Poderia Ser Minha
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Poderia Ser Minha
Eu vejo o jeito como ele te trata
E isso me faz querer me levantar e competir
Ganhar você desse pedaço de merda
Você merece estar comigo e é assim que eu vejo
— Sasuke-kun, eu vou até ali cumprimentar a Haruka-san, nós trabalhamos juntas... – Sakura disse, sorrindo minimamente e saindo com o rosto muito vermelho ao ver que ele não iria se oferecer para ir junto. O Uchiha acenou com a cabeça, dando uma olhada no drink dela.
É claro, ele tinha autorização para beber. Sakura e seu olhar baixo, ainda que determinado, lhe davam toda a autorização do mundo. Sempre tinha sido assim. Ultimamente, no entanto, diferente de antes, ele se perguntava o que poderia ter acontecido se tivesse retribuído no momento certo.
Sasuke levou o copo até os lábios e bebericou o líquido lentamente, aproveitando a solidão.
Ele sabia que não deveria estar mais aqui, em Konoha; a ausência do seu braço esquerdo lhe dizia isso constantemente. Alguns olhares tortos, de membros da vila e colegas shinobis, também. Mas algo o mantinha bem ali, em cada bairro, durante as caminhadas matutinas, o único Uchiha vivo não sabia bem o quê. Por enquanto, talvez, fosse o líquido amargo escorrendo por sua garganta. Sasuke quase fechou os olhos, mas algo os manteve bem abertos.
Num canto afastado de um dos poucos bares de Konoha, Naruto tinha acabado de enroscar seus dedos enfaixados na nuca da Hyuuga mais velha, puxando-a para si num beijo pouco tímido. Sasuke franziu o cenho enquanto, devagar, a garota fincava suas unhas curtas na jaqueta laranja do Uzumaki. Então, num segundo, eles se separaram e Naruto saiu, mais cambaleando do que andando, sorrindo duas vezes mais do que o normal – e isso era muito – até o banheiro.
Parada, encostada à parede, Hinata parecia sem ar. Com os lábios entreabertos, o rosto corado, ela respirava com tanta força que a barra de sua blusa descia e subia, acompanhando o peito. Sasuke bebeu mais um gole, imaginando que Sakura, sinceramente, não daria à mínima.
Tinha sido uma má ideia vir.
Sorridente, no dia anterior, Naruto tinha o convidado para fazerem alguma coisa ao anoitecer – além dos dois, Sakura e Hinata, a namorada do Uzumaki, também viriam. Soou como uma espécie de encontro duplo para o Uchiha, mas ele não teve coragem de recusar.
Para fazer o convite, é claro, o Uzumaki tinha deixado seus estudos à mercê de um clone e invadido, ele próprio, o distrito Uchiha, onde Sasuke passava os dias revirando os próprios pensamentos e imaginando o que deveria fazer agora. Naruto já tinha o seu objetivo insuportável de se tornar um Hokage. Sakura estava se encaminhando para ser chefe do centro obstétrico do hospital, uma habilidade especial que tinha surpreendido até mesmo sua mestra, Tsunade. Mas e ele? O que restava para ele, ali? O gosto do gloss labial de Sakura invadiu seus pensamentos; não… Ela não.
O motivo do incômodo no estômago dele, porém, nada tinha a ver com a falta de perspectiva. Não, agora mesmo, sentado na mesa que os quatro tinham começado a dividir cerca de uma hora atrás, Sasuke estava muito incomodado com o jeito como Hinata, um pé atrás do outro, vinha caminhando até a mesa deles, sorrindo meio boba.
Essa garota era… Sasuke franziu os lábios. Bem, ela era diferente. Sempre tinha sido. Se lembrava da menina franzina, a franja quase cobrindo os olhos, o cabelo muito mais curto do que qualquer outro membro de seu clã. Sempre que erguia o queixo, porém, era para Naruto que estava olhando – aparentemente, de uma forma irritante, era Naruto que sempre a influenciava. Agora, claro, depois de todos os acontecimentos, Sasuke entendia a luz que ela via no portador da Kyuubi – mas isso, Deus, não tornava as coisas menos irritantes e insuportáveis.
Porque, o Uchiha não era bobo, Sakura não tinha visto Haruka nenhuma e o banheiro masculino certamente não ficava para o lado que Naruto tinha ido. Mas quem era ele para expor as duas únicas pessoas, junto com Kakashi, que tinham trilhado um caminho tão árduo para recuperá-lo e amá-lo como um irmão, como um desejo sagrado, por todo aquele tempo? Ele não deveria ser nada mais que grato.
Quem era ele para não concordar, o mais simpático que conseguia, à todos os agrados que Sakura tentava fazê-lo, certa de que ele não sabia da necessidade crua que ela tinha criado, de alguma forma que Sasuke seria incapaz de entender, pelo loiro idiota?
E, ainda sim, era irritante encarar a maneira como Hinata erguia os olhos para Naruto, o melhor de todos os seres humanos, e como abaixava a vista quando ele estava por perto. Receosa, sempre receosa com ele. Como agora.
Ela se sentou à sua frente, como antes, quando os quatro estavam reunidos. Mas só havia os dois ali, agora.
— S-Sakura-chan…? – Hinata tentou perguntar, mas sem olhá-lo. Sasuke foi incapaz de tirar os olhos dela, no entanto. Seus traços tinham mudado muito pouco. O nariz continuava redondo e pequeno; as maçãs do rosto continuavam o maior destaque em sua face. Tão rosada e perfeita.
Agora que pensava nisso, essa talvez fosse a primeira vez que ficavam totalmente sozinhos. Sempre que a encontrava, Hinata tinha os dedos enroscados nos de Naruto. Sempre acenava educadamente, seu tom de voz muito baixo. Sasuke tentou medir o próprio tom, ainda mais rouco do que estava acostumado.
— Cumprimentando uma amiga.
— Ah.
Ele desejou que Sakura tivesse bebido menos, então o seu copo estaria mais cheio para ele, agora. A Hyuuga, nervosa, olhava para o próprio colo, o copo de refrigerante diet intocado à sua frente. A única deles a não pedir nenhuma bebida alcoólica – mas parecia fácil, Sasuke pensou, com um pouco de nojo, beijar lábios cheios de cerveja. Se fosse os lábios de Naruto, para ela tudo bem, podia até mesmo conter veneno. Não era assim?
Alguns dias, durante aquelas semanas, Naruto tinha o convidado para treinar com ele – de novo, era difícil para Sasuke lhe dizer não. Num dia, havia Kakashi lá. No outro, Sakura. Mais um e o antigo Time 7 estava completo. Então, num outro dia, não foi nenhum membro conhecido que encontrou. Hinata, a namoradinha, estava lá. Corada, ela parecia intimidada ao ver quem o Uzumaki tinha chamado para treinarem juntos.
Seus olhos com o byakugan ativado eram uma das poucas coisas que, o Uchiha tinha certeza, não esqueceria jamais, nunca em sua vida.
Talvez deixasse para lá o jeito como as mãos dela se moviam muito precisamente no taijutsu típico Hyuuga, ou como ela lutava muito mais ardentemente contra Naruto, querendo mostrá-lo, orgulhosamente, a cachorrinha boa que era – se o Uzumaki tivesse feito carinho em sua cabeça, o show de horrores estaria completo para Sasuke. Nem mesmo o quadril se movendo de forma habilidosa para se livrar dos golpes, chamaram tanto sua atenção. Provavelmente o Uchiha esqueceria essas coisas, mas não o byakugan nela, tão desenhado em seu rosto. Aquilo tinha sido uma preciosidade, algo para ser guardado.
Havia mais tons de lilás do que ele tinha tido a chance de observar em outros membros do clã dela. Havia algo mais intenso, uma promessa de que ela podia ser melhor, um juramento que melhoraria a cada uso de chakra, que quase o matou por dentro.
— O que viu nele? – Sasuke escutou a própria voz que saiu involuntária. Bem, além do copo, agora vazio, de Sakura, ele tinha se obrigado a beber outros dois shots, a fim de se tornar mais que uma estátua na conversa dos três. Ótimo, agora a bebida resolvera fazer efeito.
A Hyuuga levantou o rosto como se escutasse um fantasma falando. Sua face passou do corado ao pálido e corado de novo. Ela mordeu o lábio inferior. Sasuke soube, nesse momento, que ela achava que ele estava procurando motivos para aprová-la para Naruto. Uma dessas inspeções de amigo, que o próprio Uzumaki ria ao dizer que teria que fazer se Sasuke arranjasse uma namorada que não fosse Sakura. Rindo, falava que só aprovaria a Haruno, mais ninguém, para o Uchiha.
Irônico, Sasuke pensava. Será que Naruto achava que para aprovar uma namorada de algum amigo, tinha que dormir com ela antes? Hm.
Hinata parecia tentar achar a resposta certa.
— Eu… O N-Naruto-kun é tudo para mim, ele é sempre tão sorridente, ele nunca desiste, ele nunca pensa que não vai conseguir, na verdade, o Naruto-kun é…
— Um ideal – Sasuke completou, sem pensar, e Hinata arregalou seus olhos redondos, surpresa. Ele não parou. Gostou dessa expressão nova, refrescante, olhando-o tão intensamente como se nunca tivesse o visto antes. – Está me dizendo que o Uzumaki é um ideal.
Confusa, os olhos dela passearam por todo o seu rosto. Os de Sasuke, no entanto, desceram lentamente pelo pescoço pálido, até o decote pouco revelador da blusa, desejando poder ver mais. Como no treinamento, quando, com muito calor, Hinata tinha descido seu zíper alguns centímetros.
Então, com os lábios franzidos, ela disse, ainda confusa:
— T-Talvez… Mas isso não é ruim! É claro que o Naruto-kun é um ideal... para mim, para t-todos da vila, ele é um herói.
Sasuke inclinou a cabeça para o lado, arqueando uma sobrancelha. Precisou conter um sorriso sarcástico; não achou que ela merecia. A pobre alma inocente.
— Quando o beija, ou quando transa com ele, Hyuuga, espera se tornar uma heroína também?
Hinata separou os lábios, o cenho super franzido, e agora estava ofendida. Realmente ofendida; o tom vermelho de suas bochechas se espalhou por todo o seu rosto. Estava irritada. Sasuke esperou a reação imediata. Imaginou que Sakura teria erguido seu punho para o primeiro idiota que ousasse falar de sua vida sexual desse jeito. Pensou na Yamanaka, que sorriria estupidamente, questionando o tal estranho, só com um olhar maldito, se isso era algum tipo de convite. Então em Karin, que teria arrumado seus óculos e zombando do homem, passando a língua no lábio inferior de forma provocativa.
Hinata não fez nada disso. A raiva se dissipou em seu rosto, ainda vermelho, e havia, segundos depois da ofensa, compreensão. Entendimento. Confiança, confiança estúpida que Sasuke certamente não merecia. Nem dela, nem de ninguém. Mas, principalmente, não dela.
— S-Sasuke-san… – Hinata disse, um sopro contra seus lábios, a voz muito calma. – Você não… Você não diria algo maldoso assim. Eu sei...
Ele balançou a cabeça, sem acreditar no que estava ouvindo.
— Não, você não sabe.
— Eu sei. Não sou… Ah, não sou boa com muitas coisas, – Hinata olhou para baixo por míseros segundos, então olhou para ele novamente, e suas íris quase brilhavam. – mas depois de crescer ouvindo palavras que queriam dizer outra coisa, fossem mais maldosas ou não, eu entendo.
— O que você… – Sasuke tentou dizer, percebendo-se preso no jogo que tinha começado. Preso na voz doce, quase melancólica, dos lábios rosados e úmidos.
Completamente preso nela.
— Então – Hinata continuou, como se não tivesse sido interrompida, e seu braço foi para em cima da mesa. Com a ponta dos dedos, o fluxo vermelho espalhado em cada canto de sua face, ela segurou os dedos dele por cima do copo vazio de Sakura. – O-Ou é a bebida falando, ou você está tentando me dizer algo… Algo sobre o Naruto-kun. – E, como se soubesse de todas as coisas do mundo, de cada pedaço da mente do Uchiha, ela apertou os dedos quentes nos dele. Desejava ouvir.
Nesse momento, Sasuke desejou muitas coisas. Desejou, por exemplo, que tivesse tido uma infância mais fácil, que o ódio e o rancor não tivessem se encarregado de tantas decisões. Desejou ter ficado com Sakura quando ela ainda era toda dele, para clamar quando quisesse, e quando ainda poderia criar algum sentimento, que fosse simplesmente amizade, que a mantivesse do seu lado e lhe desse frutos. Desejou ser honesto com Hinata, contar que Naruto estava a traindo, e que aquilo partiria seu coração bondoso em mil pedaços. Desejou não ser tão fiel ao melhor amigo.
Mais do que todas essas coisas juntas, ele desejou puxá-la e mostrar como era um beijo de verdade; como era desejar, profundamente, e se sentir desejada, muito mais do que querer ser alguém ou estar com alguém por pura dó. Quis beijá-la e puxar suas roupas até que Hinata estivesse sem ar, ofegante por baixo dele, e entendesse o que era gostar, verdadeiramente amar, muito mais do que se espelhar em, uma pessoa. Como seria ter alguém que a quisesse tanto que tudo se tornasse quente e úmido ao redor, cada canto de sua pele e de seu âmago clamando por aquilo.
— Ei, Hina-chan, o idiota do teme tá te enchendo, já? – Naruto chegou, com a voz feliz, e os dedos de Hinata se afastaram como se jamais estivessem estado nos seus.
Nunca, em toda sua vida, Sasuke se sentiu tão impotente.
Ele teve a resposta, para o que deveria fazer, para sua perspectiva, naquele momento: ir embora e, definitivamente, não olhar para trás.
Porque se eu te amasse, como você deseja
você o deixaria?
Porque eu não posso esperar aqui,
por um encontro em um ano ou dois
Não olhe para trás, amor,
você poderia ser minha
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