PoV 2004

4 Capítulo IV


O barulho da fechadura eletrônica ecoa no apartamento como um aviso de que o mundo real cobra sua presença. Caio tirou os sapatos, jogou as chaves no aparador do hall e foi direto pra cozinha, discorrendo o silêncio com o som da geladeira abrindo e do gelo caindo no copo.


​— Vou preparar aquele drink que você gosta pra gente brindar. Você merece, amor. Começar a escrever esse livro depois de anos travada é uma grande vitória — ele grita da cozinha, a voz acompanhada pelo ruído da água corrente.


​— Obrigada, Caio. Vou só lavar o rosto — respondo, tentando soar o mais natural possível.


​Entro no quarto e fecho a porta sem fazer alarde. O peito sobe e desce rápido. A sensação de desconexão com o presente é física, como se o meu corpo estivesse em 2026, mas minha alma continuasse presa ao ar denso, ao cheiro de poeira e ao som distante dos modems daquela noite.


​Eu preciso saber.


​Sento na ponta da cama e pego o notebook. Minhas mãos tremem levemente sobre o teclado. A luz fria da tela corta a penumbra do quarto. Se eu tivesse tido um surto psicótico, como o Caio certamente diagnosticaria se soubesse, minha mente teria criado detalhes genéricos. Uma mente em surto inventa sensações, mas não reproduz com precisão cirúrgica a arquitetura, as placas de trânsito e o urbanismo de duas décadas atrás.


Abro o navegador. Digito no buscador: rua Sampa foto anos 2000.


Os primeiros resultados mostram fotos atuais: prédios de fachada espelhada, fiação subterrânea em alguns trechos, carros modernos estacionados e a pavimentação de asfalto liso. Nada daquilo se parecia com a rua estreita, de paralelepípedos irregulares e postes de luz amarelada onde pisei.

​Refino a busca. Começo a acessar arquivos digitais do arquivo histórico da cidade, fóruns antigos de urbanismo e blogs abandonados sobre a memória do bairro. Adiciono os termos de busca: rua Sampa 2004 fotos acervo.

Rolo a página por minutos que pareceram horas. As fotos são em sua maioria minúsculas, compactadas com a baixa resolução típica da época. Até que uma galeria de um projeto comunitário de restauração de memórias locais carregou.

​Clico em uma imagem amarelada, datada de outubro de 2004.

​O sangue gela nas minhas veias. A respiração trava na garganta.

​Na foto, lá estava ela. A mesma esquina. O muro do casarão número 42 ainda exibia a pichação em tinta preta com os dizeres "Liberdade é não ter hora", exatamente ao lado da placa de vende-se da antiga imobiliária Marco Zero — imobiliária que faliu em 2008.

Mas o detalhe que fez o quarto girar ao meu redor não foi o muro ou a placa. Foi a poça d'água no meio da rua. Bem exatamente como eu vi antes. ​Eu estive ali. Eu encostei naquele portão. Eu vi o reflexo daquela mesma poça.

Não foi um surto. Não foi uma alucinação. A Rua Sampa que eu caminhei há poucas horas não era a Rua Sampa de hoje; era a Rua Sampa de vinte e dois anos atrás, preservada nos mínimos detalhes.

​Com os dedos congelados e o coração batendo no pescoço, abri uma nova aba. A dúvida angustiante sobre a autenticidade da experiência deu lugar a um abismo ainda mais profundo: como?

​Digitei: fenômeno de deslocamento temporal.

Como esperado, os primeiros links me levam a teorias da física quântica sobre pontes de Einstein-Rosen, buracos de minhoca e dobra espacial. Termos teóricos e frios que não explicavam por que uma garota comum caminhando pela cidade cruzaria a linha do tempo.

​Mudo a abordagem. Começo a pesquisar por relatos anônimos, arquivos de jornais antigos digitalizados, fóruns de ocultismo e teorias conspiratórias locais.

Até que encontro um fórum obscuro, hospedado em um servidor antigo, cuja última postagem data de oito anos atrás. O tópico tem um título perturbador: "A Fenda de São Paulo: anomalias geográficas e a geometria do trauma.”

Leio sofregamente, devorando cada linha.

​"Os portais temporais espontâneos não surgem por acaso, nem se abrem para qualquer um. Eles são atraídos por mentes em estado de dissociação profunda — pessoas que desesperadamente rejeitam o presente ou que carregam uma dor não processada ligada ao momento de origem da fenda. Mas o mecanismo é sombrio: a fenda não é um caminho de mão dupla seguro. É uma estrutura parasita."

​Engulo em seco. Continuo lendo.

​"Em 2001, um evento trágico e não resolvido alterou a densidade eletromagnética daquele quadrilátero (ver registros policiais de Outubro/2001). A fenda se alimenta da energia psíquica daqueles que a cruzam. Ela se abre como uma 'escapatória' atraente, oferecendo a ilusão de uma época mais simples. Contudo, cada incursão deixa um rastro. Quem cruza a fenda não apenas visita o passado; deixa um fragmento de sua própria existência retido lá. O tempo cobra pedágio. Aqueles que voltam, voltam ligeiramente incompletos — e a fenda guarda a marca do visitante para atraí-lo de volta até que ele não consiga mais retornar ao seu tempo de origem.”

Um arrepio gélido percorre minha espinha. Lembrei da fala do Caio no viaduto: "Você sumiu por um tempão... Desde ontem você tá meio esquisita."

​Será que algo de mim tinha ficado na Rua Sampa de 2004?

​Desço a página do fórum até a seção de anexos. Tem um recorte de jornal digitalizado, com data de 18 de Outubro de 2004. A manchete diz:

​"JOVEM É ENCONTRADA EM ESTADO DE CHOQUE NA RUA SAMPA AFIRMANDO VIR DO FUTURO.”

A matéria conta sobre uma garota não identificada, vestida com roupas de tecidos e cortes desconhecidos para a época, encontrada vagando pela rua, repetindo nomes e datas que não faziam sentido para os policiais de 2004.

Segundo o texto, ela havia sido levada para uma instituição psiquiátrica local e desapareceu do leito trancado dois dias depois, sem deixar vestígios.

​Abaixo do artigo, o usuário Arquivo_80 havia deixado uma nota final:

​"Se você encontrou a fenda e conseguiu voltar, não comemore. O portal nunca se fecha por completo para quem já o atravessou. Ele sabe o seu caminho. E da próxima vez que a sua realidade parecer insuportável, ele não vai esperar você procurar por ele — ele virá até você."

​— Amor? O drinque tá pronto. Você tá demorando... — a voz de Caio ecoa do outro lado da porta, seguida por duas batidas leves na madeira.

​Dobro a tela do notebook num golpe rápido, o som do impacto parecendo uma explosão no quarto silencioso.

​Olho para a janela. Lá fora, a noite de 2026 continuava com seu zumbido ininterrupto de motores e luzes LED. Mas, ao olhar para o canto do quarto, onde a luz do poste da rua batia na cortina, jurei ver a iluminação oscilar — amarelada, trêmula e fraca, como a luz de uma lâmpada de sódio de 2004.

​— Já estou indo, Caio — respondo com a voz falhada, sem conseguir tirar os olhos da sombra que se alongava na parede.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.