Poeira de Estrelas

1 Poeira de Estrelas


Notas iniciais
Olá, pessoas lindas!!!
Tudo bem com vocês?
Bom, aqui estou com mais uma história para o Junho Scorose {@JScorose no twitter} e queria aproveitar o espaço para agradecer novamente pelo convite da Miss A e a todas as meninas que estão tornando esse mês especial com suas histórias lindas.
Para quem se interessar essa história tem uma playlist: {https://open.spotify.com/playlist/3qv2YFY1Apl9LGx7n3aDv3?si=9Oz-r7ZATuSce0dkCLwtuw} e eu fiz alguns aesthetics {encurtador.com.br/bCLNX}
Espero muito que gostem dessa one-shot! ♥

{poeira de estrelas}

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“god, give us the reason

youth is wasted on the young

it's hunting season and this lamb is on the run

searching for meaning”

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Ela nunca havia pensado muito sobre Scorpius Malfoy. Os dois se conheciam há mais de uma década e, ainda assim, Rose Weasley nunca havia dedicado muito do seu tempo para refletir sobre o rapaz. Ele simplesmente... estava ali. Como um móvel antigo em uma casa na qual você sempre vivera. Um móvel pelo qual você passava tantas vezes durante o dia que, em um determinado ponto, simplesmente deixara vê-lo por completo. De notar sua existência.

Pelo que ela sabia, Scorpius Malfoy era apenas o melhor amigo de Albus Severus Potter. E Albus era o primo de quem sempre fora mais próxima. Logo, e por extensão, Scorpius Malfoy era uma presença constante em sua vida. Uma presença bem educada, agradável e com a qual ela poderia debater trivialidades. Mas nada mais do que isso.

E não poderia ser diferente. Os dois eram feitos de matérias opostas. O rapaz era silêncio, era gelo, era cinza. A garota era gritos de excitação, era fogo, era vermelho vibrante. Em seus anos de adolescência, ele andara por Hogwarts com um ou dois amigos, se escondendo nas sombras, com óculos grandes demais sobre os olhos cinzentos e o nariz sempre enfiado em um livro. Já ela havia sido a rainha da popularidade, acompanhada permanentemente por um séquito de seguidores fieis, colecionando detenções e brindando o mundo com seus sorrisos fáceis e vocabulário imundo. Ele havia sido monitor-chefe. Ela havia sido capitã do time de Quadribol. Um sonserino. Uma grifinória. Malfoy. Weasley. Um escorpião sem ferrões ou veneno. Uma rosa rubra e tentadora, cercada por espinhos invisíveis. Diferentes em um nível quase molecular.

Após se formarem, Scorpius fora estudar História da Magia e Rose seguira carreira no Quadribol, se tornando goleira das Harpias de Holyhead. Em outra vida, aquele teria sido o fim de qualquer relação entre os dois. Teriam seguido em frente e talvez até se lembrassem ocasionalmente de terem se esbarrado em algum corredor ou compartilhado alguma aula, enquanto estavam na escola, mas nada mais que isso. Nessa vida, entretanto, eles compartilhavam um elo inquebrável: Albus Severus.

No fim, era possível dizer que Albus fora o catalisador da estranha explosão que Rose e Scorpius formaram. Fora pelo rapaz, afinal, que os dois estavam naquele apartamento, na madrugada de sábado em que tudo mudou entre eles. Havia glitter por toda a sala, garrafas e copos espalhados pelo chão, manchas de vinho no sofá. Um ou dois pares de sapatos perdidos, peças de roupas abandonas, louça quebrada na cozinha.

Havia sido o aniversário de 27 anos de Albus e ele o celebrara com uma grande festa. Naquele momento, o Potter se encontrava adormecido em algum canto da casa, enquanto Scorpius tentava limpar a bagunça. Não era uma obrigação dele fazer aquilo, mas o Malfoy simplesmente não conseguia se controlar. Gostava de manter as coisas organizadas. Gostava de manter o controle.

— Deixe isso tudo aí, o Al que se vire para arrumar quando acordar. — a inconfundível voz feminina veio da sacada, o sobressaltando.

Ele havia se esquecido que Rose ainda estava ali. O que era surpreendente, Scorpius pensou, uma vez que nunca fora capaz de não notar Rose Weasley. Não achava que alguém seria, não quando ela era tão “demais”. Não havia um julgamento de valor naquele adverbio, era apenas o que era. A garota era intensa, exagerada, comunicativa, magnética. Uma daquelas pessoas que emanava uma luz diferente e atraía todas as outras. Uma daquelas pessoas que, para o bem ou para o mal, era impossível ignorar.

Em algum ponto da vida, ele havia achado tudo aquilo bastante irritante. Mas não mais. Convivera com a prima do melhor amigo há tempo o suficiente para se habituar ao jeito dela. Já não carregava consigo qualquer desgosto particular em relação à moça. No entanto, tão pouco destinava qualquer afeto em direção a ela. Rose apenas... estava ali. Fazia parte de sua vida, porque fazia parte da vida de Albus. E Scorpius não conseguiria deixar de nota-la, porque, bom, se fazer notar era algo intrínseco a Rose Weasley. Dito isso, os dois conseguiam ter conversas casuais e se tratavam de modo cordial. E isso era tudo.

— Não sabia que você ainda estava aqui. — ele admitiu, caminhando até a garota, as mãos nos bolsos na calça. Ela apenas deu de ombros.

Rose estava sentada no chão. Os pés descalços e imundos, os cabelos ruivos se soltando do penteado elaborado e caindo em ondas por seus ombros, a maquiagem escura um tanto borrada nos cantos dos olhos, uma garrafa de vinho nas mãos. Havia algo hipnotizante naquela imagem. Algo que fazia com que fosse impossível para Scorpius desviar os olhos. Melancolia, introspecção, decadência. Adjetivos que ele jamais pensaria em associar a Rose Weasley.

— Você está bem? — ele questionou.

— Ótima. Aceita? — ela perguntou, estendendo a garrafa de vinho.

— Pensei que você não gostasse de vinho.

Em algum momento de toda festa de família, a garota acabava sempre deixando claro – e de forma bem audível – seu descontentamento com a simples existência de vinhos como bebida. Normalmente quando já estava bem embriagada com Whisky de Fogo.

— Não gosto, mas estou tentando ser sofisticada. — Rose disse, levando a garrafa a boca e bebendo um longo gole.

Scorpius não conseguiu reprimir a gargalhada, o que fez com que Rose sorrisse para ele. Era um sorriso bonito.

— O que você ainda está fazendo aqui? — ela indagou — Limpando a bagunça do Al.

O rapaz deu de ombros, se sentando ao lado dela.

— Estou acostumado a limpar a bagunça do Al. Em todos os sentidos. — ele disse, com um leve sorriso. A ruiva o encarou de forma intensa. Os olhos azuis dela o sondando em busca de alguma mentira. O rapaz suspirou — E talvez eu não quisesse voltar para casa. Ainda não. E você? Por que está aqui?

— Bebida grátis. — ela disse, balançando a garrafa.

O Malfoy a encarou, arqueando uma sobrancelha. Foi a vez dela respirar fundo.

— Também não estou com muita vontade de voltar para casa.

Os dois suspiraram alto e juntos. Imediatamente trocaram um olhar e uma risada. Rose ofereceu a Scorpius a garrafa de vinho. Ele a aceitou. Hesitou por um instante, tirou a varinha do bolso da calça e com um feitiço simples, conjurou uma taça. A garota o observou incrédula.

— Você é inacreditável, Malfoy. — disse gargalhando.

— O que foi? — ele questionou inocentemente, virando o conteúdo da garrafa na taça.

— Você precisava mesmo dessa taça? Não podia simplesmente virar essa bebida no gargalo como uma pessoa normal?

— Bom, ao contrário de você, Weasley, eu sou realmente sofisticado. — ele afirmou, fingindo pretensão, enquanto bebia um gole do vinho.

— Você é um idiota. — ela disse divertida.

— Isso também. — concordou e logo os dois estavam gargalhando novamente.

Scorpius Malfoy tinha uma risada esquisita, Rose se flagrou ponderando. Mas não era uma risada ruim. Pelo contrário. Era aquele tipo de som estranho e nasalado que é surpreendentemente contagiante. O tipo de risada que faz algo quente crescer em seu interior e te faz desejar rir também. O que era realmente surpreendente, afinal, ela passara todos aqueles anos acreditando que Scorpius Malfoy, o metódico cdf cumpridor de regras, sequer tinha senso de humor.

— Posso te fazer uma pergunta? — a Weasley se viu dizendo, quando o silêncio recaiu entre os dois. Preencher silêncios era algo que ela sempre fizera muito bem e, se fosse honesta consigo mesma, estava bastante feliz pelo Malfoy ter se juntado a ela naquela sacada. Não por ser o Malfoy, mas por ser alguém, uma pessoa qualquer que a impedisse de ficar sozinha, com nada além dos próprios pensamentos, e enlouquecer.

— Claro. — ele aceitou, dando de ombros.

— Por que diabos você resolveu estudar História da Magia?

Scorpius ergueu uma sobrancelha.

— É sério?

— Sim! — ela confirmou.

O homem riu.

— O que foi? — Rose indagou, aparentando exasperação, mas já contagiada por aquela gargalhada.

— Bom, tem quase dez anos que eu pesquiso nessa área, Weasley.

— Sim, eu sei. Só... fiquei curiosa.

Havia algo por trás daquilo, Scorpius sentiu. Mas resolveu não pressioná-la. Além disso, gostava de falar sobre seu emprego. E não gostava de falar sobre muitas coisas.

— Porque história é importante. Porque é o que nos faz entender quem somos como sociedade. Como chegamos aqui. Porque sem ela não podemos aprender com os erros das gerações passadas ou evoluir. E, bom, porque sempre foi a minha matéria favorita em Hogwarts.

— Mesmo com o Professor Binns? — a ruiva arqueou uma sobrancelha, o olhando com incredulidade.

— Apesar do Professor Binns.

Os dois riram com aquela afirmação.

— Na verdade, não sei se posso realmente reclamar do Senhor Binns, já que a voz dele sempre teve um maravilhoso efeito sonífero sobre mim. — a moça contou — As aulas de História da Magia eram onde eu colocava meu sono em dia. Desculpe por não tê-las usado como inspiração para ajudar na evolução da espécie, Malfoy.

Ele apenas balançou a cabeça.

— Acho que infelizmente a maior parte da nossa turma compactuava com seu comportamento, Weasley. — a voz dele soava divertida.

Rose bebeu mais um gole de vinho.

— Eu sinto falta, sabe. De Hogwarts. Daqueles tempos mais simples... E você?

Scorpius deu de ombros.

— De algumas coisas bem específicas. Mas, no geral, não. Voltar a Hogwarts é basicamente o meu pesadelo mais assustador e recorrente.

— Fala sério, Malfoy.

— Estou falando! Nem todos nós fomos a Rainha do Baile de Inverno, Weasley. Se quer saber, a minha vida melhorou bastante depois que nos formamos e me vi livre do bullying diário. Então, não. Não tenho muitas saudades.

E era verdade. Ser um herdeiro de Comensais da Morte em um contexto pós-guerra não era fácil. Ser um herdeiro de Comensais da Morte que traíram o Lorde das Trevas e conseguiram se livrar de Azkaban, era ainda pior. Independente de sua posição política, todo mundo odiava os Malfoy. Isso não se misturava bem a adolescentes temperamentais, irritadiços e que ainda estavam aprendendo a viver em sociedade. Não ajudava que Scorpius não conseguisse se impor nem para salvar a própria vida. Ele fora um nerd franzino e introvertido. O mais óbvio dos alvos.

A vida adulta não fizera a reputação de sua família melhorar milagrosamente, era verdade. Contudo, lhe garantira maior maturidade para lidar com tudo aquilo. Além disso, historiadores não tendiam a ser as pessoas mais ameaçadoras do mundo. Os conflitos eram todos travados em debates intelectuais e discussões verborrágicas. Algo em que, modéstia a parte, o rapaz conseguia dominar. A comunidade científica, de qualquer forma, respeitava suficientemente suas contribuições – e ainda mais o orientador que praticamente o apadrinhara – para trata-lo com cortesia. Então, sim, a vida de Scorpius Malfoy estava muito melhor agora. Muito bem, obrigado.

— Desculpe. — Rose disse, soando constrangida.

— Tudo bem. Se as pessoas gritassem “inha, inha, inha, Weasley nossa rainha” quando eu passasse, ao invés de “ei, filhote de comensal”, eu provavelmente também sentiria falta daquele colégio dos infernos.

A moça tentou reprimir o riso, mas foi em vão. Não imaginava que o Malfoy falaria de algo assim com senso de humor. Mesmo que um senso de humor sombrio. Como era possível conhecer alguém há 16 anos e não saber algo tão básico sobre essa pessoa?

— Já que estamos tento uma conversa profunda e nenhum de nós quer ir para casa, por que você decidiu ser uma jogadora de Quadribol, Weasley?

— Porque eu sou uma idiota. — a garota afirmou mal humorada, já levando a garrafa novamente a boca. Aquela porcaria de bebida de gente fresca iria deixa-la bêbada em algum momento ou não?

Scorpius a olhou surpreso. Rose suspirou.

— Albus deve ter te contado que lesionei meu ombro no meu último jogo.

Al havia de fato lhe falado sobre aquilo. Ainda assim, não teria precisado, já que estava em todos os jornais. A grande goleira das Harpias de Holyhead não poderia se ferir, sem que isso se tornasse de interesse público.

— Pensei que estivesse tudo bem. — ao menos fora o que os jornais revelaram ao longo dos dias que se seguiram ao fatídico acidente.

A ruiva balançou a cabeça em negativa, seus olhos se tornando nebulosos.

— Não está. Bom, mais ou menos. A notícia boa é que tem solução, não tive perda total do ombro. Ele vai se recuperar. A notícia ruim é que isso vai levar meses. Meses sem Quadribol. Então, adeus Copa Mundial.

— Oh! — foi a único som que o rapaz conseguiu emitir. Ele se lembrava que Rose havia sido escalada para a Seleção Inglesa. A Copa Mundial de Quadribol estava a apenas dois meses de ser realizada.

— Vão anunciar em breve meu substituto. — ela disse, fechando os olhos e encostando a cabeça na parede.

— Sinto muito.

Um silêncio longo e desconfortável se seguiu. Nenhum dos dois capaz de dizer uma única palavra. Scorpius bebeu o resto do vinho em sua taça. Rose permaneceu com os olhos fechados por minutos inteiros. Até que os abriu, voltando aquelas assombrosas orbes azuis para o homem ao seu lado. Havia algo tão intenso ali, que fez um arrepio percorrê-lo.

— Eu não sinto. — ela riu — Esse é o problema. Devia estar desesperada, furiosa, infeliz. Devia estar esbravejando, implorando, chorando como uma criança. Devia estar procurando segundas opiniões e métodos experimentais que permitiram uma recuperação em tempo recorde. Mas a única coisa que eu senti, quando o medi-bruxo me disse que teria que passar meses sem jogar e que a Copa Mundial estava fora de cogitação, foi alivio. Felicidade. Uma parte de mim até desejou que a lesão fosse pior e capaz de enterrar a minha carreira para sempre.

Scorpius a encarou mudo. Perplexo demais para dizer qualquer coisa. A garota riu de seu espanto, pegando a taça de sua mão e a enchendo novamente.

— Um brinde a uma carreira miserável.

O rapaz bebeu um longo gole da bebida.

— Você quer que eu chame alguém? Acorde o Albus? Mande uma mensagem para o Finch-Fletchley? Não me lembro de tê-lo visto aqui hoje.

Rose riu sem humor.

— Ah, o Luke não veio.

— Quer que eu mande uma coruja para ele?

A ruiva balançou a cabeça negativamente.

— Essa é a última coisa que eu quero. Nós terminamos. — admitiu.

— Oh, sinto muito.

O sorriso que surgiu nos lábios da moça foi um tanto lunático.

— Eu não. Eu terminei com ele. É por isso que não posso voltar para casa. Dei a ele até o fim da noite para que tirasse suas coisas do meu apartamento.

— Oh.

Aquilo era surpreendente. Rose Weasley e Luke Finch-Fletchley eram o casal do momento. A goleira das Harpias de Holyhead e o artilheiro dos Morcegos de Ballycastle. Eles estavam sempre juntos, estampavam capas de revista, pareciam feitos um para o outro.

— Talvez seja melhor, se ele não era bom pra você... — o Malfoy tentou oferecer consolo.

— Ele não fez nada errado, Scorpius. Seria mais fácil, se tivesse feito. Se tivesse me traído ou magoado de alguma forma. Se tivesse algum segredo terrível ou um defeito imperdoável. Mas o Luke sempre foi bom e decente e compreensível. Ele é gentil e romântico. E realmente gosta de mim, sabe? De mim. Não da filha de heróis de guerra, não da goleira das Harpias. Mas da garota que fala palavrão de mais, acorda mal humorada e não sabe cozinhar. Ele é praticamente o sonho de toda mulher. E quando esse cara maravilhoso se ajoelhou na minha frente e me pediu em casamento, todos os meus instintos me disseram para correr. Eu senti que ia sufocar. E percebi que não o amava, que nunca amei. O meu namorado de anos me pediu em casamento e eu disse “não”, terminei o relacionamento, pedi para que saísse da minha casa e vim para uma festa. Não me senti culpada nem por um segundo. Devo ser a maior vadia sem coração que já existiu.

— Você não é uma vadia sem coração, porque não quer se casar com alguém, Rose.

— Se eu não consegui amar o cara mais perfeito que existe, Scorpius, quem eu vou conseguir amar? Deve ter algo errado comigo. Algo quebrado dentro de mim.

— Rose...

— Não. Deve sim. Parece que eu sinto tudo ao contrário. A minha vida virou de cabeça para baixo e eu só me sinto mal, por não me sentir mal. Só me sinto culpada, por não me sentir culpada. Me sinto triste, mas não por ter perdido a maior oportunidade da minha carreira, ou um relacionamento ou o provável respeito de todo mundo que souber disso. Me sinto triste, por ter estado tão miserável, há tanto tempo, e não ter feito nada sobre isso até agora. Até que fosse impossível não fazer. E me sinto triste, por ter chegado aonde sempre quis chegar, ter conquistado tudo o que sempre desejei, tudo o que sempre sonhei e então ter me sentido tão infeliz. Por ter percebido que meus sonhos não faziam sentido. Qual é a porra do meu problema? — ela disse tudo aquilo sem derramar uma única lágrima. Não porque fosse orgulhosa ou se recusasse. Na verdade, há dias tudo o que queria era conseguir chorar, mas simplesmente lhe faltava a capacidade. Como se estivesse seca e oca por dentro. Como se seu coração fosse feito de pedra.

Rose Weasley havia passado a vida inteira planejando seu futuro. Mesmo em seus anos de Hogwarts, quando o mundo inteiro parecia girar ao seu redor, a garota olhava apenas para frente. Para tudo o que poderia ser. Tudo o que queria ser. Sua família inteira era formada por heróis de guerra. Seus pais formaram duas das três partes do famoso Trio de Ouro. Sua mãe era a Ministra da Magia. Tudo aquilo significava alguma coisa. Seu nome significava alguma coisa. Gostando ou não, ela tinha um legado para carregar e, uma vez que era impossível se ver livre disso, queria apenas ressignificá-lo. Queria construir algo para si mesma. Um nome que fosse apenas dela. E havia trabalhado duro para conquistar seu objetivo. Cada um dos seus fôlegos, cada gota de suor, cada passo que dera, desde que era apenas uma menina, fora para aquilo.

Havia conseguido. Deveria ter se sentido vitoriosa, mas se sentira apenas errada. Infeliz. Uma peça em um tabuleiro de xadrez, jogando um jogo que estava destinada a perder. Um jogo cujas regras já não faziam sentido há muito tempo. Uma atriz interpretando o papel que criara para si mesma com tanto afinco que se perdera no personagem. E agora, quando as cortinas se fechavam, ela já não sabia quem era. E não sabia por que continuava interpretando aquele personagem, quando aquela história era tão obviamente ruim.

— Não sei se existe “errado” nesse tipo de coisa, Rose. — Scorpius ainda estava tentando ajudar. Embora fosse terrível em consolar pessoas.

— Você acha que a Alice estava certa, então? — a moça perguntou, sem qualquer maldade.

A respiração do rapaz falhou por um instante. Aquela dor fantasma, com qual ele já se acostumara, serpenteando por seu coração. Scorpius e Alice Longbottom haviam namorado por sete anos, ela terminara com ele há dois. Na maior parte do tempo, o Malfoy gostava de acreditar que a havia superado, mas não era verdade. Bastava uma pequena lembrança da garota que um dia fora dele, para que se visse sentindo tudo aquilo que há tempos tentava reprimir.

— Acho. — ele disse, por fim, porque era verdade.

Alice terminara com ele, porque os dois não funcionavam. Porque queriam coisas diferentes e irreconciliáveis. Ela queria se casar, ter filhos, construir uma família. Scorpius não achava que fora feito para aquele tipo de intimidade e jurara a si mesmo, muitos anos antes, que jamais colocaria mais um Malfoy no mundo. Se recusava a colocar nos ombros de alguma criança inocente o sangrento legado que repousava sobre os ombros dele.

— Não me lembro de ter te visto no casamento. — Rose disse. Se lembrar de reparar em Scorpius Malfoy não ser algo que ela fizesse com frequência, ainda assim, a garota tinha certeza de que teria percebido se ele estivesse presente no casamento da ex. Teria certamente fofocado com as primas sobre isso — Ela não te convidou?

Scorpius suspirou.

— Convidou, mas achei melhor não aparecer. Seria estranho para todo mundo.

Há três meses Alice Longbottom se casara com o primo se Rose, Fred Weasley. As más línguas – no caso, a língua de Albus Severus – diziam que eles apresaram a cerimônia, porque a moça estava grávida, um fato que parecia deixar ambos muito contentes. No fim, Alice conseguira o que queria e Scorpius achava que deveria estar feliz por ela. E estaria, se não estivesse tão infeliz por si mesmo. Não havia motivos, é claro, já que ele era o único culpado por toda aquela situação. Fora ele que a deixara partir, lhe escorrer pelos dedos, e encontrar nos braços de outro tudo aquilo que ele jamais poderia lhe dar. A tristeza, no entanto, não costuma se importar com o que é lógico ou racional. Então, não, ele não fora ao casamento. Ficara em casa, em seu quarto escuro, sem sequer abrir uma janela, chorando como uma criança ridícula e solitária.

— Mas sim, a Alice estava certa, quando terminou comigo. Teríamos feito um ao outro miseráveis. Erámos uma péssima combinação. E ela tinha direito de encontrar alguém que a fizesse mais feliz. Alguém com quem combinasse de verdade. — e aquele era um fato que o lado acadêmico do Malfoy conseguia admitir a aceitar. Embora seu coração talvez nunca o entendesse de verdade. E era estranho que esses dois lados pudessem coexistir dentro dele — Foi melhor assim.

— E você? Encontrou alguém com quem combina de verdade? — havia uma preocupação genuína na voz da Weasley. E ela se pegou surpresa ao constatar que de fato se importava com a resposta. Scorpius era alguém que ela conhecia a tanto tempo que lhe despertava alguma empatia. E ela queria que ele fosse feliz. Ou, pelo menos, que não fosse infeliz.

Scorpius riu, bebendo um gole de seu vinho. Não achava que algum dia encontraria alguém com quem realmente combinasse.

— Não importa muito. No fim das contas, estou casado com o meu trabalho. Isso basta.

— Não deveria. Você nunca sabe quando sua carreira vai se tornar um fardo. — Rose balançou negativamente a cabeça, porque ela entendia aquilo muito bem — Por que a gente faz isso? Trabalho deveria ser só trabalho, uma forma de ganhar a vida. Por que o transformamos no centro do nosso mundo? Nas nossas identidades? É estúpido.

O rapaz respirou fundo e bebeu um gole de vinho.

— A maioria das coisas é estúpida, se realmente pararmos para pensar sobre elas.

— É. — a moça concordou, levando a garrafa a boca novamente. Não havia álcool suficiente no mundo para aquele tipo de conversa.

— Sabe, outro dia eu comprei o livro dela. — Scorpius admitiu e Rose soube imediatamente que a ela em questão era Alice. O Malfoy não havia contato aquilo nem para Albus — Passei por uma livraria e lá estava “A Vida e a Morte de Helga Hufflepuff, por Alice Longbottom”. Então, eu entrei e comprei. Já sei tudo o que uma pessoa poderia saber sobre a vida de Helga Hufflepuff, por todo o tempo em que namoramos e ela tagarelou sobre sua pesquisa, mas eu queria ouvir a voz da Alice de novo. Ou, no caso, ler a voz dela. Não a voz voz, mas a voz. A voz interior. Acho que não estou dizendo nada com nada. Provavelmente culpa do vinho.

Rose deixou passar a vontade de dizer que ele não havia bebido o suficiente para estar embriagado. Bom, pelo menos não a quantidade que seria necessária para deixa-la embriagada. Talvez o Malfoy fosse diferente. Talvez fosse uma daquelas pessoas que ficam bêbadas com meio gole. Até que faria sentido se fosse. Por que, em 16 anos, ela nunca havia bebido com Scorpius Malfoy? Logo ela que aceitava dividir uma mesa de bar com qualquer um? Talvez Scorpius não fosse do tipo que gostasse de mesas de bar – o que certamente era uma falha de caráter –, mas ele havia estado em eventos suficientes de sua família, para que ela pudesse, ao menos, saber que tipo de pessoa ele era em relação à bebida. Por que ela nunca havia reparado naquilo?

— Eu entendi o que você quis dizer. — foi o que ela acabou dizendo, porque realmente havia entendido.

— Foi uma das coisas mais patéticas que já fiz na vida. Mas eu li o livro inteiro. Chorei no fim de cada capítulo. O que certamente só torna tudo ainda mais patético. — ele não sabia muito bem por que estava contando aquilo a Rose Weasley. Não havia nada que detestasse mais do que expor suas vulnerabilidades, mas ele estava de fato um pouco embriagado – sim, ele era aquele tipo de pessoa. Além disso, após tudo o que já haviam revelado, o que era mais uma ou outro desabafo vergonhoso?

— Eu queria conseguir chorar. — foi a resposta da moça — Não consigo. Não sei por que não consigo. Antes eu conseguia, mas agora estou mais seca que um deserto. É como se a parte de mim responsável por produzir lágrimas estivesse quebrada. Como se eu estivesse quebrada. Não sei o que está errado comigo. Não sei por que eu estou tão fodida.

Rose queria chorar, ao invés disso, estava se afogando em lágrimas nunca derramadas. Naufragando em sofrimento árido.

— Eu queria parar de chorar. Parece que é a única coisa que eu tenho feito. Parece que estou vazando pelos olhos e perdendo um pouco de mim a cada lágrima. Todo meu orgulho e dignidade e estabilidade e felicidade sendo lavados da minha alma.

Scorpius sentia que estava se dissolvendo em um oceano de mágoa, tristeza e desesperança. Que choraria até que não restasse mais nada dentro de si.

— Por causa da Alice? — Rose sussurrou, sem sequer saber o motivo de estar sussurrando.

— Também, mas principalmente por causa da minha mãe.

— Oh! — a Weasley exclamou se lembrando que Albus havia comentando que a mãe do amigo estava doente.

— Ela está morrendo, sabe? Não há muito mais o que fazer. É só uma questão de tempo agora. De pouco tempo. Pouco tempo demais.

— Eu sinto muito, Scorpius. — e ela de fato sentia, mesmo que não soubesse muito sobre a mãe do homem ao seu lado.

— Você já se sentou em um quarto e assistiu alguém que você ama morrer, Rose?

A ruiva apenas balançou a cabeça negativamente.

— Espero que nunca precise fazer isso. Espero de verdade. — ele disse, encarando aqueles olhos azuis arregalados — Você apenas fica ali, sentado em uma poltrona, vendo aquela pessoa que significa o mundo inteiro para você desvanecer aos poucos. Vê a luz se apagando de seus olhos e a consciência sendo varrida de seu copo pelo vento. E não há nada que você possa fazer a respeito. Você tenta ajudar, oferecer conforto, estar ali, mas não há nada que possa fazer de verdade. E uma parte sua deseja parar o tempo, o pegar em suas mãos e obriga-lo a parar de correr, para ter mais um dia, mais um mês, mais um ano com ela. E a outra parte só quer ele siga seu curso o mais rápido possível, quer que tudo aquilo acabe logo, para que ela pare de sofrer, para que possa finalmente ter alguma paz. Descansar em paz.

— Eu sinto muito mesmo, Scorpius.

Mas ele parecia nem tê-la ouvido, quando continuou:

— Sabe quando você lê um livro sobre alguém com uma doença terminal e eles transformam aquilo em algo bonito e inspiracional? Como tentam fazer parecer que há uma lição ali, algo a ser aprendido e compartilhado? Algo melancólico, mas lindo? É uma grande besteira, Rose. Não há de bonito e inspiracional em morrer de forma lenta e sofrida, por causa da porra de uma doença. Ou em ver alguém morrendo assim. E não há nenhuma lição a ser aprendida. Nenhuma merda de lição. É apenas horrível e doloroso e triste.

Por trás dos óculos, os olhos cinzentos do Malfoy começaram a se encher de lágrimas. Como se ele fosse realmente começar a vazar sua angústia. Rose quis emprestar seu coração de pedra a Scorpius. Talvez ele sofresse menos, se fosse feito da mesma matéria sólida, rochosa e desgraçada que ela. A Weasley não se importaria se aquele escambo a tornasse um pouco mais liquida, talvez ela fosse mais feliz assim.

— Eu sinto muito, Scorpius. Sei que não muda nada, mas eu realmente sinto. — era a única coisa que ela conseguia dizer.

Ele pareceu finalmente notá-la, no instante em que a primeira lágrima caiu.

— Obrigado, Rose. — disse, enquanto limpava o vestígio de sua dor com violência. — Você não precisava escutar nada disso. Me desculpe.

Ela balançou a cabeça.

— E você não precisava ouvir nenhum dos meus problemas. Mas aqui estamos. Falar talvez ajude. E nenhum de nós quer ir para a casa.

— Não, eu não quero ir para casa. — ele disse com uma risada áspera — O que é provavelmente o maior egoísmo da minha vida.

Scorpius havia se mudado de volta para a Mansão Malfoy, quando a doença de Astoria piorara. Estar de volta àquela casa, que reunia todos os seus fantasmas, era última coisa que queria, no entanto, era o preço que pagaria para estar perto da mãe em seus momentos finais.

— Eu não devia ter vindo aqui hoje, mas a minha mãe insistiu. Insistiu que eu tirasse uma noite de folga e fosse me divertir com pessoas da minha idade. E eu vim, porque achei que iria enlouquecer, se passasse mais um segundo naquele quarto. Agora estou aqui, sem coragem para ir embora. Sem querer voltar para a minha realidade. Para minha mãe moribunda e para o meu pai devastado que apenas finge uma força que nunca teve. A minha mãe vai morrer e ele vai ficar destruído. E eu vou ficar destruído. E a nossa relação vai ficar ainda mais destruída. Nunca foi fácil com o meu pai, mas sem a minha mãe fazendo a mediação... Só Merlin sabe o desastre que vai acontecer, porque eu realmente não sei se eu e o senhor Draco Malfoy temos a capacidade de nos entender.

O comentário fez Rose pensar em sua mãe. Não sabia há quanto tempo não conversava com Hermione Granger-Weasley, entretanto, sabia que a estava ignorando deliberadamente nas últimas semanas. Não conseguia reunir coragem para encará-la. Que piada de grifinória era ela! Se a coragem um dia correra por suas veias, ela certamente se esvaíra junto com todo o resto. De qualquer forma, a mãe sempre fora um assunto sensível. Hermione não queria que a filha se tornasse uma jogadora de Quadribol, tinha planos maiores para ela, afinal. Com o tempo, aprendera a aceitar os sonhos de Rose e a admirar todo empenho e força que ela colocara em conseguir o que queria.

Ainda assim, Rose se lembrava de como tivera que brigar por aquilo. Como precisara gritar, se escabelar e trabalhar três vezes mais duro apenas para provar que estava certa e sabia o que queria. Como ela poderia encarar a mãe agora é admitir que estava errada? Que o caminho que escolhera – o caminho pelo qual lutara tanto – era uma encruzilhada e que agora estava completamente perdida? Como você olha para a Bruxa-Mais-Inteligente-Da-Sua-idade, a Ministra da Magia, a porra da sua mãe e diz que, aos 27 anos, a sua vida não é nada além de uma bagunça, uma sucessão de erros e infelicidade? Como você diz que não sabe o que fazer e que está apenas cansada?

E, por Merlin, ela estava cansada! Era como se sua pele e seus ossos e seus órgãos e cada fibra de seu corpo fossem feitos de exaustão. Aos 27 anos, Rose sentia que havia chegado ao seu prazo de validade. Que já havia visto tudo o que havia para ver, feito tudo o que havia para fazer, sentido tudo o que havia para sentir. Que se esgotara por completo. Havia uma senhora centenária em sua alma, uma senhora que só queria desaparecer.

Não, Rose não queria conversar com Hermione. Não queria ser uma decepção. Não sabia se aguentaria ser uma decepção. Mas a mãe de Scorpius estava morrendo e a dela ainda estava ali, por sabe-se Merlin quanto tempo. Afinal, Hermione poderia ser atingida por um raio no dia seguinte, engasgar até a morte com seu jantar, rolar uma escada, ser atacada por um bruxo das trevas, contrair uma doença rara e incurável. Não havia como saber, não havia garantias. A única certeza sobre a vida, no fim das contas, era que ela era uma porcaria que iria tirar de você tudo o que você amava. Então, talvez ela devesse conversar com a mãe, enquanto ainda tinha tempo. Talvez devesse conversar com pai primeiro, já que isso sempre lhe fora mais fácil. De um jeito ou de outro, não havia como esconder para sempre tudo o que estava acontecendo.

— O engraçado é que durante a vida inteira eu fui visto como o filho do meu pai. — Scorpius continuou, completamente alheio à crise existencial que desencadeara na garota ao seu lado — O que ninguém nunca entendeu é que eu sempre fui muito mais o filho da minha mãe, do que do meu pai.

Era verdade e não era. Scorpius havia herdado o coração de Astoria, suas convicções e sua curiosidade. E fora mais próximo dela do que jamais conseguira ser de Draco. No entanto, fora o legado do pai que moldara toda a sua história. Cada mínima escolha que fizera fora baseada em se distanciar o máximo possível de quem Draco fora em sua juventude. Havia passado a vida inteira olhando para o passado, pensando sobre o passado, estudando sobre o passado, sofrendo pelo passado. Carregando consigo uma culpa que não deveria ser dele, mas era.

— No fim das contas, quem somos é algo que realmente importa, Scorpius? — Rose questionou, olhando para a garrafa em suas mãos — Para os outros, sempre vamos ser o que eles escolherem acreditar que somos. Seremos as mentiras que eles contarem para si mesmos ou as mentiras que nós mostrarmos ao mundo, na tentativa de parecermos melhores ou nos proteger. Não sei sequer se somos algo além de farsas e projeções e ilusões.

O rapaz apoiou a cabeça na parede e respirou fundo, porque a moça estava certa. Prestou atenção ao céu acima deles, pela primeira vez desde que se sentara naquela varanda. Era uma noite bonita e estrelada. O tipo de noite que te fazia se sentir muito pequeno diante a imensidão do universo. O tipo de noite que te fazia acreditar que deveria haver algo mais, esperando por você. O tipo de noite capaz de fazer até mesmo um bruxo se encantar novamente pela magia.

Rose seguiu o olhar do homem ao seu lado e se viu encarando as estrelas. Ela sempre gostara de estrelas. De se perder em sua luz e em seus mistérios. Da estranha melancolia que emanavam.

— É irônico que essa seja uma noite tão bonita. — Scorpius disse, com um sorriso triste se abrindo em seus lábios.

— Não quando você lembra que muitas delas já estão mortas e estamos apenas contemplando seus fantasmas. O céu, afinal, não passa de um cemitério.

Scorpius voltou seus olhos para Rose novamente. O cabelo solto em uma cascata avermelhada, a maquiagem borrada, as unhas roídas. Aqueles olhos tão cheios de intensidade e angústia. Como ele nunca havia percebido que ela era uma bagunça? Como passara quase duas décadas acreditando que ela fosse perfeita? Linda, popular, brilhante, inalcançável. Uma semi-deusa vivendo entre meros mortais. Que coisa cruel acreditar que aquela garota fosse algo além de dolorosamente humana. Tão caótica e imperfeita quanto ele próprio.

— A minha mãe sempre disse que somos feitos de poeira de estrelas. — ele contou a ela, porque gostava daquela ideia. E talvez por querer dividir com a Weasley algo bom sobre Astoria. Algo além de sua morte iminente.

A ideia fez sentido para Rose de uma forma assustadora. O que mais ela seria se não poeira de uma estrela, que brilhou com um fogo incandescente há milhões de anos luz, mas agora não passa de um corpo celeste morto? O que mais seria se não vestígios cósmicos de um astro feito de um fogo que se extinguira? O que Scorpius seria se não poeira de uma dinastia que morrera antes mesmo de seu nascimento? Os dois eram apenas cinzas de um passado luminoso. Pó de estrelas que há muito se apagaram.

— Sabe, Malfoy, acho que deveríamos beber juntos com mais frequência. Ou talvez apenas conversar. Acho que eu deveria beber menos. Essa merda não ajuda em nada. — ela disse, colocando a garrafa de lado.

Por que nunca havia conversado com Scorpius antes? Conversado de verdade. Como poderia tê-lo em sua vida há quase vinte anos e só agora o tê-lo percebido como alguém que existe. Que tem senso de humor e ama e sofre. Alguém que é gentil e um ótimo ouvinte. Alguém para quem conseguira abrir suas maiores feridas e se deixara sangrar. Alguém que estava prestes a perder a pessoa mais importante de sua vida e que ela não queria que ficasse sozinho em sua dor. Alguém que, talvez um dia, ela pudesse chamar de amigo.

O rapaz riu.

— Acho que eu também gostaria de conversar com você mais vezes, Weasley. Com ou sem álcool envolvido.

Os dois trocam um sorriso. E assim começou, mesmo que eles não soubessem na época. Porque Rose Weasley passara a vida inteira olhando para o futuro. E Scorpius Malfoy passaram a vida inteira olhando para o passado. Naquele momento, no entanto, eles olhavam apenas para estrelas mortas. E finalmente um para o outro.

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“but are we all lost stars

trying to light up the dark?”

Notas finais
Peço perdão pelo sofrimento nessa fanfic, não era o que eu tinha imaginado quando comecei a escrever, mas quando vi já estava toda investida no drama e,bom, eu amo um drama haha
Espero que tenham gostado! ♥
Beijinhos,
Thaís
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!