Poké Crônicas: Índigo
2 Capítulo II. Encontros e desencontros
Em uma bela manhã de sol, sentados a uma mesa do pátio do SS. Anne estava uma moça de longo cabelo azul, preso por uma trança e um rapaz que usava óculos de armação quadrada. Eles tomavam o café da manhã e conversavam sobre seus próximos passos. Ao pé da mesa estava uma Ivysaur e uma grande Thyphlosion deitada sentido a brisa marítima acariciar seus pelos cinzentos.
— O que você pretende fazer quando voltar para casa? – Perguntou o rapaz sorrindo.
— Muitas coisas, a vida nos ranchos é muito puxada. Provavelmente descansar não é uma opção... – Ela riu baixinho, quase sem graça, e levou uma torrada a boca.
O rapaz riu. Seu nome era Soma Helquist e ele aparentava ter 18 anos de idade. Havia algum tempo que ele viajava junto da moça com quem conversava e agora ambos voltavam para suas casas de uma cansativa jornada pela região de Sinnoh.
— Acredito que seus pais estão muito orgulhosos de você, não? – Ele bebeu um gole de suco.
A moça desviou o olhar, sem graça, e sentiu seu rosto corar. Seu nome era Aisha Grey e, graças à sua estirpe, ser a melhor em tudo o que fazia era uma necessidade para sua sobrevivência, afinal, o pai foi campeão da liga de Kanto e a mãe uma importante Top-Coordenadora em Sinnoh. Bem, toda essa responsabilidade que morava na cabeça de Aisha era algo que a impedia de fazer as coisas que realmente gostava.
— Bem, então você vai voltar para Mahogany depois que aportarmos em Vermillion? – Aisha tentou mudar o assunto. Falar de sua família era algo que não a agradava.
— Sim, já tenho as passagens para o SS. Aqua. Embarco amanhã à tarde. – Ele levou uma torrada à boca.
Um silêncio se seguiu e nesse momento Ivysaur e Thyplosion se entreolharam e observaram seus mestres.
E então apareceu uma pessoa tão odiosa que sua risada cínica trazia tiques nervosos a jovem Aisha. Seu nome era Giovanna Antoinette. Ela tinha o cabelo bem curto e escuro como a noite. Seus olhos púrpuros estavam sempre semicerrados e ela se vestia com roupas grife. Aliás, não havia nada que Aisha e Soma conhecessem que ela não diria “É do meu pai”.
— O que acharam da bela visão que o navio do meu pai proporciona a perdedores como vocês? – Ela riu só de ver a indignação no rosto de Aisha. Soma, porém, já não se importava mais.
— Gio-- – Aisha começaria, seu olho esquerdo piscava de leve e freneticamente, mas Soma a interrompeu.
— Você poderia nos dar licença Giovanna? – Disse ele calmo e sério. Viola, a Thyphlosion, levantou-se e pôs-se ao lado de seu mestre.
— Ora, interrompo algo? Pensei que seria caridoso cumprimentar o casal de perdedores desse navio! – Disse ela sorrindo cinicamente para Aisha e Soma.
— Não somos perdedores! – Disse Aisha irritada e levantando-se.
— Presumo que se interessem no torneio que estará acontecendo no navio nas próximas horas. – Ela tirou um papel amassado do bolso da calça e atirou-o sobre a mesa. Em seguida afastou-se deles rindo até desaparecer de vista.
— Como é abusada!
Soma riu baixinho do descontentamento de Aisha enquanto desamassava e lia o que estava escrito no papel. Um torneio de regras simples em dupla. Aconteceria ao meio-dia no terraço do navio e os treinadores interessados deveriam se inscrever com a enfermeira Joy no centro de tratamento Pokémon, no terraço.
— Você quer participar?
— Apenas se você me conceder a honra de ser seu parceiro. – Disse Soma com um sorriso galante nos lábios.
Aquele sorriso era realmente belo, como ele conseguia ser tão cavalheiro? Aisha retribuiu com um sorriso e eles continuaram o animado café da manhã.
Giovanna Antoinette era a filha do comerciante mais rico e conhecido de Kanto a Unova. Por esse motivo, ela sempre teve tudo o que quis, assim como seu primeiro Pokémon: Prince, o Piplup
Porém, sua infância foi solitária resultando em sua personalidade mimada e maldosa. A melhor forma de acabar com a solidão, para Giovanna, era pregar peças. Incrivelmente, ela estava sempre à frente de suas presas, fossem os empregados de sua grande mansão ou os Pokémon do jardim.
O sentimento que tem por Aisha é um misto de inveja e rivalidade. Inveja por ela ser querida e estar sempre rodeada de amigos; rivalidade por ela ser filha dos “melhores do mundo”.
E foi perdida em pensamentos maldosos que Giovanna esbarrou em um rapaz alto e forte para sua idade. Não foi o melhor encontro, mas foi marcante.
— AI! – Giovanna fora empurrada para trás. Ao que parece ela esbarrou em alguma coisa muito firme.
— Você não olha por onde anda? – Perguntou o rapaz de cabelo vermelho como o sangue com uma expressão enigmática no rosto. Seu nome era Eric Addams.
— Pelo visto é VOCÊ quem não olha por onde anda! – Retrucou Giovanna. Ela o olhou de cima a baixo e sua conclusão foi: – Os músculos não compensam a falta de cérebro, sabia?
E ela deu as costas para Eric que, por sua vez, a segurou pelo punho.
— Quem você pensa que eu sou, boneca? – Como ele era atrevido!
— E quem VOCÊ pensa que EU sou!? – Ela arqueou uma sobrancelha e lançou seu olhar de repulsa a ele.
— Você está falando com Eric Addams, o campeão da região de Hoenn, eu mereço melhor tratamento que isso! – Disse ele, debochado, puxando-a para perto.
— Então é assim que são os campeões? Brucutus desesperados? – Ela riu de desgosto.
Eric sentiu seu rosto esquentar. Como ela poderia ter tantas respostas prontas para tudo o que ele dizia?
— Se não se importa... – Ela se aproximou com um olhar sedutor. – Eu tenho muito que fazer. Coisas que sua mente limitada a batalhas jamais compreenderão... – sussurrou e se soltou da pegada dele.
Alguns passos adiante, Eric libertou de sua pokébola Flygon. Inesperadamente, uma esfera de água emergiu pela lateral do navio, atingindo o Pokémon a toda velocidade.
Flygon fora lançado para cima e o véu de água desapareceu, revelando um poderoso Empoleon. Antes mesmo de reagir, Flygon foi atingido por um raio de gelo e caiu inerte no chão do navio, formando uma pequena rachadura.
— TRAPACEIRA! – Eric correu até Flygon, como uma criança corre até a mãe.
— Você vai ter que pagar por isso. – Giovanna apontou para a rachadura no chão, a satisfação estampada em seu rosto era o resultado de ver Eric desesperado. Empoleon se pôs ao lado dela, como um guarda-costas.
— TRAPACEIRA!
— Céus! Você só sabe dizer isso!? – Resmungou e puxou um aparelho, semelhante a um tablet, porém menor e com fotos de vários rostos.
— Draco! Você está bem?? – Eric estava ajoelhado ao lado de Flygon, tentando reanimá-lo.
— É claro que está “Campeão”. E... Draco? Que nome patético para um Pokémon dragão! – Disse ela enquanto deslizava a ponta do indicador sobre a tela do aparelho.
— Quem você pensa que é!?
— Hm... Encontrei. Eric Addams! – disse ela sem dar a mínima atenção à pergunta do rapaz. – De fato, você é o campeão de Hoenn, mas recusou-se a assumir o cargo, o que não o torna campeão. Patético. O valor dos danos causados ao navio pela sua falta de cuidado será adicionado à conta do quarto onde está hospedado com... Seus pais. – E dito isso ela levantou seu olhar para ele e riu.
— O que é!? – Ele já estava irritado.
— Um rapaz desse tamanho viajando com os paizinhos! QUE PATÉTICO!! – Ela deu as costas e foi-se.
— Quem é você!?! – Eric levantou-se e gritou.
Giovanna parou e Empoleon também. Ambos viraram-se para Eric e ela respondeu:
— Giovanna Antoinette, filha do comerciante mais rico e influente em todas as regiões desse mundinho limitado e também proprietário desse navio. Este é Prince, meu Empoleon. – Ela deu as costas novamente e prosseguiu. – Dica: melhor você, Eric Addams, tomar cuidado com suas atitudes. Você não conhece ninguém afora seus paizinhos e não compreende o que é ter influência, já que recusou o cargo de Campeão. Cresça garoto. – Ela sorriu maldosamente, como se saboreasse cada palavra que saiu de sua boca.
E assim ela se afastou até sumir da vista de Eric.
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