Poderosos olhos.

1 Capítulo Único - Você demorou.


Eu era um prodígio, sabia disso tanto quanto sabia que não tinha família, pelo menos não uma que se importava com quem sou agora, afinal meu próprio irmão havia matado-os um a um cada integrante de meu clã. Por isso sabia o que seria desde cedo e foi com essa grande certeza que respondi a meu sensei quando questionado.

Eu era um vingador.

Um Uchiha pode despertar o sharingan ainda muito cedo e tanto eu quanto meu irmão mais velho, Itachi, havíamos despertado desde sempre, porém é necessário muito treino para que seus olhos se desenvolvessem, um dojutsu kekkei genkai, que significa que está limitado a uma herança genética e salvo Kakashi, que teve o olho de um Uchiha transplantado para si, não sabia de mais ninguém que o possuísse, mas conhecia outros olhos tão poderosos quanto o dos Uchiha, mesmo que nunca admitisse a pequena garota Hyuuga.

“I've become so numb

I can't feel you there

Become so tired

So much more aware

I'm becoming this”

“Eu me tornei tão indiferente

Não posso sentir você aí

Me tornei tão cansado

Muito mais consciente

Estou me tornando isto”

A menina Hyuuga em questão é a primogênita de seu clã, Hinata, sei disso por nossos clãs serem muito ligados, quando havia um clã Uchiha para se ligar a qualquer coisa. Já havia brincado com a menina de olhos brancos incontáveis vezes e em todas elas havia um grande significado para as duas principais famílias de Konoha, depois do massacre, o hokage, aquele velho Sarutobi, havia feito uma reunião e me informado que não precisaria mais me casar com a menina de olhos brancos para honrar o acordo entre os clãs. Quando soube daquele contrato me aborreci por saber que meu pai havia traçado meu caminho antes mesmo de eu ter entendido que precisava de um, então minha raiva foi de Fugaku Uchiha, para Hyuuga Hinata, a menina que me tornou forte. Quando o massacre ocorreu fiquei sem ir a academia por algumas semanas, nesse tempo me instalei em um apartamento no centro da vila e abandonei o distrito Uchiha, parecia um lugar amaldiçoado agora, voltei para academia bem depois e não fazia sentido estar ali, brigar com Naruto, vencer todas as crianças que nunca saberiam o que era ser tão poderoso quanto eu era, ser capaz de matar ainda tão novo. Estar na academia também trouxe outro lado, as reuniões ou exames em que meus pais nunca iriam ou mesmo o bentou que eu nunca levava. No primeiro dia quando todos foram almoçar, apenas encostei-me em uma árvore e fingi dormir, indiferente a qualquer um que chegasse perto ou ao barulho do meu estômago por passar o dia sem me alimentar, mas em casa havia comida pronta que eu esquentava e comia como um morto de fome que eu era. Porém no segundo dia quando cheguei a árvore para o ritual que passou a ser diário, havia um bentou com meu nome em cima, olhei para os lados achando se tratar de alguma piada, mas não havia piada alguma, comi deixando o embrulho no mesmo lugar sem deixar mais nada, sequer um obrigada.

Nos próximos dias aconteceu a mesma coisa, sempre havia comida na árvore em que eu ficava e assim foi durante os primeiros meses em que passei sozinho na vida, um dia ocorreu o mesmo de sempre, um treino em que eu enfrentaria Naruto na academia, algo simples pra mim, mas naquele dia Naruto me enfrentou, seu olhar era raivoso e aquilo me enfureceu, saí assim que o derrubei e embrenhei-me na floresta, pelo menos era o que eu esperava fazer, mas trombei com o pequeno corpo, Hinata era quase da minha altura, mas seu jeito tímido a fazia parecer menor, assim que trombei com a menina a mesma deixou sua comida cair no chão, percebi que não apenas a sua, mas a que era destinada a mim, encarei-a confuso e ela tremia.

— Por que? – Perguntei ainda a encarando e ela me olhou com os olhos perolados que eu sequer me lembrava bem.

— Somos amigos Sasuke-kun. – Ela falou tão segura de si que mesmo que não houvesse mais nada dentro de mim, acreditei. – Agora que nosso almoço caiu, vamos fazer outra coisa pra comer.

Hinata era uma pessoa boa demais, gentil demais e nada nela era forçado. Era apenas uma pessoa que se dedicava aos outros mais do que a si própria e o fazia sem esperar nada em troca, não fizemos comida alguma, pelo contrário comemos em uma barraquinha mais afastada do centro e paguei tudo jogando o dinheiro em cima da mesa e a puxando de lá quando ela pensou em questionar, lembro que suas bochechas frequentemente ficavam vermelhas quando eu a tocava sem que ela esperasse, fosse durante o nosso almoço escondido dos demais ou durante os treinos que passamos a fazer. Para as outras pessoas, nós sequer nos conhecíamos, eu não queria que aquelas loucas da academia encrencassem com ela e Hinata não parecia se incomodar com nossa amizade escondida, pelo menos era o que eu pensava.

“Can't you see that you're smothering me

Holding too tightly”

“Você não pode ver que está me sufocando?

Me segurando tão apertado”

Hinata não me deixou enlouquecer, mesmo quando eu me esforçava pra me entregar a escuridão, ela pareceu ser a luz que me trazia de volta para o mundo, era calma e sempre atenciosa e seu silêncio nunca era incômodo, pelo contrário, era reconfortante não precisar falar nada e ainda saber que ela estava lá, mas mesmo ela não pôde prever o caminho que eu seguia e ainda que me estendesse a mão, eu era egoísta demais pra levá-la pras sombras comigo. Entrei para o time sete e isso me afastou um pouco da Hyuuga, haviam missões longas e Sakura, uma das fãs da academia e minha parceira de time, não via com bons olhos qualquer outra garota que se aproximasse, além disso, havia Naruto que era da mesma equipe que eu e nossa rivalidade me fazia treinar mais ainda, então para que pudesse treinar e passar mais tempo com a baixinha, propus que treinássemos juntos e ela aceitou. Varias vezes chegava cansada e machucada depois de treinar com o pai, o primo ou a irmã mais nova, mas eu era egoísta demais, apenas gostava quando ela aparecia na mesma árvore em que passamos a almoçar juntos anos antes, os olhos mais poderosos de Konoha se desenvolviam juntos, seu Byakugan aumentou o raio de visão e ela podia enxergar mais longe que qualquer integrante de seu clã, mesmo mantendo aquilo em segredo do resto do mundo, algo que eu nunca entendi. Certo dia estávamos treinando normalmente quando o barulho ao nosso redor tirou nossa atenção, Hinata localizou os dois homens com tanta facilidade que me deixou orgulhoso, mesmo que ela nunca saiba disso.

Os homens estavam atrás dela, não demoramos a perceber e eles não fizeram questão de sequer disfarçar, me ignoram quando partiram pra cima dela que se defendeu usando a palma gentil que treinávamos pouco antes, mas os homens também eram ninjas e não passávamos de duas crianças sozinhas no meio da floresta então tive o mais puro e genuíno medo, não se tratava de morrer ou de lutar, mas medo de que levassem Hinata com eles, de que lhe fizessem mal, as kunais que levávamos eram simples e não dispúnhamos de nossos senseis ou companheiros de time pra nos ajudar, eram apenas nós dois e tudo o que eu queria era matar qualquer um que ousasse encostar nela. Um dos ninjas fez selos com as mãos e tudo ao nosso redor foi levado por uma forte onda, Hinata gritou assustada e pensei novamente em como matar os dois, mas não éramos páreos pra eles, não naquele momento e foi então que o primeiro acontecimento marcante de minha vida aconteceu, meu sharingan evoluiu, um instinto tão avassalador de protegê-la fez com que meus olhos mudassem e mesmo que seu byakugan tivesse visível em seus olhos e ela estivesse pronta pra luta, eu não queria correr o risco, analisei cada movimento dos inimigos e quando outra onda feroz de água veio em nossa direção soltei um gigantesco katon que encontrou com a água no meio do caminho provocando uma névoa espessa por todo o local, Hinata pulou para frente e escutei o tilintar de sua kunai, senti o chakra de meu oponente me colocando em luta contra ele, quando a névoa se dissipou haviam dois corpos no meio da clareira e eu e Hinata corríamos pulando de galho em galho para o centro da vila onde novamente nos separaríamos sem que ninguém notasse nossa proximidade.

Hinata tocava todos ao seu redor e comigo não foi diferente, ela nunca havia me pedido pra desistir de meus planos de vingança, mas nunca apoiou nada que fosse relacionado a isso, lembro de sua voz melodiosa me dizendo que sempre estaria ali pra mim e ela realmente esteve, me abraçou na chuva em silêncio enquanto eu chorava depois de Itachi ter aparecido atrás de Naruto sob o manto da Akatsuki, esteve ao meu lado quando o maldito Orochimaru marcou-me com sua maldição. Foi ela que segurou minha mão quando Kakashi selou aquela marca e me deixou adormecido em meu apartamento, Hinata despertava um lado diferente em mim, um lado com o qual eu não sabia lidar.

“All I want to do

Is be more like me

And be less like you”

“Tudo o que eu quero fazer

É ser mais como eu sou

E menos como você é”

— Não vá. – Sua voz baixa foi a única coisa que me fez parar, eu já estava perto da divisa de Konoha e o quinteto do som cuidava de quem quer que estava atrás de mim, Naruto ficara desmaiado no vale do fim e a única pessoa capaz de me parar estava parada as minhas costas.

— Não sou como você. – Respondi de cabeça baixa.

— Claro que não é. – Ela falou e riu ainda que sua voz denunciasse o choro – Você é melhor do que eu Sasuke-kun.

Sorri minimamente e sabia que ela veria, Hinata sempre via tudo, ela via algo em mim que eu não sabia existir na época, mas que sempre estaria lá por ela.

— Não me siga, se atravessar a fronteira será uma renegada. – Falei duro, não queria que nada de mal ocorresse a ela, Hinata caminhou até mim, eu não era mais humano e perto dela parecia um menino indefeso sem sobrenome ou clã, ela não me abraçou ou falou nada, Hinata parou ao meu lado e olhou para o horizonte, então ela retirou sua kunai da bolsa, a mesma que havia o símbolo de seu clã e fora herdada de sua mãe, por um momento pensei que ela me obrigaria a voltar, se fosse ela indo embora eu a obrigaria, mas Hinata não faria isso, ela me entregou a arma ninja e finalmente me olhou.

— Estarei te esperando. – Falou baixo e voltou pelo mesmo caminho que eu havia corrido para fugir.

Hinata ficou na vila enquanto me afastei de tudo que havíamos conquistado, nossa amizade calma, nossa kekkei genkai poderosa que nos unia, fiz coisas horríveis e me arrependo disso hoje. Matei meu irmão, quis destruir Konoha e voltei durante a Quarta guerra shinobi pra defender a vila, mas se apenas ela vivesse valeria a pena, assim que cheguei a notei e percebi que aquele primo egoísta e idiota que quase a havia matado no exame chunnim a protegia, percebi que Naruto ainda amava a Sakura e por algum milagre divino descobri depois que eles namoravam, Hinata não veio ao hospital no tempo em que fiquei internado, tão pouco se despediu de mim quando saí em minha caminhada de auto descoberta, pensei em ir até ela, mas o que eu poderia dizer? Pedir perdão por ter sido um idiota egoísta? Por ter atentado contra a vida das pessoas? Por ter ficado louco sem ela pra me trazer a razão?

Sinto a terra contra meus pés no instante em que pulo da árvore na estrada que leva aos portões da vila, aperto a kunai em minhas mãos como um lembrete de meus motivos em estar ali, os guardar se assustam e paro ao sentir um chakra tão conhecido quanto o meu próprio a minha frente, então ela está aqui, me encarando com os olhos claros e perolados, os cabelos azulados caindo até a cintura, ela faz um simples sinal e os guardas do portão parecem entender desaparecendo.

— Manda em todos os homens da vila agora? – Pergunto sabendo que o sentimento que me corrói é ciúmes e ela dá de ombros.

— Apenas nos que fazem parte do meu esquadrão ANBU. – A voz suave e doce. – Vai ficar? – Ela pergunta sem disfarçar a apreensão em sua voz, sempre sendo apenas ela mesma.

— Tenho alguém esperando por mim. – Respondo com medo novamente, como quando éramos apenas duas crianças com olhos poderosos na floresta, medo de que ela não tenha me esperado, de que alguém a tenha tirado de mim, então ela sorri, finalmente o sorriso que senti falta todos os dias, ela caminha parando a minha frente e seus dedos finos e delicados vão até o meu rosto, seus olhos marejados não olham para meu rinnegan ou as cicatrizes que trago, Hinata me encara com seus grandes e curiosos olhos e enxerga quem realmente sou, um egoísta que a ama.

— Você demorou, Sasuke-kun.

Notas finais
Hey pessoas, sei que ando sumida e tenho desculpas pra isso, viajei e também estou adoentada, nos últimos dias foi bem difícil abrir o computador, então me desculpem de coração.
Essa fanfic foi uma proposta do grupo do facebook, “Curtidores da Sasuhina/BR OFICIAL” (https://www.facebook.com/groups/CurtidoresSHBR/) , em um desafio chamado “Uma imagem vale mais que mil palavras”, quando me deram a imagem da capa pensei logo em uma cena que é a do treino na floresta, porém estava imensamente chateada pela morte do Chester, vocalista do Linkin Park, pessoas nascida nos anos 90, como eu, em sua maioria sabem o que falo. Enfim, escutando Numb agora pouco me veio a história, espero que gostem.
A imagem que inspirou a fanfic é da linda MiniRoonie (http://miniroonie.deviantart.com/art/Eyes-428735181) .
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!