Poemas soltos

1 Primavera


Notas iniciais
Um conto sem sentido, que faz todo o sentido do mundo.

Foi numa primavera sem cor. O céu estava cinzento, sem vida, sugado pela melancolia de uma alma carente. Minha alma. Atormentada pela escuridão de uma floresta sem flores. O veneno ácido que corroía pouco a pouco minhas entranhas tomadas pelo vírus incurável da tristeza crônica. Afundada num mar vazio.

Meus pulmões encheram de areia. Viver era um sacrifício. Seu corpo jazia, envolto em madeira. Enterrei meu espírito a sete palmos do chão, deixando para trás algo que já não era mais eu. Dura como mármore, penetrável como água. Um emaranhado de indecisão. Um nada e um tudo reunidos numa só carcaça.

Foi numa primavera gelada. O vento era feito de estacas, perfurando minhas costelas, sem nunca alcançar meu coração. Porque, ora, meu coração está com você — morto e imóvel, para sempre seu. Meu peito inflado, dolorido, gritava por ajuda. Quieta, eu seguia meu caminho. Sem nunca dizer uma palavra.

Meus movimentos já não eram mais meus. Controlada por seu fantasma, eu sobrevivia. Sustentada pela gravidade, presa ao chão, cercada pela imensidão. Eu já não respirava. Meu corpo, antes transbordava vida — agora era uma embalagem vazia.

Foi naquela primavera. Meu espírito adormecia ao seu lado. Você o roubou de mim, com seu amor egoísta e seus pulsos cortados. Então, me diga, por que me dar vida se for só para arrancá-la?

Malditas primaveras. Elas sempre me deixam melancólica, com suas esperanças falsas e promessas enganosas de um paraíso colorido. O inferno me atingiu na estação das flores.

Foi numa primavera. Você se foi. E agora, mergulhada num literal mar de desespero, eu deixo que as ondas me levem até você. Só assim podemos atravessar juntos a agonia das flores mortas, dos galhos pisados e das nossas almas iludidas.

Notas finais
Primaveras... Eu tenho certo preconceito contra elas.