Poemas

17 Acredito


Minha imaginação está falhando. Minha criatividade está me abandonando e minha memória está desaparecendo. Não encontro mais as palavras que antes me descreviam, na verdade, nem sei como me descrever mais. Quem sabe eu mudei, ou talvez descobri que nunca soube quem era. Já cheguei a pensar que eu sou aquela que fui obrigada a me tornar, mas não a que sou — se é que sou. Começo e não termino, penso mas não escrevo, deixo palavras incompletas e não sei como finalizar frases. Meu vocabulário está limitado e já não rimo mais. Minhas habilidades estão me abandonando.

Eu achei que poderia me ensinar a fazer coisas, mas para você ensinar você deve saber, e se eu soubesse não estaria me ensinando. Eu estou confusa, já não vejo mais sentido, nem graça, nem pena. Tridimensional já não impressiona minha vista. Quando abro a janela, o vento gelado perfura meus poros — eu já não ligo. O nervosismo e ansiedade tomaram conta de tudo que me pertencia e o pior sentimento que sentia, agora é o sentimento que mais me satisfaz.

Eu penso bastante sobre me matar, mas não como ultima saída, só como uma saída de emergência que nunca tive necessidade o bastante para usar. Quando estou feliz, não morro porque ainda tenho muito o que fazer. Já quando eu estou triste não me mato porque com a morte, minha tristeza acabaria, e a tristeza é o que me faz quem sou; sem ela eu não seria mais eu mesma e eu quero morrer sendo quem eu sou. Quando imaginava minha vida nunca pensei que poderia ser assim. Eu acreditava que tudo acontecia igual filmes e que tudo estaria em seu respectivo lugar. Bom, não. Eu sinto muito que você deve me observar morrer.

Eu acredito que quando a gente morre, acaba. Não gostaria, mas é o que acredito. Eu gostaria que existisse vida pós-morte, ressurreição ou qualquer outro final feliz, mas não é só porque eu quero acreditar que eu acredito, muito menos que é real. E também não é só porque eu acredito que seja real então, de qualquer forma, nossos conceitos sobre verdades são inúteis. Quão simples as coisas seriam se nós tivéssemos que viver apenas nos preocupando com o que nós fazemos e com as nossas ações. Se as nossas ações afetassem única e especialmente a gente. Eu não odeio as pessoas, mas as vezes eu canso delas.

Existe aquela brincadeira que se você repetir demais uma palavra ela deixa de fazer sentido. Um exemplo: casa, casa, casa, casa, casa, casa, casa, casa, casa, casa. Viu? Nada. E é exatamente isso. Se você repetir demais um feito, ele perde seu sentido. Se você ver todo dia o por do sol, um hora vira apenas 6h da tarde. Se você dormir ao lado de alguém todas as noites, uma hora vira apenas dormir. Se você só acordar, acordar, acordar, acordar, acordar, acordar, acordar, uma hora você esquece o porquê. Quando você repete uma coisa muitas vezes uma hora ela deixa de fazer sentido. Um exemplo: amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor. Viu? Nada.

Eu não sei como isso termina, mas eu sei que isso não importa, porque tudo termina do mesmo jeito. Aquele momento que você ama uma garota mas aquela garota vira um monte de carne e osso e quando aquele monte de carne e osso vira um monte de carne e osso dentro de uma caixa de madeira. Tem dias que eu não consigo achar o sol, mesmo sabendo que é só olhar pela janela. Qualquer que seja o que você está sentindo, alguma outra pessoa está sentindo exatamente o mesmo sentimento. Se ninguém sabe que você está vivo, você não está. Eu sei como se sente quando todo o mundo é o espaço entre sua cama e o interruptor. Ame até mesmo o quanto você se odeia e agradeça que ainda tem algo para odiar.