Poemas soltos
4 Almas Sugadas
Notas iniciais
Engraçado, o amor. Esmaga o coração, queima os pulmões e perfura o estômago — e, pior ainda: faz com que você fique louco o suficiente para gostar da sensação. Foi assim com Kurt. Foi assim com Gretel. Foi assim com Kurt e Gretel.
Começou num pôr de sol cinzento.
Não havia nada além de nuvens brancas, sendo arrastadas pelo vento forte e potente, num país desolado por um homem de ideias insanas. A chuva limpava o sangue das ruas, mas não das almas. Crianças louras, com olhares secos, brincavam numa rua enlameada, pouco se importando com suas roupas arruinadas pela água.
Gretel balançava infantilmente as pernas pálidas, como uma pequena criança inocente cuja alma foi aspirada.
Kurt estava sujo até os cabelos, com seu sorriso amarelado e seus cabelos cor de limão.
Eles gostavam de observar um ao outro, sorrateiramente, sob a sujeira de seus rostos, tentando disfarçar os olhos que brilhavam com faíscas de eletricidade. Bastou um olá. Kurt tremia por conta das roupas encharcadas, e Gretel por um motivo completamente diferente. Não demorou muito para que fossem os inseparáveis Kurt e Gretel.
Havia um casebre abandonado de uma falecida família de judeus. Gretel levava velas de cera de sua mãe, e Kurt os fósforos. Eles compartilhavam segredos sob um cobertor fino:
“Seu rosto é bonito como uma estrela”.
“Acho que é com isso com que o amor se parece”.
Quando veio a primavera, tudo cheirava a lírios, assim como Gretel. Kurt gostava de suspirar o perfume doce de seus cabelos. Gretel gostava de sentir a respiração dele em seu pescoço e de imaginar como seria tê-lo ainda mais perto. Ela não esperou muito para saber. Os lábios de Kurt eram gelados, mas os dela eram mais. Beijos suaves e silenciosos, seguidos de sorrisos apaixonados.
E então já não havia mais volta. Os segredos foram deixados para trás, substituídos por carícias delicadas. E ainda assim não era suficiente. Cada centímetro que separava Kurt e Gretel era como uma estaca que atravessava o coração de ambos. Mas era uma sensação ótima. Um sufocamento prazeroso. Era como morrer, apenas para renascer no segundo seguinte.
Terminou numa madrugada estrelada.
O casebre estremecia com o vento da noite. Kurt estava maravilhado com a cor dos olhos de Gretel. Sempre estivera. Eles não eram mais as crianças desprovidas de alma, já não faziam mais parte daquele grupo coberto de lama e desprezo. Eles eram algo mais, algo diferente e desconhecido, fora de lógica. Mas eram frágeis como vidro, quebráveis como a superfície da água.
Sem aviso algum, as estrelas pegaram fogo e despencaram em chamas do céu. Queimaram os corpos já sem vida de alemães infelizes, puseram abaixo o casebre judaico. Kurt só teve tempo de abraçar Gretel — todo o seu mundo — e dar um último beijo que selava seus destinos.
Suas vidas queimaram, frágeis, extinguidas pelas bombas inimigas. As chamas corroeram as entranhas mundanas de Kurt e Gretel. Mas estava lá, claro como a luz do dia: o fogo moldou, pouco a pouco, o contorno de suas almas apaixonadas, que descansavam para sempre em seu amor desesperado.
Kurt e Gretel. Os inseparáveis Kurt e Gretel.
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