Podemos, mamãe?
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Para Inuzuka Tsume, chegar a sua casa era sempre um sentimento conflitoso. Era maravilhoso poder entrar no lar e ter seu momento de descanso merecido, depois de horas de trabalho duro na Clínica Veterinária, onde a família cuidava do tratamento de inúmeros ninken, assim como os treinava para ajudar em diversos setores da sociedade. Por outro lado, às vezes sentia um aperto no peito frente a casa tão vazia e silenciosa, padrão rotineiro desde que os filhos cresceram e seguiram com as próprias vidas.
E naquele fim de tarde ela sentia-se ainda mais nostálgica, porque Kiba, o seu caçula, foi trabalhar levando-lhe um presente inusitado: um porta-retratos com uma foto especial. O dia em que ele se casou com Aburame Shino. A imagem era simples, assim como foi a cerimonia restrita às pessoas mais próximas do casal. Konoha ainda não reconhecia a legalidade de casamentos homoafetivos, então tudo foi apenas simbólico. E não precisavam de mais nada, a imagem deixava claro: os cônjuges trajando smokes brancos e de mãos dadas. Kiba, sempre espalhafatoso, usava um colete de tom dourado, mesma cor que marcava detalhes no conjunto elegante. Era todo sorriso de pura felicidade. Shino, mais discreto, escolhera um colete tão preto quando os detalhes das roupas finas e os óculos de sol. Não sorria, mas o peito parecia um tantinho estufado de orgulho...
A primeira coisa que a matriarca Inuzuka fez ao chegar, foi colocar o porta-retratos na estante. Bem no meio de outros dois pelos quais nutria muito carinho. Ela nunca foi uma mulher de se preocupar com registros assim. Mas aquelas duas fotos eram especiais demais para não amá-las, não valorizá-las.
Ambas retratavam quase a mesma cena. Era a estreia de Inuzuka Hana no Shougaku, a menina completara oito anos e resplandecia de alegria. No colo de Tsume estava Kiba, ainda um bebê! Na primeira foto, os três olhavam direto para a câmera. Uma imagem perfeita. Na segunda foto, a chupeta de Kiba havia caído e o fotografo registrou o momento exato em que o rostinho do bebê exibia uma expressão de surpresa, como se ele perguntasse “Cadê?!” para a lente da câmara! Era tão engraçado. E fofo...
Enquanto ajeitava a melhor posição para aqueles adorados porta-retratos, a mente de Tsume voltou ao passado, mais de vinte anos no tempo, revivendo aquele dia do qual jamais se esqueceu.
=====
Ela acordou como de costume. Com o choro insistente do filho caçula, sonzinho familiar que a fez sorrir na cama.
Ela deitou-se de lado e observou o bebê, com pouco mais de um ano, os olhos apertados expulsando lágrimas sofridas e os lábios escancarados exibindo os dentes de leite pequeninos, nem todos haviam nascido, mas já compunham uma bela visão.
Seu menino parecia um pardal! Vivia com a boquinha aberta pedindo comida. E era isso que pedia naquela manhã: que lhe enchessem a barriguinha! Conhecia bem as variações de choro: de dor ao incomodo pela fralda cheia. De manha a exigência de papinha, alimento que era o favorito de Kiba, junto com o leite materno claro. Ou melhor, Tsume estava para conhecer algo que o bebê não gostasse!
Uma breve olhada ao redor confirmou o que já desconfiava: o companheiro havia passado outra noite fora! Shigure era um homem encantador, muito parecido com o falecido marido. Ao menos antes que mostrasse como era na verdade. Alguém com quem Tsume não podia contar, que adorava gastar o dinheiro alheio com a mesma intensidade com a qual odiava trabalhar para ganhá-lo. Passava mais tempo na farra do que dentro de casa.
Kiba foi a melhor coisa que deu a Tsume, com toda certeza. Aquele relacionamento estava fadado ao fracasso e não demoraria muito... A paciência da mulher era curta. Só aguentava porque queria que Kiba convivesse um pouco mais com o pai antes de colocar o embuste para correr. Na verdade, aquele não era o motivo exclusivo pelo qual Tsume aguentava o companheiro inútil, conquanto evitasse pensar na pesada realidade e no quão pior seria separar-se dele antes do tempo certo.
Por fim aconchegou o menino nos braços e saiu da cama. O calor agradável do colo da mãe fez o pranto cessar. Kiba sabia que a comida estava a caminho! E não perdeu um segundo em abocanhar o seio oferecido e sugar o leite como se não comesse há eras! Um glutão em todos os sentidos...
Tsume admirou o rosto do filho, observando a combinação das marcas do Clã, os cabelos que já cresciam bagunçados como os seus, os olhos selvagens, de íris tão peculiar, presos no seu rosto, reconhecendo-a como progenitora e se acalmando em vê-la, como sempre se acalmava. Sorriu.
— Se continuar assim vai ser tranquilo como a Hana. — Profetizou.
Quando notou que o bebê ficou satisfeito, de barriguinha bem cheia, Tsume o colocou sobre o ombro e ofereceu tapinhas carinhosos nas costinhas delicadas, até que arrotasse. Teve certeza de que ele engoliu todo o leite e que era seguro aninhá-lo nos braços outra vez.
Então saiu do quarto. Suspirou ao ver a bagunça no corredor, pois a casa estava em obras. Iria construir um novo quarto exclusivo para Kiba. Enquanto isso ele dormia com os pais no quarto principal.
Por fim Tsume chegou à cozinha e encontrou a primogênita já colocando as mãos na massa para ajudar com o café da manhã. Hana tinha oito anos e uma maturidade que não se encontrava fácil em crianças dessa idade. Apenas não preparava coisas muito elaboradas, mas o arroz já estava na panela elétrica, cozinhando. Algumas folhas de alface foram rasgadas e temperadas para salada. E a papinha de Kiba estava sobre a mesa, assim como os talheres e demais utensílios.
— Bom dia, mamãe! — Hana sorriu e aproximou-se para pegar o irmãozinho nos braços.
— Bom dia! — A resposta de Tsume veio carregada do orgulho que sentia. — Obrigada, Hanna. Você me ajudou muito.
— De nada! — A menina sentou-se em uma das cadeiras, com Kiba no colo e ofereceu bocadinhos da papa de batata com abóbora. E o menino aceitou sem hesitar, mesmo tendo se alimentado bem antes! Parecia que aquela barriguinha não tinha fundo!
Enquanto Hana cuidava do irmão, Tsume terminou o café da manhã. Preparou karaage de frango e pegou pepinos em conserva da geladeira. Montou uma pequena marmita infantil e colocou na bolsa amarela que Hana levaria para a escola.
Então serviu um pouco da comida para a filha e pegou Kiba de volta, para que dessem início à refeição. Com experiência foi se alimentando, revezando oferecer ao bebê o resto da papinha e alguns pouquinhos de arroz, para que já fosse treinando a mastigação com os dentes que nasciam.
A refeição foi rápida e silenciosa. Exceto pelos resmungos ocasionais de Kiba que depois de comer passou a morder a mão gordinha até que Hana correu ao quarto e voltou de lá com uma chupeta. Limpou o queixo do irmão que estava sujo de baba e comida, e ofereceu-lhe a chupeta que foi muito bem aceita.
Ao ver que a filha começaria a juntar as louças, Tsume falou depressa:
— Deixa que depois eu limpo. Hoje é um dia especial, passo aqui na hora do almoço da clínica. Vá se trocar.
— Sim, senhora! — A menina foi ao quarto, para obedecer. Tsume quase viu uma trilha de empolgação e felicidade sendo deixada como rastro.
O coração se apertou, dolorido. Também foi trocar de roupa. Seria um dia importante.
E Hana ficou um encanto com o uniforme do Shougaku, composto por uma blusa cinza chumbo, com gola branca e botões amarelos. As meninas vestiam short-saia preto, curtinho. Hana escolheu usar meias três quartos, que deveriam ser obrigatoriamente brancas. E sapatinhos pretos. Tudo combinando com o chapeuzinho amarelo e a bolsa lateral também amarela, que naquele instante levava apenas a marmita cor-de-rosa cheia de desenho de ursinhos. O restante usado na rotina escolar ficava na classe dos pequeninos, em seus armários individuais.
— Você está linda! — Tsume afirmou com um sorriso. Não era mulher de palavras vãs ou elogios supérfluos.
— A senhora também, mamãe!!
A pequena Hana estava impressionada o ver o aprumo de Tsume. Não era comum vê-la com um conjunto tão elegante, um terninho feminino muito assentado, que se ajustava ao corpo desenhado e em forma, nem parecendo ter concebido duas crianças e ainda estar amamentando uma. Os cabelos estavam bagunçados, mas de um jeito charmoso. E a maquiagem discreta aumentava o ar de refinamento. Os sapatos fechados de salto alto eram o detalhe matador no visual caprichado.
Nos braços, segurava Kiba com um macacãozinho branco confortável e fresquinho, bem apropriado para o clima primaveril. A chupeta bem presa na boquinha não parava quieta, Kiba sugava como se pudesse tirar alguma coisa dali. Ou talvez o gesto infantil servisse como algum tipo de estímulo, Tsume não entendia muito dessa parte do desenvolvimento das crianças. Sabia apenas que a chupeta acalmava bebês, sendo um ótimo artifício para tranquilizá-las durante algumas birras.
— Vamos? Tudo pronto?!
— Sim! — Hana garantiu.
Os três seguiram juntos rumo à escolinha do bairro. Pelo caminho encontraram outras crianças, principalmente dos anos posteriores, que seguiam em grupos organizados sem a presença dos pais. Apenas os alunos ingressantes do primeiro ano precisavam comparecer com os responsáveis. Haveria uma reunião coletiva com os adultos, enquanto as crianças iriam para a Cerimônia de Entrada, comum a todos os estágios do Ensino Formal em Konoha, do Youchien ao Daigaku. Por tal motivo não apenas Tsume seguia bem vestida e apresentável; mas todos os responsáveis pelos futuros estudantes faziam o caminho rumo à escola primária.
Tsume parou em frente aos portões da escola e respirou fundo, observando a menininha ansiosa que estacou ao seu lado. Hana era um tiquinho mais desenvolvida do que os coleguinhas, tão pouco que mal se percebia. Esse fato nada tinha a ver com genética. A verdade é que a menina estava entrando no Shougaku com um atraso.
Na época de dar início aos estudos, Tsume não conseguiu nenhuma vaga para a criança. Nenhum diretor aceitou que a filha de uma mãe solteira tivesse acesso à educação. O pai de Hana ter falecido antes de poder formalizar o vínculo com Tsume não fazia a menor diferença. Para eles, as Inuzuka eram uma família desestruturada que talvez influenciasse de um jeito negativo.
Tsume brigou, enfurecida. Ela ameaçou. Buscou autoridades, tentou negociar. Até mesmo implorou. Não obteve sucesso, Konoha trazia aquela tradição injusta por tempo demais para mudar com uma única mãe protestando. Várias outras se conformavam, buscando alternativas como ministrar aulas em casa. Tsume não era mulher de se conformar.
E, apesar disso, nenhuma porta se abriu.
Apenas quando conheceu Aoyama Shigure e eles se envolveram formalmente, Hana teve acesso de cursar uma escola, carregando consigo um atraso que não merecia. E esse era o motivo de Tsume suportar um pouco mais a presença do homem que um dia considerou um possível par ideal. A sociedade não mudou tanto assim, para que aceitassem Kiba sem que o menino viesse de um lar nucleado.
Ela era uma mãe tigresa, que não abaixava a cabeça para nada. No entanto, ver a tristeza de Hana a cada rejeição, a cada vez que precisava explicar à menina que ela não podia estudar, que não era aceita mesmo sem ter feito nada de errado; destruía o coração de uma mãe. E pelos filhos Tsume faria qualquer sacrifício.
Os pensamentos tristes torturaram a mente daquela mulher forte, e ficariam ali por mais tempo, não fosse o puxão na barra de sua blusa. Era Hana chamando sua atenção enquanto apontava para um homem peculiar. Um fotógrafo profissional contratado pelo diretor para registrar aquele momento. Várias mães faziam fila com os filhos na intenção de eternizar o dia.
— Podemos, mamãe?!
Tsume olhou a filha, inundando-se de carinho. Era tão raro aquela criança lhe pedir alguma coisa... Então olhou para Kiba, que continuava sugando a chupeta enquanto um pouco de baba fazia o queixo brilhar de umidade, os olhos de íris selvagem, característica Inuzuka marcante, olhava a tudo com curiosidade e interesse, a mão gordinha segurava com firmeza a frente do terninho da mãe. A mesma firmeza que sentia no toque de Hana.
Para aqueles dois pedacinhos de gente, Tsume representava um mundo inteiro. Um universo completo de amor e segurança. Só havia uma palavra a ser dada ao pedido inocente de Hana. E tal resposta veio com um sorriso enorme:
— Claro!
Notas finais
Eu amo essa família.
Fale com o autor