Pokémon - A Tale of Kanto

1 O amanhecer de um novo treinador


Notas iniciais
A história de Anthony como um treinador requere um breve entendimento sobre Pokémon, já aviso de começo que sou um adepto a causa de senhor Martin e não vou deixar a aventura ser morna como no Anime, claro.

– Eu vou sentir saudades do você, mãe. – Afirmou Anthony, dando um forte abraço em Amelia, a sua mãe.

Ao lado dela, um pequeno ser puxava a barra de sua saia com uma mão enquanto dentava os dedos da outra. Era o irmão mais novo de Anthony, o pequeno Thomas. Ambos compartilhavam dos cabelos negros da mãe e os olhos castanhos do pai, carregando feições robustas para garotos de suas idades. Por ser quatro anos mais velho, Anthony tinha o nariz menos arredondado que o do seu irmão menor, as orelhas maiores e os ombros largos. Dezesseis anos era a idade perfeita para seguir caminho cidade a fora, caso queira tornar-se um treinador. Amelia aceitava tranquilamente o sonho de seu primogênito desde que ele fizesse o quê realmente gostava.

– O Professor pediu que você fosse buscar o seu companheiro ainda hoje, se puder. – Ela o avisou. – Cuide-se, por favor.

E quase que por impulso, ele a abraçou novamente. Tocou os seus cabelos enegrecidos com o rosto, sentindo a sua maciez e o odor agradável que exalava dos fios. Quando enfim soltou-se dela, fez questão de abraçar o jovem Tom. Preferia dar um bom exemplo ao garoto e não chorar, mesmo assim quase não conseguiu. A jornada era longa, claro. Em suas costas, pendurada pelos ombros estava uma mochila de tecido amarelo com um único corte para o zíper ser alocado. Portava em seu interior quatro camisetas, duas pretas, uma branca e uma azul. Também trazia duas calças jeans, uma em tom enegrecido e nova e a outra azulada e desgastada, com um pequeno rasgo em cada joelho. Um cinto, por garantia, e um casaco preto azulado. Vestia uma calça negra, completamente, feita de lã enquanto uma túnica de borda larga e longa, quase um saiote, de cor branca amarelada sobre o torso. Olhou mais uma vez para a sua casa.

– Adeus. – Despediu-se, dando as costas e partindo pela estradinha de terra ligada à porta de seu casebre.

Pallet na verdade era uma cidade rural enorme comparada às outras que se espalhavam ao redor das áreas de verdadeiro valor, talvez a maior delas. Como uma grande exportadora de Berries, frutas cuja importância ecoa por todos os cantos do mundo, a cidade tinha o seu valor em particular. Caso você seja um leigo em relação a esse assunto, será lhes dito: Essas frutas têm diversas utilidades, variando desde curar paralisias até causar o bem estar àqueles que as comem. Alongando-se por toda uma planície, um estreito caminho de terra acuado por cercas de ambos os lados havia de ser percorrido por Anthony. Dessa forma, seus olhos capturaram as imagens do quê seria pastos cheios de Tauros e um tipo de Pokémon rosa vindo de fora da região.

Andejou por quase uma hora. À medida que deixava as terras de seu pai e sua mãe, ele podia ver com clareza as casas mais próximas. Casarões, admitiu para si em pensamento. Com um generoso quintal anexado aos seus fundos, contendo fileiras de Pokémon apropriadas para fazenda como Tauros, Farfetch’d, Doduo e Dodrio. Atravessou a porta da primeira casa, observando de longe a proprietário discutir com um pobre carteiro que dera azar de encontrar ela em casa. A segunda porta não tinha ninguém, mas havia um elemento bem peculiar enfeitando a sua entrada: uma pilha de cartas, algumas delas aparentemente velhas e/ou molhadas. Como não era com ele, evitou envolver-se. Completou uma hora de trajeto quando atingiu o distante centro comercial da cidade rural. Uma dezena de barracas de lona e madeira expunham suas mercadorias, na grande maioria havia diversas frutas colhidas em áreas próximas.

– Olha a Oran fresquinha! – Um homem barbudo gritava, vestindo uma camisa esfarrapada que não escondia seus músculos trabalhados pelo árduo serviço de transportador de mercadores. Oran Berry é uma fruta cuja função seria recuperar o vigor de quem a comer.

Outra pessoa fazia igual, só que era uma mulher.

– Estamos vendendo todo o tipo de fruta, amigos, venham! – Não parecia simpática.

Procurou rapidamente sair dali. Respirou fundo quando pôde ocultar-se atrás de um prédio, logo depois de mais de quatro mercadores lhe oferecerem os produtos, tentando pechinchar a própria venda. Anthony decidiu não arriscar, pois pelo menos três das quatro frutas pareciam ou não estar maduras ou podres. Aproveitadores, ele pensou. Seguindo rumo, ele finalmente avistou mais casas e por fim, uma imensa edificação de paredes brancas e telhado plano, com uma pequena casa que provavelmente mantinha escadarias em seu interior. Aquele lugar tinha um nome. O lendário laboratório de Kanto. Um estabelecimento fundado pelo primeiro Carvalho e herdado por seus filhos e netos ao longo do tempo. Hoje, um novo Professor era quem comandava aquele lugar. Chamado de Stephen Oak, ou Steven Carvalho, o prodígio.

– Espero que ele seja uma boa pessoa. – disse em baixo tom, quase como se comunicasse consigo mesmo outra vez.

Caminhou pelas ruas, assistindo cenas do cotidiano de diversas pessoas. Pela janela de uma casa ao leste, Anthony presenciou a faxina a qual um Pokémon mímico era o encarregado. Um avental verde cobria o seu tórax e ele empunhava uma vassoura com as mãos branquíssimas. Particularmente, Anthony tinha medo dele. Era uma presença bizarra que todos diziam ser benéfica, mas o garoto não dava muito espaço para interações com ele. Viu-o acenar e tentou responder antes de apertar o passo. Um pássaro de penugem amarronzada e plumas avermelhadas alçou voo rápido e bem planejado, pousando sobre as telhas de uma casa a Oeste do garoto.

Outra pessoa passeava com um cão encoleirado. Anthony se lembrava dela: Christa, a filha de uma de suas mais amigáveis vizinhas, essa que era a melhor amiga de sua mãe. Ela reconheceu-o só de passar os olhos sobre a sua figura e correu em sua direção junto do Pokémon de listras negras e vermelhas.

– Olá, Anthony! – disse esboçando um sorriso.

– Olá. – cumprimentou-a de volta. Ela tinha cabelos ruivos se arrastando até os ombros, lisos e brilhantes como seda tingida de vermelho.

– E então? Como andam as coisas? – Ela não parou de andar, mudara o curso de sua caminhada para agora acompanha-lo.

– Ah... Estão indo bem, eu acho. – disse. – Só estou indo para a casa do Carvalho.

Ela pareceu estar lembrada de algo, pois sua expressão mudou, contorcendo os lábios e franzindo o cenho.

– Poxa! É verdade! – Assustou-o com a exclamação. – É hoje que você parte, não é?

– Sim, sim. – respondeu depois de recompor-se do susto.

– Já decidiu o primeiro ponto de sua jornada? – Ela deixou a curiosidade consumir as suas perguntas, mirando os olhos nos de Anthony. As cavidades brancas de seus olhos se assemelhavam a mares de um líquido branco cercando ilhas verdejantes, cuja natureza aflorava a cada minuto.

– Viridiana, se não me falha a memória. – disse Anthony.

Pallet não possuía uma ligação com outra cidade se não Viridiana. Agindo como uma cidade ótima para se morar e estabelecer um negócio, ela interpunha a pequena rota de Pallet e a floresta infindável com o nome da cidade. Muitos temiam atravessar as suas entranhas por serem imprevisíveis os seres ali escondidos. Boatos contam de um monstro cujas garras cortam a carne humana com a facilidade de uma peixeira das mais bem afiadas.

– Entendo. – disse. – É bem mais estratégico ficar por lá antes de partir para terras longínquas.

– Pois é. Eu tive certo cuidado na hora de planejar para onde devia ir. – Estavam se aproximando do laboratório conforme conversavam. Duraria pelo menos mais cinco minutos.

– E qual Pokémon você escolheu? – Na hora, aquela pergunta foi meio estranha, mas depois daquele dia passou a ser normal. Para muitos, a escolha de seu inicial era sem sombra de dúvida a mais importante possível das dezenas que tem se fazer.

– Um não tão forte e nem tão fraco. – disse sem demoras, procurando ser o mais simples possível. – Eu não gosto de facilidade e nem de dificuldade, eu quero aproveitar a viagem junto de um que não me dê um trabalho tremendo para cria-lo, quero alguém que consiga se desenvolver sem uma babá... Pelo menos no começo.

– Interessante. – Ela percebeu que não teria mais de um minuto para terminar a conversa e então se apressou. – É uma boa lógica. Pois bem, você tem muitas coisas para fazer ainda. Boa sorte e boa viagem. – Abraçaram-se e em seguida ela partiu aos pulos junto do cãozinho que mal se expressara durante a conversação. Agora latindo e abanando a cauda.

O rapaz respirou fundo, encarando a porta de vidro que sediava a entrada do laboratório. Não importava o quê estivesse lhe esperando logo atrás daquela primeira barreira, ele superaria e se tornaria alguém melhor. Subiu uma escadinha de pedra em frente a porta e esperou que o sensor de calor o detectasse. A passagem foi sendo expandida até ter o dobro de sua largura. Engoliu em seco e forçou os punhos fechados, suando frio. Aquela manhã nunca poderia ter sido tão assustadora quanto foi. O primeiro passo foi decisivo. O ar frio do ambiente lacrado o engolfou em uma espiral de calafrios, lhe fazendo recorrer ao seu casaco quase que instantaneamente. Os azulejos brancos do chão e da parede eram simetricamente posicionados para que de longe a superfície parecesse inteiramente branca. O lugar era bem espaçado, com diversas máquinas e cientistas as utilizando. Viu ao longe uma mulher de jaleco assinalando itens em sua prancheta, ajeitando o óculos com o ombro.

– Grande... – disse embasbacado.

– Vejo que chegou cedo. – Uma voz áspera como um rochedo lhe atingiu por trás, enterrando-se fundo na nuca de Anthony. Virou-se para enxergar o Professor sob um jaleco misturado de cinza e branco pálidos demais. Os botões que fechavam o traje eram como pedrinhas arredondas com tecido os cobrindo. Duas lentes redondas e uma haste pendiam sobre o osso seu nariz e se apoiavam nas orelhas redondas enquanto uma barba descia por sobre o maxilar todo e empesteava o seu pescoço, brilhando um negro com poucas manchas brancas.

– Professor Steven... É você, não é?

– Claro que sou. – Assentiu com um sorriso afiado no rosto. Os olhos lembravam duas castanhas por causa das pupilas dilatadas e aumentadas pela lento do óculos. – Estava a sua espera. Siga-me.

Atravessaram o longo salão do laboratório, esquadrinhando mais máquinas e seus cientistas desorientados. Mais a frente, uma pequena área com um quadrado desenhado recepcionava dois sujeitos de jaleco que praticavam técnicas com seus Pokémon, testando estratégias que poupassem as energias de seus companheiros enquanto lutavam. Um deles chamou a atenção de Anthony. Um ser esverdeado com feições e detalhes corporais geométricos, seus braços eram duas lâminas similares a cimitarras, com o fio extremamente fino e tendo a parte de trás achatada e esverdeada. Dois brotos de asas se originavam das suas costas, mas não conseguiam agitar-se o suficiente para levantar voo. Possuidor de um olhar desafiador, o Pokémon dilacerava um boneco de tecido daqueles que compõe sacos de batata, amarrado entorno de um tronco de madeira gordo.

Não muito distante daquele Pokémon de corpo abençoado para o combate, os dois subiram algumas escadas rasas e desviaram do caminho de dois doutores e um treinador meio confuso. Esse tal treinador estava completamente imerso em pensamentos e comentários dados pela dupla de jaleco. Deu um leve aceno de cabeça para Anthony, pelo menos sabendo de sua existência, e descendo as mesmas escadas pela qual subiu, sumindo por entre as máquinas.

– Quem era ele? – Perguntou Anthony.

– O garoto que acabou de passar? – Esperou Anthony confirmar com um simples sim. – É outro treinador que marcou de vir hoje, mas como ele é de família rica, muitos de nossos cientistas procuram bajula-lo em busca de patrocínio.

Não se surpreendeu, pois sempre tem um desses. Coitado, ele pensou. Não poderia aproveitar a sua jornada como Anthony havia de fazer. Enquanto pensava em tudo isso, os dois alcançaram uma pequena porta aberta, dando visão para um cômodo estreito com apenas um aparelho com diversos suportes para se colocar as capsulas esféricas tricolores conhecidas como Pokébola ou Pokésfera. Elas são a força motriz de um treinador, são o inicio de tudo. Servem para conter o Pokémon e também protege-lo do ambiente externo em certas situações.

– Não se acanhe. – disse – Entre.

E Anthony entrou por sob o arco da porta. Os cantos da sala de azulejos brancos de mesmo aspecto que os do salão possuíam estavam vazios. Tirando por exceção a presença daquele aparelho e uma área determinada por uma linha de cor negra, um retângulo que cercava completamente o garoto. O Professor entrou logo atrás do recém-iniciado treinador.

– Você entende o quão difícil é o encargo de um treinador, não é? – Indagou, remexendo os bolsos do jaleco de um branco pálido, assim como a sua pele. O cabelo negro enfraquecia a cor enquanto a barba pigmentada de negro acompanhada de um grisalho não pela idade, mas pelo stress crescia sem previsão de parada. – A partir do momento em que começar, só poderá descansar quando a Liga acabar.

– É lógico que eu sei. – O brilho não saía dos olhos. – Sonhei com essa viagem por toda a minha vida, portanto eu farei o meu melhor para cumprir o meu objetivo.

Steven não pareceu estar muito de acordo com a resposta, mas engatou a primeira marcha e foi até o maquinário estranho. O conjunto quase arredondado de metal e fios encapados tinha uma espécie de caixa na qual um teclado cibernético ligado a uma tela computadorizada. Começou a digitar uma série de nomes que resultaram em um BIP. Umas sequências de ruídos metálicos deram origem a uma portinhola pela qual uma Pokébola escapuliu, caindo na mão aberta do cientista.

– Consegui um que fosse de acordo com os seus termos, espero que te agrade. – Entregou o objeto sem a menor cautela, mostrando despreocupação.

– Obrigado.

Quando apanhou a esfera Anthony sentiu um enorme fluxo de confiança brotando de seu interior. Um sorriso foi se formando nos lábios, afiado como o do professor e o do seu próprio pai. Os dentes foram aparecendo aos poucos, brancos e reluzentes. Decidiu fazê-lo ali mesmo no momento em que disparou o item por sobre o ar e o eclodiu em uma espiral de fumaça limitada pelo retângulo de arestas enegrecidas. Emergiu das camadas esbranquiçadas e gasosas, as cortando com as garras a medida que entendia onde estava. Era um Meowth.

Meowth’s são felinos brancos de um imensurável grau de capacidade. Conhecidos como amuletos da sorte e ótimos guerreiros que representam seus grupos sociais, andando juntos pelas florestas, guerreando com Pokémon bem mais fortes do que eles e ganhando em número e estratégia. Três finos bigodes nasciam da cada bochecha, um total de seis. Olhos completamente aguçados acompanhavam um sorriso convencido e olheiras. Suas orelhas entortavam-se levemente quando de pé, os braços, pernas e corpo magros lhe davam uma aparência fraca que deveria ser contestada. Uma moeda dourada estava pregada em sua testa, brilhando.

– Eu nunca vi um desses. – disse abismado. O Meowth se pôs de pé em um primeiro momento. Analisou o seu novo mestre e ajoelhou-se em sinal de respeito. – Ajoelhou?

– Sim, os Meowth tem algum respeito pelos seus líderes desde quando designados. São ótimos combatentes, eu admito.

– Entendo. – Vidrado, Anthony aproximou-se da criaturinha e estendeu a mão, com receio de ser machucado.

Pelo contrário. O felino apertou o seu dedo indicador e caminhou, alternando bem as pernas a cada passo, e se alavancando no ar para subir no ombro de Anthony. A cauda oculta antes possuía uma cor amarronzada e se embolava atrás do corpo. Em total equilíbrio, o Meowth esperou que seu dono se erguesse, mas viu o quanto ele estava surpreso.

– Esqueci de dizer que eles são bem a vontade... Gostam de esbanjar dos seus direitos quando podem.

– Quer dizer que são arrogantes...? – Olhou para o seu companheiro que sustentava um olhar emburrado. – Ahn... Err... Quer dizer. Sem ofensas. – E foi respondido com um aceno de cabeça pelo Pokémon.

– Não necessariamente, mas são bem convencidos de suas habilidades.

– Ah...

Passou em sua cabeça testá-lo em combate, mas no fundo sabia que não daria certo. O melhor era esperar um Pokémon selvagem aparecer para que pudessem praticar. Tocou-se de que em breve estaria na estrada. Eram onze da manhã, e caso fosse naquele horário para a rota, chegaria por volta das catorze em Viridiana e poderia repousar em alguma estalagem sem problema algum. Por último, deu mais uma olhadela em seu parceiro e ergueu a esfera, oferecendo abrigo. O felino aceitou e logo foi engolfado em uma pequena nuvem de fumaça duas vezes maior que o Meowth.

– Decidiu um nome para ele? – perguntou Steven, curioso.

– Ainda não. – disse. – Acho que é melhor eu pegar a estrada.

Ele concordou.

– Mas antes de ir, pegue esses itens aqui. – Estendeu a mão que carregava uma pequena caixa negra, contendo cinco esferas uma Pokédex ou Pokéagenda, aparelho que dá a informação de todo e qualquer Pokémon registrado, desde artimanhas e detalhes até hábitos rotineiros completamente dispensáveis. – Serão importantes mais tarde.

– Certo. – disse. – Obrigado.

E finalmente deu o passo inicial para fora do cômodo, guardando a esfera em seu bolso esquerdo. Estava ansioso pela sua chegada à próxima cidade, mas havia riscos que ele iria correr no caminho para lá. Olhou mais uma vez para o laboratório e depois para o grande contingente de casas, procurando a sua própria. Engoliu em seco e partiu.

Notas finais
Comentem, :P.