Pobre Frankie
1 Capítulo 1
Como sempre acontecia, Mikey bate na minha porta e avisa:
— Frank tá aqui.
— Manda ele subir.
Enquanto Frank entrava no meu quarto, ainda acanhado, mesmo depois de tantos anos, e eu o observava. Ele tinha um sorriso tímido, mas atraente. Estava usando aquela camiseta do Kill Em All que a mãe dele vive ameaçando transformar em pano de chão, e uma calça rasgada que também está sob a mesma ameaça. Frank tem esse amor não assumido pelo grunge de Kurt Cobain, e para ser sincero, eu também tenho a minha cota de calças rasgadas.
— Oi. – ele falou, tímido.
— E aí? – falei. Um sorriso lutou para aparecer nos meus lábios, mas eu lutei bravamente e venci. É como sempre dizem por aí, “quanto mais você os ignora, mais eles vêm”.
Ele tinha aquela expressão que eu já conhecia. Tinha um CD nas mãos. Devia ser alguma banda nova que ele tinha descoberto ou um filme que ele queria me mostrar, como sempre acontece de dois em dois meses.
— Eu descobri essa banda, eles são bem legais, e eu achei...
As palavras dele flutuam na minha mente. Não presto muita atenção, mas falo sim quando ele termina, e então bota o CD no meu rádio. Banda nova.
Eu olho pra ele com o mais discreto dos sorrisos. Pobre Frankie. Eu sei muito bem o que ele quer, vindo aqui toda hora, procurando motivos pra me ver. Mas tudo ao seu tempo. Se bem que uma diversãozinha não faria mal...
— O que você achou? – ele perguntou com aquela cara de expectativa pela minha opinião, que parecia ser sempre tão importante pra ele. Pobre Frankie, tão inocente e ingênuo.
Nem estou prestando atenção na música, mas faço uma cara de pensador. Então falo bem devagar:
— Eu acho... – tive o cuidado de arrastar as palavras. — que você está anormalmente bonito hoje.
Eu deixo o meu sorriso quase inexistente de tão sutil se mostrar finalmente enquanto observo as minhas palavras sendo digeridas na mente dele. Ele ficou vermelho, que bonitinho.
— É... obrigado.
Nesse ponto eu estava sentado na minha cama e ele estava em pé. Pensei um pouco se não seria cedo demais. Ah, que se foda. A ocasião estava ali, batendo nas nossas caras. Indiquei o espaço livre na minha cama e ele sentou ao meu lado. Pobre Frankie, estava tão nervoso. Eu falei sem sorrir, mas olhando nos olhos dele:
— Não vou ter resposta para esse comentário?
Botei minha mão na parte interior da coxa dele, longe o suficiente da zona de perigo para que ele não fizesse nada ainda, mas perto o suficiente para que ele começasse a sentir.
Era só o que eu queria que ele fizesse: sentir.
Meu sorriso continuou brigando, mas eu continuei vencendo. Frank falou:
— Você... também tá bonito hoje. – e então sussurrou tão baixo que eu quase tão ouvi: — Você é sempre bonito.
O sorriso venceu. Mas não muito. Movi a minha mão para mais perto do gancho da calça dele. Frank fechou os olhos e eu podia jurar que ele estava aproximando o seu rosto do meu. Ri por dentro. Murmurei no ouvido dele:
— E o que nós vamos fazer sobre isso?
De longe deu pra notar que ele se arrepiou. Abriu os olhos e os fixou diretamente nos meus. Então senti a mão dele na minha que estava na sua perna. Por um instante pensei que ele fosse tirar a minha de lá, mas ao invés, a guiou para o botão da sua calça. Ora essa, Frankie queria sair pra brincar.
Meu sorriso venceu completamente. Murmurei novamente no ouvido dele:
— Frankie... não se meta com o que te fará se arrepender depois.
A zona de perigo dele já estava em alerta vermelho, e bem evidente. Eu podia sentir a sua respiração falhando.
Então o Frankie tímido e acanhado foi embora de vez. O que, devo dizer, foi uma surpresa. Ele me implorava com os dedos para que eu abrisse a sua calça, o que eu fiz, quando ele atacou a minha boca com a dele.
Pobre Frankie... não vai nem saber o que o atingiu.
***
Á primeira vista, eu posso parecer um babaca que fode com tudo o que toca (humano ou não). Mas não é assim. Realmente não. Frankie era o meu projeto mais ambicioso. Ele era tão puro e inocente... Era perfeito.
Pobre Frankie, achou que tinha arrumado o namorado dos seus sonhos. Pela primeira semana, talvez. Nós íamos nos bares, saíamos juntos, esse tipo de coisa que namorados fazem. Mal ele sabia que eu tinha um sério problema com o conceito normal de “namoro”.
Mas ele era fofo, e fazia o meu lado papel higiênico perfumado vir à tona também. Mas como eu disse, isso só durou uma semana.
A partir da segunda semana, meus olhos não pousavam mais apenas nos dele nos bares. Frankie começou a ver o meu lado mais... verdadeiro. Eu ficava bêbado todo dia. E o coitado tentava me acompanhar, mas não conseguia. Ninguém conseguia. O sexo era ótimo, mas não vale a pena se você não se lembra de nada no dia seguinte.
Foi aí que ele resolveu dar uma de namorado preocupado. Sempre ficava perguntando se eu estava bem, e esse tipo de coisa. Quer dizer, isso enchia o saco. Foi por isso que eu parei de sair com ele. Porra, falando assim até parece que a gente tava casado. Ele ficava em casa enchendo o saco, eu saía pra não ter que agüentar aquilo, e quando voltava pra casa, ele continuava enchendo o saco porque eu tinha saído. Efeito dominó.
Foi aí que eu parei de prestar atenção nele. No começo, ele perguntava aonde eu tinha passado a noite, e eu inventava qualquer desculpa. Mas depois de algumas semanas ele parou de perguntar.
O que eu podia fazer? Eu ia aos bares, bebia, e tinham todos aqueles caras... A lá carte. Eu não fazia por mal. Realmente não. Eu gostava de Frank. Não romanticamente, mas ele é um cara legal, eu gosto de ficar com ele, e o sexo é ótimo. Mas era só isso. O ruim era que ele não entendia. Pobre Frankie, ele nunca entendia. Pena que fui eu que tive que explicar, e do jeito mais difícil.
Porquê eu não terminei com ele logo de uma vez ou vice versa, você deve estar pensando. Eu, porque não havia motivo especial para deixá-lo ir. Ele ainda era útil. Droga, isso realmente me fez parecer um filho da puta, né? Mas não era por mal. Realmente. Acontece que... só o Frank não era suficiente pra mim.
E ele não terminava porque tinha esperanças que eu mudasse. Que eu fosse pra casa sóbrio e tivesse uma agradável noite regada a jantar romântico e um DVD da nossa banda preferida passando, ao invés de eu chegar bêbado e mandar ele se despir, como sempre acontecia.
Esperança é a última que morre, certo?
***
Até que teve um dia que eu acho que ele finalmente entendeu. Ou pelo menos começou a entender. Eu estava na rua, ainda era de dia, e recebi uma chamada dele.
— Vem pra cá agora.
— O que você fez?— perguntei, já pensando o pior.
— Só vem pra cá.
Eu fui, esperando o pior. Mas assim que abri a porta do apartamento que a gente dividia e encontrei Frank sem camisa, afinando a guitarra, entendi tudo. Sorri. Frankie queria brincar, que fofo.
Ele me viu e deu aquele sorriso inocente que me encantava e irritava ao mesmo tempo. Deus, como alguém pode ser tão... inocente? Porque ele ainda tinha esperanças? Porra, nem eu tinha mais esperanças em mim, porque ele tinha que ter?
Mas não foi muito inocente o que ele fez a seguir. Cara, nós tínhamos os nossos problemas, mas no quarto (ou na sala, no banheiro, na cozinha...) esquecíamos de tudo. Eu já falei o quanto eu adoro o corpo dele? Pois é, eu adoro o corpo dele. Provavelmente ele odeia o meu, mas fazer o quê? Ah, eu estou enrolando. Então, continuando, é incrível como ele sempre sabia o que fazer pra me deixar no clima.
Quando vi, ele estava na minha frente, espremendo o meu corpo na parede com o dele e arrancando as minhas roupas como se elas tivessem a Peste. Então senti a língua dele na minha orelha. O filho da puta sabia que esse é o meu ponto fraco.
Mas eu respondi na mesma moeda. Ele sabia muito bem quem controlava, e não seria agora que isso ia mudar. Girei, e agora eu o pressionava na parede, me certificando que nossos quadris estivessem colados, evidenciando os nossos desejos. Mas o filho da mãe insistia em enfiar a língua na minha garganta. Geralmente era o contrário. Ele com certeza estava inspirado.
Senti-o tentando abrir a minha calça. O ajudei, e ele não demonstrou surpresa ao ver que eu não usava nada por baixo da calça. Não pude evitar um suspiro quando senti a mão dele. Nos locomovemos para a bancada que ficava que ficava na cozinha, que já tinha sido bem útil antes. Droga, aquele mármore era frio pra cacete.
Eu não era mais o único que não estava usando nada. Ri um pouco com o arrepio dele ao meu toque. E então, sem mais nem menos, ele me virou. Sim, ele me virou, de modo que eu ficasse de costas pra ele. Não preciso falar o que isso significa, certo?
Mas... eu fiquei pasmo. Nunca tinha sido assim. Era sempre o contrário. Bom, foda-se (literalmente). Se o garoto estava inspirado, quem sou eu para julgá-lo?
E também, ele ficava tão bonitinho, pensando que tinha o controle da situação.
Foi uma noite longa.
***
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