Notas iniciais
Não, isso não é um sonho. Esse é, realmente, um novo capítulo da H&H. Desculpem pela demora absurda para postar! Estava viajando, depois surgiram alguns problemas, e fiquei ocupada também com a escola... Enfim, estava atolada de coisas para fazer. Ainda estou, na verdade; por isso, decidi que seria melhor colocar a fic em Hiatus, mas achei justo postar esse capítulo aqui antes de desaparecer por um tempo. O que eu planejo fazer é conseguir um estoque de capítulos, para que isso de ficar tanto tempo sem postar não se repita q Enfim, espero que curtam o capítulo o/

O quarto ainda era tomado pela escuridão, uma vez que o astro dourado ainda não havia subido por detrás da majestosa floresta para iluminar a pacata cidade de Nacrene com seus raios intensos. Era cedo – cerca de seis da manhã –, mas a garota de cabelos castanhos já estava de pé, analisando seu reflexo no espelho esférico do pequeno banheiro da suíte. Afinal, o grande dia havia, enfim, chegado. E ela precisava estar pronta.

Amy havia acabado de tomar um banho de água quente, para livrar-se da tensão e nervosismo, ficando apenas com a ansiedade, que a motivaria a dar seu melhor durante a batalha. Havia vestido sua característica saia rodada marrom claro combinada a uma blusa branca de estampa floral em um tom pastel, complementando o visual com seu delicado casa bege. Colocara também suas finas meias três quartos, calçando o tradicional All-Star xadrez. Agora, dedicava-se a enfeitar-se com maquiagem; não dava muita importância para tal durante o dia-a-dia, porém, quando se tratava de eventos importantes, podia ser bem vaidosa. Escolhera um batom vermelho, do mesmo tom com o qual suas unhas longas haviam sido pintadas, e adicionou um pouco de cor à suas bochechas com auxílio do blush. Também alongou os cílios com o rímel preto e destacou seus olhos verde-esmeralda contornando-os com um lápis marrom. Sorriu ao ver o resultado final; exatamente como esperava.

Ás pressas, a jovem retirou-se do banheiro, dirigindo-se à cama de casal desforrada, sobre a qual repousavam a loba de pelos azuis e o lagartinho amarelo de listras negras. Ambos ainda dormiam serenamente, o que deixou a treinadora com certa pena de acordá-los. No entanto, precisaria fazê-lo, caso não quisesse se atrasar. Checou as horas em seu X-Transceiver novamente, verificando que havia já passado das seis e vinte, e lembrou-se de que seu encontro com a líder de ginásio estava marcado para as sete em ponto – infelizmente, não poderia conceder nem mais cinco minutos de descanso à seus companheiros.

— Kairi, Donner. — chamou em um tom suave e carinhoso, para não assustar os dois.

O Helioptile, ao ouvir a voz da menina, esforçara-se para abrir os olhos. Soltou um longo bocejo antes de esboçar um sorriso fraco e levantar-se, dirigindo-se até a garota, que lhe estendera a mão para acariciá-lo.

— Kairi. — Amy riu de leve, tocando de leve o braço da pokémon adormecida ao perceber que esta nem ao menos se mexera.

— ... Hm? — a Riolu murmurou, demorando alguns segundos para abrir os olhos e fitar sua treinadora, como que lhe perguntando o motivo para ela tê-la acordado.

— Temos que ir, senão nos atrasaremos para a batalha. — informou a jovem, retornando Donner para sua esfera metálica.

Ao ouvir a explicação de Amy, Kairi pôs-se de pé imediatamente, esquecendo-se completamente do sono que antes sentia. Agora, estava mais disposta, pronta para combater quem fossem seus oponentes. Apanhou sua pokébola da mão da treinadora, apertando o botão central da mesma e deixando-se ser envolvida pelo raio vermelho oriundo da mesma, sendo então sugada para dentro.

— Eu sei que seremos incríveis. — sussurrou a jovem de cabelos castanhos, fitando ambas as esferas bicolores antes de tornar a guardá-las na segurança de sua mochila de viagem creme.

Após alguns segundos mais preparando-se mentalmente, a garota sentia-se mais segura de si. Digitou dois números simultaneamente em seu relógio de pulso, ligando para suas outras duas amigas, apenas para informar-lhes que estava descendo. Para seu conforto, ambas já a esperavam na recepção do hotel e, com tal informação, Amy sorriu, confiante, e deixou o quarto.

A jovem utilizou as escadas para descer, visto que sua suíte ficava em um andar baixo e provavelmente perderia mais tempo esperando pelo elevador do que caminhando até o térreo. Cruzou o saguão do hotel apressada, logo deparando-se com Caroline e Alyss, que sentavam-se em duas das confortáveis cadeiras da recepção. Assim que estas a viram, levantaram-se, seguindo em sua direção.

— Está pronta? — indagou a jovem de cabelos azuis, sorrindo de um modo reconfortante para a amiga.

— Sim. — sua voz era meio trêmula, falhando em passar firmeza, porém, ela não se preocupou com aquilo no momento; apenas queria chegar logo ao ginásio ilegal, onde poderia enfrentar sua segunda oponente habilidosa e lutar pela insígnia. — Vamos? — pediu, um pouco impaciente, provavelmente devido ao seu nervosismo.

As duas prontamente assentiram, concordando, e juntas a Amy retiraram-se do hotel. O movimento nas ruas era quase inexistente; apenas ocasionalmente podiam ver um carro ou outro virando uma esquina e aparentemente nenhuma pessoa havia acordado ainda. Uma brisa gélida matinal deixava o clima mais fresco, ajudando a carregar parte do receio de Amy para longe; sentia-se mais calma em temperaturas mais baixas, por algum motivo. De onde estavam, já era possível observar o Museu de Nacrene, local onde a garota poderia encontrar a líder, e calculava que levaria cerca de quinze minutos para chegar ao estabelecimento; portanto, não perdeu tempo.

Imersa em pensamentos, a menina de cabelos castanhos nem ao menos deu atenção à paisagem da cidade verde, com a qual se acostumara após passar quase duas semanas ali, e pouco se importou com as duas amigas conversando sobre algum assunto desinteressante para a jovem, pelo menos no momento, já que apenas conseguia debater mentalmente sobre sua luta de ginásio.

De repente, sentiu sua confiança esvair-se, sendo substituída por receio. E se não conseguisse se sair bem durante a batalha? O que aconteceria caso fosse incapaz de comandar seus pokémons da maneira correta e rápido o suficiente para reagissem aos ataques da líder? Pelo que Matt lhe dissera sobre a líder, ela era incrivelmente calculista e habilidosa e, no tempo em que havia passado auxiliando-a em suas tarefas, raramente a via perder um combate. Tais informações haviam apenas deixado a garota ainda mais nervosa com relação ao seu encontro com a mulher, embora o ruivo a houvesse assegurado de que se sairia bem.

Amy balançou a cabeça, tentando livrar-se de tais pensamentos. Precisava ser forte e manter-se calma para poder ajudar Kairi e Donner durante a luta contra Margareth; não poderia permitir que todos os seus esforços para melhorar, todo o tempo que haviam passado treinando, fossem desperdiçados. Como sua Riolu se sentiria caso a deixasse perder? E quanto a Donner? Será que decidiriam abandoná-la por não ser uma treinadora boa o suficiente? Não, eles nunca fariam isso, pois eram um time, e um time sempre se mantém junto. Eles ajudariam um ao outro.

Aqueles pensamentos fizeram com que Amy recuperasse parte de sua força e determinação; iria dar seu melhor com o que aprendera desde o início de sua jornada, utilizando todas as estratégias que havia trabalhado. Estaria preparada para enfrentar sua oponente e mostrar-lhe que não estava disposta a decepcionar seus companheiros.

O tempo pareceu voar, e a jovem de cabelos castanhos surpreendeu-se ao deparar-se com a enorme e majestosa construção, feita majoritariamente de madeira e de design único. Uma grande e ampla escadaria levava até a larga porta de vidro do estabelecimento, sobre a qual havia um letreiro esculpido na madeira com as palavras “Museu de História Humana de Nacrene”. Em qualquer outra situação, Amy demoraria alguns segundos admirando o design do centro cultural de história; no entanto, estava ansiosa demais para perder tempo com os detalhes. Sendo seguida pelas duas amigas, a menina subiu com passos firmes os degraus, atravessando a portaria.

O interior era ligeiramente mais modernizado do que o exterior, e parecia ser bem mais amplo do que a construção seria capaz de abrigar. O chão era de mármore branco e as paredes de mesma cor eram feitas de gesso. Algumas colunas como as antigas, relembrando as construções sofisticadas da antiguidade, conferiam sustentação ao alto teto, ao centro do qual estava pendurado um lustre luxuoso de tamanho proporcional ao local. Não havia qualquer movimento no saguão principal, exceto por alguns faxineiros que se dedicavam a limpar adequadamente o museu para um maior conforto dos visitantes do dia, que deveriam começar a chegar quando o estabelecimento abrisse, às nove horas da manhã.

Intrigados com a peculiar visita fora de hora das jovens, os funcionários cessaram seu trabalho por poucos segundos, direcionando olhares desconfiados às garotas, mas nada disseram. No entanto, atrás do enorme balcão de madeira da recepção, uma mulher as encarava de modo intimidador, com uma de suas sobrancelhas arqueadas. Esta tinha pele clara e aparentava ser razoavelmente alta, mas provavelmente utilizava sapatos de salto alto. Próximo a seus lábios carnudos pintados de um roxo mórbido, do mesmo tom de suas unhas, possuía um sinal de nascença, e seus olhos castanho-escuros tinham o brilho ofuscado por óculos de armação marrom, imitando madeira. Seus cabelos facilmente confundidos como pretos estavam presos em um coque alto atrás da cabeça, exceto por uma pequena mecha que caía pela lateral de seu rosto, como uma franja. Para complementar o vestido púrpura desbotado, utilizava pulseiras constituídas por esferas de ouro e anéis dourados, mas seu acessório mais chamativo era um colar que possuía uma ametista hexagonal como pingente.

As três meninas engoliram em seco ao deparar-se com o feroz olhar da dona do museu, parando alguns metros à frente do balcão.

— Ainda não estamos abertos. — informou a mulher friamente. — Por favor, retornem dentro do horário de funcionamento.

— Uh, bem, é... Matt nos trouxe aqui. — contra-argumentou Amy, gaguejando. — Matthew Thomson.

Um silêncio desconfortável instalou-se entre as quatro após a frase da garota. A mulher arregalara os olhos, demonstrando surpresa.

— ... Como? — perguntou, por fim.

— Viemos aqui... Eu vim aqui para desafiá-la a... — a jovem de cabelos castanhos ondulados iniciou, porém, fora logo interrompida pela mais velha.

— Quer que eu lhe mostre o espécime que empalhei algumas semanas atrás, certo? — perguntou a mulher, mais como uma afirmação, deixando as garotas ligeiramente confusas. — Claro, levá-las-ei ao local privado onde ele está sendo trabalhado. — enfatizou a palavra chave com um olhar repreensivo dirigido à Amy, e só então esta percebeu que, mesmo que não houvesse ninguém por perto, teria sido extremamente arriscado comentar sobre a batalha.

Rapidamente, as três mais novas assentiram, seguindo a mulher por uma infinidade de corredores. Em seu caminho ao local desconhecido, atravessaram diversas áreas que retratavam momentos diferentes da história humana. Amy nunca havia demonstrado grande interesse por tal, mesmo por que não possuía muitos conhecimentos sobre o passado, mas olhar de relance para os artefatos de tantos séculos de idade e as pinturas retratando diversos fatos cotidianos das mais variadas maneiras despertaram certa admiração na jovem. No entanto, não foram o suficiente para distraí-la do nervosismo e tensão com relação à batalha que teria dentro de minutos.

Após alguns minutos de caminhada pelos diferentes setores, o grupo finalmente deparou-se com duas enormes portas de madeira trabalhada, ao lado das quais havia uma plaqueta dourada que dizia “Sala Diretorial – Margareth Arrington”. Retirando uma chave de um dos bolsos laterais de seu vestido e colocando-a na fechadura, as portas se destravaram e foram facilmente abertas, revelando uma ampla sala. Esta possuía uma mesa de trabalho de madeira, sobre a qual havia um computador não muito atual e um telefone, além de vários papéis espalhados. Um tapete verde circular cobria grande parte do centro da sala, e era aquela a única decoração do local; não havia janelas, estátuas, quadros ou flores. Apenas uma porta metálica aos fundos.

— Então meu querido Matthew mencionou que sou eu a Líder de Ginásio de Nacrene. — foram as primeiras palavras da mulher desde que haviam saído da entrada. Embora as portas estivessem fechadas e já tivessem maior privacidade, ela ainda sussurrava.

— Sim. — afirmou Amy, assentindo. — E eu gostaria de desafiá-la. — disse, tentando não deixar a insegurança transparecer em sua voz, falhando miseravelmente.

— Amy Larrison, certo? — indagou Margareth, ajeitando os óculos em seu rosto. — Minha secretária me informou sobre desafiantes. Não há muitos treinadores por aí, obviamente. Sua visita de fato me surpreendeu. — observou a mulher, ficando pensativa por um momento, mas logo limpando a garganta. — Vamos logo ao que interessa.

A mais velha dirigiu-se até a porta de metal, sendo seguida pelo trio de jovens. Digitou uma espécie de senha em um aparelho digital preso à porta, colocando seu dedo sobre um leitor de digitais em seguida. Por último, um scanner surgiu de um pequeno compartimento secreto na parede, analisando os olhos da mulher e, após confirmar de todas as maneiras que era ela, o som das múltiplas fechaduras da porta reforçada se destravando foi ouvido. Dentro de alguns segundos, uma fumaça branca foi liberada enquanto a passagem fora aberta, revelando um pequeno corredor metálico que apresentava, em seu fim, uma escadaria.

— Por que sempre há escadas? — a garota de cabelos castanhos pensou alto, relembrando-se de que a maioria dos locais de encontro ilegal de humanos e pokémons ficavam no subsolo.

— Além de tornar o acesso mais difícil, — iniciou, prontamente, Margareth — ajuda a abafar os sons. Poderia estar ocorrendo uma guerra entre Giratina e Arceus lá embaixo e nem ao menos um ruído seria ouvido daqui de cima. — esclareceu.

Embora aparentemente longa, o grupo não demorou mais do que alguns segundos para chegar ao fim da escadaria, onde depararam-se com mais uma preparada porta de metal.

— Pode me emprestar uma de suas pokébolas, por favor? — pediu a dona do museu, estendendo a mão para Amy, que encontrava-se logo atrás dela.

— Ah, claro. — respondeu a menina prontamente, buscando em sua bolsa pela esfera bicolor que abrigava Kairi, rapidamente entregando-a à mulher.

Margareth não hesitou em apanhar o objeto esférico e colocá-lo em uma pequena cratera na parede de metal; era um leitor, muito similar àquele utilizado nos Mercados Negros, e logo ao finalizar a análise a porta foi aberta.

O primeiro detalhe a ser notado fora a pouca iluminação, em contraste com o ginásio de Striaton, banhado pela luz oriunda dos milhares de bulbos espalhados pela rede de túneis subterrâneos. As únicas fontes de luz no amplo depósito que constituía a área de batalha de Margareth Arrington eram duas fileiras de pequenas lâmpadas LED dispostas sobre o chão de mármore xadrez, preto e branco, que demarcavam o caminho até o o campo de combate. Este, por sua vez, era um retângulo perfeito, coberto por grãos de borracha negra, similar aqueles usados em campos de futebol, e tubos neon violeta dividiam o quadrilátero em dois. Em cada uma das duas extremidades da arena, situavam-se círculos também envoltos por luzes neon; provavelmente, o local de posicionamento dos treinadores. Um único lustre irradiando luz púrpura pendia do alto teto do depósito do museu, fornecendo uma iluminação fraca, porém, suficiente para cortar o breu. Nas laterais do amplo espaço, era possível identificar algumas portas de vidro, sendo a mais chamativa uma logo ao lado do campo de batalha, sobre a qual podia-se ler em um letreiro luminoso “Enfermaria”.

Amy sentiu calafrios subirem por seu corpo, arrepiando seus pelos no processo, ao deparar-se com o ambiente sombrio e intimidador; a falta de iluminação incomodava-a, de certa forma, e a jovem não foi capaz de esconder com sucesso seus receios, soltando um longo suspiro e arregalando os olhos. Por alguns segundos, a garota de cabelos castanhos teve vontade de virar-se para trás e desistir, antes mesmo de tentar. Mas não o fez.

Como poderia, afinal? Após passar horas a fio treinando junto de Kairi e Donner, que se mostravam incrivelmente ansiosos pela luta contra a líder de ginásio, como poderia desapontá-los? Respirou fundo e tentou manter a calma, fechando os olhos para imaginar-se em um local mais caloroso e convidativo do que o depósito pouco iluminado e frio.

— Não se preocupe, menina. — repousando a mão firme em seu ombro, Margareth forçou a garota a reabrir seus olhos. — Todos se sentem um pouco receosos na ausência de claridade; você não é a primeira. A humanidade tende a pensar que estará sempre mais segura onde houver luz; que os monstros apenas surgem durante a noite. — a mulher fez uma breve pausa, endireitando sua postura antes de dar alguns passos para a frente. — No entanto, o real conceito de segurança, bem como a tão adorada luz, é apenas uma farsa; uma esperança inexistente. É preciso aprender a conviver com a escuridão para defender-se dos verdadeiros monstros. — finalizou.

Fitando diretamente os olhos obscuros da líder de ginásio, Amy assentiu. O gesto, no entanto, fora mais dirigido a si mesma do que à mulher, em uma tentativa de assegurar-se de ser capaz de vencer aquele obstáculo a sua frente. Ela derrotaria Margareth Arrington; fá-lo-ia por seus pokémons, que nela tanto acreditavam.

— Você consegue, Amy. — sussurrou Alyss ao lado da jovem de cabelos castanhos, com um sorriso reconfortante. — Não deixe que ela te intimide.

Caroline, que estava logo atrás, também assentiu para a amiga, apoiando-a. Naquele momento, Amy sentiu uma confiança inabalável invadi-la, fornecendo energia a cada músculo de seu corpo, esquentando-a por dentro como uma chama que a guiaria à vitória. Esboçando um leve sorriso, a menina murmurou um “obrigada” e avançou alguns passos, posicionando-se no espaço adequado para dar início à batalha.

— Está pronta? — indagou a mulher situada na outra extremidade da arena, ajeitando seus óculos. Ao receber uma resposta afirmativa, prosseguiu: — Gerard, liste as regras, por favor.

— Pois não, senhora Arrington. — respondeu prontamente um homem cuja presença não havia sido até então notada por Amy. Ele segurava duas bandeiras em mãos, que emitiam luz no ambiente escuro; uma verde e uma vermelha. Vestia-se com uma camisa de botões branca e calças de tecido negra; quaisquer outros detalhes eram impossíveis de identificar devido à iluminação precária. — Durante o confronto, tanto o desafiante quanto a líder poderão comandar dois pokémons, um por vez. Será vitorioso aquele que, após cada partida, mostrar-se mais apto a dar continuidade ao combate. Não é permitido o uso de medicamentos durante a batalha; no entanto, assistência médica de qualidade será oferecida ao término de cada turno. — o homem fez uma breve pausa, limpando a garganta. — Por favor, libertem seus pokémon.

— Permita-nos a honra. — Margareth estendeu um de seus braços, mostrando uma esfera bicolor, de metade superior azul e, a inferior, branca. Amy nunca havia visto uma daquelas e ficou imediatamente curiosa, perguntando-se também se não seriam seus olhos a pregar-lhe uma peça devido à pouca luz, que dificultava a distinção de cores. — Asra, querido, vamos mostrar o real poder da escuridão. — e lançou o dispositivo.

Irradiando um brilho intenso esbranquiçado, a pokébola libertou uma figura desconhecida pela jovem de cabelos castanhos ondulados. Era uma espécie de felino quadrúpede, medindo não mais do que trinta centímetros de altura. Seu corpo era revestido por pelos longos, em sua maioria roxos, exceto por sua testa e costas, bem como seu peito e barriga, que se apresentavam na cor creme. Suas orelhas eram pequenas e pontudas, de um formato perfeitamente triangular, e longas garras afiadas encontravam-se em cada uma de suas patas. Apresentava uma cauda comprida e eriçada, muito semelhante à de um gambá. Uma faixa negra envolvia seu pescoço e tórax, enrolada ao redor de seu corpo como uma espécie de cachecol fino. Sua maior peculiaridade era, no entanto, suas duas orbes de tom vermelho sangue, tão vívidas que pareciam mesmo ser constituídas do líquido em questão.

Amy não se lembrava de ter visto, em toda a sua vida, um pokémon como aquele. Intrigada, deixou de lado momentaneamente sua insegurança – uma vez que sua curiosidade falava mais alto – e sacou a enciclopédia digital que possuía, apontando-a para o felino quadrúpede.

— Stunky, o pokémon gambá. — iniciou a voz robótica da Pokédex, logo mostrando em sua tela principal as informações básicas do monstro de bolso analisado. — Stunky, dos tipos Dark e Poison, dispara um líquido fedorento em seu adversário para proteger-se. O mau cheiro pode durar até vinte e quatro horas.

A jovem de cabelos castanhos deixou um breve suspiro escapar de seus lábios ao guardar novamente o aparelho em sua mochila para preparar-se para sua segunda batalha de ginásio. Não conseguia desvencilhar-se de sua insegurança e medo, que a cada segundo pareciam atormentá-la mais. Suas mãos delicadas tremiam, agarrando-se à barra de seu casaco bege como que para encontrar apoio e, mais uma vez no curto período de tempo, a garota suspirou. Seus olhos verde esmeralda percorreram a arquibancada vazia, buscando as duas amigas que a observavam e facilmente encontrando-as. Estas assentiram e sorriram, encorajando-a a seguir em frente. Mesmo que não muito eficaz, o apoio das meninas ajudava-a a manter a calma, algo que Amy encontrara bastante dificuldade em fazer nos últimos minutos.

Sem mais perder tempo, a garota endireitou sua postura, tentando reprimir parte de sua hesitação. Apanhou, sem muitas dificuldades, uma das esferas bicolores que guardava em sua mochila de viagem. Já havia escolhido quem seria sua primeira escolha, independente do pokémon que fosse liberto pela líder, e aliviou-se ao perceber que seria uma luta completamente justa, sem vantagens ou desvantagens de tipo. Amy ergueu a pokébola alguns centímetros à frente de seu rosto, observando suas duas orbes esmeralda serem refletidas na parte superior vermelha metálica do dispositivo. Por algum motivo, analisando seu reflexo, a garota fora capaz de encontrar certa determinação.

Nós conseguiremos fazer isso, pensou. Observou seus olhos ganharem um tom vívido e brilhante, repleto de confiança, antes de lançar o objeto esférico para o ar.

Uma luz esbranquiçada foi emitida do dispositivo, e não muito demorou para que o pequeno lagarto de corpo amarelo listrado fosse materializado poucos metros à frente da treinadora. O Helioptile mantinha sua costumeira postura séria e firme, transparecendo confiança. Acreditava no treinamento que havia recebido e acreditava estar pronto para vencer qualquer obstáculo a sua frente. Não somente por si, mas por Amy. Queria deixá-la orgulhosa.

— Que tenha início o primeiro Round de batalha! — o juiz ergueu ambas as bandeiras florescentes.

— Quick Attack! — bradou a menina de cabelos castanhos ondulados, sem querer perder tempo, desejando ser a primeira a fazer um movimento.

Ao ouvir a voz determinada de sua treinadora, Donner pôs-se a movimentar-se, rápido como um raio, sobre o campo de batalha, seguindo em direção ao oponente. O gambá de pelos majoritariamente escuros camuflava-se na escuridão do local, mas o Helioptile não teve dificuldades em identificá-lo; dentro de segundos, lançava seu corpo com tanta velocidade contra seu oponente que, apesar de seu tamanho inferior, fizera com que o felino fosse arrastado alguns metros para trás com um gemido de surpresa, incapaz de esquivar-se do movimento devido à alta velocidade do lagarto.

— Um movimento rápido para iniciar a partida, certamente algo sábio a se fazer. — observou Margareth, sem perder a compostura; na verdade, estava tão tranquila que nem ao menos parecia preocupar-se com o fato de seu pokémon ter sido atingido. — Veremos se consegue esquivar-se tão rápido quanto ataca. — ameaçou. — Asra, Fury Swipes!

O gambá de coloração roxa soltou uma espécie de grito de guerra, eriçando os pelos, antes de seguir o comando que lhe fora dado. Suas garras pareceram crescer ainda mais, adquirindo um brilho intenso, e o Stunky não hesitou em disparar ferozmente em direção ao pequeno lagarto, que por alguns instantes permaneceu imóvel, antes de começar a correr, esquivando-se agilmente dos arranhões que lhe eram desferidos pelo oponente.

Amy arregalou os olhos, surpresa por tamanha agilidade do pokémon da líder, e sentiu certa preocupação invadi-la; a velocidade de Donner era incontestável mas, em determinado momento, ele se cansaria, tornando-se um alvo fácil. A garota precisava de uma estratégia para afastar ambos os pokémons, tornando possível que o Helioptile atacasse antes de ser atingido. Porém, como poderia fazê-lo?

Um relógio invisível tiquetaqueava na mente da menina, como que para avisá-la de que seu tempo era curto e estava quase se esgotando. Sua atenção se voltou à batalha apenas quando pôde ouvir um gemido de seu companheiro, arremessado para trás por um golpe certeiro de seu oponente. Donner não demorou a se colocar de pé novamente, mas seu rosto ardia no local que havia sido ferido pelas garras afiadas do gambá.

— Donner! — Amy gritou, aflita, observando a expressão de dor de seu pokémon.

Aquela cena pareceu acender dentro de seu corpo um inexplicável sentimento de proteção; precisava ajudar seu companheiro a defender-se, não podia simplesmente abandoná-lo. E, naquele momento, uma espécie de flashback veio à sua mente; lembrou-se de quando treinava com ambos os seus pokémons na caverna subterrânea.

— Muito bem, Asra. Prossiga. — comandou firmemente a mulher, colocando as mãos para trás de suas costas.

Certo desespero manifestou-se no corpo da garota mas, surpreendentemente, ela não se deixou abalar. Já sabia o que fazer.

— Não fuja, Donner! — pediu, percebendo que o lagarto preparava-se para continuar esquivando-se. — Contra ataque com o Pound, como fizemos nos treinos!

E, ao ver o gambá seguir em sua direção novamente, a mente do pequeno réptil pareceu se iluminar. Lembrou-se dos últimos treinamentos que realizara com Kairi e, graças a tais, saberia como se defender. Seguindo a orientação de sua treinadora, o Helioptile avançou para a frente, indo de encontro com o oponente, enquanto sua longa cauda brilhava em um tom esbranquiçado. As garras do Stunky foram paradas pelo movimento brusco de Donner e, por um momento, os olhares furiosos de ambos se cruzaram, antes que a sequência de ataques recomeçasse; Asra tentava atingir qualquer parte de corpo do adversário com suas poderosas garras, enquanto este protegia-se com auxílio do Pound.

— Use um pouco mais de força, Donner! — gritou a treinadora, confiante; um plano formava-se em sua mente. — Você consegue! — incentivou.

Ao ouvir as palavras encorajadoras da garota de cabelos castanhos, o Helioptile recolheu parte de suas forças para concentrar-se. Com um rosnado, devido ao esforço, o lagarto amarelado chocou sua cauda vigorosamente contra o Stunky, que teve apenas a chance de arregalar as orbes vermelhas antes de ter a lateral de seu corpo atingida pelo oponente. Com um grito atordoado, o felino foi lançado ao chão, sentindo suas costelas latejaram no local atingido pela lagartixa. Ignorando a dor que sentia, Asra prontamente colocou-se de pé, sibilando ao fitar com raiva o adversário.

— Isso! — comemorou a jovem, com um novo sorriso iluminando seu rosto. Seu desempenho até então na batalha havia deixado-a incrivelmente confiante, como se toda a insegurança e medo que sentia minutos atrás nunca houvesse existido. — Agora, Thundershock! — comandou.

— Asra, não se mova. — pediu, em um tom calmo, a líder de ginásio.

Imediatamente, Amy arregalou os olhos, surpresa com a reação de Margareth; ela não parecia fazer sentido algum. A garota não conseguia entender por que a mulher havia feito tal pedido à seu pokémon; porém, sem tempo de debater muito sobre o assunto, apenas decidiu deixar suas dúvidas de lado para que Donner prosseguisse com seu ataque.

Correntes de eletricidade percorreram toda a extensão do diminuto corpo do lagarto de listras negras, enquanto este colocava-se sobre suas duas patas traseiras como que para ganhar uma postura intimidadora. Em seguida, suas longas orelhas negras se abriram, formando uma espécie de leque em cada lateral de sua cabeça, e toda a energia fora ali concentrada. Não demorou muitos segundos para que um raio fosse então disparado em direção ao Stunky que, como lhe fora comandado, nem ao menos fez menção de se mover. Um urro de dor pôde ser ouvido quando a corrente elétrica atingiu o corpo do gambá roxo, cujo sofrimento era visível em seus olhos vermelho sangue. Ao término do golpe, o felino jazia sobre o chão, arfando, buscando forças para novamente colocar-se de pé.

— Muito bem, querido. — elogiou Margareth, causando ainda mais espanto.

— O que?! — exclamou Amy, não mais sendo capaz de conter sua surpresa quanto ao comportamento peculiar da mulher. Que tipo de treinadora poderia permanecer tão calma ao ver seu pokémon sofrer de tal modo?

— Asra, — chamou a líder, ignorando completamente o questionamento da desafiante. — siga com o Pursuit.

Dentro de segundos, o Stunky reabriu seus olhos vermelhos vívidos, transbordando sua fúria. Utilizando suas últimas forças, o felino reergueu-se uma vez mais, majestosamente, e soltou mais um grito de raiva. Até mesmo Donner impressionou-se com a surpreendente resistência de seu oponente, arregalando suas orbes azuladas – sem, no entanto, deixar-se intimidar. Não demorou muito para que uma aura negra envolvesse o corpo do gambá de pelos roxos e este cruzasse o campo em direção ao Helioptile como uma sombra cortando a noite.

— De encontro com Quick Attack! — murmurou prontamente a treinadora de cabelos castanho claro, receosa.

Sem hesitar, a lagartixa elétrica retomou sua postura, logo começando a correr na mesma direção de Asra. O inevitável ocorreu, e ambos os pokémons foram lançados para trás ao se chocarem, com gemidos atordoados; no entanto, nenhum dos dois parecia ter se ferido gravemente com o choque.

— Ótimo, rapaz! — elogiou Amy, sorrindo novamente.

— Devo dizer que, durante os últimos anos, poucos foram os treinadores que conseguiram me surpreender com técnicas inovadoras. — observou Margareth, fitando sua desafiante. — No entanto, não posso dizer que estou surpresa. — com suas últimas palavras, o sorriso da jovem de cabelos castanhos foi apagado, enquanto esta se enchia uma vez mais de receio e insegurança. — A noite é uma criança, e esta batalha está apenas começando. — pela primeira vez desde o início do combate, a mulher deixou um leve sorriso iluminar seu rosto.

— Donner, Pound! — gritou a jovem treinadora. A última frase da líder lhe servira como um alerta, e ela não estava disposta a perder; precisaria agir rápido.

— Smokescreen! — bradou a líder de ginásio.

O lagarto de corpo esguio e amarelo mal teve chance de iniciar seu movimento quando o oponente felino saltou para trás, fitando-o com seus olhos vermelhos vívidos. Com um miado que mais assemelhava-se a um rugido, Asra abriu sua boca, deixando suas presas afiadas a mostra, logo disparando uma cortina de fumaça negra ao ar. Apenas alguns segundos foram necessários para que o Helioptile se encontrasse perdido em meio à névoa, completamente desnorteado. Apreensivo por desconhecer a localização de seu adversário, Donner movia sua cabeça de um lado ao outro, tentando também agitar sua longa e poderosa cauda para fazer com que a cortina negra se dissipasse, em vão; esta era muito densa.

Amy levou uma das mãos a boca, sem esforçar-se para conter sua surpresa e confusão. Sentia-se tão perdida quanto o próprio lagarto e, por mais que tentasse buscar uma estratégia para salvar seu companheiro da situação vulnerável em que se encontrava, nada pôde fazer até ouvir a líder pronunciar-se uma vez mais.

— Asra, está na hora de mostrar o verdadeiro poder das criaturas da noite. — esboçando um sorriso de canto sutil pela primeira vez, a robusta mulher ajeitou seus óculos antes de continuar. — Payback.

— Donner, cuidado! — foi tudo o que a menina conseguiu dizer, em um tom desesperado.

O vago aviso, porém, não fora o suficiente. Com sua visão muito debilitada devido à densa fumaça sombria que o rodeava, o Helioptile não teve qualquer chance de esquivar-se de seu oponente; apenas deixou que o ar escapasse de seus pulmões ao deparar-se com as duas orbes cor de sangue aterrorizantes. Em uma fração de segundo, uma aura vermelha envolveu o Stunky e, com mais um rosnado intimidador, este disparou uma energia de mesma coloração, que seguiu até o pequeno listrado e o atingiu em cheio, à uma proximidade que se tornara quase fatal.

O grito de dor atordoado do Helioptile ecoou por todo o campo pouco iluminado, quando o mesmo foi brutalmente arremessado para trás pela força descomunal do ataque que recebera diretamente. Ao chocar-se novamente contra o chão da arena, deixou mais um gemido escapar de sua boca. Agora distante da fumaça, era possível observar a presença de alguns hematomas superficiais percorrendo o corpo da criaturinha amarela. O maior deles encontrava-se em seu peito e parecia ser o maior causador de seu sofrimento, o qual havia sido ocasionado pelo último movimento de seu adversário.

— Donner! — a jovem de cabelos castanhos ondulados gritou, preocupada, ao deparar-se com o parceiro ferido, que jazia imóvel próximo a seus pés.

Em um salto, a menina dirigiu-se até o Helioptile caído, apanhando-o em seus braços com cuidado. O abraço da treinadora causou certo desconforto ao lagartinho machucado, que gemeu baixo.

— Donner, você está bem? — indagou Amy, acariciando levemente o pokémon em seus braços com uma expressão preocupada. Sentia-se culpada por ter sido incapaz de ajudá-lo, tentado bolar qualquer tipo de plano que pudesse poupá-lo de tamanha dor. Ao invés disso, apenas assistiu em quanto o Helioptile tornava-se uma presa fácil, e nada fez para impedir que fosse atingido. No que estava pensando?

O réptil tornou vagarosamente a cabeça para cima para que pudesse fitar a menina, lançando-lhe um sorriso fraco, que fora retribuído pela jovem. As orbes verdes da garota tornaram-se marejadas, embora ela não soubesse ao certo o porquê; talvez fosse devido à emoção da batalha, ou o medo e arrependimento que sentira poucos segundos atrás ao ver seu companheiro ser atingido.

Amy estava tão concentrada em verificar o estado de saúde de seu pokémon que nem ao menos notou Margareth aproximar-se, estendendo as mãos em direção à jovem, que a fitou confusa.

— Deixe que os enfermeiros encarreguem-se de curá-lo. — explicou a mulher. — Em breve ele estará completamente revigorado.

A jovem então tornou sua atenção para um rapaz e uma moça, ambos vestidos de branco, que se postavam ao seu lado. Ambos mostravam-se prontos para encaminhar o pokémon ferido à Enfermaria, onde poderiam tratar de seus machucados.

— Obrigada. — sorriu a menina, secando o canto de seus olhos com a manga de seu casaco bege.

Direcionando um último olhar ao lagartinho, Amy permitiu que este fosse carregado pelos dois enfermeiros até a sala ao lado. Em seguida, respirou fundo, relembrando-se de que teria uma longa batalha pela frente caso quisesse conquistar sua segunda insígnia. A derrota no primeiro round a abalara, certamente, e a jovem começava a duvidar de suas capacidades e efetividade dos treinos que realizara. Mas não poderia desistir tão facilmente.

Não deixaria que os esforços de Donner na primeira batalha fossem em vão. Jamais seria capaz de desistir em nome de todo o seu time, quando estes haviam trabalhado arduamente para suceder naquele combate. Relembrou-se de que Kairi era sua pokémon mais bem treinada e possuía extrema confiança nesta; seu forte vínculo as tornava uma incrível dupla.

— Donner não está mais em condições de continuar. — proferiu o juiz, após trocar olhares com a líder, e ergueu a bandeira vermelha-neon para o lado do campo de Amy. — A desafiante pode libertar seu segundo pokémon.

Sei que vamos conseguir, Kairi, a menina pensou ao fitar a esfera bicolor em suas mãos. Olhando intensamente para esta, pôde observar seus olhos verdes serem refletidos na metade metálica superior, e rapidamente identificou o brilho que irradiava nestes. Estava pronta para vencer.

— Kairi, mostre o que somos capazes de fazer! — a treinadora bradou ao lançar o dispositivo esférico para o alto.

Ao abrir-se, um feixe de luz branca foi irradiado pelo centro da pokébola e, dentro de poucos segundos, foi possível identificar a silhueta da loba de pelos azuis, que se materializava à frente da jovem. Inicialmente, Kairi adotara uma postura serena, de olhos fechados. Porém, logo ao abri-los, revelando o par de esmeraldas reluzentes, a Riolu demonstrou-se pronta para o combate; determinada e confiante.

— Que a batalha continue, pois. — recitou a mulher, erguendo sua face uma vez mais inexpressiva, conferindo-lhe um ar de superioridade. — Asra, querido, siga com Slash!

— Kairi, desvie com ajuda do Quick Attack e contra ataque com Force Palm! — revidou a garota de cabelos castanhos, com uma postura séria. Não estava disposta a permitir que sua companheira fosse derrotada enquanto permanecia imóvel, como havia ocorrido com Donner. E, caso quisesse ainda alcançar a vitória, precisaria auxiliar a Riolu para que esta não se machucasse gravemente logo ao início da partida.

Antes mesmo que o gambá de corpo peludo e arroxeado iniciasse seu movimento, Kairi já se encontrava correndo em sua direção, em alta velocidade. As garras do Stunky tornaram-se maiores e mais afiadas, adquirindo um brilho esbranquiçado, enquanto este continuava a movimentar-se, de encontro com a Riolu. No instante em que iriam se chocar, porém, a loba de pelos azuis saltou agilmente, dando uma cambalhota e assim passando por cima do felino, fazendo-o errar seu ataque. Ao tocar novamente o chão, a pokémon não perdeu tempo; encostou de leve a palma de sua pata nas costas do oponente, e logo uma aura azulada a rodeou. Asra apenas teve tempo de suspirar em surpresa, antes de ser arremessado metros para frente pela energia devastadora do ataque de Kairi.

Um gemido de dor atordoado pôde ser ouvido do felino, que jazia no chão, trêmulo. Sua densa pelagem escondia os diversos hematomas que se espalhavam por seu corpo, deixando a vista apenas alguns cortes superficiais. Sua respiração era pesada e ele mantinha seus olhos fechados, provavelmente devido à dor que sentia.

Amy deixara um sorriso atravessar seu rosto ao perceber o estado de seu oponente; ela havia vencido.

— Isso ainda não acabou. — murmurou o gato, reerguendo lentamente seu corpo cambaleante. — Não cairei tão facilmente. — embora sua postura fosse frágil, suas orbes vermelhas intensas a contrariavam, revelando toda a sua grandiosidade e força. Amy não poderia estar mais surpresa.

— Vamos terminar isso aqui mesmo, Asra. — iniciou a mulher de vestido roxo, levantando sua mão. — Smokescreen e Payback!

— Não! — foi tudo o que a jovem de cabelos castanhos foi capaz de gritar ao ver a estratégia que a derrotara pela primeira vez ser repetida.

Porém, de nada seu pedido desesperado adiantou. Rapidamente, o felino quadrúpede abriu sua boca, lançando ao ar uma quantidade surpreendente de névoa negra, que cobriu boa parte do campo. Agora, Kairi encontrava-se vulnerável, assim como Donner, minutos atrás. E Amy podia ver, em sua cabeça, a mesma cena se repetindo, dessa vez com sua Riolu. Não; ela não permitiria que aquilo ocorresse.

— Kairi, utilize sua aura para se localizar! — comandou prontamente a menina, relembrando-se das habilidades de sua companheira. — Quando encontrá-lo, faça como em nossos treinos. — um sorriso de canto surgiu no rosto da jovem ao proferir sua última fala.

Inicialmente, a Riolu ficou confusa, porém, não muito demorou para que pudesse compreender as instruções de sua treinadora, assentindo. Perdida em meio à cortina de fumaça, a loba de pelos azuis fechou seus olhos para melhor concentrar-se. Dois apêndices, localizados um de cada lado de sua cabeça, normalmente escondidos por seus longos cabelos negros, saltaram para cima, alertas. Ao reabrir seus olhos, estes possuíam uma coloração azulada, e um brilho de mesma cor logo envolveu todo o seu corpo.

Naquele momento, Kairi conseguiu a exata localização de seu oponente.

Não hesitou ao correr em sua direção, com uma de suas patas irradiando uma energia avermelhada. Logo foi capaz de encontrar-se com o gambá de pelos roxos, envolto por uma aura vermelha, preparando-se para atacar a oponente de surpresa; porém, não foi exatamente o que ocorreu.

Ambos os pokémons se chocaram. Um campo de força envolveu a Riolu quando esta foi de encontro com o adversário, e quase que imediatamente o Stunky surpreso fora lançado para trás devido ao poder do Counter utilizado por Kairi. Asra fora arrastado alguns metros para trás, liberando um grito atordoado ao sentir a dor invadir novamente seu corpo. Ainda permanecia em pé, arfando intensamente ao buscar o ar que faltava em seus pulmões, mas logo ele retornou ao chão.

— Asra está incapacitado de dar continuidade ao combate. — anunciou o juiz, que se postava em uma das laterais do campo. — Amy e Kairi são as vencedoras da partida!

A equipe de enfermeiros retornou à arena uma vez mais, apanhando o pokémon caído com cautela e direcionando-o para o mesmo local onde encontrava-se Donner. O gambá estava consideravelmente ferido, embora nenhum de seus cortes ou hematomas fosse muito grave; certamente não demoraria muito para ter suas energias restauradas.

Kairi virou-se para trás para fitar sua treinadora de canto de olho, assentindo para esta, com um sorriso. Naquele momento, uma felicidade inexplicável invadiu o corpo de Amy: ela havia conseguido.

Não somente ela; sua companheira lupina havia se mostrado extremamente habilidosa nos poucos segundos desde que adentrara o campo. A garota sentia-se orgulhosa e confiante, imparável; ela derrotaria o último pokémon da líder e conquistaria a insígnia, honrando o trabalho duro de seu time.

— Você aprende rápido, certamente. — afirmou Margareth, limpando a lente de seus óculos com um lencinho que retirara do bolso da frente de seu vestido. — Porém, ainda deverá enfrentar diversos obstáculos para alcançar o topo. E não será nada fácil. — concluiu. — Rajani, querida, mostre o real desafio deste ginásio.

Sem hesitar, a mulher lançou sua segunda esfera para o alto; esta parecia ter uma coloração diferente das demais pokébolas que Amy já vira, porém, devido à pouca iluminação do local, não podia dizer com certeza.

A criatura liberta pelo dispositivo esférico causara certa surpresa e curiosidade, uma vez que a garota de cabelos castanhos não se lembrava de ter visto outro da espécie antes. Sua anatomia era similar a de um canídeo quadrúpede, possivelmente uma raposa. Possuía longas orelhas pontudas e uma cauda de mesmo aspecto, embora mais peluda. Seu corpo apresentava-se inteiramente em uma coloração negra, tão sombria quanto uma noite fria sem estrelas, e seu detalhe mais peculiar eram certamente os diversos anéis amarelados que se encontravam em suas pernas, orelhas e cauda, além de um no centro de sua testa; todos estes brilhavam no escuro. Seus olhos rubros assemelhavam-se muito aos de Asra, embora fossem mais vívidos e penetrantes. O único acessório que utilizava era um laço negro em volta de seu pescoço.

A vulpina possuía uma postura confiante e majestosa, como a de uma divindade poderosa e delicada ao mesmo tempo. No entanto, Kairi não fora intimidada por sua aparência; apenas analisou-a, como se pudesse estudá-la e conhecê-la para poder mais facilmente derrotá-la.

— Umbreon, o pokémon Luar. — iniciou a Pokédex, ao ser apontada, por Amy, em direção à peculiar criatura a sua frente. — Os anéis no corpo de um Umbreon brilham quando a luz da lua os atinge.

A jovem de cabelos castanhos analisou, admirada, as informações que haviam aparecido na tela do aparelho avermelhado. Aquela pokémon era, certamente, muito interessante. E aparentava ser um grande desafio.

— Não vamos perder tempo, Rajani. — exclamou a líder de ginásio. — Quick Attack!

Antes mesmo de a treinadora poder comandar qualquer ataque ou estratégia de defesa, a raposa negra já investia seu corpo pesadamente contra o da Riolu que, pega de surpresa, foi arremessada para trás. Kairi pôde sentir a dor do golpe direto invadi-la, porém, não demonstrou quaisquer sinais de sofrimento; escondeu-os, pois sua ferocidade e disposição a vencer era maior. A loba azulada fitou a oponente com raiva evidente em suas orbes esmeralda, rosnando de leve.

Amy surpreendeu-se com a agilidade da pokémon adversária; reconhecia que Kairi era extremamente veloz e, mesmo assim, não tivera chances de esquivar-se. Teria de desenvolver uma estratégia para contornar essa desvantagem. E precisava fazê-lo em breve.

— Vamos lá, Kairi! Ataque com o Blaze Kick! — comandou rapidamente, tentando ganhar tempo.

Não mais do que uma fração de segundo foi necessária para que ambos os pés da pokémon lutadora fossem envoltos por labaredas dançantes, de um tom laranja feroz. Em seguida, com um grito de guerra, a Riolu pôs-se a correr, atravessando o campo em alta velocidade e deixando um rastro de luz alaranjado por onde passava, que se tornava mais visível devido a pouca iluminação do local.

— Pursuit. — comandou a líder de ginásio, em seu tom tranqüilo e calculista de sempre.

Com a mesma ferocidade de sua oponente, a raposa noturna rugiu, começando a movimentar-se em direção a oponente. À medida que sua velocidade se tornava mais elevada, uma aura negra passava a rodear seu corpo, tornando-se cada vez maior. Finalmente, a colisão entre ambas as pokémons ocorreu, e a dor do choque de ataques foi recebida pelas duas com gemidos de dor. A pequena explosão ocasionada impulsionou ambas pouco mais de um metro para trás, arfando, porém ainda firmemente de pé, encarando furiosamente uma a outra.

A menina de cabelos castanhos alegrara-se por Kairi ter conseguido acertar a oponente com um golpe direto e poderoso como o Blaze Kick, mesmo que com a colisão de golpes a Riolu houvesse sofrido também; afinal, o golpe utilizado pela loba azulada fora muito mais poderoso do que a aura negra que protegera a Umbreon. No entanto, a felicidade momentânea da garota fora logo substituída por uma dúvida; porque, ao invés de comandar sua pokémon a desviar, Margareth pedira que esta contra-atacasse? Inicialmente, acreditou ser para que pudesse utilizar Payback, como ocorrera na batalha anterior com Asra; porém, se fosse esse o motivo, o movimento tornar-se-ia mais poderoso caso Rajani houvesse sofrido diretamente o golpe de Kairi.

Amy permaneceu confusa por mais alguns segundos, até que pôde ouvir a voz da líder novamente. Então, percebeu tratar-se de outra vantagem adquirida por Margareth, que certamente lhe representaria um problema: proximidade.

— Seu Helioptile pareceu ter se mostrado um tanto quanto vulnerável quando envolto por trevas. — observou a mulher. — Vejamos como sua Riolu é capaz de defender-se quando incapaz de localizar-se no escuro. Rajani, Sand Attack!

A curta distância entre as pokémons certamente fora o fator chave para o perfeito sucesso do golpe comandado. Arrastando sua cauda fortemente contra o chão, a raposa negra levantou uma grande quantidade de areia, situada por do material de borracha negra que cobria todo o campo. Sem ao menos dispor de tempo suficiente para fechar os olhos, Kairi sentiu o incomodo dos pequenos grãos adentrando seus olhos e, em esforços falhos, esfregava suas patas no rosto com o objetivo de livrar-se das impurezas.

— Kairi, concentre-se! — foi o pedido de Amy ao observar o quanto sua pokémon se tornara vulnerável.

O aviso da treinadora, no entanto, de nada serviu. Em poucos segundos, a Umbreon preparava outro golpe comandado por Margareth, aproveitando a distração e falta de visão da Riolu. Abrindo sua boca, a raposa noturna concentrou uma grande quantidade de energia negra nesta, e não muito hesitou para disparar um poderoso raio de mesma cor, envolto por anéis roxos, contra a oponente.

A curta distância que ainda se mantinha entre as pokémons apenas trabalharam à favor de Margareth e sua Umbreon, tornando o Dark Pulse mais rápido e perigosamente devastador. Incapaz de defender-se, Kairi recebeu o golpe diretamente, urrando de dor ao ser brutalmente arremessada metros para trás, tornando a cair contra o chão em um baque surdo, gemendo.

— Kairi! — a jovem gritou, preocupada, observando sua pokémon ferida. Sabia que a loba azulada possuía resistência a movimentos do tipo Dark, mas este fator certamente fora equilibrado com a pouca distância da qual o golpe havia sido executado.

No entanto, a Riolu não parecia ainda disposta a ser derrotada. Trêmula, a pokémon obrigou suas pernas a erguerem o peso de seu corpo, suprimindo a dor terrível que sentia e ignorando os hematomas que percorriam seus braços e costas. Precisou de alguns segundos para estabilizar-se firmemente sobre o chão, deixando de tremer, procurando esconder seu sofrimento e cansaço.

— Não seja tola. — murmurou a raposa negra, franzindo o cenho. — Essa batalha está encerrada. Por que não acaba logo com seu sofrimento?

Como resposta, Kairi liberou um grito furioso. Uma aura avermelhada envolveu seu corpo por alguns momentos, tornando-a mais intimidadora, e esta logo adquiriu uma coloração azulada, à medida que os dois apêndices em sua cabeça surgiram novamente. Poderia estar ainda incapacitada de enxergar devidamente, mas graças a suas habilidades naturais, poderia utilizar a aura para localizar-se.

A disposição e determinação da loba de pelos azuis fora o sinal para que Amy desse continuidade à batalha. Se Kairi não estava disposta a desistir, por que ela o faria? Poderia ter cometido erros com Donner, mas não deixaria que o mesmo ocorresse com sua companheira de longa data.

— Tudo bem, Kairi. — murmurou a jovem, em um tom menos exaltado; talvez devido á preocupação e nervosismo que a preenchiam. — Siga com o Force Palm! — ela esperava que o golpe de tipo lutador, a Riolu pudesse utilizar-se da vantagem de tipos para encerrar a luta.

Com um rugido, a Riolu assentiu para si mesma. Precisou de alguns segundos para estabilizar sua respiração mas, assim que o fez, não hesitou em reunir suas últimas forças para começar a correr o mais rápido que suas pernas permitiam, guiada inteiramente por sua aura. Durante o percurso, direcionou uma de suas mãos para a frente, e esta adquiriu um brilho azulado, enquanto a loba concentrava todo o seu poder. Na velocidade em que estava, não muito demorou para que finalmente fosse de encontro com a oponente vulpina, pressionando a pata contra seu peito.

A Umbreon apenas teve tempo suficiente para liberar um suspiro de surpresa e arregalar os olhos rubros, antes de ser impulsionada para trás pela energia potente do movimento da loba azul. Ao cair no chão, a raposa soltou um gemido atordoado. Seus olhos estavam fechados, enquanto esta tentava ignorar a dor que sentia, especialmente em seu peito, onde havia sido atingida.

Porém, dentro de alguns segundos, a vulpina começava a se colocar de pé novamente, para a surpresa de todos, exceto Margareth Arrington.

— Um golpe muito bem pensado, de fato. — comentou a líder de ginásio, sem perder a pose. — No entanto, em uma luta contra a escuridão, não se pode basear-se apenas em uma vantagem de tipo. Rajani, querida, — a mulher chamou, obtendo total atenção de sua pokémon ofegante. — finalize essa batalha com o Payback.

Amy nem ao menos obteve tempo o suficiente para gritar, ou dirigir qualquer tipo de aviso a sua companheira. A Umbreon liberou um grito de fúria enquanto uma aura vermelha intensa envolvia todo o seu corpo. Em seguida, pisou fortemente no chão com suas patas dianteiras, e uma energia poderosa cortou o campo em direção à Kairi. Naquele momento, a jovem treinadora teve uma ideia; seu último recurso.

— Counter! — foi tudo o que gritou, em desespero.

A Riolu não podia ver com clareza o ataque de sua oponente, mas podia prevê-lo com a ajuda de sua aura. Reunindo suas últimas forças, a pokémon lutadora juntou ambas as suas patas dianteiras a frente de seu corpo, sendo envolta por uma fraca aura avermelhada. No entanto, devido ao cansaço e fraqueza, não teve tempo o suficiente para executar a defesa com excelência.

A força devastadora do movimento de Rajani atingiu em cheio a Riolu, que liberou um urro de dor atordoado. Surpreendentemente, graças ao Counter, parte da energia do movimento da Umbreon retornou para a mesma, atingindo-a ao pegá-la de surpresa e lançando-a para o chão, com um grito de perplexidade e dor.

Após receber completamente o Payback, Kairi continuava de pé. Seus olhos estavam fechados e a dor que sentia estava evidente em seu rosto contorcido. Suas pernas, normalmente fortes e poderosas, estavam trêmulas, ameaçando falhar e derrubá-la no chão a qualquer instante. E foi o que ocorreu.

A Riolu caiu de joelhos ao chão, apoiando-se neste com suas patas dianteiras, lutando para tentar levantar-se. Sentia-se extremamente fraca, mas a chama de orgulho e determinação em seu peito não havia se apagado ainda. Mesmo sem forças, a pokémon ainda estava disposta a lutar cegamente até alcançar sua vitória.

— Impressionante. — sussurrou Margareth para si mesma, mudando de expressão pela primeira vez durante toda a batalha; arregalara seus olhos, surpresa, e analisava a Riolu com extrema admiração.

— Kairi, não! — gritou a garota de cabelos castanhos ondulados, reconhecendo claramente as intenções de sua companheira.

A menina correu em direção a pokémon, envolvendo-a em seus braços. Lágrimas ameaçavam cair de seus olhos enquanto a culpa por ter ferido seus companheiros e os envergonhado a invadia.

— Mas, Amy... — a loba azulada protestava. Seu tom de voz era fraco. — Eu... Eu ainda consigo...

— Não, Kairi. — a jovem a interrompeu. — Não vou permitir que você se mate aqui.

— Mas e todos os treinos? — a Riolu continuou. — Amy, você se dedicou tanto para esse momento...

Nós nos dedicamos. — a menina corrigiu. — Sinto muito, Kairi, mas não vou deixar você continuar desse jeito.

Após a pequena discussão de ambas, o juiz da luta parecia um tanto quanto confuso. Por fim, acabou por erguer a bandeira vermelha em direção ao lado do campo de Amy. E, naquele momento, tudo estava terminado.

— Kairi não está mais em condições de lutar. — anunciou. — As vencedoras são Margareth e Rajani.

Ao ouvir as palavras do juiz, Amy abaixou sua cabeça. Não conseguia acreditar que, após tanto tempo de treino e dedicação, os esforços de seu time haviam sido em vão. Sentia-se culpada por não os ter instruído melhor durante a batalha; havia cometido diversos erros e não fora capaz de agir de forma tão rápida, permitindo que seus companheiros fossem atingidos em vão. Se ao menos ela houvesse se concentrado mais, talvez o resultado houvesse sido diferente.

Insegurança e arrependimento preencheram por inteiro o corpo da garota enquanto esta fitava sua Riolu ajoelhada a sua frente – ela a havia desapontado. Havia sido incapaz de auxiliá-la adequadamente e, graças a sua performance patética, Donner e Kairi haviam lutado e trabalhado tão duro apenas para vir a desfalecer na praia. Como pudera ela ter permitido que aquilo ocorresse?

A garota foi retirada de seus devaneios ao sentir uma mão reconfortante tocar-lhe o ombro. Passando as mãos suavemente por seu rosto avermelhado para recompor-se, a jovem virou-se para trás, surpreendendo-se; Margareth segurava em sua mão livre uma caixa metálica de tom púrpura, contendo em seu interior acolchoado uma insígnia e um disco negro.

— Amy, — a mulher iniciou, séria. — após testar suas habilidades e as de seu time em campo, considero-a digna de receber a insígnia de meu ginásio, como prova de seu sucesso.

— O que? — a jovem arqueou uma de suas sobrancelhas, atônita. — Mas eu fui derrotada. Porque eu deveria merecer a insígnia de seu ginásio?

— A função de um líder de ginásio é avaliar os poucos treinadores que ainda restam e prepará-los para as dificuldades que cedo ou tarde enfrentarão em sua jornada. — explicou brevemente, antes de prosseguir. — Você foi capaz de ultrapassar o maior desafio desse ginásio, enfrentando as trevas ao comandar sua Riolu a utilizar sua aura para defender-se, além de ter certamente me surpreendido com seu desempenho geral, especialmente seu último movimento. — ela fez uma breve pausa, mas logo continuou. — No entanto, o que a tornou, de fato, merecedora de minha aprovação, fora seu último ato. Apesar de sua pokémon mostrar-se ainda apta a continuar, você foi capaz de reconhecer seus limites, impedindo-a de machucar-se desnecessariamente. E, durante sua viagem, isso indubitavelmente será necessário. — após alguns segundos de silêncio, a mulher limpou a garganta. — Parabéns.

Ainda um pouco confusa, a garota de cabelos castanhos reergueu-se, aceitando com certa relutância o presente da líder. Seus sentimentos negativos foram rapidamente substituídos por opostos; orgulho e felicidade. Afinal, apesar de não ter vencido Margareth, havia sido vitoriosa. Não mais precisaria culpar-se pelo fracasso.

— Obrigada. — ela murmurou, por fim, antes de auxiliar sua Riolu a colocar-se de pé e seguir até a enfermaria.

Ao adentrar a sala, os dois enfermeiros de antes se ofereceram para encaminhar Kairi a uma maca, onde começaram a tratar de seus ferimentos. Um pouco mais a frente, Amy encontrou Donner e Asra trocando algumas palavras. Apesar de terem se enfrentado ferozmente, não pareciam ter guardado ressentimentos.

Algumas faixas brancas envolviam o corpo do gambá roxo – provavelmente nos locais onde pequenos cortes haviam surgido –, enquanto o lagarto amarelo de listras negras tinha parte de suas escamas coberta por uma pomada branca. Apesar de terem se passado apenas alguns minutos desde que haviam saído de campo, ambos aparentavam estar muito mais saudáveis e revigorados.

Assim que a menina adentrou a sala, o Helioptile cessou a conversa e tornou sua atenção para a treinadora, fitando-a com um olhar curioso. E, em resposta, Amy mostrou-lhe a insígnia.

— Nós conseguimos. — ela afirmou, acariciando o topo da cabeça do pokémon. — Graças aos esforços de vocês. — ressaltou.

Nossos esforços. — corrigiu o réptil. — Somos uma equipe. Tudo o que conquistamos ou perdemos é responsabilidade de todos.

Por alguns segundos, Amy parou para analisar as sábias palavras do Helioptile; ele estava certo. Ela, Kairi e Donner formavam um time; passariam juntos pelos altos e baixos, pelo azul e o rosa – mas o que importava é que estariam sempre juntos.

— Parabéns, Amy! — a voz animada de Alyss soou por detrás da jovem de cabelos castanhos, que se virou para fitar a amiga.

— Foi uma batalha complicada. — foi a vez de Caroline fazer-se presente, fazendo uma careta. — Mas você conseguiu se virar muito bem. — reconheceu.

— Obrigada, garotas. — Amy sorriu, abraçando as duas amigas simultaneamente, sem muito pensar, e causando certa surpresa em ambas.

Embora houvessem passado cerca de dois meses juntas e procurassem sempre ajudar uma a outra, demonstrações de afeto não eram muito comuns. Porém, a cada dia, o laço entre o trio se tornava mais forte, à medida que conviviam e aprendiam juntas. Amy não teria conseguido chegar tão longe sem seu apoio.

— Bem, ainda está cedo. — relatou a menina de cabelos azuis, fitando seu relógio de pulso. — O que acham de irmos treinar depois daqui? — sugeriu.

Caroline prontamente assentiu, mas Amy parecia não ter tanta certeza.

— Uh, na verdade... — ela coçou a nuca. — Eu já tinha outros planos. — revelou.

As duas outras meninas se entreolharam, mas logo em seguida deram de ombros e sorriram.

— Tudo bem, então. A gente se vê mais tarde. — exclamou Alyss, acenando sutilmente, antes de desaparecer junto à Caroline pela porta da Enfermaria.

****

O sol estava alto no céu, iluminando toda a cidade verde, e nenhuma nuvem podia ser avistada manchando o manto azulado; era um dia perfeito. Do alto da montanha em que estava, sentada em um banco de madeira, a menina podia observar o grande movimento da cidade; carros coloridos atravessando as ruas, os moradores saindo do trabalho para a pausa de almoço, crianças saindo da escola.

A garota olhou ao seu redor, identificando o local pelo qual havia passado algumas semanas atrás, quando chegara à Nacrene. Muito havia ocorrido desde então.

— Ah, aí está você. — a voz masculina ecoou por entre as árvores, e a silhueta do garoto musculoso pôde ser vista. — Desculpe te manter esperando, Amy. — ele sorriu, aproximando-se.

— Não tem problema. — ela balançou a cabeça, retribuindo o sorriso. — Não estou aqui há muito tempo, de qualquer forma. — deu de ombros.

— Então, você conseguiu derrotar Margareth? — indagou o rapaz, sentando-se no banco ao lado da menina e passando as mãos por seus cabelos ruivos.

— Mais ou menos. — a garota soltou uma risada leve, constrangida. — Consegui a insígnia. — afirmou.

— Parabéns. — congratulou. Matthew reconhecia que derrotar a líder de ginásio não era uma tarefa simples; na verdade, nem mesmo ele conseguira fazê-lo de primeira.

O anúncio da amiga certamente surpreendeu o ruivo, que começou a ponderar sobre as habilidades da mesma. Ele certamente gostaria de testas a força da jovem e seu time em breve; no entanto, sabia que não poderia fazê-lo no momento. Não tinha muito tempo livre.

— Bem, Amy, — ele começou — gostaria muito de ir com você a uma das minhas lanchonetes favoritas de Nacrene para comemorar seu sucesso. — o rapaz fez uma pausa, suspirando. — Mas, infelizmente, meu tempo é curto. Prometi que faria algumas coisas à pedido de Margareth e tenho de atravessar uma rota inteira ainda hoje. Preciso de um pouco mais de dinheiro... — informou, coçando o queixo.

A jovem assentiu em entendimento. Havia acabado de reencontrar seu amigo, o qual há muito perdera, e estava prestes a vê-lo partir novamente, sendo desconhecida a data de um próximo reencontro. Gostaria de convidá-lo para seguir viagem junto à ela e suas amigas; afinal, quanto mais pessoas, melhor. No entanto, sabia que o garoto jamais aceitaria a proposta, e o compreendia.

— Já que eu não posso sair com você para comemorar... — o ruivo iniciou, removendo algo do bolso dianteiro de sua bermuda encardida. — Quero que fique com isso. — estendeu a mão para a jovem, a qual continha uma esfera bicolor em tamanho reduzido. — Um presente por ter ultrapassado mais um desafio. — deu de ombros.

— Matt... — a garota murmurou, fitando a pokébola reluzente, hesitando ao apanhá-la. — Tem certeza de que ele não fará falta? — antes mesmo de deixar o rapaz responder, prosseguiu. — E se ele não quiser vir comigo?

— Não se preocupe. — Matthew riu. — Já conversei com ele sobre isso. Dark Repulser tem uma sede insaciável por batalhas, e tenho certeza de que ele estará muito melhor ao seu lado. — afirmou, confortando a garota.

— Se é assim... — a jovem deu-se por vencido, analisando a esfera por mais alguns segundos antes de finalmente guardá-la em um compartimento secreto no interior de sua mochila de viagem, junto a suas outras pokébolas. — Obrigada, Matt. — a menina sorriu, inclinando-se para abraçar o garoto.

— Não há de quê. — este respondeu prontamente. — Preciso ir. A gente se vê por aí. — disse, por fim, levantando-se do banco e acenando brevemente antes de partir, tomando a trilha pela qual chegara no interior da floresta.

Após despedir-se de seu amigo, Amy continuou a observar a vista e respirar o ar puro da colina por mais alguns instantes. Mal podia esperar para descobrir qual pokémon havia recebido de Matt, e estava extremamente alegre por ter mais um membro em sua equipe. Porém, preferia aguardar até que retornasse ao seu quarto no hotel para fazê-lo, onde seria mais seguro.

Além disso, gostaria de reservar os poucos minutos que possuía sozinha para refletir sobre os acontecimentos recentes. Amy geralmente preferiria passar o tempo junto de outras pessoas, porém, naquele momento, apreciava sua privacidade.

A primeira coisa da qual a menina de cabelos castanhos ondulados recordou-se foi o dia em que aceitara a proposta de Juniper; relembrava-se exatamente da emoção e alegria que sentira ao realizar seus primeiros treinamentos junto a Kairi, e também da felicidade ao recrutar Donner para seu time. Mas, junto aos momentos felizes, as memórias negativas também invadiram sua mente; o dia em que assistira ao assassinato legal em praça pública; o momento em que fora perseguida por pokémons selvagens e quase morrera junto a Kairi; o tiroteio no Contest, onde fora baleada.

Dois meses.

Tudo aquilo ocorrera em apenas dois meses. Era difícil acreditar que tanto pudera ter vivenciado em um período de tempo tão curto. Vivera momentos de tensão, insegurança, medo, nervosismo, emoção, alegria, diversão. Foram tantas as experiências que havia adquirido.

E ela continuaria ali; aprendendo, tornando-se mais forte. E, um dia, seria capaz de conquistar o mundo junto aqueles com quem se importava, restituindo a paz e derrubando as barreiras entre o céu e o inferno.

Estava determinada a fazê-lo.

Notas finais
Eeeee é isso! O que acharam da batalha? Resolvi aproveitar esse cap para mostrar um pouco mais da personalidade da Amy também, por isso o foco desse trecho está todo voltado para ela. E ah, sim, segunda-feira, estaremos postando uma nova história, também de Pokémon, que talvez possa interessar vocês. ~ Enfim, nos vemos de novo daqui um tempo! Até o/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.