Notas iniciais
Olá, povo! Aqui estou eu, com mais um capítulo para vocês o/ Nesse aqui temos a primeira batalha de ginásio da Caroline, e também a apresentação de Contest de Alyss. E mais alguns eventos... E, devido a todo esse conteúdo a ser feito em um único capítulo, ele ficou grandinho. Mas espero que não esteja massante de se ler. :/ Enfim, deixem suas críticas e opiniões! Espero que gostem o/

As três jovens agora fitavam, surpresas, as milhares de lâmpadas que forneciam iluminação mais do que suficiente para o grande espaço. Observaram à sua frente um pequeno Pokémon inseto, semelhante a uma tarântula, revestida por pelos amarelos e dotada de quatro olhos azuis, dois maiores e um segundo par logo acima destes. Deveria ser ele Eddison, o responsável por gerar eletricidade à enorme rede de túneis. Atrás dele, estava um garoto peculiar, o qual julgaram ser seu treinador.

O rapaz aparentava ter cerca de dezenove anos. Sua pele era bem branca, quase ao ponto de torná-lo pálido, como se nunca houvesse visto o sol. Possuía cabelos bagunçados de um tom cinza escuro e usava óculos de armação negra sobre os olhos amarelos, cujo brilho havia sido perdido, conferindo a estes uma aparência desbotada, acinzentada. Utilizava roupas peculiares, longe do que estaria na moda atualmente, preferindo o que parecia ser um estilo “nerd”. Vestia uma jaqueta de couro marrom sobre um suéter cinza, possuindo uma gravata roxa em volta do pescoço e calças de mesma cor, que tinham um padrão xadrez. Seu semblante era sério e uma de suas sobrancelhas estava arqueada, como se estranhasse a situação.

— Lydia, o que essas garotas fazem aqui? — indagou por fim, fitando as recém chegadas.

— São desafiantes, senhor. — a mulher informou, sorrindo e assentindo.

—... Desafiantes? — o garoto ficou em silêncio por um breve momento, antes de este ser preenchido por uma leve risada. — Esse mundo não está perigoso demais para vocês, meninas? Não deveriam ficar em casa ajudando suas mães a lavar a louça? — perguntou, duvidando das palavras que ouvira da assistente. Seu tom era arrogante e provocador, estando evidente que não era apenas uma brincadeira.

O comentário do líder atingiu as três jovens como uma pedrada no rosto. Permaneceram caladas e inexpressivas por um momento, piscando para assimilar o que lhes havia sido dito, ainda incrédulas. Era difícil digerir um pensamento machista daqueles após tudo pelo que haviam passado, mesmo estando fora de casa por menos de um mês; superaram traumas, lutaram por sua sobrevivência, protegeram aqueles que amavam com suas vidas. Seria realmente possível que o homem parado à sua frente, aquele conhecido por sua capacidade e sabedoria, pudesse ter pensamentos como aquele? Que garotas eram fracas demais para destruir os obstáculos à sua frente, por mais difícil que fosse fazê-lo? Caroline abriu um sorriso torto, contendo um grito de raiva.

— Como?! — Alyss exaltou-se, por fim, dando um passo à frente, e certamente teria atingindo o rosto pálido do rapaz com sua mão forte, caso não houvesse sido impedida pela menina de cabelos negros, que se colocou à sua frente.

— Podemos ir logo para a batalha? — pediu a jovem de cabelos negros, por fim. Temia que o líder pudesse ser assassinado pela amiga revoltada antes mesmo de conseguir sua primeira insígnia.

— Como quiser. — o garoto respondeu, surpreso pela ansiedade da garota. Jamais havia enfrentado desafiantes do gênero oposto, e encontrar uma tão apressada era muito surpreendente. Nem ao menos percebera a reação interna que sua frase anterior causara nas jovens.

Acompanhados por Lydia, as três garotas e o líder fizeram seu caminho até o campo de batalha. As recém-chegadas ainda fitavam os arredores, admiradas; o local era realmente muito belo com seus túneis esculpidos no subsolo e a grande quantidade de iluminação, fornecida pelas inúmeras lâmpadas espalhadas pelo teto rochoso. O campo de batalha também lhes impressionara, talvez por terem pisado em solo de combate tão poucas vezes e, certamente, por jamais terem adentrado um oficial; este era de um material arenoso, delimitado por linhas brancas de tinta, diferente daquelas faixas de giz no Mercado Negro. Possuía duas plataformas não muito altas, uma em cada extremidade do grande retângulo, marcando o lugar exato onde os treinadores deveriam posicionar-se.

— Qual das três terá a honra de ver a mim e meus companheiros em ação primeiro? — indagou o rapaz, colocando-se sobre uma das plataformas e ajeitando o nó de sua gravata.

— Eu. — respondeu firmemente a garota de cabelos negros, dando um passo à frente e subindo também sobre o retângulo oposto ao do líder, onde deveria aguardar pelo início da batalha. — Caroline Kavanagh, de Rainbow Valley. — poderia ter dito a verdade, afirmado ser de Kalos, mas preferiu omitir o fato para evitar perguntas de como e por que viajara de uma região a outra, algo muito incomum naqueles tempos. — E você? — questionou ao perceber que tudo que sabia sobre o garoto era seu nome.

— Eu? — o líder perguntou, como se estivesse surpreso por não ser reconhecido. — Sou Benjamin, líder de ginásio da cidade de Striaton e CEO mais jovem do continente. Sou dono da Tunnel Resort, rede de hotéis internacionalmente famosa. — com uma pequena pausa e um sorriso orgulhoso formando-se em seu rosto, ele continuou: — Um gênio magnata, se as senhoritas preferirem.

Era inegável que o comportamento do rapaz irritava todas as três, embora não demonstrassem. Fora Alyss, que estava vermelha de raiva e trincava os dentes, soltando fumaça como uma locomotiva antiga. Todas elas teriam de enfrentar o homem mais machista e egocêntrico que haviam conhecido em toda a sua vida, e pouco poderiam fazer para defender-se, a menos que quisessem comprar briga com o único que poderia lhes fornecer sua primeira insígnia. Portanto, apenas preferiram respirar fundo e guardar todos os xingamentos em sua mente para uma outra hora.

Após o silêncio e falta de interesse das três novatas à sua frente, o rapaz bufou. Gostaria de ordená-las a reverenciá-lo, ouvir os mesmos elogios que sempre lhe eram dirigidos, mas não poderia fazê-lo no momento. Resolveu apenas chamar sua fiel assistente para dar início à batalha, acenando para esta com um gesto de mão.

— Lydia, explique as regras. — pediu, em um tom desanimado.

— Pois bem. — a mulher assentiu, prontamente. — Durante a batalha será permitido o uso de apenas dois Pokémons, sendo proibida a utilização de medicamentos como poções. O vencedor de cada partida será anunciado quando o representante de um dos lados estiver cansado demais para continuar a luta. O desafiante será julgado pelo líder após o combate, podendo receber a insígnia deste ginásio mesmo que não saia vitorioso, caso prove ser astucioso e habilidoso. — informou Lydia quase roboticamente, como se já houvesse decorado o simples discurso após repeti-lo diversas vezes.

Nas semanas anteriores, Caroline havia feito pesquisas sobre as batalhas oficiais e, com um pouco de ajuda de Juniper e outros, descobriu que o atual objetivo dos ginásios que ainda existiam era preparar o desafiante para possíveis desafios que enfrentaria ao longo de sua perigosa jornada, escondendo-se e enfrentando o governo. Diferenciava-se dos antigos ginásios, pelo que havia ouvido — já que jamais estivera em um de fato, uma vez que todos esses haviam sido fechados pelo governo após a guerra -, no quesito de divisão e especialização de seus líderes; atualmente, estes trabalhavam táticas e estratégias, possuindo pokémons que os auxiliassem a preencher completamente esse quadro, não mais como no passado, em que esses treinadores especialmente habilidosos organizavam-se pelo Tipo característico dos monstrinhos de bolso que utilizavam, como Fogo, Água e Planta.

Tal fato era realmente interessante aos olhos da menina, já que ao enfrentar Benjamin, não o faria apenas para receber uma insígnia de pouco valor, mas sim para poder preparar-se para as dificuldades que encontraria em seu caminho. A batalha de ginásio era, portanto, mais uma forma de treinar seus pokémons e aprender a agir rapidamente diante de qualquer situação.

— Os primeiros pokémons de cada treinador já podem ser libertos. — anunciou a assistente, obrigando Caroline a abandonar seus devaneios e concentrar-se no combate que estava por vir. Agora, segurava duas bandeiras, uma branca e uma vermelha, estando acomodada em um pequeno banquinho de madeira ao lado do campo.

— Vamos começar, Eddison. — exclamou o garoto, fitando o Joltik em seu ombro, que assentiu e desceu pelo corpo do treinador, posicionando-se à sua frente no campo arenoso. — Vamos guardar nossa arma secreta para o final. — ele sorriu, provavelmente referindo-se a seu outro Pokémon, deixando Caroline um pouco mais nervosa. Benjamin, na verdade, sentia-se mais vantajoso não revelando à sua oponente todos os pokémons de seu time de uma só vez, o que poderia lhe dar a chance de pensar. Preferia jogar com aquele que já estava à mostra.

A criatura era completamente desconhecida pela menina. A julgar pela sua aparência, parecia ser algum tipo de inseto, e sua hipótese foi confirmada quando sacou sua pokédex e apontou-a para o monstrinho, descobrindo que tratava-se de um Joltik. O dispositivo revelou também algumas das principais informações sobre a espécie, as quais a treinadora leu sem muita atenção antes de revirar sua mochila atrás de uma pokébola específica.

— Vamos lá, Fire! — exclamou a garota de cabelos negros ao lançar a esfera para o alto, que revelou o robusto cavalo de crinas flamejantes azuladas. Este parecia completamente ciente do que estava acontecendo e mantinha uma expressão séria e determinada. Estava nervoso, mas tentava não deixar o sentimento transparecer, para não preocupar sua treinadora. Caroline havia esforçado-se tanto para aquele momento; não queria desapontá-la.

Pelo que havia estudado, Caroline sabia que um Pokémon do tipo Water como Leroy teria desvantagem contra um do tipo Electric, como o Joltik, enquanto os golpes tipo Fire do cavalo lhe causariam mais dano, por ser também tipo Bug. Por esse motivo, Firestarter seria sua melhor opção no momento. Por experiência própria, aprendera que uma simples superioridade de tipo estaria longe de ser o suficiente para derrotar um oponente, mas não queria desafiar de forma imprudente um pokémon com tanta experiência e treinamento, e muito menos pôr seus companheiros em risco desnecessariamente. Com certeza seria uma batalha complicada, teria de ser inteligente, pensar rápido, criar estratégias e, principalmente, esperar o inesperado, e uma desvantagem de tipo certamente não a ajudaria. Estava sendo testada, e ela pretendia obter sucesso, embora soubesse que não seria uma tarefa fácil. Mas, certamente, não estava disposta a desistir, e soube que seu Ponyta sentia o mesmo quando este se virou para trás e assentiu para ela, confirmando estar pronto.

— Comecem! — gritou Lydia, levantando ambas as bandeiras que segurava, iniciando oficialmente a batalha.

— Ember! — comandou prontamente Caroline. Queria ser a primeira a atacar, nem ao menos dando chance ao outro de murmurar um ataque, o que não pareceu lhe incomodar. Optou por um movimento à distância, zelando pela segurança do Ponyta; uma vez que desconhecia os métodos do treinador, preferia não atacar diretamente.

Estufando o peito e concentrando ao máximo seu poder, o cavalo branco pôs-se a disparar diversas brasas azuladas na direção do pequenino inseto. Com todos os treinamentos, seu fogo parecia ter ficado levemente mais poderoso, tornando-se maior e mais intenso, o que certamente o ajudaria naquela batalha. Surpreendentemente, o Joltik permaneceu imóvel por alguns instantes até receber um comando de seu treinador, ordenando-o a proteger-se. Sem hesitar, a tarântula amarela pôs-se de pé, apoiando-se sobre suas duas patas traseiras, enquanto suas garras azuis dianteiras adquiriram um brilho avermelhado, à medida que se tornavam maiores. Estas foram cruzadas à frente de seu corpo, formando uma espécie de escudo em “X” que serviu de proteção para o Pokémon, sendo apenas arrastado alguns centímetros para trás sempre que uma das chamas disparadas pelo oponente o atingia, sem que sofresse muito dano.

A garota arregalou os olhos. O combate seria mais difícil do que esperava.

— Meu ginásio é especializado em técnicas de defesa, meu bem. — informou o líder, em um tom arrogante, como se o simples ataque da menina houvesse atingido-o como um insulto. Ao terminar de limpar as finas lentes retangulares de seus óculos com o tecido de seu suéter xadrez, prosseguiu: — Precisará de mais do que fogo para nos atingir. — embora ele parecesse querer sorrir, vitorioso, continuava inexpressivo, calculista, o que apenas deixou Caroline ainda mais apreensiva.

Então, ataques indiretos certamente não seriam uma boa opção. O melhor a fazer, talvez fosse tentar uma ofensiva direta; sabia que a curta distância certamente colocaria Firestarter em desvantagem, mesmo que esse fosse incrivelmente ágil, mas como as estratégias do líder ainda lhe eram desconhecidas, aquela seria sua maior chance de causar dano ao oponente.

— Fire, avance com o Double Kick! — pediu a jovem logo em seguida, esperando, dessa vez, conseguir atingir o oponente.

— De encontro com X-Scissor. — disse o rapaz, em um tom calmo.

Felizmente, graças a agilidade superior de Fire, este foi capaz de desferir um primeiro coice contra a tarântula amarela antes que essa pudesse executar seu golpe, lançando-a para trás. Ele gemeu com a dor do forte chute, mas não hesitou ao tornar a cruzar suas curtas patas à frente de seu corpo, dessa vez avançando contra as patas traseiras do cavalo, que planejavam lhe acertar com um segundo chute. Este, porém, foi interceptado pelo X-Scissor do Joltik, o que fez com que o Ponyta caísse ao chocar-se com o escudo criado pelo pequenino e desequilibrar-se, bufando com o susto, embora logo estivesse de pé.

Caroline sentiu todo o seu ar escapar de seus pulmões ao perceber que nenhum tipo de golpe parecia funcionar contra a tarântula, que possuía diversas formas de se defender. Ela teria que pensar rápido, ou a batalha estaria acabada para ela. Infelizmente, não dispunha de muito tempo.

— Vamos sair da defensiva, Eddison. — exclamou o garoto, apontando para a frente ao lançar seu comando: — Pin Missile!

A aranha elétrica prontamente arqueou seu corpo, logo jogando-o para a frente e assim criando diversos espinhos esverdeados, que seguiram em direção à Firestarter. O Ponyta permaneceu imóvel e aflito; tentaria correr impulsivamente, porém, sabia não que obteria muito sucesso daquele modo; apenas adiaria a dor que sabia que iria sentir quando as agulhas criadas pelo Joltik perfurassem a sua pele.

Os espinhos eram muitos, portanto, seria impossível pedir que Fire desviasse de todos eles; ser incapaz de pensar em algo para ajudar seu companheiro deixava Caroline realmente irritada e também aflita, como se pudesse sentir o medo que seu pokémon tinha, apenas esperando para ser atingido pelo golpe que lhe causaria tremenda dor. Porém, de repente, uma idéia surgiu na cabeça da menina, como uma chama acesa; o líder poderia ter suas técnicas de defesa, mas ela também tinha as suas. Havia passado sob o sol quente treinando tais, e aquele seria o momento de realmente testá-las.

— Fire, use o Fire Barrier! — gritou a garota de cabelos negros sorridente, proferindo o nome que havia concedido à estratégia.

Um sorriso de canto abriu-se no rosto do robusto cavalo, que não perdeu tempo. Começou a rodopiar no mesmo lugar e, ao adquirir uma velocidade alta, pôs-se a disparar brasas que, devido à tendência do movimento executado pelo Ponyta, começaram a rodeá-lo, unindo-se para formar uma grande barreira circular de fogo azul. Quando os espinhos disparados pelo Joltik foram de encontro com seu escudo, acabaram sendo consumidos pelas chamas antes mesmo de provocar qualquer tipo de sofrimento ao Pokémon Shiny.

— Hm. — o garoto fitava, perplexo, o escudo de fogo que envolvia o adversário agora já se dissipando. Era raro encontrar treinadores que já possuíssem suas próprias táticas de defesa, o que realmente o surpreendeu. — Devo admitir que esta foi uma estratégia de defesa muito bem planejada. Porém, como especialista em defensiva, devo dizer que apenas isso não será o suficiente para vencer uma batalha. — e, com uma pequena pausa, continuou: — Eddison, Pursuit!

— Contra-ataque com Flame Wheel! — comandou a garota. Seria a primeira vez que Firestarter utilizaria o movimento em uma batalha, já que havia aprendido tal havia pouco tempo. Porém, confiava no Pokémon e em seus treinos, reconhecendo que ele estaria preparado para executá-lo.

Ambos os pokémons começaram a correr em direção ao outro, sem visível medo ou nervosismo pela colisão que estava por vir, como se estivessem suficientemente confiantes de si mesmo e do que iriam fazer. Conforme ganhava velocidade, o corpo da tarântula era envolto por uma aura negra, assim como o do cavalo, que possuía agora uma camada de fogo azul ao seu redor. Ao se chocarem, uma pequena explosão ocorreu, e os gritos de dor de ambos puderam ser ouvidos enquanto eram lançados para trás. Fire arfava, com as pernas um pouco trêmulas devido ao cansaço e a dor física, mas certamente o mais prejudicado com a colisão fora o Joltik, que possuía alguns ferimentos aparentes em seu corpo e gemia, embora ainda se mostrasse disposto a continuar.

— Morning Sun! — exclamou Caroline, preocupada com as condições de seu Pokémon. Aquele movimento, um de seus Breed Moves, golpes que poderiam ser herdados dos pais, poderia ser de grande ajuda.

O cavalo respirou fundo, fechando seus olhos ao expirar. Partículas de energia rodearam o Pokémon, enquanto seu corpo emitia uma luz esbranquiçada. Quando ele reabriu os olhos e o brilho cessou, fora possível notar que os poucos ferimentos em sua pele haviam desaparecido e ele estava perceptivelmente mais disposto, agora com parte de suas energias restauradas, o que certamente seria uma vantagem contra o Joltik já cansado.

— Eddison, use Leech Life. — comandou o rapaz de cabelos acinzentados, tentando um último recurso para restaurar parte da saúde de seu Pokémon.

A tarântula amarelada seguiu em direção ao Ponyta Shiny com certa dificuldade, devido à fadiga. Suas presas afiadas estavam agora à mostra, uma vez que ele pretendia morder seu oponente e drenar suas energias.

— Fire, impeça-o com Double Kick! — gritou a menina. Agora que estava tão perto de vencer o primeiro round daquela difícil batalha, temia que o outro pudesse recuperar-se e machucar Firestarter.

O cavalo estava hesitante e nervoso, incerto sobre as ordens da menina, receando que sua estratégia falhasse e o carrapatinho conseguisse mordê-lo. De qualquer forma, aguardou o momento certo e, felizmente, foi capaz de atingir o Joltik com um forte coice certeiro quando este estava bem próximo, arrancando-lhe um grito de sofrimento e lançando-o alguns metros para trás, impedindo-o de executar o golpe. Caído, o inseto lutou para colocar-se de pé novamente, mas não conseguiu.

— Joltik não está mais em condições de lutar. — anunciou, por fim, Lydia, levantando a bandeira vermelha em direção a este. Com isso, dois homens utilizando vestes brancas aproximaram-se, apanhando o Pokémon caído com cuidado e levando-o a uma das milhares de salas esculpidas na rede de túneis subterrâneos, sobre a qual havia uma placa onde podia-se ler “Enfermaria”.

Ao ouvir a voz da mulher, um sorriso brilhante acendeu-se no rosto da menina. Ela mal podia acreditar que havia conquistado a vitória contra um Pokémon tão bem treinado quanto aquele de um líder de ginásio. Sua emoção era tanta que suas pernas tremiam, ameaçando deixá-la cair da baixa plataforma de metal. Queria gritar, comemorar, abraçar Firestarter, que com certeza compartilhava da mesma alegria que ela, a julgar pela postura orgulhosa do cavalo após derrotar o forte oponente. Naquele momento, percebeu que todos os dias que passara treinando incansavelmente haviam valido a pena, ela realmente estava mais forte. Parte daquele incrível sentimento de vitória, porém, esvaíra-se de seu corpo após escutar novamente a voz do líder.

Firestarter, por sua vez, deixava sua alegria e orgulho transparecerem através de um sorriso animado. Ao anúncio da mulher, empinou bravamente, levando suas patas dianteiras ao ar e relinchando, como tinha o costume de fazer após vencer algum obstáculo. Ainda sentia certa dor em seus membros cansados depois da exaustiva batalha, porém, a mistura de sentimentos inexplicáveis que corriam pelo corpo do Ponyta o ajudavam a ignorar todo o sofrimento. Era aquela emoção da qual ele sentira falta enquanto morava na fazenda e, desde que começara a treinar e enfrentar outros oponentes, sentia-se mais vivo.

— Não se anime ainda. — proferiu o rapaz de cabelos acinzentados, claramente aborrecido. — Eddison é meu companheiro, mas o real desafio do meu ginásio é meu Sandshrew. — mexendo cautelosamente no bolso direito de sua calça de malha roxa, retirou de lá uma pokébola em tamanho reduzido. Apertou seu botão central, e logo esta se ajustou ao tamanho da palma de sua mão. — Vamos, Newton.

Um raio de luz branca foi emitido do dispositivo esférico, libertando uma criatura pequenina, embora um pouco maior do que o Joltik, que Caroline também jamais havia visto. Assemelhava-se a um tatu, possuindo patas e cauda curtas. A região inferior de seu pequeno focinho, bem como seu peito e barriga, possuía uma cor levemente mais clara do que o resto de seu corpo. Suas orelhas eram triangulares e pontiagudas, e ao fim de cada membro possuía garras compridas, três em suas patas dianteiras e duas nas traseiras, as quais provavelmente utilizava para cavar, fato o qual levou a menina de cabelos negros a crer que se tratava de um Pokémon do tipo Ground. Caroline não hesitou ao apanhar novamente sua Pokédex para certificar-se.

— Sandshrew, o Pokémon Rato, tipo Ground. Sandshrew vive em buracos que cava em áreas desérticas, enrolando-se em torno de seu próprio corpo para se proteger. — recitou a voz robótica, oriunda do aparelho retangular.

A garota mordeu seu lábio inferior, preocupada. Golpes do tipo Ground seriam super efetivos contra seu Ponyta, que já estava cansado e estaria em grande desvantagem em uma batalha contra o tatuzinho. Por outro lado, Leroy teria uma vantagem natural contra o oponente, e resistência contra movimentos de seu tipo. Além disso, estava um pouco mais acostumado a batalhar do que Firestarter, por ter crescido junto a outros pokémons em uma floresta, tendo de lutar para sobreviver. Após fazer sua decisão, estava prestes a retirar o cavalo do campo, substituindo-o pela lontra, quando fora surpreendida por Benjamin.

— Newton, Rollout! — comandou o garoto, sem hesitar.

— Proteja-se! — gritou a menina, impulsivamente. Não poderia recolher Firestarter agora, portanto, sua melhor chance seria ajudá-lo a defender-se, embora não soubesse muito bem como.

Com o comando de seu treinador, o Sandshrew deixou de apoiar-se em suas patas traseiras, enrolando-se como uma bola em seu próprio corpo, atravessando o campo com grande velocidade. Ao mesmo tempo, em um movimento desesperado, pego de surpresa pelo comando do líder de ginásio, Fire repetiu a estratégia de defesa que utilizara anteriormente, rodopiando ao lançar chamas azuladas contra o chão, que se organizavam à sua volta, formando uma barreira de fogo protetora; atrás desta, o Ponyta sentia-se seguro, embora ainda se mantivesse atento. Ao deparar-se com o grande escudo flamejante, Newton cessou seu movimento, confuso, preferindo aguardar instruções sobre o que deveria fazer.

— Apague o fogo. — pediu, de forma seca, Benjamin.

A menina ficou de imediato confusa, mas o pequeno Sandshrew não parecia ter a mesma reação; pelo contrário, sabia exatamente o que fazer. Continuou a rolar, circulando a barreira de fogo de Firestarter, cada vez mais veloz. O movimento rápido e ágil do Pokémon acabou por levantar a areia ao seu redor, e esta disputava espaço com as chamas, caindo por cima delas e, por fim, cobrindo-as e apagando-as. Ao ver sua estratégia de defesa ser facilmente desfeita, o cavalo arregalou os olhos, deparando-se uma vez mais com o oponente. Sua primeira reação foi a de tentar correr para esquivar-se do tatuzinho, que tornara a executar seu golpe Rollout, porém, não pôde disputar com a incrível velocidade de Newton por muito tempo; logo este o alcançou, lançando-o ao chão com a força de seu corpo . Com o golpe, o Ponyta foi empurrado para trás, caindo no chão e gemendo com a dor do impacto. Com certa dificuldade, porém, conseguiu colocar-se de pé, indisposto a desistir tão facilmente, e fitou o oponente com certa fúria.

Caroline estava atônita com o modo que o Sandshrew conseguira apagar o fogo; o movimento fora muito bem elaborado, o que fez as esperanças da garota desaparecerem parcialmente ao lembrar-se de que enfrentava um treinador experiente e de conhecimento muito mais vasto do que os seus. Agora, relembrava-se das palavras do líder, sobre o quão difícil seria derrotá-lo, e toda a sua confiança se esvaiu. Fitou seu Pokémon, preocupada, e este, ofegante, assentiu, afirmando que estava pronto para continuar. Mesmo com sua confirmação, a jovem ainda estava incerta, pois o cansaço de seu pokémon era evidente e ela não queria forçá-lo, Porém, por fim, apenas assentiu.

— Tudo bem, Fire. — a garota sussurrou, para que apenas o cavalo a escutasse. — Ember!

A menina de cabelos negros sabia que um golpe do tipo fogo não seria muito eficaz contra um Pokémon do tipo Ground; porém, utilizar golpes de contato físico era extremamente arriscado no momento, pois removeria a segura distância que o Ponyta Shiny mantinha de seu adversário.

Assentindo, Firestarter novamente preparou o golpe, sentindo o calor subir por sua garganta ao estufar o peito. Não hesitou ao disparar diversas chamas azuladas em direção ao pequeno Sandshrew, que permaneceu imóvel até receber o comando de seu treinador.

— Apague-as também e avance! — ordenou o garoto, ajeitando seus óculos, ainda sem expressão.

Prontamente, o tatuzinho colocou suas enormes garras no chão, levantando uma grande quantidade de areia que, ao cair sobre a primeira brasa, fez com que seu fogo desfalecesse. A facilidade com a qual Newton conseguia aniquilar suas poderosas chamas intimidaram o Ponyta, que recuou alguns passos, temendo a aproximação do inimigo. O Sanshshrew repetiu o processo diversas vezes, avançando a medida que se livrava das brasas, até que estivesse bem próximo do cavalo.

— Tackle! — gritou Caroline impulsivamente ao perceber que ataques diretos agora seriam a melhor opção, já que o espaço entre os dois pokémons era quase inexistente. Aquela seria a melhor chance que Firestarter teria de se proteger e atacar.

— Proteja-se com Fury Cutter e, depois, Rapid Spin! — comandou, calculista, o líder.

Firestarter foi o primeiro a movimentar-se, correndo para a frente com grande velocidade, mas sua agilidade e a curta distância não foram o suficiente para atingir o oponente. O Sandshrew repetiu a técnica que fora antes utilizada por Joltik, cruzando suas garras, que haviam tornado-se maiores e adquirido um brilho avermelhado, à frente de seu corpo. Dessa forma, conseguiu resistir ao golpe de corpo do cavalo sem receber muitos danos, apenas sendo ligeiramente empurrado para trás. Logo após, começou a rodopiar em alta velocidade, enrolando-se ao redor de seu corpo e chocando-se contra a lateral do cavalo de crinas flamejantes, lançando-o ao chão novamente. O Ponyta gemeu ao sentir o ar escapar de seus pulmões por um breve momento, enquanto a forte dor do impacto o invadia. Ferido e exaurido, o Ponyta permaneceu ao chão por alguns segundos, tentando estabilizar sua respiração e recuperar oxigênio, antes de utilizar suas forças finais para lutar para colocar-se de pé novamente, tentando inutilmente e caindo duas vezes antes de finalmente conseguir erguer-se sobre suas pernas trêmulas, apenas para retornar ao chão novamente.

— Fire! — a menina o chamou, preocupada. Respirava também com dificuldade, quase como se pudesse sentir a dor de seu Pokémon. A aflição ao ver seu companheiro exausto sobre o chão a desesperou, e ela teve o impulso de correr até ele apenas para certificar-se de que ele estava bem.

— Ponyta está ferido demais para continuar, a vitória é de Sandshrew! — anunciou Lydia, agitando a bandeira em direção ao tatuzinho.

Ao observar a equipe de enfermagem surgir novamente, colocando o cavalo sobre uma maca e levando-o para o local onde poderiam tratá-lo, Caroline sentiu uma certa culpa invadi-la; não fora capaz de ajudar Firestarter a se defender e, por sua causa, ele havia se ferido. Naquele momento, ficou receosa, perguntando-se se as batalhas realmente eram benéficas aos pokémons como estes diziam ser, repreendendo-se por não ter retornado o cavalo antes. Ao ver um último sorriso do Ponyta, que desaparecia junto aos enfermeiros, encheu-se de confiança novamente.

Ela iria vencer aquela batalha. Por Firestarter.

— Vamos lá, Leroy! — sem mais hesitar, a garota de cabelos negros lançou sua segunda pokébola para o alto, libertando a lontra alaranjada.

O Buizel abriu um sorriso determinado ao entrar em campo, fitando seu adversário. Ajeitou, estiloso, sua gravata borboleta preta, antes de acenar com a cabeça para sua treinadora, que retribuiu o gesto.

— Novamente, por favor, não pense que, só por ter escolhido um Pokémon do tipo Water, será fácil nos vencer. — exclamou o líder, revirando os olhos. Como Caroline gostaria de socá-lo.

— Leroy, Water Gun! — comandou a menina, ignorando a raiva que sentia para que pudesse se concentrar na batalha. Precisaria prestar atenção e pensar com clareza caso quisesse sair vitoriosa. E, após todo o esforço de Fire, ela não estava disposta a perder.

— Você ainda acha que ataques simples assim podem nos parar? — Benjamin bufou, incrédulo. — Newton, desvie e avance com Rapid Spin.

A lontra laranja respirou fundo, concentrando ao máximo seu poder para disparar um jato de água, que seguiu em direção ao Sandshrew. Este, porém, com sua grande agilidade, não teve dificuldades ao saltar para o lado e começar a girar em direção ao Buizel. De início, Leroy arregalou os olhos diante de tamanha velocidade, mas não precisou de um segundo comando para entender o que sua treinadora queria. Rapidamente, começou a girar, ainda executando o golpe, como fazia para criar seu escudo. Usando um pouco mais de força, porém, conseguiu que a água fosse mais longe, acertando o Sandshrew em seu movimento rápido e lançando-o para trás, sem que este tivesse chances de desviar.

— Isso mesmo, Leroy. — sussurrou a menina, feliz por seu companheiro ter entendido o que queria, recebendo como resposta um olhar orgulhoso do Buizel.

— Hm. Devo admitir, é uma estratégia interessante. — o rapaz ajeitou seus óculos novamente. Parecia fazê-lo ao ficar nervoso, embora não demonstrasse. — Mas agora que a conhecemos, não conseguirá surpreender-nos novamente. Newton, Defense Curl e Poison Sting! — comandou.

Obedecendo a seu treinador, o tatu enrolou-se em volta de seu próprio corpo, adquirindo momentaneamente uma coloração esbranquiçada, aumentando significativamente sua defesa. Ao erguer-se novamente, direcionou sua curta cauda para o oponente, eriçando-a, e assim disparando uma grande quantidade de espinhos envenenados contra o Buizel. Este pensou em defender-se com seu escudo de água, mas provavelmente não seria tão eficaz, visto que o golpe do Sandshrew provavelmente o atravessaria. Começou a desesperar-se ao perceber que não dispunha de muitas opções para salvar-se das agulhas disparadas pelo oponente, instintivamente correndo sem rumo, em uma tentativa de distanciar-se do ataque, ao menos momentaneamente, criando esperanças de que sua treinadora talvez o pudesse ajudar com um comando.

A menina, porém, parecia também estática. Não sabia o que fazer diante dos inúmeros espinhos; eram muitos para que Leroy desviasse de todos, e as táticas de defesa que havia trabalhado não funcionariam. Temeu que aquele pudesse ser o fim, e todo o seu esforço em vão, pois um envenenamento acabaria com a batalha quase imediatamente. Sentia suas esperanças se esvaírem, quando recebeu um olhar preocupado de Leroy, com medo de ser atingido pelos espinhos.

Aquele olhar a motivou a tentar algo.

Não abandonaria seu pokémon agora, não podia simplesmente assumir que tudo acabaria ali. Enchendo-se de determinação novamente, uma idéia nasceu na cabeça da garota. Poderia não conseguir criar uma defesa efetiva contra o golpe, ou mesmo desviar dele.

Mas podia pará-lo.

— Leroy, Sonic Boom, de encontro com o Poison Sting! — gritou a menina, o desespero perceptível em sua voz; aquela seria sua única chance de ajudar seu pokémon a se proteger e, caso falhasse, este passaria por uma terrível dor.

O mais rápido que conseguiu, a lontra laranja saltou, rodopiando no ar, cortando-o com suas duas caudas, que agora brilhavam intensamente, criando uma lâmina de energia branca que seguiu em direção aos espinhos. Com o choque dos golpes, uma pequena explosão ocorreu, lançando ambos os pokémons ao chão, com suspiros de surpresa e temor. Os dois estavam trêmulos, visivelmente cansados e arfando, mas ainda conseguindo reunir suas forças para colocar-se de pé. Eles encaravam um ao outro com um misto de fúria e determinação, demonstrando-se dispostos a vencer.

— Aqua Ring! — exclamou Caroline, sem dar ao líder a chance de proferir algo antes.

O Buizel abriu um sorriso fraco, grunhindo uma última vez com o cansaço que sentia. Respirando fundo, concentrou o restante de sua energia para criar anéis de água em volta de seu corpo. Estes o rodearam por um momento, curando ferimentos visíveis e restaurando parte de sua saúde. Logo após, dissiparam-se, e o sorriso casual voltara a iluminar seu rosto. Estava revigorado e preparado para terminar aquele combate.

— Já brincamos por tempo demais, não acha, Newton? — o líder encarou seu pokémon, e este assentiu. — Vamos finalizar logo isso. Dig.

Com suas fortes garras, o Sandshrew começou a cavar, em uma velocidade impressionante. Dentro de segundos, estava fora do campo de visão de Caroline, e em seu lugar havia uma fina cortina de poeira. Apreensivo por não saber a localização de seu oponente, Leroy movimentava sua cabeça de um lado para o outro, procurando-o, para que pudesse escapar de seu ataque.

Isso, porém, não foi possível.

Após alguns segundos de tensão, o tatuzinho emergiu, atingindo um golpe de corpo que impulsionou o Buizel para cima, com um gemido de dor. Parecia que havia levado um soco na boca do estômago, sentindo até mesmo falta de ar por um breve momento, fechando os olhos com força.

— Droga. — murmurou a garota de cabelos negros, aflita e preocupada com seu pokémon.

— Acompanhe-o e lance-o no chão. — exclamou, sem humor, o líder.

— Leroy, preciso que você se concentre! — pediu a menina, tentando ganhar a atenção de seu pokémon. — Use o Aqua Boom!

Benjamin arqueou uma das sobrancelhas ao ouvir o golpe que sua oponente comandara; aquele não era um ataque de verdade. Estava confuso, mas preferiu ignorar aquilo. A batalha já estava ganha, e não teria nada que ela pudesse fazer para reverter a situação. Ou, pelo menos, era o que sua personalidade egocêntrica lhe dizia.

Leroy esboçou um sorriso fraco, reabrindo seus olhos. Encarou o Sandshrew, que se encontrava logo abaixo, também no ar. Lutou para ignorar a dor que sentia, para que pudesse executar um último golpe e orgulhar sua treinadora. Começou a girar, ainda subindo, deixando Sandshrew confuso com o movimento. Em seguida, ambas as suas caudas adquiriram um brilho fraco e foram posteriormente envoltas por anéis de água. Com um movimento brusco, atingiu a cabeça de seu oponente com força, arrancando-lhe um gemido, deparando-se com seus olhos arregalados antes que esse fosse brutalmente lançado contra o chão arenoso, criando neste uma pequena cratera com o impacto e levantando poeira. O Buizel também desceu, em seguida, apoiando-se no chão com o auxílio de sua pata dianteira direita, visto que devido ao cansaço não tinha muito equilíbrio.

— Newton! — o rapaz exaltou-se pela primeira vez durante todo o combate, visivelmente preocupado com seu pokémon.

Então ele tinha sentimentos, afinal, pensou Caroline.

A poeira começou a dissipar-se, tornando possível enxergar a silhueta do pequeno tatu, que se esforçava para colocar-se de pé. Acabou falhando todas as vezes que tentou, porém, finalmente desistindo e deixando seu corpo descansar sobre o chão, gemendo devido ao cansaço físico e ferimentos.

— Sandshrew está fora de combate! — anunciou Lydia, por fim. — A vitória vai para Caroline, de Rainbow Valley! — agitou a bandeira verde em sua direção.

Caroline esboçava um sorriso alegre, os olhos brilhando em emoção. Por dentro, os sentimentos eram tantos que a consumiam por completo; orgulho, adrenalina, agitação, uma grande mistura que causava uma certa tontura na jovem, fazendo com que suas pernas tremessem. Voltou sua atenção para o Buizel que vinha em sua direção, abraçando-o com força.

— Nós conseguimos, Leroy! — ela exclamou, lágrimas de felicidade ameaçando rolar por sua face pálida.

A menina apenas o afastou de seus braços quando este gemeu, ainda incomodado pela dor que sentia. Havia alguns cortes superficiais em seus braços e uma pequena quantidade de hematomas. Caroline estava prestes a se desculpar por obrigá-lo a lutar, passando por tanta dor, quando este sorriu fraco. Embora estivesse ofegante, era visível em seus olhos negros a felicidade por ter batalhado e vencido. Mesmo com todo o sofrimento que lhe fora propiciado, era perceptível que em nenhum momento se arrependera do que fizera. Pelo contrário; orgulhava-se de trazer a vitória à sua treinadora, vingando seu parceiro ferido, além de animar-se pelo combate em si e toda a diversão e emoção do mesmo. A sede dos pokémons, em geral, por lutas, era algo que a garota de cabelos negros respeitava, mas jamais realmente entenderia.

Já se levantando da arquibancada, Amy e Alyss aplaudiam, comemorando a vitória da amiga. Caroline nunca percebera o quão importante e animador era ter o suporte de outras pessoas, que queriam vê-la suceder em cada um de seus objetivos. Estava acostumada a viver apenas com a mãe, crescendo com poucos amigos, visto que o local onde morava era muito distante de outras casas e cidades e, embora a mais velha sempre a encorajasse, ter amigos era uma situação até algumas semanas atrás desconhecida pela garota.

— Hm. Você não é tão ruim quanto aparenta. — murmurou o líder para a garota de cabelos negros, que nem ao menos havia notado sua aproximação. — Mas, se eu estivesse realmente disposto a ganhar, o faria; não se esqueça disso. — Sua mão direita estava estendida, e com ela segurava uma caixa, a qual Caroline apanhou ainda um pouco confusa. — Essas são a Insígnia da Defesa e o TM X-Scissor. Se usado com sabedoria, como eu demonstrei, ele pode ser desempenhar tanto função de defesa quanto de ataque.

— Obrigada. — exclamou a jovem, esforçando-se para sorrir. Mesmo após ter ganhado, ainda demonstrava certo desgosto pelo líder egocêntrico. — Eu posso ficar com o Fire? — indagou. Havia tentado minimizar sua preocupação com o companheiro durante a batalha para conseguir se focar mas, agora que vencera, mal podia esperar para falar para seu Ponyta sobre o quão orgulhosa estava.

— Claro. — ele assentiu, distanciando-se. — Lydia! — chamou e, como uma espécie de bicho de estimação, a secretária colocou-se ao seu lado. — Leve-a à Enfermaria.

A mulher de cabelos castanhos sorriu para Caroline, colocando a mão sobre seu ombro e conduzindo-a ao local onde poderia rever Firestarter. A sala, esculpida na parede dos subsolos, tinha uma aparência rudimentar, embora dispusesse de todos os medicamentos necessários para tratar os pokémons feridos. Ao observar sua treinadora aproximar-se, o cavalo sorriu; já não possuía mais arranhões ou hematomas por seu corpo e sua expressão parecia muito mais saudável.

— Vencemos, Fire. — a jovem informou, sorrindo incondicionalmente ao abraçar o Ponyta de crinas flamejantes. Estava tão feliz por vê-lo em boas condições novamente.

— Com licença, senhorita. — um dos enfermeiros, vestido em roupas completamente brancas, aproximou-se. — Gostaria que tratássemos seu Buizel também? — indagou, direcionando o olhar para a lontra laranja ao lado da menina.

— Sim, por favor. — ela assentiu e, após uma troca de olhares, deixou que Leroy fosse levado à uma espécie de cama, onde se sentou.

Quando ambos os pokémons estavam devidamente recuperados, as três garotas se reuniram novamente, sendo levadas até a saída do hotel na companhia de Lydia. Logo após, dirigiram-se ao estabelecimento onde estavam hospedadas, para descansarem um pouco e retornar ao centro comercial posteriormente.

Caroline não desmanchou seu sorriso durante o resto do dia. A sensação incrível que preenchera seu corpo desde que derrotara Benjamin era algo maravilhoso; nunca se sentira tão confiante e orgulhosa, tanto de si quanto de seus pokémons. Era quase como se fosse invencível, e nada agora poderia convencê-la do contrário. O perigo que sempre a rodeara por suas escolhas de vida, extremamente criticadas na atualidade, parecia não mais acompanhá-la, como se nunca, de fato, houvesse estado ali.

O mesmo podia ser dito de seus pokémons. Fire sentia-se imponente; mesmo tendo sido derrotado pelo Sandshrew, vencera Joltik, lutara bravamente e, o mais importante, sabia que dera tudo de si, e aquela era a melhor sensação de todas.

Leroy finalmente participara de uma batalha oficial e estava extremamente feliz por ter deixado sua nova treinadora orgulhosa. Além disso, aquela luta fora, de longe, a mais difícil de sua vida até então, nem ao menos podendo ser comparada àquelas que tinha na antiga floresta em que vivia. Esperava que Benjamin não fosse o último líder contra quem batalharia.

Até mesmo Augustus, que não passara muito tempo com a menina ainda, começara a depositar mais sua confiança nela. Não havia assistido à batalha, mas os relatos dos pokémons que participaram lhe foram o suficiente para convencê-lo de que, junto à garota, estaria seguro como já estivera um dia.

Nos dias seguintes, ocorreram as batalhas das outras duas jovens. Por já conhecerem parte das estratégias do líder, tiveram certo tempo a mais para treinar, o que as beneficiou. Porém, ainda encontraram certas dificuldades em seu combate, principalmente quando Benjamin fez uso de técnicas que não utilizara na batalha contra Caroline; Kairi ficara presa em uma teia criada por Joltik, o que a atrasou, mas felizmente não foi o suficiente para pará-la. Alyss, por outro lado, quase não conseguiu a insígnia. Não por falhar em seus planos ou ser pega de surpresa por algo que não fora capaz de resolver, mas sim por sua falta de paciência e submissão. Diferente de Caroline, a menina de cabelos azuis não aceitou de bom grado as críticas e pensamentos machistas do líder, principalmente quando este afirmara que não seria derrotado por mais uma garota fraca e incapaz. Não hesitou em, durante o combate, ordenar que Maiko atingisse o garoto com um golpe certeiro de sua concha, o que a Oshawott fez sem pestanejar. Benjamin ameaçou expulsá-la de seu Ginásio, obviamente sem a insígnia, e até mesmo reportá-la para que não pudesse participar de outras batalhas oficiais. No entanto, Lydia conseguiu acalmá-lo para que a batalha continuasse e, por fim, o rapaz acabou por conceder-lhe a prova de que lutara contra ele e vencera.

E, agora, finalmente chegara a hora do último evento importante em Striaton, depois do qual poderiam partir.

As três meninas retornavam, juntas, à Rota que utilizaram para chegar à cidade, cerca de duas semanas atrás. O caminho as deixara um pouco receosas devido aos últimos acontecimentos no local, principalmente Amy. Porém, logo se distanciaram da trilha, seguindo para o interior do grande bosque, virando-se para trás de tempos em tempos para certificarem-se de que não seriam seguidas, mais por precaução e hábito do que medo. Depois de alguns minutos, passaram a ouvir um certo burburinho, que começou a tornar-se mais alto à medida que avançavam em direção ao som, sendo aquela a única pista de que estavam no caminho certo. Após escalar um alto — porém não tão íngreme — morro, finalmente deparavam-se com a grande movimentação e, de onde estavam, possuíam uma vista privilegiada dos acontecimentos.

Algumas bandeiras triangulares de diversas cores eram penduradas por finos cabos de aço presos às pequenas árvores que rodeavam a clareira cercada de sutis elevações de relevo. O espaço era amplo, mesmo que estivesse preenchido por cerca de cem pessoas e pokémons que transitavam livremente, aguardando o início do evento. Em uma área mais ao norte, fora construído um palco de madeira simples, forrado por tapetes pretor, e logo atrás deste havia um pódio com as marcações de primeiro, segundo e terceiro lugar. Ao lado destes estava uma mesa forrada com uma toalha branca, em frente a qual estavam sentados dois homens de terno e uma mulher de vestido, provavelmente os jurados do concurso, cujo as feições e detalhes eram difíceis de ser observados devido à distância que as três garotas mantinham destes. No extremo oposto situava-se uma extensa mesa, oferecendo aos expectadores e participantes uma grande variedade de petiscos, como salgadinhos e doces.

Animadas pela organização do evento, Caroline e Amy rapidamente passaram a descer, com cuidado, o morro no alto do qual estavam. Alyss foi a última a fazê-lo, estando um pouco hesitante; afinal, aquela seria sua primeira vez apresentando-se, e embora houvesse pesquisado e perguntado muito sobre concursos, ainda sentia-se insegura. Porém, após ouvir o chamado das amigas, já na área mais baixa, abriu um sorriso leve e permitiu que parte do nervosismo se esvaísse enquanto foi ao seu encontro.

— Hm-hm, teste, teste. — soou uma voz, cujo a potência era amplificada pelo microfone. Após não muito procurar, perceberam que esta pertencia ao homem que ocupava a posição do meio na mesa de jurados. — Atenção, participantes e espectadores, estaremos dando início ao evento em dez minutos. Gostaríamos de pedir que os inscritos confirmassem sua presença aqui, na mesa. — ele deixou o aparelho de lado, acenando para que fosse facilmente visto, e logo uma fila começou a ser formar à sua frente.

— É melhor eu ir. — afirmou Alyss, mais para si mesma do que para as outras. Tentava não deixar sua insegurança transparecer, embora aquela fosse uma tarefa quase impossível.

— Boa sorte. — exclamaram as outras duas garotas, quase em uníssono, antes de observar a amiga sumir em meio à multidão.

A garota de cabelos azuis caminhou até o local instruído, parando no último lugar da fila, que andava depressa, com cerca de dez pessoas à sua frente. Quando chegara sua vez, apenas precisara riscar o seu nome na lista de participantes, notando que havia 15 coordenadores inscritos no evento, e sua apresentação seria a de número quatro. Engoliu em seco ao perceber que seria uma das primeiras a subir ao palco, mas fechou aos olhos dizendo para si mesma que tudo ficaria bem.

— Por favor, senhorita Skylean, aguarde junto aos outros atrás do palco. — exclamou um dos jurados, com um sorriso amigável em seu rosto.

Sem hesitar, a menina retirou-se, seguindo até o espaço onde deveria aguardar sua vez. Aparentemente, cerca de metade dos participantes já estavam ali, todos eles trocando palavras de incentivo com seus pokémons. Muitos dos monstrinhos de bolso estavam arrumados, utilizando acessórios únicos, e Alyss sentiu seu coração bater mais rápido quando se lembrou de que não trouxera qualquer tipo de adorno para sua Oshawott. De qualquer jeito, preferiu libertá-la, para que pudesse conversar com ela. Apanhou uma das pokébolas em sua mochila e, ao pressionar seu botão central, esta irradiou um feixe de luz branca, que logo tomou forma, revelando a lontra azul.

— Está pronta, Maiko? — indagou a jovem, com um sorriso nervoso em seu rosto.

— Estou sim! — afirmou a Oshawott, animada, retirando sua concha de seu bolso e movimentando-a no ar.

— Ótimo. — assentiu a garota, sentindo-se encorajada pela postura determinada de sua pokémon.

Então, um som agudo foi ouvido, conseguindo a atenção de todos os presentes. Sob o palco, estava um homem alto e jovem, de cabelos negros curtos direcionados para cima. Este vestia um terno e uma gravata borboleta, exibindo um sorriso irradiante. Ele segurava com firmeza o microfone.

— Sejam bem vindos todos! — ele começou, em um tom animado. — É muito bom tê-los aqui hoje, neste grande evento. Sem mais delongas, estaremos dando início ao décimo quarto Contest de Striaton! — uma salva de palmas foi ouvida antes de homem poder prosseguir. — Gostaria de chamar ao palco Justine Edwards e sua bela Glameow, Savanah!

Com isso, o apresentador retirou-se do palco, dando espaço à menina de cabelos castanhos ondulados, trajando um vestido violeta e salto alto, acompanhada de uma pokémon muito semelhante à uma gata, de pelos majoritariamente cinzas e uma longa cauda enrolada.

Diferente de Maiko, que observava atentamente os movimentos daqueles que se apresentavam antes, analisando-os e tentando aprender com eles ao máximo, Alyss não prestou muita atenção. Seus olhos estavam focados no palco, mas sua mente estava em outro lugar. De tanto nervosismo, chegava a estar paralisada; sua respiração estava ofegante e seus batimentos agitados. Ela tentava se confortar, dizendo para si mesma que havia treinado e se sairia bem, porém, ao mesmo tempo, como poderia estar preparada para vencer uma competição sobre a qual pouco sabia a respeito?

Mas não era sobre alcançar o primeiro lugar, era?

Não.

E, ao pensar naquilo, sua tensão esvaiu-se por completo. Ela não estava ali pela competição, mas sim pela diversão e para fortalecer seus laços com seus pokémons, para construir momentos dos quais se lembraria para sempre e, talvez, todos os outros participantes parecessem tão calmos por esse mesmo motivo. Não mais lhe faltava dinheiro, agora que trabalhava e conseguira uma quantia mais do que suficiente ao derrotar o Líder de Striaton, então sua colocação no torneio não lhe afetaria em absolutamente nada.

— Err, tudo bem, Alyss? — indagou a Oshawott, com uma de suas sobrancelhas arqueadas e um semblante confuso, virando-se para sua treinadora, que sorria incondicionalmente fitando o nada. Minutos atrás, ela não parecia tão séria e inquieta?

— Tudo ótimo. — respondeu a garota, observando o terceiro coordenador retirar-se do palco e levantou-se antes mesmo de ouvir o apresentador lhe chamar.

— Mais uma belíssima apresentação! — aplaudia o homem, junto ao resto da platéia. — Agora, por favor, recebam Alyss Skylean e sua Oshawott, Maiko!

A garota de incomuns cabelos azuis respirou fundo, subindo os poucos degraus que levariam ao palco de madeira. O chão parecia despreparado, mas mostrara-se forte o suficiente para agüentar os ataques dos participantes anteriores; ou, pelo menos, era isso que Alyss achava, já que não conseguira prestar muita atenção nas outras apresentações, de qualquer forma. Encarou a pequena multidão à sua frente com certo nervosismo; nunca sentira medo de palco, mas nunca tivera tantos olhares voltados à si e, de certa forma, não estava acostumada com a situação, principalmente por estar sempre escondendo-se de tudo e todos. Após analisar a platéia por alguns segundos, encontrou os sorrisos reconfortantes de Caroline e Amy, colocadas uma ao lado da outra um pouco mais à esquerda do tumulto. Sentiu-se mais segura e preparada, virando-se para sua Oshawott e observando a mesma assentir, determinada e confiante. De certa forma, a postura da Pokémon tranqüilizou-a; se Maiko, que seria o centro das atenções durante toda a apresentação, não estava tensa, por que ela deveria estar? Sem hesitar um minuto mais, deu um passo à frente.

— Maiko, vamos mostrar o que sabemos fazer. — sussurrou a menina, para que apenas a Oshawott escutasse, antes de aumentar seu tom de voz. — Water Pulse! — comandou.

A lontrinha azulada assentiu. Havia aprendido o movimento recentemente, porém, após treinar sua apresentação diversas vezes, estava segura e acreditava que poderia executá-lo com maestria. Concentrou-se, estufando o peito antes de lançar sua cabeça para cima bruscamente, fazendo com que sua franja de pontas azuis balançasse com o movimento. Desferiu ao ar uma primeira esfera constituída unicamente por água, esta sendo seguida por duas outras mais. Estava ciente do que deveria fazer, mas preferiu aguardar as ordens de sua treinadora, apenas para certificar-se de que estava no caminho certo.

— Night Slash! — proferiu a garota de cabelos azuis com orgulho.

Sem hesitar, Maiko sacou sua concha, estendendo-a acima de sua cabeça enquanto esta adquiria um brilho avermelhado. Quando a primeira esfera chocou-se com a espada rubra, a água dissipou-se para os lados, lançando gotículas sob a platéia. A luz fora refletida pelas moléculas, que agora caiam para todos os lados, criando a ilusão de que se apresentavam na cor vermelha cintilante, como purpurina. Um murmúrio de surpresa pôde ser ouvido da pequena multidão, que se mostrava curiosa para descobrir o que a garota tinha em mente.

— Air Slash e X-Scissor! — prosseguiu a jovem. Riu de leve ao pedir o último movimento, relembrando-se de sua batalha contra Benjamin, quando ganhou seu TM. Jamais pensou que realmente utilizaria algo que lhe fora entregue por um machista superficial.

Uma vez mais, a Oshawott assentiu, graciosamente saltando para o lado para que pudesse atingir a segunda esfera ainda no ar, com sua concha que agora passara a irradiar uma luz azulada. O processo anterior repetiu-se, agora com as pequenas gotículas da pulsação de água atingida possuindo uma coloração azul clara. Com um salto para trás, agilmente atingiu a terceira e última esfera que, devido ao golpe do tipo Bug, que estourou refletindo uma luz esverdeada. O resultado final foi uma combinação de pequenas moléculas de água de tonalidades verde, azul e vermelho caindo sobre a platéia, como uma grande chuva de purpurina.

Os olhos de Alyss brilharam e um sorriso enorme iluminou seu rosto quando a garota ouviu as exclamações de admiração e surpresa das pessoas que assistiam sua apresentação. Tudo estava dando certo até agora, e fora exatamente como planejado, senão melhor. Tornou sua atenção para a lontrinha azulada a sua frente, que exibia um sorriso tão brilhante quanto o seu próprio. Era um misto de felicidade e emoção, quase como aquele que se podia observar durante uma batalha, porém com uma pitada a mais de orgulho, e um pouco menos de fúria. Certamente gostariam de participar de outros Contests futuramente, e tinha certeza de que Maiko concordaria.

— Vamos finalizar. — a menina sussurrou, esperando sua pokémon assentir para que finalmente pudesse elevar novamente seu tom de voz, de modo a permitir que a platéia a ouvisse. — Water Gun!

Após tantos treinos, Maiko já havia memorizado completamente a sequência de golpes e como deveria realizá-los; por isso, ao ouvir o comando de sua treinadora, começou a girar, apontando sua cabeça para cima, antes de começar a disparar um jato de água não muito forte para cima, assemelhando-se à um chafariz.

— Night Slash, Air Slash, X-Scissor! — pediu a garota pela última vez, ainda sorrindo.

Sem cessar o atual movimento, a Oshawott apanhou novamente sua concha, posicionando-a verticalmente acima de sua boca, de modo a não interromper o fluxo da água que expelia, apenas desviando seu curso ligeiramente, de uma forma quase imperceptível. Em seguida, concentrou seu poder, fazendo com que o objeto em suas mãos adquirisse uma tonalidade avermelhada, que logo fora substituída por azul e, por fim, verde, como conseqüência da rápida passagem de um golpe para o outro. Essa era a parte mais difícil; conseguir alterar os movimentos agilmente, sem permitir que sua concha deixasse de brilhar por um momento que fosse, e tal feito exigia extremo foco. Felizmente, tudo parecia estar certo, e seu sucesso fora confirmado quando o efeito final esperado fora alcançado: as luzes multicoloridas dançavam nas águas, como um arco-íris refletido em um irrigador, assemelhando-se a um show de luzes. E parecia que, com o enorme sorriso de Alyss, as cores tornavam-se ainda mais intensas.

Ao fim do belo espetáculo, a platéia não hesitou ao bater palmas e assoviar, fazendo uma arruaça e emitindo sons irreconhecíveis, glorificando a menina e sua pokémon. E, agora, a jovem de cabelos azuis não mais sentia qualquer tipo de emoção ruim; apenas felicidade e orgulho, tanto de si quanto de Maiko. A lontrinha, por sua vez, exibia um sorriso quase tão grande quanto o da treinadora; inicialmente, não acreditava que torneios poderiam ser tão emocionantes, mas sua opinião sobre as magníficas apresentações certamente havia mudado. Estar no palco, no centro dos olhares, os sentimentos que a invadiam ao movimentar-se; era tudo muito semelhante à uma batalha, porém, ninguém se feria.

Após alguns segundos, a Oshawott recolheu sua concha, cessando seu movimento e, ao alinhar-se junto à Alyss, fez uma pequena reverência, antes de virar-se de costas e descer as poucas escadas, seguindo em direção às outras duas garotas que lhes acompanhavam. Recebeu um sorriso caloroso do apresentador, que tomou seu lugar ao centro para anunciar a participante seguinte e elogiar as belas combinações da jovem de cabelos azuis e sua pokémon.

A menina tentou abrir caminho por entre as pessoas que assistiam a apresentação seguinte, as quais lhe lançavam olhares reconfortantes, e estava estampado em seu rosto que a apresentação de Maiko lhes havia agradado. Não demorou muito para chegar à Caroline e Amy, que possuíam expressões surpresas e entusiasmadas. Olhando ao redor, percebeu que as amigas haviam liberto seus pokémons também; Firestarter e Leroy localizavam-se ao lado da mesa de guloseimas, e o Ponyta parecia bronquear a lontra laranja que teimava em tentar colocar comida demais em sua boca. Conseguiu até mesmo localizar Augustus, o novo membro do time da garota de cabelos negros, socializando-se com os outros pokémons. Já Kairi treinava alguns golpes de luta junto à Donner, seu mais recente companheiro de time; o lagarto amarelo certamente era ágil, esquivando-se da maioria dos ataques da Riolu.

— Você foi incrível, Alyss! — Amy foi a primeira a fazer um comentário, aproximando-se da amiga e apertando suas mãos em um gesto de incentivo.

— É verdade. Os movimentos de Maiko foram muito bem pensados, melhores até mesmo do que muitos outros dos pokémons que se apresentaram. — a garota de cabelos negros afirmou, participando da conversa.

Nenhuma das duas, nem ao menos seus pokémons, haviam visto os treinos da apresentação da Oshawott, seja por estarem concentradas demais em seu próprio treinamento ou por deixar o Dreamyard mais cedo para visitar o Mercado Negro ou simplesmente passear pela cidade, portanto, tudo o que haviam visto minutos antes no palco fora uma grande surpresa. Também não esperavam que a jovem de cabelos azuis, com pouca experiência, pudesse se destacar entre os outros participantes; nem mesmo a própria Alyss acreditava que o havia feito. Porém, após muito esforço e treino, ela havia conseguido.

— Muito obrigada. — a garota respondeu, com um enorme sorriso brilhando em seu rosto. Em seguida, virou sua atenção para Maiko, que parecia também incrivelmente alegre e orgulhosa, relatando tudo o que fizera para Leroy, como se este não estivesse presente no momento em que se apresentara.

As três continuaram a conversar, ocasionalmente observando uma ou outra apresentação que se mostrava mais interessante do que a maioria das outras. O sol começava a se pôr, conferindo ao céu antes azul uma coloração violeta mesclada com laranja, conseqüência do crepúsculo. Podiam-se observar também algumas estrelas tentarem ofuscar o brilho dourado do sol, que começava a esconder-se atrás de alguns morros no horizonte. Aquela tarde havia sido especialmente agradável, principalmente para Alyss. Era comum para as três, porém, que tudo estava melhor do que o esperado; haviam ganho sua primeira insígnia e superado diversos obstáculos e, naquele momento, sentiam-se invencíveis, como se já fossem fortes o suficiente para destruir qualquer um em seu caminho. Porém, longe de todas as preocupações, nem ao menos se lembravam de seu atual objetivo de derrotar o governo e libertar os pokémons, para que o mundo voltasse a ser como antes; afinal, sentiam-se livres. Era como se nada pudesse detê-las, muito menos derrubá-las.

Após cerca de vinte minutos e diversas outras apresentações, de pokémons dos mais variados tipos e habilidades, finalmente chegara a hora de anunciar os três primeiros colocados, momento pelo qual Alyss ansiava. O apresentador retornou ao palco, após passar algum tempo na mesa dos jurados, carregando um pequeno envelope em suas mãos. Ele pediu por silêncio e, ao observar a platéia se calar educadamente, prosseguiu:

— Participantes e espectadores, — ele começou, com um grande sorriso em seu rosto, segurando com firmeza o microfone — Após todas as belíssimas apresentações, nosso querido júri discutiu até chegar a uma conclusão final. — todos os presentes permaneceram em silêncio, aflitos. — Sem mais delongas, estes são os vencedores desta tarde! — o homem abriu lentamente o envelope, criando suspense.

— Boa sorte. — Amy suspirou baixinho para a garota de cabelos azuis ao seu lado, e esta apenas retribuiu com um sorriso nervoso. Sua perna direita tremia, algo que somente ocorria em seus maiores momentos de tensão..

— Em primeiro lugar, Janette Johnson e Mia, sua Pachirisu! — o apresentador aplaudiu, e logo a platéia fez o mesmo.

No meio da multidão, uma loira de cabelos ondulados levou as mãos ao rosto enquanto lágrimas de felicidade ameaçavam rolar por seu rosto. Em seu ombro, estava um pokémon muito semelhante a um esquilo, de corpo majoritariamente branco, exceto por suas orelhas triangulares pontudas e uma listra que descia do topo de sua cabeça a ponta de sua cauda, na cor azul, possuindo também dois círculos amarelos em sua bochecha e um longa franja que caía como uma onda sobre um de seus olhos violeta. Ela vestia um laço turquesa quase desproporcional ao seu tamanho envolta do pescoço, que combinava com o vestido perolado de sua treinadora. Juntas, elas fizeram seu caminho até o palco, sorrindo incondicionalmente e agradecendo.

— E, em segundo lugar, Caesar Magnus e seu Zorua Shiny, Dark! — o homem chamou ao palco o segundo vencedor.

O garoto parecia muito menos simpático do que a jovem que obtivera o primeiro lugar, aparentando até mesmo estar com raiva por não ter sido o campeão. Possuía cabelos negros bagunçados e uma pele extremamente clara, como se nunca houvesse visto o sol, um grande contraste com suas vestes pretas. Ele parecia ter explorado um lado menos extravagante de sua forma de se vestir, diferente de Janette, mostrando-se incrivelmente formal e nada chamativo. Em seu colo estava uma espécie de raposa negra, com suas patas, ponta da cauda e um topete de um tom azulado. Seus olhos eram vermelhos como sangue, e o direito era cortado por uma cicatriz. Os dois caminharam até o pódio improvisado no palco, sem demonstrar qualquer tipo de emoção, o que desencorajou a platéia a continuar aplaudindo após certo tempo.

Àquela altura, Alyss já perdia suas esperanças. Havia feito um bom trabalho com Maiko e disso estava ciente; porém, seria aquilo o suficiente? Muitos outros participantes haviam preparado uma ótima combinação de movimentos, e a garota de cabelos azuis começava a achar que talvez não fosse páreo para os outros concorrentes. Ela se sentia levemente desapontada, embora não entendesse o porquê. Seu objetivo nunca fora vencer; não precisava do dinheiro que lhe seria fornecido pelos organizadores do Contest, e havia sido muito divertido apresentar-se junto à Maiko. Quando começou a pensar por aquele lado, sua tensão e tristeza se esvaíram por completo; treinar com sua Oshawott havia fortalecido os seus laços, de fato, e as duas estavam já muito próximas, mesmo que não estivessem juntas nem por um mês. Independente do resultado final, ela estava alegre por ter participado.

— E, em terceiro lugar, temos... — novamente, o apresentador fez uma pequena pausa, aumentando o suspense intencionalmente, antes de finalmente continuar: — Alyss Skylean e Maiko, a Oshawott!

Ao ouvir o nome da última colocada, a platéia tornou a aplaudir e assoviar, comemorando de um jeito barulhento. Para Alyss, porém, estava tudo silencioso, como se o tempo houvesse parado. Seus olhos se arregalaram e ela precisou piscar algumas vezes para assimilar que, mesmo não conquistando o primeiro lugar, havia sido julgada uma das três melhores participantes. Ela realmente estava perplexa; não acreditava que pudesse conseguir algo logo em sua primeira apresentação, mas parecia que havia sucedido, enfim. A garota de cabelos azuis precisou de um leve empurrão das amigas para retornar à realidade, caminhando inexpressiva ao lado de uma Maiko incondicionalmente feliz, atravessando a multidão que, novamente, fixava seu olhar na garota. Muitas das pessoas elogiavam-na, congratulando-a, embora Alyss mal fosse capaz de entender o que acontecia.

A jovem apenas deu por si quando finalmente encontrava-se em sua posição no pódio, com sua Oshawott alegre a seus pés, movimentando sua concha que deixava um rastro de luz, cada vez de uma cor diferente. Naquele momento, Alyss assimilou o que ocorria, e não pode evitar o sorriso que se formou em seu rosto, observando os rostos felizes dos espectadores admirados a sua frente, enquanto era banhada por confetes de diversas cores, bem como os outros dois colocados. O apresentador parabenizou-a, como fez com os outros, entregando-lhe uma fita azul de listras brancas e uma pequena quantia em dinheiro; cerca de cem dólares, mas a garota estava alegre demais para conferir.

Um pouco mais afastadas da aglomeração de pessoas barulhentas, Amy e Caroline também comemoravam a quase vitória da amiga, batendo palmas e sorrindo, observando o apresentador agachar-se à frente do pódio para capturar uma foto dos vencedores ao lado dos juízes. Mesmo tendo passado pouco tempo juntas, as três já haviam criado um certo laço; talvez devido às situações complicadas que tiveram de enfrentar juntas, ou pelo simples fato de terem percebido que a união as fazia, de fato, mais fortes.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

Próximos às duas garotas, seus pokémons continuavam a conversar, fitando o palco ocasionalmente para manter-se informados sobre o que ocorria. Após um desafio, agora Kairi treinava junto à Leroy, enquanto Donner ficava apenas observando; ele parecia não se dar muito bem com os outros pokémons, e Firestarter preferia não perturbá-lo. A doninha laranja parecia ter certa dificuldade acompanhando a sequência de golpes da lobinha azul, devido a sua variedade de golpes diretos e grande agilidade. Ele arfava, lutando para não ser atingido, mas não iria desistir.

— Eu disse... Que não conseguiria... Me vencer! — dizia o Buizel, entre chutes e socos, fazendo pausas para respirar.

— Ora, seu... — a Riolu rosnava, visivelmente irritada. — Eu posso te vencer a qualquer hora! — afirmou, aumentando a velocidade das sequências, ignorando momentaneamente seu cansaço.

Ao observar Kairi rodopiar para acertar-lhe um chute giratório, Leroy viu como sua única escapatória agarrar a perna da pokémon com sua cauda de duas pontas. Daquele modo, conseguiu derrubá-la; porém, por ser muito desastrado, acabou tropeçando em seu próprio pé, por perder estabilidade ao mover bruscamente sua cauda, que lhe garantia estabilidade, e caiu sobre a loba.

De imediato, Kairi arregalou os olhos e seu coração pareceu começar a bater mais rápido. Suas bochechas ficaram levemente rosadas, demonstrando que estava constrangida com a situação. Leroy, por outro lado, após perder o ar por breves milésimos de segundo, rapidamente teve sua expressão surpresa tomada por um sorriso brincalhão, o que não pareceu agradar muito a Riolu.

— Eu disse. — o Buizel afirmou uma vez mais. — Não consegue me vencer.

Kairi foi tomada por uma raiva imediatamente, desconfortável pelo peso do pokémon sobre si, e não hesitou em empurrá-lo brutamente para o lado.

— Saia de cima de mim! — ela gritou, rosnando. — Eu vou acabar com você agora! — proferiu, levantando o seu punho uma vez mais e finalmente acertando um soco no rosto do Buizel, que ficou um pouco zonzo e momentaneamente desorientado.

— Ei ei, gente, já chega! — Fire aproximou-se, tentando evitar que um desastre acontecesse, ao perceber que Kairi parecia pronta para continuar a atacar o pokémon caído.

— Ele que se jogou em cima de mim! — reclamou a Riolu. — Controle seu companheiro de time! — exclamou, irritada.

— O que? Você que estava tentando me assassinar e... — defendeu-se a lontra laranja, ajeitando a gravata negra em seu pescoço e tirando a poeira de seu corpo ao seu levantar. Estava prestes a continuar seus argumentos, quando foi interrompido pelo Ponyta.

— Quietos! — o cavalo pediu, girando suas orelhas de um lado para o outro.

— O que houve? — perguntou o gatinho assustado, escondendo-se atrás das patas do Ponyta, mas ele não recebeu uma resposta.

Leroy não estava acostumado com tal grosseria por parte do companheiro, mas conhecia a mudança de postura de Fire e não hesitou em calar-se, como lhe fora pedido. Kairi fez o mesmo, meio à contragosto, mais por curiosidade do que por mostrar-se submissa.

Ao longe, o Ponyta Shiny encontrara algo curioso, após ouvir alguns sons de estalo e de corte de ligação de rádio. Com ajuda de sua audição aguçada, não demorou para deparar-se com a origem dos sons; ao topo de um dos baixos morros que cercavam a clareira, visualmente protegida por uma muita próxima a uma árvore, estava uma mulher peculiar. Esta se vestia completamente de preto, incluindo um gorro que vestia em sua cabeça. Possuia pele clara e cabelos dourados, presos em uma trança. No entanto, o que mais chamou a atenção do cavalo fora o objeto que a mulher carregava; ele parecia familiar, mas não conseguia se lembrar corretamente onde o vira – apenas sabia que não era algo bom. E, preocupado, seguiu a linha invisível, encontrando para o que o fino e longo cano preto entre as mãos da mulher apontava.

Caroline.

— Care! — o cavalo não precisou pensar duas vezes antes de correr em direção à sua treinadora.

— Fire? — a menina virou-se calmamente, estranhando o comportamento do companheiro.

Então, um alto barulho foi ouvido e a garota de cabelos negros finalmente compreendeu do que se tratava. Virou-se para a frente, arregalando os olhos ao deparar-se com uma bala voando em sua direção. Fechou os olhos instintivamente, nem ao menos tendo tempo para ficar com medo, apenas sentindo seu coração parar de bater, e esperou que sua rápida morte chegasse.

Mas ela não chegou.

Assustada, a jovem pensou que pudesse estar apenas delirando. Porém, ao reabrir seus olhos, percebeu que, certamente, tudo era real. Aos seus pés, encontrou uma trilha de líquido vermelho vivo e, ao segui-la com os olhos, deparou-se com seu melhor amigo caído, e só então percebeu de onde o sangue escorria.

E desesperou-se.

Notas finais
Desculpem pelo cliffhanger ending, eh. Então, o que acharam da batalha e do contest? Me avisem se faltou algo, quero melhorar quanto a descrição de batalhas e, principalmente, apresentações, já que sou nova com isso~ Até o próximo capítulo! o/