Poeira, Recordação, Saudade
4 Capítulo quarto
Na viagem de regresso a Mason City, Mark não ia sozinho. Ao seu lado, no segundo assento do autocarro, completamente aterrado e sob calmantes, ia Ritchie Valens.
Fora uma pequena odisseia conseguir que o rapaz viajasse com ele. Mark insistira na raia do desespero, chegara a arrojar-se no chão, joelhos no soalho, mãos postas e erguidas ao alto numa súplica bastante pungente, pedira encarecidamente à tia que o ajudasse, pois queria voltar a casa e queria continuar a ajudar o rapaz que ele tinha salvado, que teria de voltar para a sua família que estaria preocupada com a seu paradeiro. A enorme questão era que o rapaz não tinha documentos de identificação consigo – ter-se-iam perdido no acidente – e com a sua amnésia parcial não fora capaz de dar qualquer número que pudesse ser verificado nos registos e ser emitida uma guia provisória, até que ele renovasse a emissão dos documentos perdidos. Para piorar, era fim-de-semana e os serviços que tratavam desses assuntos estavam encerrados até segunda-feira. E a viagem estava marcada para o sábado.
Mark conseguira que a tia convencesse o xerife a emitir ele próprio a tal guia, para que se pudesse comprar o bilhete de autocarro para o rapaz. Depois, já em Mason City, Mark comprometera-se a ajudar o rapaz a tratar da papelada necessária para oficializar a sua situação. Documentos de identificação novos, o xerife iria estar a acompanhar o processo desde Clear Lake e assim se fez.
O acidente de avião, entretanto, tornara-se num mistério. Era como se nunca tivesse acontecido. As únicas testemunhas do ocorrido eram os dois rapazes, Mark e Ritchie. Os seus relatos coincidiam, em todos os detalhes, mas não havia destroços que servissem de prova física para fortalecer a história que os dois contavam e na realidade ninguém à sua volta, desde o médico ao xerife, passando pelos tios e pelos primos, acreditava que o despenhamento de uma pequena avioneta tivesse realmente acontecido.
E depois de Mark ter identificado Ritchie Valens, também ele duvidava que o acidente tivesse mesmo acontecido… naquela noite de fevereiro de 1989. Porque, de facto, não acontecera…
Voltando à manhã desconcertante em que Mark ligara, finalmente, os pontos e obtivera a extraordinária revelação de que tinha diante de si, a comer uma sandes de queijo e mortadela acompanhada de um copo de leite branco, um músico famoso dos anos 50 do século XX, a história era mais rebuscada do que apenas aquela que narrava, com laivos de heroísmo, o salvamento de alguém que fora vítima de um acidente de aviação.
Ainda não sabia como tudo tinha acontecido, mas até onde ele conseguia entender, Mark salvara o rapaz da sua morte que acontecera trinta anos antes; naquele mesmo dia, três de fevereiro, mas em 1959, uma avioneta Beechcraft Bonanza despenhava-se depois de levantar voo do aeroporto de Mason City. A bordo seguiam os músicos Buddy Holly, J. P. Richardson, mais conhecido por The Big Bopper, e o jovem Ritchie Valens que tiveram morte imediata, assim como o piloto, Roger Peterson.
Richard, para utilizar o seu nome de batismo e não o seu nome artístico, era um rapaz do passado. Literalmente.
De olhos fechados, enjoado e a tentar distrair-se na viagem que o levava a casa, Mark rebobinava os acontecimentos na sua cabeça.
Naquela manhã, depois de se lembrar de onde escutara o nome do rapaz, agarrou no telefone, que se pregava num suporte na parede da cozinha perto da porta, e ligara para a Carol. Pediu-lhe, com toda a calma que conseguiu inventar, que lhe contasse a história desse tal de Ritchie Valens. E a Carol, porque adorava conversar sobre as suas músicas prediletas, não estranhou aquele pedido e contou, com a voz embargada de emoção, a história trágico-dourada desse rapaz que morreu jovem e que teve três enormes sucessos na tabela de vendas do final dos anos 50 – “La Bamba”, “Come On Let’s Go” e “Donna”. Tinha, igual a tantos rapazes da sua idade e do seu tempo, Elvis Presley como ídolo e como a sua máxima inspiração. Esperava-o uma carreira brilhante, pois contava com êxitos sendo tão novo, com os seus frescos dezassete anos. Mas o destino roubou-lhe essa juventude e todas as promessas ficaram por cumprir. Haveria de morrer inesperadamente nesse famoso desastre de avião, em que também tinham morrido o The Big Bopper e o grande Buddy Holly, pioneiro absoluto do Rock ‘n Roll, o dia em que a música morreu, como haveria Don McLean de cantar, numa famosa canção dos anos 70.
A sua história tinha sido recuperada em 1987 quando se fizera um filme sobre a sua vida que conheceu um êxito retumbante – as canções de Ritchie Valens voltaram a ser cantadas e tocadas no rádio, o grupo Los Lobos estivera no primeiro lugar de várias tabelas, a nível mundial, com uma versão de “La Bamba”.
E era esse rapaz que estava ao seu lado, cogitava Mark levemente assustado. Fora o Ritchie Valens, pioneiro do Rock ‘n Roll, que ele salvara do acidente de avião que, por um qualquer esquisito milagre divino, fora transportado por breves instantes para o ano de 1989, no mesmo dia, exatamente trinta anos depois, num registo digno da famosa série de televisão The Twilight Zone.
Ao desligar o telefone, recolocando o auscultador no gancho, Mark olhou para Ritchie sentado à mesa da cozinha, a comer o que restava da sandes. Decidiu que não lhe iria contar nada para já. Ali estava um rapaz do passado, do verdadeiro passado, alguém que já não existia, cuja vida era apenas uma memória, sem lugar no mundo alucinante dos vivos e do presente, uma mera sombra – um fantasma. Um rapaz que tinha realizado um mais que impossível salto temporal e que sobrevivera a uma morte prematura.
Seria uma tarefa hercúlea e manifestamente impossível ocultar de Ritchie o que tinha acontecido e o que estava a acontecer. Bastava que o rapaz olhasse em seu redor para perceber as óbvias diferenças. O mundo mudara em trinta anos. O mundo tinha evoluído. Até a música era diferente, apesar de naquela estação onde o rádio da cozinha estava sintonizado passar canções que enganavam essa perceção. Mark iria explicando, também decidiu, à medida que encontrasse as respostas certas e as palavras mais adequadas. Podia até ser que Ritchie aprendesse por si e aceitasse a sua nova condição. Por enquanto, só queria voltar para casa e esse desejo tornou-se mais exigente do que nunca.
Chegaram a Mason City no sábado à noite, porque Mark insistira para partir também no último horário da carreira, para que já tivesse escurecido. Ritchie estava demasiado fatigado e dopado para sequer ter notado o que quer que fosse, luzes, ruídos diferentes, as roupas e a postura mais aberta das pessoas. Mark dava-lhe os comprimidos receitados pelo médico, analgésicos e vitaminas, instara-o a dormir no caminho. Ritchie confiou nele e obedeceu, o que era, de certo modo, comovente. E dormira, fechando os olhos ao que via, ao que notava de diferente, ao que o assombrava, pois que ele de certeza se sentiria espicaçado com os estímulos que percebia no exterior, por entre os seus sentidos embotados, que lhe motivavam alguma palidez e um olhar mais fixo.
A mãe de Mark recebeu o amigo com toda a hospitalidade e preparou-lhe o quarto de hóspedes. Se notou algum detalhe mais estranho, Ritchie não se confessou. Estaria esgotado e confuso. No domingo não saiu do quarto, tendo pedido para que o deixassem dormir. Procurava, muito provavelmente, reorganizar-se mentalmente. Comeu pouco. Mark vigiou-lhe a porta e prontificou-se para ser o elo de ligação com os seus pais. A mãe achou descabida a atitude protetora, Mark era filho único e sempre fora bastante egoísta, mas depois de ter falado com a irmã, ao telefone, de ter sabido sobre o misterioso acidente de avião e do salvamento, quedou-se simplesmente a observar a ligação entre Mark e esse novo amigo. De qualquer modo, o rapaz latino não lhe pareceu ameaçador e como era algo temporário, assim lhe explicara Mark, Ritchie haveria de regressar em breve à Califórnia, resolveu aguentar aquela situação sem acrescentar a sua opinião.
Na segunda-feira, Mark regressava à escola, a Mason City High School, e resolveu que levaria Ritchie consigo. Não o queria a descobrir o mundo moderno sem o seu auxílio. Foi acordá-lo e espantou-se ao descobri-lo já de pé e vestido, com roupa que lhe pertencia e que a sua mãe lhe tinha emprestado. Ou seja, Ritchie apresentava-se como um qualquer adolescente dos anos 80 e visto com aquele aspeto não parecia esse rapaz do passado que efetivamente era. Mais uma vez Ritchie aceitara acompanhá-lo, sem fazer outras perguntas. Mark desconfiou de tanta boa vontade.
— Está tudo bem, meu?
— Estive a dormir praticamente durante um dia inteiro – respondeu Ritchie e soava sincero. – Já não me sinto nem tonto, nem cansado, nem desorientado. Têm havido algumas coisas que me têm baralhado, mas tudo estará relacionado com o acidente e com a minha falta de memória. Como se o meu cérebro precisasse de se encaixar novamente nos eixos… Agora, acho que está tudo bem comigo. Estou pronto para retomar a minha vida, digamos assim.
— És um rapaz rijo, meu…
— Porque insistes em tratar-me dessa forma? Meu? – perguntou.
— Eh… é como eu falo.
— Um pouco estranho, não concordas?
— Podia ser pior. O Joel usa mais calão do que eu. Anda. Vamos comer alguma coisa e depois vais conhecer a minha escola. Ainda estudas? Estudavas?... Quero dizer, ainda vais à escola, mesmo com a tua carreira musical e tal?
— Sim, tento acompanhar algumas aulas, mas com as digressões e os espetáculos está a ficar cada vez mais difícil. Não vou fazer a faculdade, de certeza. Não terei os mínimos para fazer o exame de admissão.
Mark apontou timidamente a janela do quarto.
— Gostas da paisagem, meu? Quero dizer… Ritchie?
— Moras num bairro bonito. Tem muitas árvores. E carros… diferentes…
— Gostas de carros?
Ritchie sorriu-lhe de través.
— É como o Rock ‘n Roll. O que há para não gostar?
— Iá… fixe.
Desceram para comer. Ritchie não voltou a tecer qualquer comentário, mas Mark percebia-lhe a curiosidade e a estranheza perante coisas simples como as caixas dos cereais, a marca inscrita nos pacotes de leite, a pequena televisão ligada – pela primeira vez, Mark agradeceu ser um velho aparelho a preto e branco – os eletrodomésticos, as roupas que usavam o seu pai e a sua mãe.
Ele despachou depressa o pequeno-almoço, com receio de perguntas adicionais, pois no domingo sofrera um verdadeiro interrogatório policial por parte da mãe ao qual ele, a dada altura, desistira de responder. O pai sabia sempre tudo através da mãe e nunca perguntava nada. Aliás, até parecia que vivia num mundo aparte, com o seu jornal, a sua cerveja e o seu prato de salgadinhos. Ou então com o seu programa de televisão favorito. Mas nunca se sabia. Perguntas novas podiam surgir quando menos se esperasse e Mark não estava preparado para um segundo interrogatório e na presença de Ritchie – por isso, tratou de evitar o embaraço.
Depois de comer à pressa uma tigela de cereais com leite, entalou uma maçã nos dentes, puxou pela manga de Ritchie que comia com todo o vagar os seus cereais. Agarrou na lancheira onde a mãe preparou duas refeições, uma para ele, outra para o amigo e saiu porta fora, arrastando consigo um Ritchie perplexo, que se desdobrava em agradecimentos e desculpas.
Na rua, em plena luz do dia, sob um dia cinzento que ameaçava chuva, com o mundo moderno em completa exposição, entupido de todos os perigos da revelação da verdade crua, numa contradição inexplicável, Mark sentiu-se mais à vontade. Ritchie vinha atrás dele, com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco impermeável e acolchoado. Quando o vestira passara os dedos pela parte da frente, demoradamente, admirando a textura inédita.
— Vou falar com o senhor Jenkins para que assistas às aulas durante o dia de hoje Ele é o professor de Inglês e o diretor de turma. Não te importas, pois não?
Ritchie não respondeu.
— Importas-te? – insistiu Mark, admirado.
O rapaz baixou os olhos.
— Gostaria de voltar a contactar com a minha família, Mark. Agradeço-te pela tua hospitalidade, a tua mãe tem sido maravilhosa, o teu pai também me recebeu muito bem, mas eu preciso de regressar à minha casa. Estarão preocupados… nunca mais dei sinal de vida e de certeza que já sabem sobre o acidente. Talvez só através das notícias e isso não é bom. Sabermos o que aconteceu pelos outros.
Ia apoquentado e cabisbaixo ao dizer aquilo, a rua moderna e anacrónica passava-lhe despercebida.
— Eh… já recuperaste a tua memória?
— Sei a minha morada, sim. Lembro-me do nome da rua. Não me lembro do número de telefone, mas sei o nome da rua. Se procurarmos na lista telefónica… vamos encontrar alguma coisa. Eliminamos as hipóteses, qualquer coisa dessas.
— Só tenho aulas de manhã. À tarde… à tarde podemos tratar disso – tartamudeou Mark. – Conheço uma cafetaria que tem listas telefónicas da Califórnia.
Ritchie tocou-lhe num braço e fê-lo parar.
— Mark… E quanto ao Holly, ao Richardson e ao piloto?
— O que é que eles têm?
— Não ouviste falar em cerimónias fúnebres? Uma homenagem? Alguma coisa…
— Não tenho visto notícias, meu…
— O teu pai estava a ler o jornal. Eu espreitei a primeira página e… falavam de acontecimentos que não compreendi muito bem. A visita de uma princesa a Nova Iorque e um sindicato qualquer da Polónia. Desculpa por ter espreitado o que o teu pai estava a ler, mas precisava de saber.
Mark forçou uma risada.
— Ah! Não ligues! O meu pai lê sempre esses jornais… alternativos. Não têm as notícias principais. Depois vemos isso, também. Sobre a homenagem. Sobre o teu acidente… podemos ir à biblioteca da escola, eles recebem os jornais diários mais importantes.
— A minha mãe estará à minha procura…
— Sim, estará.
— Devem ter-lhe dito que eu morri, não?
— Não. Claro que não! O xerife de Clear Lake fez… os esclarecimentos necessários. Ele esteve contigo, ele sabe que não… que não morreste.
— E a minha mãe poderá ligar para a tua mãe! – animou-se Ritchie. – O xerife de Clear Lake sabe que estou contigo.
— Isso! Isso mesmo. A tua mãe vai ligar para a minha mãe. Quando voltarmos da escola podemos ter essa boa notícia.
— Mas, mesmo assim, gostaria de telefonar para casa.
— Claro, claro, meu. Depois da escola, por favor. Agora já estou um pouco atrasado. Não posso inventar mais nada ou apanho uma falta e já estive uma semana inteira a faltar quando fui para Clear Lake, para a pousada da minha tia.
Ritchie concordou e retomaram a marcha.
Ele observava tudo com uma extrema atenção, mas continuava a não comentar nada. Estava apenas a registar, a compilar dados, a estabelecer relações, a comparar factos. Isso era incómodo para Mark, mas ele não lhe quis dizer nada, mais uma vez, para não lançar a suspeita inevitável que iria destruir o plano que ele estava a preparar.
A bem de ver, o plano era inexistente. Mark não preparava nada e não sabia o que fazer com o rapaz do passado, a partir do momento em que este descobrisse que estava em 1989, misteriosamente resgatado da sua morte que acontecera trinta anos antes. Ou talvez não tivesse acontecido… e se existissem dois Ritchie Valens naquele mundo? Mark abanou a cabeça.
Reparou que Ritchie tinha ficado parado mais atrás. Estavam a atravessar uma rua de pequeno comércio, depois de terem abandonado o bairro residencial onde ele morava. Voltou atrás, numa curta corrida.
— Ei, meu? O que se passa?
Ritchie encantava-se na montra de uma loja de instrumentos musicais e olhava fixamente para uma guitarra. Mark estalou a língua, lembrando-se que ele devia ter viajado com a sua guitarra e que esta se perdera entre os destroços do avião.
— Posso ficar aqui, Mark?
— Queres ficar… onde?
Olhou em volta, assustado. Havia pouco movimento na rua, mas ainda assim era arriscado deixar o rapaz do passado à solta para explorar sozinho o mundo novo que o rodeava. Podiam haver equívocos que causassem um qualquer choque brutal que anulasse os efeitos da viagem no tempo. Sim, porque Ritchie tinha feito uma viagem no tempo!
— Não farei nada na tua escola e não quero que incomodes o teu professor de Inglês por causa de mim. Posso ficar na loja, a tocar – explicou Ritchie.
— O dia inteiro?
— Não, só de manhã. Disseste que tinhas aulas só de manhã.
— Ah… pois. Sim, pois disse.
— Até tenho almoço e tudo. A tua mãe também preparou almoço para mim, não foi? Temos de ir almoçar juntos.
— Olha, Ritchie…
— Mark, vou portar-me bem. E pode ser que recupere a minha memória ao tocar as minhas canções.
— Também te lembras das tuas canções?
— Oh, sim! Ainda sei como se toca uma guitarra!
E sem esperar por uma resposta, que não iria servir de nada, pois ele não iria ser demovido daquela ideia, assim como Mark não se demoveu da sua de o trazer para Mason City, Ritchie entrou na loja.
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