Oh, merda. Merda, merda, merda. Que droga, por que eu tinha que ser tão branco? Por que qualquer marca corporal contrastava com a minha pele de modo tão ofuscante, tipo \"estou aqui!!\", com luzinhas em neon piscando? Por que eu tinha deixado Adam deixar aquele roxo no meu pescoço justo no dia antes que eu ia ver o Frank? Droga, por que eu fui tão idiota?

Eu cheguei em casa, e felizmente não vi o Frank. Peguei um cachecol que tinha ganhado num show e enrolei em volta do pescoço. Não é muito sutil, eu sei, mas foi o melhor que eu consegui. As coisas já não estavam muito boas entre a gente, outra briga só faria mal. Não que eu me importasse muito. Quer dizer, eu me importo bastante, mas não o suficiente pra deixar de fazer o que eu faço. E eu acho que, por mais que ele tente ignorar isso, ele sabe. O Frank sabe. E é por isso, principalmente, que ele é tão ciumento. Eu até que gosto... é divertido você ter alguém lá pra ficar cobrando coisas e ficar te olhando feio quando você chega tarde. Dá pra se divertir um pouco, exercitar o cinismo, ainda mais se essa pessoa é o Frank. Todo bonitinho. Mas depois de um tempo, enche o saco.

Então, continuando de onde eu parei. Não demorou muito pra ele chegar. Tava carregando uns pacotes, sei lá, tinha ido comprar umas coisas que a gente tava precisando.

Eu tava sentado na poltrona da sala, lendo uns quadrinhos. Tentei me fazer de distraído quando ele entrou. Mas de longe eu já vi aquele sorriso se abrindo no rosto dele quando ele me viu, e eu não resisti. Dei um meio sorriso de volta. Puxei o cachecol. Merda, por que eu tive que puxar a porra do cachecol? Acho que ele nem ia ter visto. Ou melhor, nem ia ter reparado, e não ia perguntar. Mas ele perguntou.

-O que esse cachecol tá fazendo no seu pescoço?

-Nada. Tô com frio, só isso.

Tentei responder com a maior falta de expressão possível. Não fui convincente o bastante.

-Ah, é? Acho que é só você então. As pessoas normais estão de manga curta na rua.

-É, mas eu não sou normal, esqueceu?

-Hm. Mesmo assim é estranho. Por onde você andou?

Tava demorando. Realmente, eu não deveria ter puxado a merda do cachecol. Ele começou a chegar perto, com aqueles olhos verdes irresistíveis fixados no meu pescoço.

O cachecol tava ficando frouxo, tive que arrumar. Caralho, nem pra isso ele servia.

-Por aí. Fui fazer uma visita pro Mikey. Sabe como é, ele anda muito sozinho.

-Uhum, sei. É. Seu irmão costuma te dar chupões no pescoço?

Acho que eu tremi sem querer. Não sei, só sei que engoli seco. Detesto quando ele me desarma. Sei que ele não tinha visto, não dava pra ver, mas era tão óbvio. Era muito óbvio. Até um retardado mental desconfiaria.

-Ahm. Não. Por quê?

-Porque eu acho que você tem um bem aí, debaixo desse cachecol que você não pára de puxar. Quer dizer, acho que estou sendo humilde. Deve ter bem mais do que um.

- Frank, o que você fumou? – perguntei, com o meu melhor cinismo. Ainda bem que sou bom ator. – Porque você tá viajando demais.

- Larga de ser idiota, Gerard! – ele exclamou, estava ficando puto. Ai, ai. – Ou pelo menos para de achar que eu sou idiota!

- Ah é? – e o show começa – Se você não dá valor ao nosso relacionamento, ficando cheio de ciuminho, aí não é minha culpa! Se toda vez q eu resolver usar um cachecol, ou seilá o que e você ficar desconfiando de mim, então acho que isso não vai dar certo! O que houve com confiança mútua, e etc?

Ele ficou com cara de tacho. Cara, eu sou muito bom.

- Então deixa eu ver. – ele falou, e eu nem me liguei.

- Han?

- Tira a porra do cachecol.

Porque ele sempre tinha q complicar tudo? Depois fica reclamando quando eu mando ele tomar no cu. Fiz a minha melhor cara de indignação.

- Como você pode? Eu me esforço pra caralho pra esse namoro dar certo, e você não consegue nem me responder com um mínimo de confiança?!

- Você se esforça?! – ele gritou. Ele sempre grita. – Eu tenho que ficar aqui me preocupando com você, te deixando sóbrio, e VOCÊ que se esforça? Gerard, você é muito idiota!

- EU sou o idiota? Frank, se você quiser que isso que a gente tem acabe, é só falar! Porque, se você nem consegue confiar em mim, seu namorado, então é melhor a gente acabar logo.

Eu quero agradecer à Academia...

Ele não falou nada. Apenas me olhou com uma expressão cansada. Frank é bonitinho, mas às vezes (na maioria das vezes, na verdade) ele me irrita muito. Falou:

- Tá. Tá. Faça o que você quiser. Eu não me importo mais. Fique com a bosta do cachecol, já que vocês têm uma ligação tão profunda. Eu vou dormir. – e foi pro quarto. Eu fiquei o observando se afastar, sentindo um pequeno peso na boca do estômago. Mas isso passou logo. Eu suspirei, e dei meia volta, me dirigindo para a porta da frente. O clima aqui estava muito ruim pra continuar naquele apartamento.

***

POV do Frank

Eu não consegui dormir. Como eu ia dormir? Minha cabeça tava cheia de coisa. Talvez eu tenha sido ciumento demais, mas porra, como ele queria que eu não ficasse desconfiado? E o pior é que ele pareceu bem magoado...

Ouvi ele saindo de novo. Provavelmente não queria ficar perto de mim. Faz um tempão que a gente não fica junto, como nos velhos tempos. Você sabe, todas essas coisas que namorados fazem no começo do namoro. Ficar abraçados na cama, fazer café da manhã pro parceiro, ou simplesmente sentir o calor do outro, ou até ver carinho nos olhos do outro.

Nem sei quanto tempo faz que eu não vejo carinho nos olhos do Gerard.

Apenas fechei os olhos, me perguntando porque as coisas não podiam ser mais simples. Não posso dizer que sinto falta do antigo Gerard, porque de um certo modo ele sempre foi desse jeito. Mas antes ele era menos insensível, pelo menos. Quando vi, já eram quase 5 da manhã, e ele estava chegando de novo. Do quarto ouvi algo batendo. Porra, ele tava bêbado.

Me levantei, e logo o vi entrando no quarto. Ele estava com aquela cara. Ás vezes ele fica tarado quando bebe. Mas eu não ia ceder. Ele avançou em mim, já me empurrando na cama e me beijando. Depois de muita luta, eu consegui me desvecilhar e me levantar.

- Gerarad, não. Hoje não. Você não pode consertar tudo com sexo bêbado. Hoje você fica na sala.

Ele me olhou, não entendendo direito. Nessas horas q eu tinha q ser forte. Então ele se virou e saiu bufando do quarto, indo deitar no sofá.

Cara, nessas horas que eu queria não ser apaixonado por ele.

***

O sono não veio de jeito nenhum. Parecia até sacanagem. Por dentro eu batalhava contra o instinto de namorado ciumento. Como eu queria ir lá nele e ver se era apenas paranóia minha. Mas eu tinha medo. Morria de medo que ele fosse embora e não voltasse. Até que o meu lado ciumento falou mais alto, e eu fui lá. Silenciosamente, eu andei até ele, me espancando internamente a cada passo.

E ali estava ele. Dormindo no sofá, ressonando como um gato. Ele parecia tão inocente e lindo, dormindo daquele jeito. Suspirei,e lentamente tirei o malfadado cachecol.

Devo dizer que mesmo depois que eu vi a marca roxa com um formato óbvio de boca, ainda tive esperanças de que eu estivesse sonhando, ou algo assim. Mas lá estava, bem real. Quase brilhando.

Então um monstro ciumento e histérico tomou conta de mim. Começou com o tapa sonoro que eu dei no rosto dele. Gerard acordou de um pulo, olhando pra mim abobado. Mas agora já era tarde demais.

Eu nem sei direito o que eu falei. Só me lembro de gritar, bater, espernear. Gerard também gritava comigo, falando que eu era ingênuo. Bati nele. Ele tentou ma abraçar, mas eu o afastei. Gritamos mais. Sobre confiança, ingenuidade, traição... Eu reprimia as lágrimas. Era incrível como ele estava impassível, nem irritado, nem culpado, nem arrogante. E isso me irritou.

Depois de algum tempo os gritos pararam. Eu estava cansado daquilo, cansado dele, apenas peguei o meu casaco e saí do apartamento sem falar mais nada. Parte de mim queria que ele me seguisse, mas isso não aconteceu, porque afinal, ele era Gerard Way, o príncipe do gelo sem coração ou sentimentos.

Lá fora, na rua, fora do prédio, as lágrimas vieram. Eu não queria pensar em mais nada, só queria ir para o bar mais próximo.

***

POV do Gerard.

Eu não sei quem é mais idiota, se é ele ou eu. Eu sabia muito bem que aquele cachecol não enganava ninguém, mas ele realmente não precisava me acordar com aquela porra daquele tapa! Ás vezes Frank consegue ser muito irritante.

Ele não queria que eu ficasse sóbrio? Então, me acordar justo quando eu tava me curando, não foi a melhor idéia do mundo.

Eu me levantei, e ele começou a gritar:

- Como você pôde, seu filho da puta? Como você pode fazer isso comigo assim, na minha cara?

- Ah, então você viu, finalmente. — falei, com o menor toque de ironia que eu consegui. Ele já estava histérico, eu não precisava piorar a situação.

-Finalmente? Meu Deus, quem é você? O que você fez comigo, Gerard? Nossa, eu devo ser muito idiota mesmo. Aliás, você é quem me faz de idiota.

- Eu nunca prometi fidelidade. Você sabe que eu sou assim. Você devia saber! Não é minha culpa se você é tão ingênuo! — Eu também gritei.

-Ah, tá, e agora eu tenho culpa de gostar de você e fechar os olhos pras merdas que você faz? Quer saber, eu tenho culpa mesmo. Mas nada seria assim se você soubesse se contentar com o que tem. Por que, por que eu não sou o suficiente?

- Meu Deus, Frankie! O mundo não é assim! O nosso mundo não é assim, EU não sou assim! Você é ótimo e tudo mais, mas simplesmente eu não me satisfaço só com você! E também... — oh, não. Eu ia começar a vomitar palavras. Eu ia falar merda — O nosso relacionamento já não ia às mil maravilhas, e você sabe disso. — Droga. Agora é q ele ia fazer escândalo.

-Ah, vai se foder! Então por que você não foi embora de uma vez? Por que diabos não me deixou? Você sabe que eu gosto de você, e sabe que eu tenho ciúme. Num relacionamento normal, de namorados normais, que se gostam, há fidelidade, sabia? Eu não sei por que você não pode ser assim. Eu não te entendo. Mas eu te quero longe de mim agora.

- Porque o sexo é muito bom! — gritei antes de pensar. Porra, agora eu tava realmente fodido.Tentei amenizar a situação:- Quer dizer... Eu gosto de você, mas isso simplesmente não é o suficiente, sabe?

-Ah, é, o sexo! Como eu fui me esquecer?! É só com isso que você se importa, a porra do sexo. Pois agora você vai fazer sexo com quantos você quiser, a hora que você quiser. Você está livre de mim, Gerard Way. Quer dizer, você já se considerava livre antes. Mas agora é oficial.

Será que se eu mostrasse um pouco de carinho e essas coisas ele ia se acalmar? Não, não adiantava mais esconder. Estava na hora dele me conhecer de verdade.

- Qualé, Frankie... — falei tentando abraçá-lo, mas ele me empurrou com força. É, a situação tava realmente preta pro meu lado.

Então ele me socou! Tipo, com muita força. Eu não esperava isso do pequeno Frankie. Agora eu que fiquei irritado.

- Você é muito ingênuo, Frankie. Está na hora de crescer. — falei. Mas isso foi a raiva falando. Eu não queria realmente magoá-lo, mas ele praticamente pediu por isso.

-Frankie? Não tem mais nenhum Frankie aqui. Aliás, me faz um favor, nunca mais me chama assim. A partir de agora, a nossa intimidade não existe mais. Você é um desconhecido pra mim. Fique com os seus homens, as suas mulheres e o que mais você quiser. Tchau.

E foi assim. Eu apenas o observei pegando o casaco e indo embora. Bufei, irritado. Ele que tinha pedido por aquilo. Ele me conhecia. Era culpa dele.

***