Pokémon Nuzlocke: Heaven & Hell
7 Capítulo 6 - Dreamyard
Notas iniciais
Caroline fitou o visor do aparelho por alguns segundos antes de finalmente atender a ligação de seu X-Trasceiver. Soltou um suspiro desapontado ao fazê-lo; esperava que fosse a amiga desaparecida.
– Juniper? – a jovem de cabelos negros indagou, sem nem ao menos esforçar-se para esconder o desalento em sua voz. Em qualquer outra situação, animaria-se de imediato com as informações que a Professora poderia trazer; no momento, porém, a preocupação ocupara a maior parte de seu corpo, impedindo que outras emoções menos importantes se manifestassem.
– Olá, Caroline. – a mulher de peculiares cabelos roxos pareceu perceber o desapontamento da menina, a julgar por seu sorriso desmanchado, mas optou por não fazer perguntas. – Tenho algumas informações sobre a cidade de Striaton. Estava esperando vocês chegaram para passá-las à vocês. – Juniper fez uma pausa, agurdando por qualquer sinal de interesse, animação ou mesmo curiosidade que pudesse ser despertado na jovem, mas isso não ocorreu, forçando-a limpar a garganta e continuar. – Há um Ginásio ilegal nesta cidade, localizado no subsolo de um hotel. Vocês podem se inscrever para batalhar contra o líder e conseguir outras informações no Mercado Negro. – a mulher afirmou, recebendo como resposta um aceno de cabeça da garota de cabelos negros. Mexendo em alguns papéis, seguiu. – E vocês chegaram à tempo de participar do Contest, que ocorrerá dentro de três semanas. A localização do evento, porém, ainda não é conhecida.
A menina permitiu-se ser invadida por uma certa animação ao ser informada sobre os eventos, embora não deixasse-a transparecer. Não possuía grande interesse em participar de apresentações onde seu objetivo seria demonstrar a beleza de seus pokémons, mesmo que gostasse da iniciativa de tais, mas a idéia de ter uma batalha contra um líder de ginásio experiente lhe fez abrir um leve sorriso. Ao sair de casa, detestava essas lutas que forçassem as criaturinhas a se ferir; não conseguia compreender seu objetivo e as enxergava como formas de egoísmo do homem, o mesmo egoísmo que levara ao início da guerra que separara as duas raças. Agora, porém, após assistir algumas batalhas, e até mesmo ter a chance de confrontar outro treinador ela própria, percebia que esses combates amistosos eram prazerosos tanto para Pokémon quanto para Treinador, além de fortalecer a relação entre ambos. Caso Leroy e Firestarter concordassem, certamente gostaria de passar pelo ginásio de Striaton. Algumas perguntas, porém, ainda cruzavam sua mente, forçando a garota a franzir.
– Mas não tivemos muito tempo ou espaço para treinar ultimamente. – era realmente difícil encontrar uma localização segura e ampla o suficiente para libertar seus pokémons e ajudá-los a aprimorarem suas habilidades. – Não acho que estejamos prontas para derrotar um Líder. – afirmou.
– Sim. – um sorriso brilhante abriu-se no rosto da mulher, como se aquela pergunta fosse esperada. – É por isso que fiz algumas pesquisas e enviei alguns de meus aliados à Striaton algum tempo atrás para que fizessem um reconhecimento da cidade. E eles acharam o lugar perfeito para treinamentos. – Juniper, até então sentada em sua mesa, pareceu levantar-se, inda até uma bancada próxima para puxar alguns papéis. – O local é conhecido como Dreamyard. Costumava ser um antigo centro de pesquisas Pokémon, porém, com a guerra, a área foi fechada e tornou-se completamente abandonada. Pode estar em ruínas, mas fornece o espaço e segurança necessário a seus companheiros.
– Tem certeza de que é seguro? – indagou a menina, arqueando uma das sobrancelhas. Se o local era utilizado por treinadores ilegais, como poderia não ter sido descoberto pelo Governo ainda?
– Absoluta. – afirmou a Professora, ajeitando seus óculos. – Meus pesquisadores acamparam nessas ruínas por exatos dezesseis dias, e não foram abordados por sequer uma sombra durante o período. Talvez até mesmo encontrem alguns pokémons por lá que possam lhes ajudar durante sua jornada.
– Tudo bem, obrigada. – a jovem abriu um leve sorriso, tentando sem sucesso esconder a ansiedade que sentia para visitar o tal Dreamyard. – Você já avisou as outras? – indagou.
– Bem, já informei Alyss, mas não consigo contatar Amy. – sua expressão era confusa, como se não entendesse o por quê da outra não responder a suas chamadas. – Será que vocês poderiam falar com ela?
– Claro. – respondeu a menina de cabelos negros, sem muito pensar. Não queria falar sobre o desaparecimento da terceira jovem para não deixar a Professora também preocupada; a avisaria apenas caso Amy não retornasse nas próximas horas. E ao perceber que Alyss também não comentara sobre isso, julgou mesmo ser melhor não fazê-lo. Apenas despediu-se, apertando o botão no centro do relógio vermelho para encerrar a chamada e, ao fazê-lo, não hesitou em tentar ligar para a menina de cabelos castanhos novamente, sem sucesso.
Jamais pensara que pudesse ter tamanha preocupação por alguém que mal conhecera. Talvez isso ocorresse pelo fato de ter finalmente encontrado pessoas com quem pudesse se relacionar, que possuíssem os mesmos objetivos e idéias que ela. E o fato de que o tempo seria o único fator capaz de lhe trazer respostas sobre a amiga perdida, e que nada poderia fazer além de esperar, apenas a irritava ainda mais. Caroline nunca gostara de sentar e observar; ela preferia fazer. No caso, porém, não havia nada a ser feito. Não ter o poder de mudança em suas mãos; aquilo a enlouquecia.
Ao deitar-se na cama, soltando um longo suspiro, deparou-se com sua mochila de viagem preta semi-aberta ao seu lado, logo lembrando-se de seus dois pokémons. Estes com certeza gostariam de ser libertados novamente. Estendeu as mãos preguiçosamente em direção ao objeto, retirando de lá os dois dispositivos esféricos que possuía. Quando os botões centrais de ambos foram pressionados, estes irradiaram um feixe de luz branca que logo tomou forma, revelando o Buizel e o Ponyta a sua frente.
Firestarter, como sempre, apenas aproximou-se da treinadora, deixando-se ser acariciado por ela. Leroy, embora um pouco mais familiar com o ambiente, não deixava de movimentar-se rapidamente pelo espaço, buscando coisas novas. E não demorou muito para encontrar o controle da televisão.
– Wow, essa caixa é ainda maior do que a outra! – a lontra laranja vibrou, jogando-se na cama ao apertar o botão do controle, que fez com que o aparelho ligasse, apresentando um desenho infantil. Como era o nome dele mesmo? Bob Calça Quadrada? A menina não fez muito esforço para recordar-se.
– Não é uma caixa, é uma televisão. – o Ponyta shiny bufou, revirando os olhos e gargalhando levemente. Logo depois tornou sua atenção para Caroline, surpreendendo-se por não ouvir esta rir. E não demorou muito para perceber que algo a incomodava.
– Algo errado, Care? – indagou, arqueando uma das sobrancelhas.
– Quando nos separamos na Rota, não conseguimos mais encontrar Amy. – a jovem de cabelos negros fez uma pausa, suspirando. – E não conseguimos falar com ela ainda.
– Ela deve estar bem. Talvez só um pouco perdida. – respondeu o Pokémon, com um sorriso reconfortante em seu rosto. No fundo, porém, não tinha tanta certeza de suas próprias palavras; quando foram atacados na floresta, poderiam ter se machucado. Diferente de Caroline, que contava com a ajuda dele e de Leroy, Amy tinha apenas Kairi.
– Espero que sim. – suspirou novamente a menina, acomodando-se contra o travesseiro
– Ela está bem, vamos assistir ao programa dessa coisa amarela para nos distrair. – sugeriu o Buizel, logo após soltando uma breve risada ao ver Bob Esponja cair sobre um recife de corais. E, dessa vez, Caroline juntou-se à ele. Não por achar o acontecimento realmente divertido, mas sim por deixar parte da preocupação esvair de seu corpo.
Alguns minutos mais de programas infantis se passaram. A garota de cabelos negros finalmente começava a se distrair e perceber quanta sorte tinha por ter seus pokémons a seu lado, e naquele momento não arrependia-se de ter arriscado tudo o que tinha para sair em jornada. Afinal, se não o tivesse feito, jamais haveria conhecido Leroy, tampouco teria a chance de experienciar uma real batalha. Esquecera-se completamente da terrível ameaça e demonstração de poder do governo ao assassinar um homem e seu parceiro, já não mais lembrava-se de todos os riscos que corria toda vez que saía pela porta. Pelo menos, assim era enquanto descansava no quarto com seus amigos.
A calmaria, porém, fora interrompida por um som agudo, o qual fora rapidamente reconhecido pela menina; o X-Transceiver. Levou seu pulso à frente do rosto, e novamente desapontou-se ao ver que não era Amy.
– Olá, Alyss. – ela tentou sorrir ao ver o rosto da garota de peculiares cabelos azuis na tela do relógio, mas logo arqueou uma sobrancelha ao perceber sua expressão. – O que houve? – indagou, a preocupação novamente invadindo-a.
– Amy chegou no hotel. – informou a outra, apenas deixando Caroline ainda mais confusa; aquilo não deveria ser algo bom? – Kairi está muito ferida. Encontre-nos no quarto 506. – pediu, respondendo a pergunta que estava na mente da outra antes de desligar.
Por alguns segundos, a menina de cabelos negros apenas fitou a tela do dispositivo, sem expressão alguma. Ainda digeria as informações que recebera segundos atrás, processando-as. E, então, lembrou-se de que precisava ajudar a amiga e sua Pokémon.
Caroline levantou-se apressadamente, surpreendendo ambos os seus pokémons. Deu-lhes uma breve explicação do ocorrido, retornando-os ás suas respectivas pokébolas e guardando-os em sua mochila de viagem, onde estariam seguros, antes de pendurá-la em seu ombro direito. Em meio à correria, deixou a televisão ligada, apenas lembrando-se de levar consigo as chaves do quarto, trancando-o devidamente para que ninguém pudesse entrar ali. Desceu as escadas apressadamente até o quinto andar, encontrando o quarto citado por Alyss sem muitas dificuldades. Não demorou mais do que alguns segundos até que a menina que havia lhe chamado minutos atrás abrisse a porta, a expressão preocupada ainda no rosto.
Ao entrar, a garota de cabelos negros deparou-se com a loba azul deitada na cama, seu corpo coberto por cortes de tamanhos diferentes. Respirava com dificuldade e mantinha seus olhos fechados, apenas movimentando as orelhas ao ouvir a porta se fechar. Ao seu lado, estava uma garota de cabelos castanhos bagunçados e despenteados, assemelhando-se a um verdadeiro ninho, cujos braços apresentavam pequenos cortes avermelhados. O casaco bege que vestia, assim como sua saia e meias negras, apresentavam alguns rasgos sutis. Caroline sentiu o ar escapar-lhe ao perceber que aquela garota, que mais lembrava um morador de rua, era Amy. Ela estava irreconhecível.
– O que... aconteceu? – perguntou a menina de cabelos negros, os olhos arregalados e o a voz quase inaudível, enquanto aproximava-se da cama. Ao fazê-lo, fora surpreendida por um pequeno lagarto amarelo, que logo posicionou-se defensivamente a frente de Kairi. Quem era aquele?
– Está tudo bem, Donner. – suspirou a garota, com um olhar cansado, fazendo o Pokémon assentir e afastar-se.
– Amy e Kairi também foram atacadas na floresta... Mas eram muitos. Kairi ficou bastante ferida. – explicou a menina de incomuns olhos roxos, aproximando-se também da loba e da amiga. – Parece que esse Helioptile salvou-as e ajudou-as a encontrar a saída da rota. Ele as acompanhou até aqui.
E, naquele momento, Caroline percebeu o quão sortuda havia sido por nenhum de seus pokémons, nem mesmo ela, terem saído feridos da batalha. Infelizmente, parecia que a amiga não compartilhara da mesma sorte. Sentiu novamente os medos e preocupações invadindo-a, a dúvida sobre sua jornada e seu futuro. Seria aquilo, realmente, o melhor a se fazer? Se mal podiam se defender de pokémons selvagens, como derrotariam homens armados e treinados? Era tudo tão arriscado. Não estava mais segura em lugar algum; nas cidades, corria o risco de ser descoberta por outras pessoas e, nas florestas, até mesmo as criaturas que defendia a queriam morta. Aquele sentimento terrível que tentara afastar desde o momento em que saíra de casa parecia voltar para assombrá-la sempre que as coisas pareciam melhorar.
Tentou reprimir as emoções e perguntas para concentrar-se no que realmente era importante: ajudar Kairi. Vasculhou sua mochila, buscando por um frasco que continha um líquido com propriedades curadoras; uma poção. Ao encontrá-la, estendeu-a em direção à Riolu, olhando para a garota de cabelos castanhos e aguardando seu consentimento. Quando esta assentiu, borrifou o spray cuidadosamente sobre os ferimentos da Pokémon, que grunhia ao tentar reprimir a dor. Em seguida, Maiko entregou um rolo de ataduras para Alyss – nem ao menos havia percebido a presença da Oshawott até então, mas agora lembrara-se de que esta era irmã da loba azul e, aparentemente, estava muito preocupada.
Por fim, todos os machucados da Riolu haviam sido tratados e grande parte de seus braços e pernas era coberta por faixas. Ela agora parecia melhor, talvez um pouco de descanso fosse apenas o suficiente para que se sentisse renovada. Logo após, Alyss e Caroline ofereceram-se para ajudar a terceira garota a cuidar dos cortes que haviam sido abertos ao longo de seu corpo pelo forte bico dos pássaros da rota abandonada.
– Ela ficará bem. – exclamou a menina de cabelos azuis, sorrindo reconfortantemente para Amy, que retribuiu o sorriso.
– É, minha irmã pode ser mais fraca do que eu, mas também é dura na queda. – riu a Oshawott.
– ... Cala a boca. – resmungou Kairi e, embora tentasse esboçar uma expressão irritado, não conseguia esconder um pequeno sorriso que se formava no canto de seu rosto.
– Obrigada, gente. – sorriu a menina de cabelos castanhos. Após trocar de roupa, lavar os ferimentos e pentear os cabelos, parecia renovada. – Eu não quero nem saber o que haveria acontecido conosco sem a sua ajuda. E, claro, a ajuda de Donner.
O lagarto sorriu, genuinamente feliz pela rápida recuperação da menina e de sua Pokémon. A história daquele Helioptile ainda intrigava Caroline; ela realmente gostaria de saber o que ocorrera após a separação da três, e não importava-se em ser intrusiva.
– Hm, Amy. – chamou a garota por fim, fazendo com que a outra se virasse para ela. – Quem é esse? – esticou o dedo indicador, apontando para o lagarto amarelo.
– Ah, esse é Donner. – apresentou-o, chamando-o para deitar-se em seu colo, e este logo aceitou o convite. – Ele apareceu quando estávamos sendo atacadas por quatro pokémons pássaro, e simplesmente salvou a gente. – sorriu para o pequenino, que agora já estava quase adormecido. – Ele também nos trouxe de volta para a trilha. Disse que viveu na rota por um bom tempo e conhecia a área. Graças à ele conseguimos chegar aqui e procurar ajuda.
– Hm. – sorriu a menina de cabelos azuis, virando-se para a de cabelos castanhos ondulados. – Então ele faz parte de seu time agora?
– ... Time? – a garota hesitou. Não havia realmente convidado o Pokémon a seguir com ela, ele simplesmente o fizera. Havia se escondido em sua mochila para não ser visto por outros no caminho, mas nem ao menos havia sido apresentado à uma pokébola. Subitamente, o lagartinho elevou a cabeça para que pudesse fitar a jovem com um brilho em seus olhos. Apenas assentiu, sem nada dizer.
Um pouco hesitante, Amy afastou algumas coisas dentro de sua mochila para encontrar o que queria. Retirou um dos cinco dispositivos vermelho e branco que ainda possuía, mostrando-o ao Helioptile. Esse sorriu para a nova treinadora uma última vez antes de pressionar o botão central da esfera com ambas as suas patinhas, sendo envolto por uma luz avermelhada e sugado para dentro da mesma.
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A mistura de conversas, gritos de vendedores tentando anunciar seus produtos, comandos feitos por treinadores; todos esses sons e outros contribuíam para o grande barulho dentro do estabelecimento. O Mercado Negro de Striaton era muito semelhante ao de Accumula, embora um pouco mais amplo e, talvez devido à hora, abrigava menos de cem pessoas. Possuía ainda mais guichês e barracas, em sua maioria feitos de madeira, onde eram dispostos os mais variados produtos. Na extremidade leste do estabelecimento ilegal, estava localizado um campo de batalhas sutilmente mais preparado do que o da cidade anterior, e a mesma multidão de interessados pelos combates que ali ocorriam rodeando-o. Embora já houvessem passado tempo o suficiente em um daqueles enormes mercados subterrâneos, a mágica e beleza do local ainda as encantava. Durante os longos anos que viveram, jamais haviam cogitado a idéia da existência de um mundo longínquo, embora tão perto de seu alcance, distante da maior parte da sociedade, onde quebrar as regras era sinônimo de alegria. Onde ambas as raças, que tornaram-se inimigas devido às circunstâncias, podiam coexistir em harmonia novamente, longe de todos os sentimentos ruins, das críticas e do egoísmo. Era como a pequena esfera branca, dotada de paz e felicidade, em um Yang, mar negro de ódio e raiva.
Após conseguirem o tão esperado descanso, dormindo durante o fim de tarde e início da madrugada, as três jovens finalmente sentiam-se renovadas. Haviam se reunido no quinto andar do hotel onde estavam hospedadas às quatro da manhã em ponto, para que pudessem fazer uma visita ao mercado ilegal da cidade e reabastecer-se; afinal, após os acontecimentos na rota, haviam utilizado grande parte dos artigos de recuperação que possuíam. Embora o local não fosse tão próximo da hospedaria como anteriormente, apenas tiveram de seguir as coordenadas enviadas por Juniper e dirigir-se até uma parte menos movimentada e semi-abandonada de Striaton, logo ao lado do citado “Dreamyard”, onde certamente passariam após finalizar suas compras.
– Não devíamos acordar tão cedo assim. – bocejou o Buizel, caminhando preguiçosamente logo atrás do grupo. Os outros pokémons libertos, assim como ele, demonstravam ainda estar sonolentos, o que era compreensível.
– Você se acostuma. – respondeu Fire, com olhos cansados, porém esforçando-se para manter-se atento. Entendia que, com a proibição da convivência entre pokémons e humanos, não mais era possível freqüentar tais locais ilegais em horas quando muitas pessoas estivessem fora de suas casas e passeando pelas ruas. Tinham sempre de fazê-lo de madrugada, cedo da manhã ou tarde da noite, para evitar serem seguidos ou vigiados.
Enquanto Caroline, acompanhada das outras duas amigas, fazia seu caminho por entre as poucas pessoas que ainda freqüentavam a feira, dirigindo-se à uma barraca específica, pôde ouvir um som agudo e peculiar, que repetia-se frequentemente. Não demorou muito para perceber que este era emitido por um celular; mais especificamente, o de Alyss, a julgar pela luz vermelha que piscava no bolso de trás da garota toda vez que o som era repetido.
– Acho que... o seu celular está tocando. – informou a menina de cabelos negros, arqueando uma das sobrancelhas. Por que a outra nem ao menos checava as mensagens que estava recebendo?
– Ah, são só mensagens da operadora. – a jovem de peculiares cabelos azuis deu de ombros, relatando aquilo no tom mais normal possível, tentando esconder a mentira.
Alyss sabia quem estava lhe mandando aquelas mensagens. Ou melhor, não sabia, mas tinha medo de tentar descobrir. Apenas tinha certeza de que era
o mesmo número que lhe enviara o peculiar texto que receberá no dia anterior. Desde a primeira mensagem, muitas outras haviam seguido, todas com estruturas difíceis de compreender, cheias de gírias de internet e caracteres que talvez devessem ter algum significado. “Y U no answer me”, “Talk 2 me bruh”, e até mesmo algumas envolvendo seu próprio nome, como “Heyu Alyss, whatcha doin”. Em um contexto normal, as acharia engraçadas; porém, após aceitar a proposta de Juniper, tinha de estar sempre alerta e tudo deixava-a tensa. A cada segundo, ficava ainda mais assustada. Como haviam descoberto seu número e nome? Será que havia sido descuidada? Talvez fosse um agente do governo tentando fazê-la confessar sobre abrigar pokémons... Talvez Caroline e Amy pudessem ajudá-la, caso lhes contasse. Sacudiu a cabeça em um movimento brusco, tentando ignorar a situação por hora, e ativou o modo “mudo” do celular. Descobriria o que fazer posteriormente. Finalmente saiu de seus devaneios ao ouvir a voz da menina de cabelos negros, percebendo que chegara ao local onde vendiam diversos tipos de medicamentos para pokémons.
– Eu gostaria de quatro poções, por favor. – pediu ao vendedor, sem nem mesmo tentar esboçar um sorriso. Estava cansada demais para aquilo.
Ao receber um aceno de cabeça do homem vestindo um avental verde, procurou por sua carteira, guardada no segundo compartimento de sua mochila. Retirou o dinheiro cuidadosamente, engolindo em seco ao perceber que não muito ainda lhe restava. Havia trazido consigo uma quantia considerável, mas esquecera-se de que já estava fora por mais de uma semana, e que tivera altos gastos com comida e hotéis. Entregou o pagamento ao vendedor, guardando os frascos que recebera do mesmo, guardando-o cautelosamente e logo retirando-se para dar espaço às outras duas garotas.
Resolveu recontar as poucas notas que ainda possuía para que pudesse se organizar melhor. Soltou um suspiro tenso ao contar pela segunda vez; quarenta dólares, apenas.
– O que houve? – perguntou o cavalo de crina azulada, aproximando-se da treinadora ao perceber sua expressão aflita.
– Não nos resta muito. – exclamou, mostrando-lhe a carteira antes de guardá-la.
– Nem a nós. – informou a garota de cabelos azuis, que acabara de fazer sua compra, assim como Amy. – Não conseguiremos pagar o hotel com isso. E nem comprar mais poções.
– Digo o mesmo. – suspirou a terceira garota, acariciando o topo da cabeça do lagarto amarelo adormecido em seu ombro. – Acho que... Só há um modo de conseguirmos mais. – e, com as expressões curiosas das outras duas, resolveu continuar. – Temos que trabalhar.
– Trabalhar? –indagou Caroline, de certa forma incrédula. Jamais havia trabalhado em toda a sua vida. Além disso, desde que aceitara seguir essa nova vida, tornara-se praticamente nômade, vagando de cidade em cidade, atravessando florestas em busca de criaturinhas poderosas que pudessem ajudá-la a conquistar seu atual objetivo. Como poderia conseguir um emprego fixo em condições como aquelas?
– Bem, não um trabalho de verdade. – esclareceu a de cabelos castanhos, dando de ombros. – Vocês tem algum talento ou algo do tipo? Podemos usufruir dessas habilidades para conseguir dinheiro. – percebendo que as outras ainda pareciam extremamente confusas, soltou um leve riso antes de continuar. – Como músicos de rua! Esperam receber trocados para comer e sobreviver em geral. Podíamos fazer algo do gênero.
Alyss e Caroline entreolharam-se, começando a compreender o que a amiga queria dizer. Talvez aquela fosse, de fato, a forma mais eficaz de conseguir dinheiro. Ainda não tinham certeza se obteriam o suficiente desse modo, porém, ainda teriam o dinheiro que poderiam receber caso derrotassem os líderes de ginásio e vencessem Contests, uma quantia bem justa, pelo que haviam lhes dito. Por um momento, uma chama de esperança acendeu-se nas três jovens; nem tudo estaria perdido.
– Eu sei desenhar. – informou a menina de cabelos azuis, respondendo a pergunta feita por Amy segundos atrás. – Talvez consiga algum dinheiro vendendo porta-retratos de pessoas e paisagens ou mesmo pokémons. Posso anunciá-los aqui mesmo no Mercado Negro.
– Ótimo! – sorriu a garota de cabelos castanhos ondulados, batendo palmas leves em alegria e comemoração. Parecia que sua idéia fora aceita. – E você, Caroline? – indagou, o sorriso bobo ainda estampado em seu rosto.
– ... Não sei. – a menina fitou o chão com seus olhos azul-marinho, como se procurasse por respostas. Ela não possuía qualquer tipo de dom ou talento especial, como poderia ganhar dinheiro?
– Care. – chamou o cavalo de crinas flamejantes ao seu lado, com um sorriso brilhante em seu rosto. – Nós podemos correr.
E, sem ao menos tentar esconder sua felicidade, a garota de cabelos negros sorriu, com um novo brilho em seus olhos. Memórias de anos atrás voltaram à sua mente; sua mãe montada em sua Rapidash, atravessando a linha de chegada à frente de qualquer outro corredor, vencendo com destreza e mérito. As pessoas na arquibancada, inclusive a pequena menininha, cujos olhos azul-marinho eram semi-cobertos por sua franja negra. Lembrou-se também de semanas após ganhar Firestarter, sua mãe ensinando-lhe a montar os cavalos e as melhores técnicas, apenas conhecidas pela mulher. Podia ouvir novamente o riso alegre do Ponyta shiny ao percorrer a pista pela primeira vez, a alegria que a invadira, a emoção e adrenalina. Sua jornada poderia dar-lhe uma chance de tornar-se uma famosa corredora, assim como sua mãe.
– Sim, podemos correr. – afirmou a garota por fim, logo virando-se para as outras duas. – Eu e Fire costumávamos treinar na pista amadora que fora construída em nossa fazenda. Posso procurar me informar sobre as próximas corridas que venham acontecer; deve ter uma aqui em Striaton. – exclamou, acariciando o focinho do Ponyta, como se o agradecesse pela idéia.
– Perfeito! – a garota vibrou, animando-se. – E eu tenho esse hobby desde criança... – continuou, puxando uma câmera profissional de dentro da mochila que carregava consigo. – Costumava tirar muitas fotos para passar o tempo, e aprendi alguns truques. Posso vender fotografias de paisagens online e vir para o Mercado Negro quando não estiver treinando, assim poderei também fazer imagens de pokémons de outros treinadores. – explicou, alegrando-se ao ver o sorriso das outras duas.
As três entreolharam-se por um momento, rindo logo em seguida. A cada passo que davam, pareciam deparar-se com um novo problema. Porém, até agora, haviam conseguido resolvê-los antes mesmo que estes pudessem tornar-se algo maior. Não seria qualquer obstáculo que as pararia. Não conseguiam enxergar ainda, porém, que o destino que agora traçavam era, provavelmente, o desafio mais difícil de suas vidas.
– Vamos logo para esse tal Dreamyard. É melhor começarmos a treinar o quanto antes. – sugeriu Alyss, tomando a frente e sendo logo seguida pelas outras duas jovens.
As três não muito disseram antes de retornar seus pokémons; afinal, logo os libertariam novamente, assim que tivessem certeza de que o local para onde iam era, de fato, seguro. Maiko e Leroy nem ao menos resmungaram ao serem sugados para dentro das esferas, como costumavam fazer antes. Parecia, inclusive, que ambos agora viam suas novas casas temporárias como um espaço onde pudessem descansar e recuperar suas energias, tanto física quanto mentalmente. Donner, recém capturado, surpreendentemente também não parecia incomodado ou receoso ao ser envolto pela luz vermelha do dispositivo.
Ao guardarem as esferas vermelhas e brancas em suas mochilas novamente, onde estariam em segurança, as jovens seguiram juntas até a saída de pedra do grande mercado. O processo de saída era mais simples do que o de entrada; era necessário apenas apertar um botão vermelho, colocado sobre um painel preso à parede rochosa, e a passagem seria revelada pela porta que deslizava, sempre trazendo com o movimento pequenos pedregulhos e poeira. Não era necessário, como para a entrada, posicionar uma pokébola em uma saliência perfeitamente redonda construída na própria parede de pedra.
As escadas que levariam de volta à superfície eram um pouco mais longas e exigiam ligeiramente mais esforço para serem escaladas, diferente do Mercado Negro de Accumula. Ao subirem o último degrau, refazendo o caminho pelo qual passaram para chegar ao local, depararam-se com uma porta de madeira, não hesitando ao abri-la. Olharam para os lados, ao adentrarem o casebre abandonado, certificando-se de que não haveria ninguém as observando. Os processos de segurança tornavam-se cada vez mais normais às meninas, uma vez que tinham sempre de estar atentas.
Ao saírem, um pouco hesitantes, viraram-se para trás para observar a residência escondida por mata alta e coberta por teias de aracnídeos. Caroline não conseguiu evitar o sorriso que se iluminou em seu rosto ao pensar em quão inteligente e dedicado seria aquele que construíra todos aqueles estabelecimentos em cada parte do continente. Os locais devida e cautelosamente escolhidos, a divulgação sigilosa do estabelecimento, a construção dos túneis e mesmo do espaço subterrâneo, o seguro procedimento de entrada, de modo que permitisse apenas a entrada daqueles que eram contra as regras impostas pelo governo. Era incrível ter a certeza de que, mesmo em um mundo tão caótico, ainda havia pessoas que se opunham à opressão e lutavam para permanecer ao lado de seus fiéis companheiros.
Era por aquele motivo que Caroline aceitara a proposta de Juniper. E não voltaria atrás tão facilmente.
Não muito precisaram andar até que finalmente se deparassem com uma enorme parede de pedra, a qual aparentemente não tinha fim. Era alta e forte, embora possuísse algumas rachaduras e mesmo buracos. Seguiram até um grande arco de mesmo material, também em condições não muito boas.
– ...Nossa. – a menina de cabelos castanhos foi a primeira a murmurar algo, enquanto as outras mantinham-se sem palavras, boquiabertas.
O local era enorme e, mesmo que aberto e vulnerável à ações exteriores, o que realmente lhe prejudicara, certamente grandioso. Assemelhava-se muito à uma espécie de castelo antigo, que fora há séculos demolido, embora não completamente, e sofria até os dias atuais com o intemperismo. Havia uma grande quantidade de pilastras brancas espalhadas pelo amplo espaço, muito similares àquelas utilizadas em construções importantes de antigos impérios. Pouco mais acima, algumas plataformas de cimento estavam grudadas às paredes rochosas, muitas delas aparentemente inacabadas ou mesmo destruídas, tendo à mostra parte de materiais que antes lhes conferiam sustentação, como vigas amassadas e arames enferrujados. A construção abandonada lembrava muito um grande labirinto, já que possuía diversas paredes formando o que deveriam ter sido, um dia, corredores. Era impossível enxergar o que havia atrás das mesmas, a menos que realmente se aproximasse; isso certamente ajudava a esconder pokémons e, talvez por isso, fosse um local frequentemente escolhido para treinamentos.
Mas porque era chamado de “Dreamyard”? Podia facilmente ser confundido com um grande quintal de um antigo palácio, mas não havia nada de majestoso e fantasioso sobre o local. Salvo talvez pelo fato de que, ali, assim como em outras áreas ilegais, o contato com pokémons era possível. Seria aquele um nome especialmente criado por treinadores atuais, como uma alusão ao eterno sonho dos defensores daquelas incríveis criaturinhas de, um dia, talvez, poder recuperar o antigo mundo no qual viviam?
– Acho melhor... Termos cuidado. – sugeriu Caroline, ao ver a amiga de cabelos ondulados saltitar animadamente para dentro do local. – Não sabemos se isso está realmente vazio...
– Juniper disse que era seguro. – a garota deu de ombros, o sorriso ainda brincando em seu rosto. – E talvez possamos achar até...
– Não diga a palavra com “p”. – repreendeu Alyss, antes que a outra pudesse continuar. Não gostava de ser tão paranóica e protetora, porém, excesso de cuidado jamais era demais em tempos como aquele. Tinha medo de que, por um descuido, pudesse ver sua vida ir por água abaixo.
Novamente.
Não queria voltar para aquele lugar. O cheiro de morte que ainda a assombrava, os tubos de ensaio de cores diferentes, as salas escuras, as cenas terríveis que presenciava... e das quais, muitas vezes, participava.
Sacudiu a cabeça antes que as outras pudessem perceber seu comportamento alterado. Não costumava guardar segredos, mas também não gostaria de revelar sobre seu passado, pois isso significaria revivê-lo. E custara-lhe tanto tempo para afastar aquelas memórias ruins, que ainda ocasionalmente voltavam durante seu sono para atormentá-la, lembrá-la de que jamais estaria segura. Respirou fundo antes de dar seu primeiro passo, os olhos analisando cautelosamente tudo a sua volta.
Demorou-lhes alguns minutos para que pudessem observar cautelosamente cada um dos enormes corredores, que realmente lhes forneciam espaço, materiais e camuflagem o suficiente para treinarem. Havia até mesmo locais onde poderiam esconder-se, o que poderia ser necessário caso sentissem a presença de mais alguém pela área. Pararam no que deveria ser o último “quarto” daquela construção destruída, analisando os arredores. Era espaçoso e dispunha de quatro pilastras, distribuídas pelo chão. As quatro paredes ali, diferente de muitas outras pelas quais passaram anteriormente, não possuíam qualquer tipo de buraco que pudesse comprometer seu esconderijo. Parecia perfeito, assim como Juniper lhes havia informado.
– Parece seguro. – suspirou Caroline, olhando uma vez mais a sua volta para certificar-se do que havia dito.
– De fato. – concordou a jovem de incomuns cabelos azuis, agora um pouco menos tensa.
– Então o que estamos esperando? – sorriu a terceira, retirando cuidadosamente as duas esferas vermelhas e brancas que possuía, não hesitando ao lançá-las ao ar. Quando o intenso brilho branco que emanava dos dispositivos cessou, pôde-se ver Kairi e Donner logo a frente.
A Riolu demonstrou certa curiosidade quanto ao local diferente onde estavam, embora não fizesse menção de explorá-lo ou perguntar qualquer coisa. Sua aura lhe dizia que aquele terreno baldio era seguro, e aquilo era toda a informação necessária.
O lagarto amarelo rapidamente escalou o corpo de sua nova treinadora, posicionando-se em seu ombro como de costume, sorrindo para a mesma, como se estivesse feliz em revê-la.
– Ótimo. Fire e Leroy, saiam também! – exclamou a menina de cabelos negros, apertando o botão central de suas duas pokébolas ao mesmo tempo, libertando seus companheiros.
– Wow. – suspirou o Buizel, olhando ao seu redor. Impressionou-se com a grandiosidade do espaço onde estava; nunca havia visto nada parecido. – Que incrível! – sorriu, logo correndo para analisar cada pilastra derrubada.
– Onde estamos? – indagou o cavalo de crina flamejante, após uma leve risada. Admirava o local do mesmo modo que a lontra laranja, embora fosse mais calmo.
– Chamam esse lugar de Dreamyard. – respondeu Caroline, acariciando o focinho do Pokémon. – Pensamos em vir aqui para treinar um pouco. Precisaremos disso caso queiram enfrentar Ginásios e... nos defender de possíveis ameaças.
Alyss observou as outras criaturinhas libertas por alguns segundos antes de levar as mãos à sua mochila, apanhando duas esferas. Sem nada dizer, lançou-as ao ar, e estas abriram-se a meio caminho, emanando feixes de luz, que logo tomaram forma. À sua frente agora estavam o Espurr inexpressivo e a Oshawott agitada.
– Aqui tem bastante espaço para uma luta. – observou a lontra azul, com um sorriso formando-se em seu rosto.
– Você nunca se cansa disso não? – a Riolu revirou os olhos, de certa forma aborrecida quanto ao comportamento da irmã. Embarcar em uma viagem tão perigosa requeria um pouco mais de sensatez e maturidade.
– Talvez diga isso por que não consegue vencer de mim. – desafiou a Oshawott, irritando ainda mais a lobinha.
– Se você quer uma batalha, então... – a Pokémon aproximou-se, os olhos semi-cerrados, sua raiva transparente. Porém, fora interrompida por sua treinadora.
– Não queremos que vocês se machuquem à toa. – repreendeu Amy, separando as duas. – O tipo de treinamento que queremos fazer é individual.
– Tá, também serve. – Maiko bufou, porém logo animou-se novamente. – Preciso mesmo praticar minhas habilidades com espada. – sorriu, retirando a concha em seu bolso e balançando-a em movimentos rápidos. Ao cortar o ar pela terceira vez, o objeto escorregou de suas mãos, passando perto de Alyss. Poderia tê-la machucado, caso essa não houvesse abaixado.
– De fato. – concordou a jovem de cabelos azuis, com os olhos arregalados.
– Ops. – a Oshawott riu de leve, envergonhada.
– Vamos, não temos tempo a perder! – exclamou Amy, sem ao menos medir esforços para esconder sua agitação. Estava ansiosa por aquilo tudo, e mal podia esperar por sua primeira batalha de ginásio.
– Mas... O que devemos fazer, exatamente? – a garota de cabelos negros arqueou uma das sobrancelhas, os olhos azul marinho expressando sua confusão. Jamais havia feito qualquer coisa do tipo; o mais perto que chegara de treinar era percorrer a pista de obstáculos com Fire, porém isso não envolvia a execução de qualquer tipo de ataque, apenas agilidade.
– Não sei muito sobre o assunto também. – Alyss deu de ombros, fitando o chão. O universo em que vivia agora era algo extremamente novo para ela; antes de aceitar seguir aquele caminho, nem ao menos havia batalhado.
– Nós podemos ajudar. – disse o robusto cavalo, referindo-se à ele e aos outros pokémons. – Ninguém conhece nossas forças e fraquezas melhor do que nós mesmos.
– Hm. – sorriu a menina de olhos púrpura. – Podemos tentar.
As três organizaram-se rapidamente no amplo espaço, mantendo uma distância segura entre si para que pudessem treinar de modo seguro, o que não fora problema, já que o local era enorme. Não muito mais conversaram após, tentando concentrar-se no que fazer.
Caroline decidiu analisar os golpes conhecidos por seus pokémons em sua pokédex uma vez mais. Ao ser apontado para cada uma das criaturinhas, prontamente listou seus movimentos, bem como uma breve descrição de cada ataque. Em seguida, suspirou, pensativa. Obviamente, treinar ataques diretos seria importante para que sua força aumentasse, mas precisaria de estratégias também. Aquele seria seu momento de experimentar, utilizar sua inteligência e mesmo imaginação ao máximo para criar formas de defesa, mesmo que nunca houvesse treinado pokémons em sua vida toda.
Seus pensamentos foram brevemente interrompidos por sons de objetos sendo atingidos e golpes sendo utilizados. Aparentemente, as outras duas já haviam começado, praticando a ofensiva. Respirou fundo, tentando ignorar o barulho a sua volta para que pudesse voltar a concentrar-se novamente.
– Leroy. – a garota chamou, por fim, após seu longo silêncio. – Nunca tive a chance de ver o que você consegue fazer. – abriu um sorriso; estava animada para assistir aos ataques do Buizel. Porém, tinha algo diferente em mente. – Você viveu em uma floresta por um longo tempo, e disse que costumava batalhar com outros pokémons por lá.
– Sim, foi desse modo que eu e Maiko nos conhecemos. – informou a lontra laranja, ajeitando a gravata borboleta negra em seu pescoço. Estava ansioso para começar o treino.
– Como você se defendia? Quero dizer, todos tem suas técnicas de defesa. – indagou, ansiosa para ouvir a resposta.
– Bem, do mesmo jeito que a Maiko, usando o Water Gun contra o chão para desviar. – o Pokémon rapidamente desviou seu olhar, fitando a grama baixa verde do local e colocando uma de suas mãos sob o queixo, pensativo. Logo um brilho tomou conta de seus olhos negros, que agora assemelhavam-se a diamantes. – Ou assim.
Sem hesitar, o Buizel lançou-se ao chão, criando uma certa curiosidade na menina. Não deu-lhe a chance de perguntar o que estava prestes a fazer, pois começou a girar rapidamente, de barriga para cima, empurrando sua cauda contra o chão para ganhar impulso. Em seguida, disparou um jato de água que, para acompanhar o movimento, eram forçadas a formar uma espiral ao redor da lontra laranja. Daquela forma, conseguia criar uma espécie de fluxo de água veloz à sua volta, que deveria ter força o suficiente para destruir qualquer movimento que tentasse ultrapassá-lo.
– Incrível. – murmurou o Ponyta shiny, incrédulo e genuinamente impressionado, enquanto Leroy cessava o movimento e levantava-se, levemente tonto após tanto girar.
– Você acha? – um certo orgulho invadiu o Pokémon, fazendo-o sentir-se forte.
– Sim, isso foi realmente muito bom! – afirmou Caroline, com uma nova idéia em mente. – Se podemos fazer isso com água... Por que não com fogo? – e lá estava um brilhante sorriso brincando em seu rosto, enquanto desviava o olhar para Firestarter.
– Posso tentar. – o cavalo de crinas azuis sorriu, determinado. Seus olhos adquiriram um novo brilho e ele estufou o peito, concentrando a maior quantidade de oxigênio que possuía, pronto para começar seu treino.
Alyss, posicionada junto à seus dois únicos companheiros de frente à parede oposta àquela onde Caroline realizava seu treino, instruía Maiko em seus movimentos de espada, enquanto Damen praticava Confusion, tentando levantar pequenas rochas a sua volta, com seus olhos brilhando em um tom azulado.
– Vocês estão indo muito bem. – parabenizou a menina, impressionada. Ambos os pokémons pareciam esforça-se ao máximo e obedeciam plenamente a seus comandos. – Damen, tente agora concentrar-se em objetos mais pesados, como aquelas... – antes que pudesse completar sua frase, fora interrompida por uma música familiar. O toque de seu telefone.
A jovem de cabelos azulados dirigiu sua mão direita ao bolso traseiro de sua calça, retirando de lá seu celular. Franziu ao fitar a tela, reconhecendo de imediato o número ali estampado; o mesmo que estava lhe enviando as peculiares mensagens desde o dia anterior. Ignorou a chamada, colocando o aparelho no mesmo lugar onde estava, mas não mais de alguns segundos após, pôde ouvir o som irritante novamente. Clicou em “ignorar chamada” mais uma vez.
– ... Você não vai antender? – a lontra azul arqueou uma das sobrancelhas, guardando sua concha por um momento e balançando a cabeça para o lado para que pudesse tirar a franja de seus olhos.
– Não é ninguém importante. – bufou a garota, visivelmente irritada. Começava a achar que era apenas uma criança lhe passando um trote, e rezava para que ela parasse em breve. Mas não foi bem isso o que aconteceu.
O celular continuou a tocar, não importava quantas vezes Alyss recusasse a chamada; sempre ligavam de novo. Pensou em desligar o aparelho para que pudesse continuar a concentrar-se em seu treinamento, porém a raiva a impedia de agir de modo sensato. Impulsivamente, apertou o botão verde do telefone, atendendo a chamada.
– O que diabos você quer?! – gritou, enfurecida. Não mais se importava caso fosse algum tipo de agente do governo que havia descoberto seu número. E, mesmo se fosse, não muito poderia fazer além de rastrear seu celular, mas ainda teria tempo o suficiente para fugir, se esse fosse o caso. Porém, para sua surpresa, não era um agente do governo, nem uma criança qualquer passando trotes.
– ... Alyss? – a familiar voz masculina do outro lado da linha transparecia confusão. Por que a garota estaria com tanta raiva?
– D-Draven? – gaguejou, arrependendo-se do que havia feito. Jamais esperaria que, em meio a tantas chamadas daquele número desconhecido, o amigo poderia ligar. – Desculpe, eu achei que fosse outra pessoa e... Deixa pra lá. O que houve?
– Ah. Uh. – a confusão ainda estava presente em sua voz, mas o rapaz optou por ignorar aquilo no momento. – Enfim, onde você está?
– Treinando no Dreamyard. – deu de ombros. Para que ele queria saber? E duvidava que o loiro conhecesse o local, de qualquer modo.
– Ah, então já estão em Striaton. Estou indo aí, posso te ajudar um pouco com seu treino... – exclamou o rapaz, no tom mais sereno do mundo, o que causou uma certa surpresa em Alyss. Então ele sabia onde o Dreamyard ficava? Talvez fosse, de fato, um local de treino comum para vários outros treinadores. Felizmente, não havia ninguém ali no momento.
– E o que te faz pensar que eu preciso de... – a jovem preparou-se para responder, irritada. Porém, antes de terminar sua frase, pôde ouvir o som da ligação sendo finalizada. – ...Ajuda. – bufou.
Voltada para a parede do centro, Amy auxiliava Donner em alguns de seus golpes, concentrando-se em aprimorar seu poder elétrico. O lagarto amarelo desferia raios em diversos lugares, estes que eram citados por sua treinadora. Já Kairi praticava alguns de seus golpes diretos, atingindo uma das colunas caídas com chutes e socos poderosos, conseguindo até mesmo rachar seu alvo.
Meia hora de treino se sucedeu, até que as três jovens decidiram que seria melhor parar um pouco para que seus pokémons pudessem descansar; afinal, não queriam sobrecarregá-los. O propósito de estarem praticando era torná-los aptos a se defender, não deixá-los mais vulneráveis.
As garotas se reuniram ao centro do espaço que adotaram como “área de treino”, retirando de suas mochilas garrafas de água e tigelas, onde colocaram ração para Pokémon e pokéblocos.
– Como foi o treino de vocês? – indagou Amy animada, abrindo um pacote de biscoitos de aveia.
– Melhor do que o esperado. – confessou a garota de cabelos azuis. De fato, não havia tido muitos problemas, e havia sido mais fácil do que esperava.
– Sim. – concordou Caroline. – Conseguimos praticar algumas táticas de defesa. – deu de ombros.
– E nós, de ataque. – informou a jovem de cabelos ondulados castanhos, degustando um dos biscoitos.
A conversa continuou por mais alguns minutos, embaixo do céu azul, banhado pelo astro dourado que trazia uma temperatura agradável, informando-lhes que não haveria chuva nos próximos dias. Deveria ser em torno de meio dia; ainda dispunham de tempo o suficiente para treinarem e, mais tarde, poderiam até mesmo conhecer a cidade e, mais importante, exercer seus novos “trabalhos” pela primeira vez.
O dia estava sendo agradável. As garotas puderam passar um pouco mais de tempo com seus pokémons ao ar livre, sem ter de preocupar-se demais com pessoas observando-as, embora nunca estivessem, de fato, desatentas. Era quase como se houvessem voltado no tempo, experimentando a vida de treinadores antes da guerra, simplesmente treinando com seus amigos, livres de qualquer medo. As ruínas conhecidas como “Dreamyard”, antes criticadas por sua aparência drástica, eram agora vistas pelas meninas como o castelo que já fora algum dia, tamanha era a felicidade que lhes proporcionava.
Os pokémons das três também aproveitavam o tempo livre que tinham para conversar entre si, visto que eram raros os momentos em que podiam ficar juntos e trocar palavras com calma. Chegaram até mesmo a discutir estratégias.
– Treinamos algumas técnicas de defesa. – o Ponyta deu de ombros, deitando-se no chão e degustando seu almoço.
– E eu minhas habilidades com a espada. Estou ainda melhor do que antes. – gabou-se a Oshawott, não atrevendo retirar a concha de seu bolso para provar o que havia dito.
– Claro. – a Riolu revirou os olhos, e embora quisesse rir por dentro, nem ao menos esboçava um sorriso. Conseguia esconder suas emoções surpreendentemente bem. – Eu treinei uns golpes de luta. – deu de ombros.
– Podia treinar um pouco mais, por sinal. – o Buizel brincou, engolindo um pokébloco em uma só mordida.
– ... Como é, rato d’água? – rosnou a loba azul, fitando o outro. Este parecia divertir-se com a situação.
– Depois de ensinar uns truques para o pônei, – a lontrinha laranja apontou para seu companheiro de time, que apenas bufou em resposta, antes de continuar: – fiquei entediado e resolvi ver os outros treinando. Você nem conseguiu danificar aquela pilastra velha. – riu. – Eu com certeza a teria destruído na metade do tempo.
Em um movimento rápido, a Riolu saltou do chão, agarrando o Buizel por sua gravata borboleta e erguendo-o, pressionando-o contra uma das paredes de pedra do local.
– Como é? – Kairi apertou o peito do Pokémon apenas com a força de seu braço, dificultando sua respiração. Podia ter alguns problemas de raiva, mas não os achava inapropriados no momento.
– E eu que sou a competitiva. – Maiko revirou os olhos, ignorando os dois e continuando a comer normalmente.
– Gente, vamos tentar não nos matar, por fa... Uh? – ao levantar-se para interromper a briga infantil dos outros dois, acabou deparando-se com uma cena curiosa, causando-o a arquear uma de suas sobrancelhas.
Próximo a sua treinadora, estava uma criatura que nunca vira antes. Lembrava muito algum tipo de felino, embora fosse difícil dizer com certeza de longe. Analisou a situação por mais alguns segundos, assim como os outros pokémons, intrigados com o que ocorria. E não demorou muito para perceber que o gatuno tentava furtar a mochila de Caroline enquanto esta conversava com as outras meninas.
Impulsivamente, o corcel empinou, correndo o mais rápido que podia em direção ao bichinho, que estava apenas alguns metros à sua frente. Empurrou-o contra o chão com suas fortes patas traseiras, colocando-se acima dele e imobilizando-o. Pequenas chamas azuis eram exaladas de suas narinas, ajudando-o a intimidar o inimigo.
– Fire?! – a menina de cabelos negros virou-se bruscamente, assustada com o comportamento do cavalo. Até que pôde finalmente ver a criaturinha presa entre as duas patas dianteiras do Ponyta.
Era definitivamente um Pokémon, embora não o conhecesse. Assemelhava-se a um gatinho de pelos longos de tom creme, especialmente mais compridos na ponta de sua cauda e cotovelos. Possuía dois finos tufos de pelo em sua testa, entre os quais havia uma espécie de moeda dourada. Suas orelhas eram pontudas e negras, e seus olhos verdes transbordavam aflição.
– Fire, solte-o! – repreendeu a menina. O cavalo costumava ser protetor, mas não compreendia por que ele atacaria outro de sua espécie de forma tão violenta, ainda mais agora, que tinham como objetivo formar uma equipe.
– Mas ele estava tentando roubar sua mochila! – o Ponyta shiny explicou-se e, no momento que se distraiu, o Pokémon felino aproveitou para fugir, correndo agilmente e escalando as paredes de pedra que constituíam o Dreamyard.
– Ele devia só estar com fome ou algo do tipo. – a jovem suspirou. – Agradeço por estar sempre atento Fire, mas tente não assustar outros pokémons dessa maneira. – pediu, tocando o focinho do cavalo e observando este assentir.
– Então há, de fato, outros pokémons vivendo nos arredores. – exclamou Amy alegre, com um sorriso se formando em seu rosto. – Talvez possamos conhecer mais alguém que queira seguir conosco. – virou-se para o lagarto amarelo em seu ombro, acariciando-o.
– Acho que já podemos voltar a treinar. – sugeriu Alyss, fitando o céu. Gostaria de trabalhar algumas coisas mais com Maiko e Damen antes de retornar à cidade, onde poderia oferecer caricaturas à visitantes e mesmo moradores em troca de algum dinheiro. Não cobraria muito por seus desenhos, mas caso conseguisse vender uma quantia considerável todos os dias, acrescentado ao que conseguiria caso vencesse o líder de ginásio ilegal de Striaton, teria o suficiente para sobreviver, e até um pouco mais.
– É uma boa idéia. – concordou Caroline, levantando-se. Procuraria pensar em novas técnicas de defesa para ensinar aos seus dois pokémons, e no dia seguinte concentraria-se em ataque.
– ...Esperem. – murmurou a Riolu, em um tom baixo, embora audível. De trás de seus cabelos negros bagunçados surgiram dois tufos de pelo de tom um pouco mais escuro, e logo seu corpo fora envolto por um brilho azul. Aquela cena seria considerada peculiar e confusa para as outras duas garotas, mas não para Amy, que já a presenciara tantas vezes. Kairi estava utilizando sua aura.
E sentia que algo estava errado.
– Tem mais alguém aqui. – sussurrou, colocando-se em posição de ataque, os batimentos acelerados.
As três jovens tornaram-se imóveis de imediato, tensas. Não esperavam que fossem ter companhia. Naquele momento, até mesmo esqueceram-se de que poderiam retornar seus companheiros à suas pokébolas, tamanha era sua surpresa. A tensão pairou no ar por mais alguns segundos, até que a voz da loba azul pudesse ser ouvida novamente.
–Hm? – arqueou uma das sobrancelhas, surpresa. – Não é só uma pessoa... São pokémons também.
Antes mesmo que tivessem tempo o suficiente para raciocinar, as garotas viraram-se para o buraco em uma das quatro paredes, pelo qual passaram para chegar ao local onde estavam. Parado à sua frente, estava um garoto loiro de olhos vermelho vívido. Ao seu lado estava a peculiar Charmeleon, pintada ao longo de seu corpo por várias listras de um tom mais escuro do que o de sua pele. E, enrolada no pescoço do rapaz, estava a cobrinha azul, com sua expressão séria de sempre.
Não era um garoto qualquer. Era...
– Draven. – a menina de cabelos azuis suspirou, em alívio. Havia esquecido-se completamente de que o amigo oferecera-se para ajudar em seu treinamento. – Finalmente você chegou. – abriu um sorriso calmo para o loiro, que o retribuiu.
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