Poderia ficar?
1 Capítulo 00
Notas iniciais
Era estanho pensar que aquele pequeno rapaz estivesse dividindo a mesma cama que a minha. Os olhos fechados de modo sonolento, embora soubesse que ele não estava dormindo. A expressão delicada no rosto de Nathan me recordava de uma criança que dormia despreocupada, sem medo do que estava para fora da cama. Ou, nesse caso, fora da minha cama.
Sorria de leve ao notar que ele repuxava o canto dos lábios em uma carranca, talvez incomodado com a posição, de barriga para cima e os braços ao lado do corpo.
Nathan era o tipo de garoto que nunca teria me aproximado, se tivesse existido alguma escolha. Os pais, preconceituosos e os amigos... Se reduziam a somente minha irmã e a mim. Não sabia dizer quando havia começado a se apegar aquela pequena criatura. Ou quando o havia conhecido, pois era péssimo em datas. Ele apenas havia chegado, em um dia comum. Sentado nas escadas da minha casa e chorado por algum motivo que até hoje não quis perguntar mais ao fundo que já havia feito. O motivo por não ter perguntado o que estava acontendo com ele fora o simples fato de não querer me envolver em coisas problemáticas, embora eu já estivesse mais do que envolvido. Dar um lugar para ele ficar, era o máximo que conseguia fazer.
Continha uma risada baixa, ao ver Nathan bufar e se virar para o outro lado.
Nathan faria dezessete em breve, enquanto eu me mantinha com meus vinte e nove anos. Não que a idade importasse, apenas que... É complicado, por assim dizer.
Não ligo para a família dele ou para a sua pequena lista de amigos. Sei das coisas que ele quis compartilhar por livre e espontânea vontade, onde sempre me sentava a mesa da cozinha e o ouvia atentamente, enquanto ele e sua baixa altura vagavam por ali, procurando algo para comer.
– Sabe, na maioria das vezes fico trancada no meu quarto ouvindo eles gritarem e gritarem sobre como sou inutil, ou que minhas notas vão de mal a pior. — Aquela expressão chorosa, encolhendo os ombros, espero nunca mais ver. -- Não que eu me importe, de fato...
Me recordo de resmungar um "você se importa sim" e o ouvir bufar de forma magoada, virando-se em minha direção enquanto desistia de tentar se achar na minha cozinha.
– Não, eu não me importo! – Aquela arrogância havia mudado dele. Não me pergunte como, apenas havia mudado. – Você não estava lá, você não viu. Não sabe!
Aquela cena me recordava perfeitamente, quando olhava para a borra de café acumulada no fundo da xícara, o olhar ficando vago e a mente se distãnciando para anos atrás. Para aquele tempo, onde nada fazia sentido, onde tudo o que mais desejava era poder sair de casa e esquecer o passado.
– Qual seu nome, mesmo? – Voltava para aquele mundo. Para o presente.
– Jhon.
O assunto havia terminado ali. Ele havia me perguntado onde estava a comida, os talheres e coisas do gênero.
Na verdade, Nathan não tinha as melhores notas por preguiça, pois era inteligente demais e apenas tinha uma falta de vontade de demonstrar isso na escola.
– Jhonny... – Sorria internamente, pois o modo como ele dizia meu nome era algo único.
– Hm...
– Não consigo dormir de jeito nenhum e tenho que acordar cedo.
Franzia a testa e antes de perguntar, ele respondia.
– Fazer o seu café da manhã.
Franzia mais ainda.
– Sei que odeia, mas ao menos uma vez...
– Vai morar aqui?
Ele se agitava, se encolhendo, daquele modo medroso.
Ele sempre me passava a impressão de que, sempre, fora uma criança acuada e com medo de não ser amada ou ao menos de não ser reconhecido como um ser humano.
– Nathan...
– Poderei ficar?
– Precisa contar para seus pais, Nathan.
Sem precisar olhar para o rosto dele, tinha a plena certeza de que ele mordia o lábio inferior, querendo contar algo e com medo de ser xingado ou qualquer outra coisa.
– Nathan...
– Eles me expulsaram de casa devido a minha ultima prova.
Ao ouvir aquilo, me erguia e o olhava de modo a querer conversar. Não precisava dizer nada, nem o xingar e nem nada do tipo. Ele sabia. Ele sabia que havia procurado aquilo e sabia que não haveria como se manter sozinho.
– Você pode ficar, Nathan.
– Poderei ficar? Mesmo? – Ele jogava as cobertas, que era de minha irmã mais nova, de caveira para cima de mim enquanto se erguia rapidamente e me olhava, daquele jeito meloso e meigo. Totalmente dele. – Sério?!
– Sim.
Minha orientação sexual sempre fora algo ao qual eu nunca havia tentado entender. Esses sentimentos, queimando aqui dentro, de querer proteger, cuidar e deixar que ele fizesse de mim o seu guardião, a cada dia aumentava e me fazia querer que ele ficasse.
– Vou estudar direito e crescer tanto quanto você! – Gritava, jogando os braços para cima em uma comemoração estranha. – Ah, quer dizer. Talvez eu não cresça mais e seja esse tipo de anão aqui... E... – Agora o alvo de seus braços era minha cintura. – Eu estou feliz.
– Espero que estude. E sobre crescer... Te darei uns saltos...
Gargalhava alto ao ver a carranca de Nathan.
– E quando vai trocar isso? – Indicava o cobertor de caveira.
– Quando você aprender a usar pijamas, quem sabe...
– Poderia dormir sem roupa...
– Se quiser ficar doente.
Ele sempre sofreu com a falta de amor. E antes de o conhecer, sempre pensei que as pessoas nunca poderiam dar aquilo que nunca receberam ou aprenderam, mas este rapaz estava me ensinando que estava errado. Que as pessoas que não era amadasm amavam o dobro. E que, de alguma forma, ele estava curando meus machucados do passado, embora não soubesse disso.
Sobre o meu passado? Ficara para outra hora.
– Jhonny. – Chamava, enquanto se ajeitava ao meu lado, virado para mim. Os olhos quase se fechando. – Somos o quê?
Não o respondia, apenas o puxava para perto e o abraçava. Nunca havia sido bom com as palavras e nem com as atitudes, então esperava que aquilo fosse o suficiente para dizer a ele que o queria ali. E que eramos mais do que uma palavra.
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