Poké Crônicas: Índigo
4 Capítulo IV. O que Aisha sempre quis
A família Grey é repleta de pessoas talentosas e que gostam de novas experiências. Não tem nenhuma contribuição para a ciência, mas são os melhores no que fazem. Alexander Grey é um Campeão, já aposentado, da região de Kanto. Hoje em dia cuida de seu rancho próximo à cidade de Lavender e, quando necessário, junta-se à Elite dos Quatro de todas as regiões para debater sobre a temporada de torneios.
Sarah Grey é famosa por ser a Top-Coordenadora de Sinnoh conhecida por seu talento e pelas fitas que conseguiu afora as 5 necessárias para participar do Grande Festival. Volta e meia, tem que viajar para congressos, onde ministra palestras de como se portar em palco ou que combinações usar para chegar à elegante vitória.
Sarah e Alexander se conheceram há muito tempo, quando Alexander ainda era campeão e fazia uma viajem para Sinnoh. Eles se apaixonaram a primeira vista um pelo outro, apesar de algumas complicações que acabaram casando-os. O fruto desse casamento foi Aisha Grey, uma criança muito amada e querida pelos pais.
Desde a derrota no torneio a bordo do SS. Anne, Aisha evitava ao máximo encontrar com Eric, Giovanna e até mesmo seu grande amigo Soma. Ela sentia um peso sobre seus ombros: o fardo da derrota. E ela desejou nunca ter nascido uma Grey.
Aisha passou seus últimos dias de viagem trancada no quarto onde estava hospedada, deitada em sua cama e fingindo que estava cansada demais para sair.
— A derrota eventualmente aparece... – Quando amanhecia, ela saía rapidamente e soltava seus Pokémon no pátio do navio para tomar um banho rápido de sol. E, antes mesmo que alguém aparecesse, ela voltava correndo para o quarto onde encarava o teto até o anoitecer.
Quando enfim o navio aportou em Vermilion e Soma seguiu para Johto a bordo do SS. Aqua. Aisha finalmente respirou aliviada por não ter nunca mais de cruzar com Eric ou Giovanna. Ela, então, tomou o rumo para sua triste e nublada cidade natal, Lavender. Chegando lá, foi recebida com festa pelos os cidadãos que estavam muito orgulhosos. Agora, Aisha era conhecida como o “raio de sol de Lavender” por ter vencido no Grande Festival de Sinnoh.
Uma semana se passou desde que Aisha retornara ao aconchego de seu lar. Todos os dias ela ajudava seu querido pai a ordenhar Miltanks, a tosar Mareeps e a amansar as Ponytas que chegavam. Porém, durante a noite, na intimidade e no silêncio de seu quarto, Aisha abria um alçapão, no canto próximo a janela, que a levava para o sótão. Ela subia com a ajuda dos cipós de Ivy e, lá em cima, a jovem de olhos dourados se punha a criar.
O recinto era recheado de telas com imagens de Pokémon. Ao que parecia, Aisha escondia dos pais seu verdadeiro amor: a arte. Mestra Pokémon ou Top-Coordenadora, isso não importava para ela. O que Aisha realmente gostava era de retratar Pokémons.
— Bochechas ilumine aquele cavalete. – Disse Aisha que carregava uma tela em branco. “Bochechas” era o apelido que dera ao pequeno Raichu que sempre a encarava com uma expressão desafiadora, mas que, no fim, a obedecia.
Aisha ajeitou a tela no cavalete e lançou uma pokébola que libertou uma bela Togekiss que quase derrubou várias telas no piso empoeirado com suas asas. Ela então se deitou e olhou fixamente para sua treinadora.
— Já faz um tempo que quero fazer isso. – Disse Aisha calmamente enquanto esboçava os traços de Togekiss com um pedaço de carvão. – Preciso que você fique quietinha, ouviu Aria?
Aria assentiu com a cabeça e manteve a pose. Aisha nem imaginava o que estava para acontecer naquela noite. Em meio ao silêncio noturno, Bochechas escutou um ruído discreto à audição humana. Aria se mexeu e Bochechas correu até a janela do sótão, deixando Aisha no escuro.
— Bochechas volte aqui! Se não deixar sua cauda perto de mim nunca poderei terminar o retrato de Aria! – Reclamou Aisha que se levantara no escuro e tropeçara em uma lata de tinta.
— Chuuuuu! Rai! Rai! – Bochechas correu até Aisha e a ajudou a se levantar. Ivy, por sua vez, correu até a janela e, surpresa, enrolou seus cipós na cintura de sua treinadora, puxando-a para perto.
Aisha quase caiu no chão quando Ivy a puxou, mas ela conseguiu caminhar até a janela. E lá ela teve uma visão horrível: homens de preto arrastavam seu pai, até um helicóptero que tinha a letra R pintada na cabine. Ela observou melhor e viu que havia uma mancha vermelha em meio aos prateados cabelos de seu pai.
Preocupada e atordoada, Aisha chamou todos os seus Pokémons para suas pokébolas e desceu o alçapão o mais depressa que conseguiu. Afoita, ela se espatifou no chão e, tomada pela adrenalina, correu para fora de seu quarto e seguiu para o quintal de seu rancho.
“Não pode ser verdade! Papai!!” Aisha pensava, desesperada, enquanto corria na direção de seu pai que foi arrastado até um helicóptero que logo levantou voo. Quando viu o helicóptero se afastando, Aisha lançou uma pokébola e libertou Aria que voou agilmente pelos céus.
— Aria use o Corte Aéreo (Air Slash)! – Aisha continuava correndo até adentrar uma floresta próxima a sua casa.
As asas de Aria, a Togekiss, brilharam e ela lançou várias lâminas de ar em direção ao helicóptero. Infelizmente, para Aisha, os ataques de Aria foram bloqueados por uma barreira que se materializou ao redor de todo o helicóptero. Em seguida, a Togekiss foi abatida por um raio de gelo e caiu rolando no chão poeirento.
Aisha se desesperou e correu na direção de Aria.
— Aria!!! – Ela gritou desesperadamente e, quando estava se aproximando de Togekiss, ela tropeçou em uma pedra e caiu ralando os joelhos e cotovelos.
Naquela noite Aisha apenas chorou.
O rancho da família Grey parecia ter perdido a vida da noite para o dia e nunca esteve tão triste e enevoado desde o sequestro de Alexander Grey. Sarah, sua esposa, parecia segurar uma grande dor, mas ela não demonstrava sua tristeza. Ela se aparentava forte para que sua filha não entrasse em colapso. Aisha, por sua vez, tinha uma expressão sombria no rosto desde que seu pai se fora.
Na manhã seguinte ao sequestro Sarah anunciou:
— Filha eu vou atrás de seu pai.
Aisha pareceu indiferente. Sarah deu de ombros e saiu do rancho, deixando Aisha para trás.
“Alguém tem que tomar uma atitude. Alexander, meu querido, você não se orgulharia de nossa filha se ela fosse uma Mestra como você... Ela é fraca e não tem determinação alguma.” Pensou Sarah que lançou uma poké bola da qual saiu um Staraptor.
— Temos uma longa jornada pela frente velho amigo. – Comentou Sarah subindo nas costas do pássaro que era bem maior que o normal.
“Se Aisha não erguer a cabeça e seguir em frente, ela jamais conseguirá o que deseja.” Pensou Sarah enquanto observava o rancho desaparecer entre as nuvens.
Sarah Grey, então, partiu em busca de seu marido.
— Tem certeza de que é aqui? – Perguntou Edward para Alice que se escondia embaixo de seu guarda-chuva. Na tarde após o sequestro de Alexander, uma nuvem negra se estacionara sobre a cidade de Lavender.
— Eu nunca erro. – Disse ela com arrogância e então caminhou além da porteira do rancho da família Grey.
— Convencida... – Comentou Edward para si mesmo. Ele a seguiu e então, num movimento rápido, a puxou para junto de si e lançou uma pokébola liberando Wingull que lançou um potente jato de água além das árvores.
— O que você...!? – Reclamou Alice.
— Quem são vocês? – Um Arcanine saltou na frente dos dois intrusos enquanto sua treinadora os observava de forma sombria. Ela estava muito pálida, parecia ter perdido a cor da pele e seus cabelos estavam opacos e secos. O vestido dela era o mesmo do dia em que seu pai havia sido sequestrado e estava sujo de tinta.
— Olha Bonny! Fantasmas humanos existem! – Comentou Alice em tom infantil.
Aisha fitou Alice e seus olhos arregalaram. Ela desceu das costas do Arcanine que rosnava para os intrusos e apertou as bochechas de Alice.
— Me larga! – Alice empurrou Aisha.
— Você me lembra uma certa pessoa. – Comentou Aisha com a voz serena, em contraste com sua aparência. – Quem são vocês?
— Por que nós deve--... – Alice tentou soar grossa e mal-educada, mas Edward se apressou, interrompendo-a.
— Eu me chamo Edward Bonny e esta é Alice Addams.
— “Addams”. – Repetiu Aisha. Sua expressão mudou completamente. – Você seria parente de Eric Addams? O Campeão de Hoenn?
— Não sei de quem você está falando. – A expressão de Alice mudou bruscamente. Ela estava séria e indiferente.
— Mas vocês se parecem tanto. Seus cabelos... – Insistiu Aisha, esperançosa.
— Muitas pessoas são parecidas e tem sobrenomes iguais, mas isso não significa que sejamos parentes. – Alice deu as costas para Aisha. – Vamos embora Bonny. Não gostei desse rancho.
Edward, por sua vez, continuou observando Aisha enquanto lágrimas enchiam seus olhos dourados. Edward se aproximou e pousou a mão no ombro dela.
— O que aconteceu aqui? Este rancho parece abandonado.
— Pessoas de preto sequestraram meu pai! E minha mãe me deixou aqui sozinha. – Exclamou ela entre soluços. Parecia uma criança.
— De preto? Tinha alguma marca na roupa deles? – Perguntou Edward interessado. Alice escutava atentamente.
— Um R púrpuro.
Alice e Edward se entreolharam.
— Você é patética. – Disse Alice revoltada. Aisha, ainda entre soluços, pareceu chocada.
— Alice não começa.
— Seu pai é sequestrado por criminosos e a única coisa que você faz é chorar? – Alice apontava o indicador na face de Aisha. – Sua mãe foi a única a tomar uma atitude em relação a toda essa bagunça. Ela parece ser a única a ter alguma determinação e coragem nessa família...
— ALICE! – Edward a agarrou pelos ombros e a virou. Arcanine latiu e rosnou.
— Está tudo bem... – A voz de Aisha soou fraca.
Edward e Alice trocaram olhares e então observaram como a garota se levantava do chão.
— Alice tem razão Edward. – Aisha secava o rosto com suas mãos sujas de terra e tinta.
— Viu? Eu nunca erro! – Comentou Alice triunfante.
— Por favor, não aumente mais ainda o ego dela... – Comentou Edward olhando para o lado.
— Eu ainda não me apresentei. Me chamo Aisha Grey e este é Hermes. – Apresentou-se sorrindo. Hermes fez uma mesura.
— Bonny, eu não entendi... Do que me interessa o nome dela mesmo? – Alice soou indiferente.
— Alice, não começa de novo...
— Você não percebeu que os meus discursos cheios de sarcasmo estão fazendo essa menina mais feliz? – Retrucou Alice. – Sofrer, para ela, é alegria!
A noite já caíra quando Alice e Edward decidiram deixar Aisha sozinha em casa. Contudo, a dona do rancho ofereceu abrigo para seus mais novos amigos (mesmo que eles não soubessem disso). Nesse dia Aisha fez um grande banquete para seus hospedes e Pokémons. Durante o jantar Alice não deixou de notar algo de diferente no colar que Aisha usava. Algo brilhante e prateado que parecia uma pena.
Após o jantar, Aisha apresentou o quarto de hóspedes para Alice e Edward enquanto que ela seguiu para o quarto dos pais. Quando ela fechou a porta do quarto, Alice cutucou Edward.
— Bonny, eu tenho uma pequena missão para você. – Disse ela com um sorriso.
— O que é? – Comentou ele tirando o casaco.
— No pescoço de Aisha tem um pingente muito peculiar que parece uma pena prateada. Eu quero que você descubra o que é.
— Simples assim? – Comentou Edward irônico. – Fritas acompanham?
— Com muito ketchup! – Riu Alice.
Como um fantasma, Edward caminhava sobre o piso de madeira da casa sem fazer sequer um ruído. Ele seguiu pelo corredor e parou na frente da porta do quarto dos pais de Aisha e libertou da pokébola Blue, um Frilish macho.
Com um comando silencioso, ordenou que ele entrasse no quarto e procurasse por algo parecido com uma pena de prata que estivesse, de preferência, no pescoço de Aisha. Blue o obedeceu e, enquanto Edward esperava, ele decidiu investigar o outro cômodo na outra ponta do corredor. Chegando lá, deparou-se com um quarto todo bagunçado onde havia marcas de terra e de tinta por todos os lugares. Edward olhou para o teto e viu um alçapão de onde escorria uma tinta vermelha como uma cachoeira de sangue.
Ele, então, subiu o alçapão, habilidoso, e se deparou com várias telas espalhadas por todos os lados do sótão. Além de retratos de Pokémons, existiam telas onde estavam pintados traços negros com detalhes diferentes, mas sempre seguindo um padrão: prateado e multicolorido.
Edward se lembrou do que Alice dissera: “uma pena prateada”. Será que isso estava relacionado com o pingente de Aisha?
— Então você descobriu o meu segredo... – Aisha estava atrás de Edward e sua voz estava muito sinistra.
— Aisha? – Edward mal se virou e fora capturado pelo cipó de Ivy. Blue, desacordado, estava preso por outro cipó.
— Eu acreditei em vocês Edward... – Comentou Aisha enquanto caminhava pelo chão do sótão. Bochechas estava bem a seu lado e iluminava tudo com sua cauda. – Mas no fim vocês estão do lado da Equipe Rocket! – Sua voz saiu esganiçada e ela apontava o dedo na cara dele.
— Não diga uma bobagem dessas... – Edward desviou o olhar.
— Silêncio! – Ordenou – Eles não queriam o meu pai... Eles queriam essas penas, eu sei disso! – Aisha pousou a mão abaixo dos pingentes: uma pena prateada e uma pena multicolorida.
“Então era verdade!”, Pensou Edward. Ele podia sentir a adrenalina correndo por todo o seu corpo.
— Segundo o meu pai, essas penas podem ajudar a invocar os pássaros lendários da região de Johto: Lugia e Ho-oh. – Ela fez uma pausa e olhou nos olhos de Edward. Então prosseguiu. – E vocês vieram aqui para rouba-las de mim!
— Você é mais esperta do que eu pensei, garota fantasma. – Comentou Alice nas costas de Aisha. Ela batia palmas pausadamente e tinha Sirius, o Zorua, sobre seu ombro.
— Alice?! – Aisha tomara um susto com a presença da garota e, logo em seguida, os olhos de Sirius brilharam e ele lançou uma descarga de energia noturna que a fez ter espasmos e cair no chão. Ivy correu até sua mestra sem se importar com Edward e Blue que foram libertos.
— Não acha que isso foi precipitado demais? – Perguntou Edward massageando o pescoço e se aproximando de Aisha que estava deitada no piso poeirento do sótão.
— Ela é muito indócil. Um Pulso das Trevas (Dark Pulse) fraco como esse não vai machucá-la, foi só um susto. – Comentou Alice que se desvencilhava de um abraço do Frilish apaixonado. – Quer fazer o favor guardar esse fantasma na pokébola dele? – Retrucou.
— Não, eu gosto de ver quando você parece uma criança. – Comentou Edward rindo. Ele realmente se divertia com a situação.
— Vocês... Mentirosos... – Aisha se mexia no chão e tentava se levantar.
— Fique calma. Temos algumas coisas a dizer para você. – Alice agachou-se para que Aisha a escutasse bem. – Queremos sim as suas penas místicas, mas você vai nos entregar espontaneamente.
— Nunca...!
— A única forma de libertar o seu pai é entregando essas penas para ele. – Adiantou-se Edward. – Se você não percebeu, ele era apenas uma isca, o que os vilões querem são essas penas que você possui.
— Ou seja, se você quer ver seu pai novamente, terá de nos entregar essas penas ou vir conosco. ORA SAIA DAQUI!! – Gritou após receber um abraço de Blue que acabou derrubando-a no chão. Sirius pulou sobre Frillish numa tentativa desesperada de libertar Alice.
Lágrimas escorreram dos olhos dourados de Aisha. Ela tentava com todas as suas forças se levantar. Mesmo com a ajuda dos cipós de Ivy, ela sentia todo o corpo duro.
— Isso está me incomodando. – Comentou Edward agachando-se perto de Aisha. – Não somos da Equipe Rocket, mas temos nossos motivos para querer alcança-los.
Aisha olhou nos olhos azuis de Edward e sua mão se arrastou até encontrar a mão dele que estava próxima a ela. Alice já estava de pé lutando contra os abraços de Blue enquanto Sirius o mordia. Aisha fechou os olhos e assentiu com a cabeça
— Eu vou. – Disse ela.
No dia seguinte Alice e Edward esperavam do lado de fora do rancho.
— Tem certeza? – Perguntou Alice. – Ela vai nos atrasar.
— Tente fazer uma boa ação pelo menos uma vez na vida. Essa era a melhor forma que tínhamos de obter as penas e alcançar a Equipe Rocket.
— Eu não vejo nenhuma boa ação em usar essa garota para conseguir a SUA vingança... – Comentou Alice com um sorriso largo enquanto o as maçãs de Edward coravam como se minassem todo o sangue dele.
— Nós a ajudaremos a libertar o pai!
— Você continua usando a garota. Pobrezinha. – Terminou Alice, triunfante e elegante. Sirius estava sobre sua cabeça, ela ajeitava a bolsa em seu ombro e o guarda-chuva ela atirara nas costas de Edward.
Aisha enfim terminara de ajustar a placa na porteira do rancho. “Estamos de férias” dizia a placa. Segundo Alice essa era uma desculpa desnecessária, já que estar dentro do rancho significa férias...
Quando Aisha se aproximou os três se olharam como se sentissem que uma jornada diferente estava para começar. Edward em busca de seu pai, que segundo suas investigações e as pesquisas de Alice apontam que ele é o mais novo capanga da Equipe Rocket. Aisha também em busca de seu pai, mas com propósitos mais nobres: o de libertá-lo, mesmo que isso signifique entregar dois Pokémons lendários para os vilões. E Alice que está no grupo porque não tinha nada melhor para fazer.
Fale com o autor