Notas iniciais
Porque eu adoro universos compartilhados

"Ela está espetando agulhas em sua pele"...

... presa em sua dor novamente, perdida em seu mundo sujo. Seus olhos frios encaram o chão, seu coração pulsa desgovernado em seu peito (tão alto), esperando pelo alívio sintético da novacaína.

Jogada num canto, como o brinquedo sexual do diabo.

A droga finalmente começa a fazer efeito, e um suspiro silencioso escapa dos seus lábios. Ela sabe que já não há mais como fugir, e que não pode remediar ainda mais o que estava por vir, só esperava que aquele maldito liquido fizesse efeito logo (por favor, rápido... rápido...).

Levanta seus olhos e fita os meus (perdida dentro do seu mundo sujo), e eu a fito de volta. Sei que ela não me vê (ainda não), ela não poderia. Mas será? Seus olhos (tão mortos) tão fixos nos meus.

Queria poder abraçá-la.

A porta se escancara com o rugido demoníaco das dobradiças a se soltarem. Ela mal se move (como se pudesse realmente me ver ali) enquanto seu agressor se aproxima como um trem vindo sobre a pobre criança que caiu nos trilhos. Braços retesados, passos largos (não há redenção essa noite). Ela mal soube o que a atingiu antes de ir parar com as costas na parede (não para você, querida).

(Nós estávamos destinados a ficar juntos)

—Vadia! — ela tentou levantar (nós fomos feitos para machucar um ao outro), ele a segura pelo cabelo — eu não era o suficiente, não é? — o primeiro soco partiu seu lábio inferior — Nunca sou o suficiente! — o segundo e o terceiro quase a levaram à inconsciência.

Então ele a solta no chão e o diabo lança-se sobre ela.

(Agora morra e me ame, caralho!)

Eu senti (tão presente) sua vida escapar dos seus olhos, como se fosse minha própria garganta sendo esmagada pelo trem. Seus olhos (tão mortos) ainda me fitavam. Eles me chamavam, imploravam para que eu terminasse logo com aquilo. Sei que ela não pode me ver, mas já não faz diferença, pois ela me via assim mesmo. Era minha mão sob a adaga, e eu queimarei por isso.

O trem grita e ruge, mas seus sons a mim não dizem nada. A ela também não. Ela aceitara seu destino e o abraça quando passo minha mão sobre seus olhos. E ela sorri, feliz por finalmente ter seu barco de papel recolhido desse rio sujo.

(Antes que ele afunde).

Vamos esperar que a noite chegue, você vai gostar de conhecê-la.