistentes. Pelo menos assim, em algum momento poderia organizar melhor os pensamentos a ponto de decidir o que faria em seguida, coisa que não negava que precisava fazer.

Para começar, mesmo sabendo que sair e caminhar sem ao menos tomar o café da manhã não era exatamente a coisa mais inteligente de se fazer, Alex não fazia ideia de quando parar para fazê-lo. Na maioria dos casos, o garoto pouco se preocuparia com o café e o pularia facilmente. Agora que estava viajando, porém, não poderia mais fazer algo desse tipo.

Deu de ombros. Poderia caminhar sem café até o almoço. Margareth, também, estava na Pokéball agora, provavelmente demoraria para que ela também ficasse com fome. Agora, o menino só precisava continuar caminhando, e depois parar para encontrar alguma clareira ou algo assim, e não haveria tanto problema como achava. Só teria, também, é de se lembrar de encontrar um lugar mais adequado para fazer o almoço dessa vez.

Deixou que os pensamentos vagassem a medida em que viajava, enfim mantendo um ritmo calmo e moderado, digno de uma caminhada. Aos poucos, com o erguer do sol aos céus, as coisas ao seu redor passaram a tomar um novo brilho, ganhando vida aos toques dos raios de sol. Ao seu redor, podia ouvir o canto dos pássaros, despertando de seu sono, e, se Alex não estivesse vendo coisas, pudera identificar um ou outro Pokémon passeando por perto, ignorando completamente sua existência. Apesar disso, em nenhum momento pensou em capturar algum Pokémon. A calmaria fornecida pelo cenário em que se encontrava e o fato de estar livre para seus próprios pensamentos eram coisas um tanto grandes demais para serem deixados de lado agora.

Além disso, Alex não estava muito confiante sobre o assunto. Até o momento, não havia nem tentado treinar ao lado da Shinx, o que, se ele fosse ser realmente sincero, não era algo com que estivera se preocupando. Havia, também, o fato de que a floresta era um local perigoso, local em que certamente residiriam Pokémons de outros tipos além dos comuns, coisa que o menino não estaria preparado para enfrentar apenas com Margareth. Se ele nem mesmo sabia direito seus movimentos e o que ela podia fazer, que diria de outras capacidades? Não, não, atacar um Pokémon no momento com tais riscos pairando sobre si não seria uma boa ideia.

Talvez, então, fosse melhor Alex se concentrar em chegar até Violet primeiro. Pelo menos lá ele poderia treinar um pouco mais e dar um jeito de se manter até ter de batalhar em um ginásio. Caso a oportunidade surgisse, tentaria capturar algum Pokémon. Caso contrário, o deixaria para depois de conseguir a primeira insígnia. Aí, sim, ele se sentiria bem o suficiente para tentar atacar um dos Pokémons como aqueles em que viam.

A medida que o dia se passava e o sol se estendia no alto do céu, anunciando a chegada do meio-dia, Alex notou que estava ficando com fome. Portanto, decidiu que iria parar, e então procurar um local adequado para almoçar. Primeiro, teria de fazer uma fogueira, e para isso, liberou Margareth de sua Pokéball, pedindo sua ajuda.

A primeira coisa que a Shinx fez, porém, foi abrir a boca para reclamar, alegando que estava morrendo de fome e não queria procurar galhos. Encheu-o de perguntas ao invés, querendo saber o motivo por não terem tomado café e o que havia acontecido com as garotas do dia anterior. Embora bastante envergonhado em falar do assunto, explicou a Pokémon, que, para a felicidade de Alex, não estava lá tão interessada no paradeiro das duas. Estava com fome.

Não demorou muito para que os galhos fossem pegos rapidamente, com uma pouca ajuda na Shinx. A única coisa que realmente lhes faltou foi um abrigo decente, algo que não se mostrou uma tarefa tão difícil quanto pensavam. Em pouco tempo, encontraram uma pequena clareira fora da trilha agora inexistente da floresta, passando por entre um acúmulo quase excessivo de folhas e galhos de árvore. Era basicamente um local perfeito para descansarem e aproveitarem de seu almoço um pouco mais.

Ele só não esperava que a clareira já estivesse ocupada.

Primeiro, bufou em aborrecimento. Depois, abriu a boca para murmurar um pedido de desculpas, já que estava interrompendo o almoço de outro treinador para começar o próprio. No entanto, o que deixou seus lábios não passou de uma exclamação estrangulada.

O rosto de Chiyo se virou em sua direção, finalmente notando sua presença. Abriu um sorriso amigável, e não demorou a cumprimentá-lo:

— Ah, olá.

A surpresa foi a primeira coisa que tomou conta de seu rosto, seguindo-se por diversas perguntas, todas sem resposta. Aparentemente, Chiyo e a suposta irmã, Natsuhi, pareciam ter acabado de chegar ali, deixando suas coisas num canto próximo a uma árvore

— ...Que que cê tá fazendo aqui? — O menino ergueu uma sobrancelha, em surpresa a aparição de Chiyo.

— Fazendo o almoço, oras — disse, simplesmente, como se aquela fosse a coisa mais óbvia que pudesse ter dito. — Não vai almoçar também?

Ele murmurou algo em resposta, resmungando quanto a clara proposta de Chiyo para se juntar a ela. Mas hesitou, um tanto desconfiado. Era quase impossível ser só coincidência que Alex encontrasse a mesma clareira em que Chiyo estava, e era estranho que ela propusesse aquilo de forma tão... Natural. Não estariam as duas bravas pela reação dele no café?

Os olhos pairaram sobre ambas as meninas, estudando suas expressões. Chiyo continuava com o sorriso amigável no rosto, um leve brilho de impaciência surgindo no olhar devido à demora para sua resposta. Natsuhi parecia tentar passar-lhe uma expressão igualmente amigável, sem quaisquer intenções ocultas. E Akatsuki... Akatsuki o encarava novamente, os olhos brilhando em aparente curiosidade, apesar de não ser isso que ele realmente estivesse preocupado em fazer. O que realmente o preocupava era algo em sua boca, o qual mastigava veementemente.

Curioso, Alex observou Akatsuki por um pouco mais de tempo, mas, tão logo o fez, se arrependeu do ato. O que ele mastigava não parecia nada agradável de se olhar. Pelo contrário: a massa de pelos roxos e brancos, provavelmente de um roedor comum na mata, cobertos de sangue, sendo aos poucos destroçada pelos dentes afiados de Akatsuki estavam muito, muito longe de ser algo agradável de se ver.

O medo percorreu pelo corpo de Alex, subindo um arrepio pela espinha. A respiração tornou-se um pouco mais pesada, e os olhos permaneceram fixos no corpo sangrento do animal. Claro que Alex sabia que grande parte dos Pokémons eram carnívoros, e até mesmo humanos o eram, não havia motivo para ter tal reação, certo? Nem a própria Natsuhi estava preocupada.

Recuou, a boca se abrindo para emitir palavras de surpresa.

— E-Eu acho melhor não — murmurou, e, com isso, deu-lhe as costas.

Margareth ergueu as sobrancelhas, surpresa, mas seguiu o menino. Levou quase trinta minutos para encontrarem outra clareira, coisa que Alex não sabia como conseguira fazer. Depois daquilo, o menino duvidava que seria capaz comer, se não fosse, é claro, pela insistente fome que fazia seu estômago se contrair e anunciar a condição em que se encontrava. O menino quase xingava alto ao ouvir o som, e quando finalmente encontrou a segunda clareira, boa o suficiente para passar a tarde, xingou alto por si próprio.

— Você é um fantasma? — indagou o menino, assim que a atenção de Chiyo foi chamada para si.

Novamente, ali estavam as duas, parecendo não ter chegado há muito tempo, a julgar pelo fato de que a fogueira ainda estava sendo preparada. Algo surpreendente para Alex, se alguém lhe perguntasse.

— Quase isso — respondeu, um sorriso se abrindo em seu rosto.

— Espera, o que...? — A confusão estava clara em sua voz. Ele realmente não esperava uma resposta dessas.

Ao invés de respondê-lo, porém, virou-se para a Mawile, indicando a fogueira.

— Natsuhi, me passa os fósforos.

— Claro ~ — Foi a resposta em que a pequena não se demorou a obedecer.

Ouviu Margareth rir, e foi nesse momento que Alex deu as costas novamente para o grupo. Agora, sim, a vontade de comer havia ido embora, sumindo-se por completo. Fora substituída por um medo, e até raiva vindas de Chiyo e Natsuhi. Suas duas aparições no lugar onde ficaria já se mostraram ser um anúncio, provavelmente um outdoor, de que o estava perseguindo, algo certamente compreensível para Alex. Se ele conhecesse alguém com a mesma habilidade que a sua, provavelmente o faria, também, na tentativa de ganhar algumas respostas. Pelo menos ele sabia quando parar.

A irritação veio só de pensar sobre o assunto, agora se juntando a vontade de se afastar das duas. Não deixaria que elas o seguissem daquela maneira. Se fosse preciso, viajaria um pouco mais pelo resto do dia para a encontrar um outro lugar. Poderia passar o almoço, também. Não levaria muitas horas para o jantar chegar, de qualquer forma.

Durante o trajeto, a única coisa que conseguiu interromper continuamente os pensamentos do menino foi a voz de Margareth. A Shinx não parava de reclamar que estava morrendo de fome, alegando que Alex deveria fazer algo sobre o assunto logo. Provavelmente foi por essa ajuda constante de Margareth em lembrar-lhe da fome que o próprio Alex teve de se segurar para não concordar ou parar em algum lugar. Ou até comer algo frio, uma fruta, qualquer coisa.

Mas, é claro, Alex não o fez. Tentou seu máximo para ignorar a Shinx, e continuou caminhando. Sentia como se, a cada passo, a fraqueza se aproveitava para se instalar ali, retardando o passo. Tinha a impressão de que as horas demoravam a passar, e estava constantemente erguendo a cabeça em direção ao céu, confirmando se o dia ainda estava ali, ou a tarde já havia ido embora.

Em algum momento, ele não soube mais dizer. Simplesmente arrastava os pés, agradecendo o fato de as botas serem resistentes o suficiente para poder fazê-lo. Reclamava do peso que a pequena felina fazia, agora em seu ombro, usando como desculpa o fato que estava cansada e fraca demais para andar e que tentaria enchê-lo de perto. Talvez sua insistência o fizesse parar mais cedo.

E acabou que, quando o céu começou a tingir-se de vermelho e as nuvens ganharam um tom laranja e rosa, ele realmente o fez. Desistiu de continuar caminhando. Então, pela segunda vez no dia, procurou pelos galhos para a fogueira, e pela terceira vez, encontrou uma clareira para fazer seu acampamento.

E, também pela terceira vez, sentiu-se surpreso ao encontrar Chiyo ali.

Agora, a fogueira já havia sido acesa, e as meninas estavam se preocupando em preparar o jantar, vigiando o que quer que estivesse ali. O sorriso de antes continuava em seu rosto, enquanto o brilho em seu olhar parecia exibir divertimento da situação toda.

O cheiro vindo da panela nunca lhe pareceu tão delicioso quanto agora.

Alex suspirou, e levou ambas as mãos as têmporas.

— Você vai me encher até eu desistir ou morrer de fome, né?

— Basicamente — respondeu, dando um breve riso. Em seguida, indicou a panela. — Vai jantar ou não?

— Eu quero jantar — choramingou Margareth, em seu ombro. — Vamos Alex, vamos? Por favooor.

— Não! — exclamou. A paciência já estava no limite. — Eu posso muito bem comer mais tarde. Vem, Maggs, vamos achar outro lugar.

E saiu, ouvindo a gata azul choramingar em seu ombro uma vez mais. Alex não podia acreditar que, mais uma vez, Chiyo estivera seguindo-o, mesmo depois de todo o esforço que fizera para se manter de pé até agora. Já não entendia mais o motivo, e tampouco gostaria. Estava com fome.

Uma segunda esclamação de raiva saiu de seus lábios quando, poucos segundos depois sair, ouviu passos atrás de si. Virou o rosto, e confirmou a presença da garota de tranças escuras atrás de si, voltando a segui-lo, dessas vez com a panela de comida na mão.

— Aleeeeex — Margareth virou o rosto na direção da menina. — Aleeeex, por favor, eu tô com fome. Aleeeeex!

Cutucou-o com o focinho, chamando sua atenção. Mostrou-lhe uma expressão desolada, a mesma que os Pokémons de sua casa faziam, esperando que lhes dessem uma comida que, normalmente, não poderiam. Pelo menos com Alex, aquilo quase sempre dava certo. Quase.

Aquela foi uma das vezes, embora o motivo fosse mais pela raiva e a própria fome. Suspeitava acabar parando a qualquer momento, rendendo-se a fraqueza. O vazio em seu estômago estava grande demais para aquilo, de qualquer forma, então ele simplesmente parou, e declarou sua desistência com uma expressão de puro desgosto.

— Tá, eu desisto — resmungou, agora caminhando em direção a sua perseguidora. — Eu janto com você. Feliz agora?

— Bastante. — Sorriu, dando meia volta para guiá-lo até o acampamento.

Ao seu lado, Margareth comemorou, mas não deixou seu ombro até que Alex jogasse as coisas em algum lugar com violência, sentando-se ao lado. Só então se utilizou do momento conveniente para pular de seu ombro, indo pedir comida a Chiyo. Felizmente, Alex não teve de esperar tanto assim pela sua vez, então pôde comer sem rodeios.

Nunca que em outro momento de sua vida julgou uma comida ser tão boa quanto aquela. Até mesmo se surpreendeu e lançou olhares de canto para Natsuhi e Chiyo, perguntando-se qual das duas o fizeram.

— Hey, Alex — A voz de Chiyo cortou sua linha de pensamentos, obrigando-o a olhar em sua direção, emitindo um breve "hm?" ao fazê-lo. — Como é que você consegue entender os Pokémons?

— Porque ao menos eu deveria responder essa pergunta? — Ergueu uma sobrancelha, desconfiado.

— Porque aí eu respondo as suas também. A maior parte delas, pelo menos — explicou, dando um sorriso logo em seguida.

Aquilo pareceu chamar a atenção de Alex. Ainda assim, hesitou.

— Tá, então eu respondo — resmungou, por fim. Mais uma vez, a curiosidade vencera quanto a decidir algo para ele.

— Então, como é que você entende os Pokémons, mhm? — Aquela única pergunta foi dita cheia de entusiasmo e curiosidade, algo certamente notável para a menina.

— Sei lá. Só entendo eles.

— Mas desde quando? Você consegue distinguir sons de palavras? São todas as palavras, tudo nítido, ou é diferente com as pessoas? Já teve alguma complicação com o caso?

Alex piscou por um momento, confuso.

— Uh, desde criança. E é a mesma coisa com pessoas, só... Uhm, eu não conseguiria distinguir um humano de um Pokémon só pela fala, a menos que ele fizesse um som característico, como latir. Mas não, nunca tive nenhuma complicação.

Ela assentiu por um momento, trazendo um silêncio desconfortável. Aproveitando o a oportunidade, Alex voltou a dar garfadas em sua comida assim como Margareth, que aparentemente também estava curiosa quanto à conversa. Pelo menos aqueles poucos sons eram melhores do que o do silêncio.

Momentos demais haviam se passado, então, em um deles, o menino decidiu quebrar o silêncio:

— Mas e quanto a você? Também entende os Pokémons? — Essa, em especial, era uma das perguntas que mais incomodava sua mente. Imaginava que, para Natsuhi ser chamada de irmã por Chiyo, ela deveria ter algum tipo de relação com a Mawile, e Alex não imaginava que fosse possível tê-lo sem haver a conversa das duas partes.

— Não entendo — respondeu, evitando olhar para o garoto por um momento. — Só tenho uma ideia do que eles falam por convivência. Por exemplo, consigo entender a Natsuhi, mas eu não faço a mínima ideia do que sua Shinx está falando.

— Huh... — murmurou Alex, erguendo uma sobrancelha em surpresa e dúvida. — Porque a cabeça da Natsuhi tem um nome?

Chiyo olhou para Alex por um momento, piscando.

— Porque não teria? Ela é uma criança, deixa ela.

— Ei! — A resposta de Natsuhi foi rápida, assim como a de seu... "companheiro". Os olhos brilhantes de Akatsuki se viraram na direção de Chiyo, ofendidos.

— Ceeerto — murmurou. Foi mais ou menos nesse momento em que Margareth o interrompeu, deitando-se em seu colo e instalando-se lá. Alex sorriu, e continuou: — E porque é que ele assusta pessoas?

Dessa vez, foi Natsuhi quem o respondeu:

— É que ele é meio super protetor, sabe?

Em resposta, Akatsuki voltou a falar da estranha língua de antes, completamente desconhecida para os ouvidos do menino.

— E porque que ele fala alematim? — Ah, sim, essa era uma pergunta interessante. Tecnicamente, o que quer que Akatsuki fosse, também era um Pokémon. Era bastante surreal que não pudesse compreender a estranha fala dele, quando podia compreender a de Natsuhi. — Porque ele ao menos fala?

Por um momento, Natsuhi hesitou.

— Porque você me entende? — perguntou, por fim.

— Touché. — Um riso deixou seus lábios, embora não demonstrasse ter se divertido com a própria resposta. — Pra outra pergunta, então. Mastigar Rattatas é um hobbie, ou ele come mesmo?

Em resposta, Akatsuki virou-se para ele, encarando-o. Um som de engolir em seco foi ouvido, e Alex decidiu que tomaria aquilo como resposta.

— Ok... então ele come... — murmurou, sentindo um impeto de engolir em seco ele mesmo, porém de medo. — Mas pra onde é que vai a comida?

Um silêncio se instalou entre o grupo. Chiyo encarou a irmã, em dúvida, e ela olhou para Akatsuki, hesitando quanto a responder. Demorou alguns segundos, mas algo incompreensível foi murmurado, soando mais como um resmungo, o qual fez com que Natsuhi voltasse a encarar Alex. Se sentia um pouco desconfortável com aquilo, e desejou saber o que ele havia dito.

Felizmente, seu desejo não demorou muito a ser realizado:

— Ele perguntou se você quer mesmo saber — disse Natsuhi, soando tão cautelosa quanto ele achava que estaria. Aquilo só serviu para intimidar o menino, fazendo-o imaginar as mais possíveis respostas para aquela pergunta em especial.

De repente, Alex decidiu que era melhor não saber.

— Uh, porque é que ele parecia cabelo antes? — perguntou ao invés, uma pergunta certamente mais saudável.

— Camuflagem.

— Ahh... — Ele não pareceu muito convencido, mas preferiu voltar-se para Chiyo. — Porque é que tu tava me seguindo, afinal?

— Não estou te seguindo, já disse. Só estava seguindo no caminho para Violet. — Ela respondeu, um tom de aborrecimento em sua voz. — ...Mas depois eu acabei achando divertido.

— ...Certo. Porque é que uma Mawile é tua irmã?

— Você sabe que ela é adotada, certo?

— ...Não foi isso que eu quis dizer, criatura. — Bufou ele. — Tá viajando sozinha pra Violet mesmo?

— Eu tenho a Natsuhi e o Akatsuki — disse aquilo com triunfo, mas Alex achou que ele estava mais falho do que ela queria.

— Ugh, certo, certo. O que vão fazer lá?

— Vai ter um contest lá, então vou participar.

— Ah, sim, coordenadora... — murmurou para si mesmo, assentindo. Novamente, um silêncio se fez presente por entre o grupo, o qual ninguém pareceu se preocupar em quebrá-lo. Esses momentos se arrastaram um pouco mais, um meio que Alex encontrou para digerir as informações adquiridas e para considerar as opções de agora. Acabou por suspirar, desistindo de pensar melhor no assunto. — Quer ir até lá comigo, então? Não que você já não esteja fazendo isso...

Um sorriso escapou por seus lábios, revelando o divertimento pelo próprio sarcasmo. Chiyo, porém, não achou tanta graça assim, mas deu de ombros.

— Tudo bem, pode ser.

E foi assim que, pela milésima vez, a conversa morreu. Alex não achava que possuía qualquer outra pergunta, e, apesar de Chiyo estar na mesma situação, não achava que conseguiria uma resposta decente.

Mas, ah, sim, todos estavam com muita coisa para digerir no momento. Principalmente Alex. A começar pelo fato de que Chiyo havia descoberto seu pequeno segredo. Nunca que o menino permitira alguém que não fosse um Pokémon saber de sua habilidade, seja uma pessoa próxima ou não. Os únicos que sabiam, além dos pais, resumiam-se aos Pokémons deles e Margareth, já que Hinoki e Frederick concordavam no perigo de permitir alguém descobrir. Talvez Chiyo fizesse algo com a informação. Talvez...

Certamente que aquilo seria um problema para o menino, tanto agora quanto para mais tarde. No momento, não fazia a mínima ideia de como afastar os pensamentos, insistindo em dar-lhe possíveis possibilidades para o que Chiyo faria com a informação e o que aconteceria com ele no futuro. Talvez o menino não pudesse mais continuar a viajar. Talvez ele fosse perseguido. Eram infinitas possibilidades, todas elas assustando-o de uma forma quase abrasadora.

Tinha medo, também, de quando os pensamentos se voltassem para as novas informações ganhas de Natsuhi e Akatsuki. Ainda possuía dúvidas quanto ao motivo de não entender sua fala, e estava até mesmo considerando a possibilidade de realmente ser alguma outra língua. Só isso explicaria o fato de ele entender.

No entanto, quando considerava aquilo, sua mente voltava a lhe lembrar que sabia muito, muito pouco sobre sua habilidade. Seus conhecimentos resumiam-se no "somente entendia", então ficava satisfeito com aquilo. Era só. Não pensava em perguntar sobre, não pensava em tentar descobrir mais. Contentava-se com apenas saber, já que isso lhe era o suficiente. Agora, ele já não tinha mais certeza se realmente o era.

Suspirou, cansado de não conseguir respostas. Acabou por repetir o jantar enquanto continuava a pensar, buscando compreender cada coisa que havia sido revelada e a situação em que havia se metido. Ainda estava com fome, de qualquer forma, e julgava ser melhor pensar enquanto tinha algo para fazer. Então, depois que terminou o segundo prato no silêncio, passou a deixar carícias no topo da cabeça de Margareth, ainda em seu colo.

O cansaço pegou-o logo depois que começou essa tarefa, então Alex se irritou e decidiu que seria melhor ir se deitar logo. Não havia sentido ficar ali daquela maneira, e ainda não mudava o fato de que precisava descansar. Levantou-se do chão, e postou-se a organizar as coisas, ignorando os resmungos vindos de Margareth quanto a ser tirada de seu local de conforto. Arrumou alguns poucos pertences deixados no canto, e estendeu o saco de dormir perto do fogo, no caso de a noite ser fria.

Chiyo, por sua vez, apenas o observou, piscando enquanto os olhos acompanhavam seus passos. Acabou por dar de ombros, voltando a apoiar a cabeça no tronco da árvore em que estava pressionando as costas. Alex preferiu não incomodá-la, então estendeu a mão para deixar a Shinx dormindo consigo.

Sonolenta, a Pokémon abriu os olhos por um momento antes de se aconchegar em seu peito novamente. Alex sorriu, e deixou um breve carinho em sua cabeça. Podia sentir as orelhas da Shinx se movendo para os lados, provavelmente incomodada com algum som.

Os olhos esmeraldinos dela se abriram novamente, dessa vez sem quaisquer sinais do sono que mostrara antes. Agora, o que havia em seu rosto era uma expressão atenta. Confuso, o treinador olhou para a Pokémon, mas Margareth continuou calada. Ao invés de respondê-lo, preferiu pular de seus braços para o chão, olhando ao redor.

Momentos se passaram em que Alex apenas encarou sua Pokémon, confuso demais para perguntar o que estaria acontecendo. Não se atreveu a dizer nada, então apenas esperou pelo momento em que ela finalmente virou o rosto numa direção especifica, os olhos brilhantes parecendo faiscar ainda mais que o normal. Saltou nesse mesmo local, pulando por cima da mochila de Alex, sumindo de vista por alguns segundos.

Não demorou muito, porém, para um segundo som se fazer presente: um ganido de dor e surpresa ao mesmo tempo, junto com o som de baque de alguma coisa.

A reação do menino foi imediata: correu até o local, e em seguida arregalou os olhos para o que encontrou.

Se seus olhos não estivessem enganando-o, Margareth havia imobilizado um Pokémon.

Não era muito maior do que a própria Margareth, provavelmente teria só alguns poucos centímetros de diferença. Ao contrário dela, porém, tratava-se de um canídeo cinza, esta sendo a cor que mais predominava em todo o seu corpo. A segunda era o cinza escuro, cobrindo boa parte de seu rosto, incluindo o focinho, o queixo e toda a região do peito. Depois disso, somente as patas e a barriga eram coloridas pelo tom mais escuro de cinza, parecendo estar em contraste com o brilho de fúria de seus olhos vermelho-sangue. A cauda peluda arrastava-se no chão com seus passos, de forma impaciente, e em sua boca, podia se ver um pacote de Nuzffles, salgadinhos em forma de Pokémons elétricos e planta, o melhor pra se comer com a turma. Mais especificamente, o seu pacotinho de salgados com forma de Pokémon elétrico e planta.

— Hey! — chamou Alex, a raiva fazendo-se presente em sua voz. — O que pensa que está fazendo?

Em resposta, o lobo cinza bufou. Depois, utilizou-se da cabeça para jogar o pacote para o lado, fazendo-o voar até chegar a metade da clareira. Aproveitou-se, então, da surpresa causada em Margareth quanto a sua ação, e a empurrou para o lado, podendo, enfim, fugir. Um rosnado foi ouvido quando o lobo correu na direção do salgadinho, tendo como companhia o próprio Alex. É claro que ele não deixaria que sua comida fosse roubada por um Pokémon.

Chegar primeiro antes do Poochyena parecia uma tarefa incrivelmente difícil, então, o que ele fez foi chutar o pacotinho para o lado, sorrindo em triunfo quando o canídeo parou, encarando-o com fúria.

— Alex, o que você está fazendo? — Soou a voz de Chiyo, o corpo inclinado para observá-lo.

— Nada, ué, só impedindo esse bichinho aqui de roubar minha comida.

— Porque não deixa ele com o Akatsuki? — Agora, era Natsuhi quem falava. Como resposta, um rosnado animado veio dele.

— Não! Ele vai mastigar o bichinho. Deixa que eu vejo o que ele quer. — Com isso, agachou-se em sua direção, pondo um sorriso amigável em seu rosto. Uma das mãos foi estendida até o lobo, a fim de permitir que ele o identificasse. — Hey, cê tá com fome, bichinho?

Rosnou, mostrando a fileira de dentes afiados. Com a aproximação e por completo impulso, a primeira coisa que o cachorro fez foi morder-lhe a mão, enterrando os dentes entre as costas da mão e o pulso. O grito de Alex assustou o grupo, tirando a mão de seu alcance com a maior rapidez possível. Essa, porém, não pareceu ser uma boa ideia. O cão recusou-se a largar a mão, então os dentes apenas rasgaram ainda mais a pele antes de serem afastados com violência, arrancando ainda mais gritos do garoto.

O desespero que Alex sentiu ao ver o sangue pingando por seu pulso foi quase tão grande quanto sua dor. Sua mão começava a latejar, quase que o obrigando a sentir o quão fundo estava o ferimento. A cor vermelha parecia brilhar em seus olhos, e, de repente, ele não teve consciência alguma do que estava acontecendo ao seu redor. Só havia o ferimento sangrando profusamente e o som quase inexistente do sangue pingando.

Embora em algum lugar dentro de si soubesse que estava vendo e ouvindo a Shinx correr na direção do cão negro, ele simplesmente não conseguia discernir esses acontecimentos. Este e todos os outros não passava de um breve lampejo, algo que ia, ficava por um momento, e desaparecia novamente, sequer chegando a ocupar um espaço relevante em sua mente. Ah, não, nada daquilo era o suficiente para tirar o impacto do líquido viscoso manchando sua pele.

Os olhos pareceram demorar uma eternidade para piscar, e quando se abriram novamente, encheu-o de lembranças. Coisas esquecidas, espremidas no fundo de sua mente atrás de uma barreira para que não aparecessem.

Coisas que ele não gostaria de lembrar.

Puxou o ar para seus pulmões rapidamente, soltando com calma. Apertou os olhos, e continuou, procurando respirar calma e lentamente. A mão latejava e o coração retumbava em notas de desespero, tornando a tarefa difícil, mas, de algum modo, ele conseguiu se acalmar. Apesar disso, sentia-se enjoado, e teve de esconder o ferimento de si mesmo para que essa sensação não se prolongasse.

A dor ainda estava ali, mas, quando Alex abriu os olhos uma segunda vez, conseguiu finalmente ver o que estava acontecendo ao seu redor. E, por um momento, quase se arrependeu de tê-lo feito.

Margareth parecia estar em fúria. Esforçava-se para alcançar o cão fugitivo, o corpo brilhando em energia azulada, característica do Spark. Já o Poochyena, estava, mais uma vez, com o pacote de Nuzffles na boca, correndo para fugir com ele. No entanto, somente o fato de Margareth estar se utilizando do Spark, sua velocidade já aumentava consideravelmente, como um surto de energia cobrindo todo o seu corpo, incentivando-a a correr cada vez mais rápido. De certo modo, estava cada vez mais impossível para o pequeno fugir, então só lhe sobrou a opção de levar o golpe pelas costas.

Seu grito encheu a clareira, tal como o baque surdo do corpo batendo contra o chão. Em seguida, foi o som dos salgadinhos, mas, principalmente, o do grito. O lobo de pelos cinzas pareceu fazer questão de prolongá-lo até mais que o necessário, até que, em algum momento, transformou-se num gemido, e no outro, simplesmente parou, sem quaisquer avisos.

De longe, Alex podia ter a certeza de que o cão havia perdido a consciência. Pelo menos, os salgadinhos estavam salvos.

Piscou, o latejar da mão tirando um gemido de si. O enjôo tornou a incomodá-lo, levando o menino a olhar para baixo, assim como a mãe ensinara quando passavam muito tempo em um ônibus e Alex se sentia assim. Tão logo o fez, se arrependeu do ato. Num momento, os olhos se arregalavam com a quantidade de sangue colorindo a grama.

No outro, não havia mais nada.

Notas finais
Eu não sei fazer comédia, e não faço a miníma ideia do porque aquilo dos salgadinhos está ali. Mas anyway. Vamos ver na próxima semana que irá acontecer com esse povo, mhm? Até lá /o/