Poder
1 One single thread of gold tied me to you
Notas iniciais
A ponta gélida da lâmina já começava a causar uma desconfortável pressão logo acima de sua garganta, e você conseguia sentir o gosto intoxicante do veneno que ele te dera pouco antes da luta começar. Ele sempre estava um passo a frente de você. Ou pelo menos, sempre quisera estar. Ele se achava tão bom. Ele achava que te derrotaria, que seria o melhor. Mas apesar da situação um tanto quanto desequilibrada, você não sentia medo. Bem, talvez você devesse estar, o medo pode se tornar um aliado valioso em uma situação dessas. Mas não, você não tinha medo. Na verdade, estava até radiante com todas as possibilidades de finais que essa luta traria. De qualquer forma, conhecendo-o como você o conhecia, minimamente, ele também não deveria estar assustado. Então, você pensou, vocês se pareceriam em algo. Então tudo estaria bem. Estava tudo bem não estar assustada. Era normal. Era um equilíbrio.
Por que se ele cortasse sua garganta e perfurasse sua pele para que você sangrasse até a morte, você ainda conseguia empurrar a adaga que segurava contra o peito dele, cravando a lamina de rubi que você empunhava no seu coração. E ele morreria com você. E era por isso que você não tinha medo. Por que ele não tinha chance de sair dali vivo se você também não saísse. Essa era uma dança a qual você fazia questão de conduzir com maestria. Você não se deixaria levar, essa luta seria sua. E você sabia disso, sabia disso desde que ele entrara na biblioteca aquela noite, te propondo um drink. Drink esse que você sabia que estaria envenado, e tomou com gosto, olhando firmemente para ele a cada novo gole que você ousava dar. Ele abriu as portas de carvalho daquela biblioteca pronto para vencer. Mas você não iria perder.
Na noite anterior ele havia chegado com o mesmo drink, e na anterior a essa também. Sempre te fazendo acreditar que valia a pena confiar nele. Mas nunca valeu. Não que você tivesse facilidade para se lembrar disso, quando toda noite ele chegava com aquele drink, acendia a lareira e lia um livro sentado contigo nas poltronas daquela biblioteca. Mas as vezes você precisava lembrar, precisava se forçar a lembrar que não deveria confiar nele. Nunca pode na verdade. Mas ainda sim, todo dia você deixava ele entrar no seu palácio, destrancar todas as suas portas, entrar por todos os seus muros, abrir aquela porta de carvalho e olhar nos seus olhos.
Você sabia que esse dia chegaria. Sabia que um dia veria ele próximo assim de ti, mas ainda sim longe o suficiente para estar com a sua vida nas mãos dele. E hoje, você estava presa entre a parede e a lamina dele, o rosto dele próximo o suficiente para você sentir o cheiro amadeirado de seu perfume te intoxicar como fizera em diversas noites anteriores a essa, em circunstâncias bem diferentes das que você se encontrava hoje. Você odiava como seu coração batia descompassado por esse dia ter chegado tão cedo, mas ainda, tão tarde. Na verdade, você esperava que não fosse cedo demais pra ti. Existiam coisas que só o tempo poderia resolver entre vocês, e você não sabia se o tempo ainda existia como suficiente.
Por isso, você olhava diretamente nos olhos dele. Mesmo com seus cabelos atrapalhando boa parte da sua visão, caindo em cascata pelo seu rosto, você olhava diretamente nos olhos dele. Você ainda conseguia olhar no fundo dos olhos dele, escuros como um buraco negro, sugando todo o calor que podia ainda restar naquela sala. Já não restava mais nenhum. A janela havia sido aberta poucos minutos antes da luta começar, e o vento frio já começava a ser mais incomodo do que a lamina na sua garganta. Você olhava para ele, como se quisesse decifrar todo e qualquer semblante que ele pudesse deixar escapar naquele momento. O silêncio era ensurdecedor.
Era desconcertante. Você não podia ceder. Não podia dar um passo em falso. Ou morreria. Não. Você não podia ser brusca. Aquela dança era lenta, e você não ousaria perder o controle dos passos. Porque você tinha treinado muito para ser a melhor, e se sua cabeça não te traísse, você sabia que seu corpo não o faria. Você divagava enquanto observava os olhos negros do rapaz a sua frente. Minutos se passavam sem que nenhum dos dois tirasse o olhar do outro. A rainha vermelha, segurando a espada de vidro pronta para acabar com uma vida que nunca deveria ter cruzado com a sua. Cruel.
Pareciam que anos se passavam enquanto vocês esperavam que algum dos fios finalmente cortasse a fina camada de pele separava o ferro do sangue. Você olhava para ele, vendo alguns fios dos cabelos negros caindo sob seus olhos castanhos. O nada te observavam de volta. Era assustadoramente excitante olhar para ele e ver seu reflexo nos olhos daquele homem pronto para te matar. Louco para te matar. Para conduzir aquela dança. Para cortar aquela linha dourada que refletia entre o olhar que você compartilhava com ele.
Você decide dar o primeiro passo. Sua mãe se ergue lentamente, e você a coloca no rosto dele, um toque macio contra a pele fria do homem a sua frente, com uma delicadeza cruel demais até para você. Se movendo no ritmo das batidas intoxicantes do seu coração, você começa a dançar.
– Eu gostaria de saber o que é a Poder para você. – Você pronuncia todas as palavras sentindo-as queimando a bile em sua garganta. A cada sílaba nova, você se inclina levemente na direção dele, ao ponto de que quando você termina de falar, a lamina dele ja se encontrava razoavelmente dentro da sua derme, fazendo com que um pequeno, mas incessante filete de sangue escorresse pelo seu pescoço e manchasse sua camisa branca – Como alguém imortal, poder não deve ser algo que você almeje da mesma forma que eu, então me diga, o que é poder pra você?
Obviamente ele não te respondeu. Ele nunca deixaria você tomar o controle. Não, ele esperaria o momento certo para atacar, e esse momento era decidido por ele. E não por você.
— Sabe, como uma humana e mortal, apesar de gostar da ideia de poder como sendo algo físico, dinheiro, posses, quantidade de vidas tiradas, não acho que seja a definição certa. — Você sentia o sangue começar a esquentar a pele por onde ele escorria. Era quase como fogo. Fogo descia por sua garganta e queimava blusa em vermelho escarlate. — Não, poder é mais subjetivo que isso. É mais íntimo. — Você olha diretamente nos olhos dele e continua — Alguns dizem que sexo é poder. Outros, riquezas, influencia, terras. Eu imagino que essas definições não devam te agradar de qualquer forma, apesar de eu particularmente gostar bastante da ideia de sexo como poder. — você soltou uma risada seca, irônica, nunca deixando de perfurar os olhos dele com os seus.
Ele não dizia nada. Seu silêncio era agonizante. Mas agora seria seu ponto final. Se não funcionasse, você seria morta em questão de milissegundos, mas era um risco a se correr nesse tipo de situação.
— Poder — Seu sorriso cresceu na medida em que você decidia as palavras certas — é controle. É saber que a única forma de você morrer no mundo é pela lamina que eu tenho presa entre minhas mãos e seu peito. É saber que eu seguro a única lamina de rubi capaz de perfurar sua pele e te atingir. Poder — Você começou a ver certo divertimento nos olhos dele, na medida em que terminava seu discurso – Poder é saber que, se você sair desse lugar vivo, é por causa de mim. Porque eu não decidi te matar. A sua vida imortal pertence a mim. Isso é Poder.
Você conseguiu ver o divertimento que antes tomava olhos dele, sumirem na medida em que suas últimas palavras eram proferidas. Esse era seu cheque mate. Seu golpe final, meticulosamente armado no momento de tensão, o último acorde da música que você ousava dançar. "Você não me destruiu. Você não é tão poderoso assim." foi o pensamento que passou pela sua cabeça enquanto ainda sentia o sangue escorrer pela sua garganta, e a lamina te apertar contra a parede.
Pelo menos, era o que você achava. Porque quando ele abaixou os olhos para a faca que você segurava contra o peito dele, e deu um passo a frente, fazendo com que ela entrasse em seu peito, milimetro por milimetro, sem nenhum sangue escorrer, sem que ela conseguisse o ferir, você entendeu.
— Eu gosto como você escolhe suas palavras cuidadosamente. Gosto como fica confortável no silêncio – Ele levantou os olhos para ti, e respondeu, com aquela voz rouca que você antes costumava ouvir até dormir. Antes de tudo. Antes de tudo se perder. — Gosto dos seus olhos nos meus. — E então você soube. Não importava qual arma você tivesse empunhando. Você havia escolhido o lugar errado. Se você ao menos tivesse se lembrado de empunhar a lâmina contra qualquer outro lugar. Foi olhando nos olhos dele que você percebeu. O coração dele. Maldição. Como você poderia ter se esquecido? O coração dele era de pedra. Rocha. Dura. Sua espada nunca atravessaria, não importava do que fosse feita.
Você engoliu em seco. Só havia uma forma de tentar ganhar essa luta, e você mataria ou morreria naquela noite. A única forma de sua lamina rubi não rachar quando entrasse no peito dele não estava nem a seu alcance. Se você morresse antes de ter a chance de empurra a adaga contra o homem a sua frente, nunca saberia o que aquilo tudo havia significado. Nunca saberia a verdade sobre ele. Então você fez. Sua última chance de o destruir. Por que amar alguém é se destruir no processo. E aceitar ser amado, é permitir ser destruído.
Você sorriu. Sua voz era suave quando a sua sinceridade sussurrou.
— Eu amo você – silencio – Essa não é a pior coisa que já ouviu?
É seu último pensamento antes da lâmina ser empurrada, e o carpete, machado de vermelho escarlate.
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