Pledge
2 Capítulo Único
Notas iniciais
Bem, aqui vem a parte tensa roroririroro[?]
Hope you like it
O ruído de uma tranca se abrindo foi seguido de uma fresta de luz que invadiu o amplo cômodo, se expandindo conforme a porta se abria.
O jovem de feições delicadas que ali morava entrou calmamente pelo portal, sem suspeitar de qualquer outra presença no apartamento escuro. Na verdade, estava tão cansado que sequer se importaria em acender as luzes ou trocar de roupa, até vislumbrar uma silhueta conhecida sentada calmamente em sua poltrona.
A luz do corredor incidiu em seus olhos, que brilhavam como profundos oceanos. Aquele olhar o prendera na soleira da porta, estarrecido. Não era possível.
- Por que... está aqui? – Engolira em seco. As palavras saíram tremulas, e o intruso apenas sorriu de forma estranha. – Por favor, vá embora.
- Não agora. Quero que me escute, Shin.
Sentia-se fragilizar diante da intensidade com que o maior pronunciara seu nome.
O moreno, cujo nome se lembrava perfeitamente, se levantou, caminhando em sua direção com passos cuidadosos.Ainda imóvel em frente à porta entreaberta, o loiro permitiu que Reno se aproximasse. Permitiu a si mesmo ser envolvido pelos braços do moreno ao mesmo tempo em que escutou o clique da porta se fechando, cortando a única fonte de iluminação do apartamento.
Percebera a falta de reação do loiro ao seu toque. Já esperava por isso, mas era inevitável se entristecer diante de sua frieza. Afinal ser frio era característica do moreno, não de Shin. Afundou o rosto nas madeixas claras, apreciando o aroma de sua pele, encostando levemente os lábios em sua nuca, causando arrepios. Sentira tanto sua falta, tanto... Mas não sabia se conseguiria enfrentar e reparar seus estragos daquela maneira.
Reno, que passara anos longe, abandonando Shin, seu antigo namorado, reaparecera tão repentinamente como sumira. Havia chegado em Tokyo fazia uma semana, com um objetivo em mente.
Queria consertar tudo. Tantas as vezes em que magoara profundamente as pessoas a seu redor,sem realmente perceber a dimensão de suas escolhas. Por fim, só restava a si mesmo fugir. Se vira forçado a retornar tempos depois, e lá estava.
Invadira o apartamento do loiro e lá esperara por horas com determinação... Mas ao enxergar a mágoa refletida naqueles olhos tudo parecera infinitamente pior.
Com movimentos suaves e ainda entre o abraço de Reno, Shin levou sua mão ao peitoril do maior, arrastando a ponta dos dedos por seu tronco, sentindo seus músculos se enrijecerem por baixo do tecido escuro. Depois de dois anos, ele estava mesmo ali.
Todo aquele tempo desde que o moreno desaparecera lhe causara tantas mágoas. Reno não parecia estar satisfeito, porém.
O motivo de suas dores não era a raiva, a solidão, ou a falta de explicações que o deixara tão perdido. A saudade era maior do que qualquer rancor.
- Diga logo o que quer – Agarrou sua camisa com mãos trêmulas.– E vá embora de vez.
- Shin, por favor, não fale assim.
- Estou... – Estremecera, escondendo o rosto em seu peito. – cansado de sentir sua falta.
Reno não se movera, sentindo o menor encharcar sua camisa com lágrimas. Não se sentia no direito de consolá-lo. Não era capaz de pedir sequer um “perdão”, não enquanto o via chorar daquela maneira... por sua culpa. O loiro podia não acreditar, mas aquilo doía para ambos.
Shin levantou o rosto, mirando-o com um brilho estranho nos olhos. Seus lábios tocaram os do moreno com certa urgência.
Aquela sensação nostálgica dominava seu corpo à textura suave da boca de Reno.
Não era uma ilusão.
-
Os orbes cor de mel se entreabriram, sonolentos, estranhando o ambiente em que acordara. Parecia ser seu quarto, tendo como única fonte de iluminação o pequeno abajur ao lado de sua cama. Estava tudo onde deveria estar, exceto pela figura masculina que se postava sentada no leito da ampla cama.
Lá estava Reno, costas desnudas levemente curvadas, com pequenas madeixas de um castanho claro descendo por seus ombros. Não conseguia ver seu rosto, mas julgava por seus movimentos que estivesse concentrado em algo. O cheiro inconfundível de tabaco preenchia o ar.
Shin tentara se levantar, mas sentia-se exausto. Deixou-se afundar entre os lençóis alvos, analisando a silhueta do moreno, que não percebera que havia acordado.
Vê-lo de lá parecia tão solitário. Mesmo que fosse a distância tão pouca se comparada à que os dividira pelos últimos anos, aquilo o desconfortava. Havia um espaço vazio com lençóis desarrumados a seu lado, onde antes Reno estava quando envolvera-o entre seus braços até que dormisse.Aquele vazio parecia se estender por dentro do loiro, sensação já conhecida. Mesmo que Reno estivesse de fato ali, era como se uma barreira o confundisse. Não era capaz de sentir sua presença mesmo quando ele lhe parecia tão alcançável.
Não obstante, Shin entendia o porquê daquilo. Entendia esse algo que atrapalhava sua relação atual com o moreno.
Reno não o dissera nada. Não fazia idéia do por que o abandonara, desaparecera por tanto tempo e muito menos por que decidira voltar tão de repente. Não sabia se era capaz de confiar, se nem sequer sentia que o conhecia.
Mas a saudade era tanta. Todo esse tempo em que se magoara tentando esquecê-lo, tentando compreender ou simplesmente ignorar e tocar para frente. Vê-lo, senti-lo novamente fora quase uma ilusão. Servira como um sedativo para aquela explosão de emoções, memórias e duvidas que naquele momento voltavam com força total.
- Reno...– Shin chamou baixo. O moreno se virou num átimo, mirando-o com aqueles orbes de um azul confuso.
Mesmo àquela luz, o loiro pudera ver os traços de lágrimas secas que desenhavam suas maçãs do rosto. Seus lábios rosados se repuxaram levemente, enquanto apagava o restante do último Seven Stars de seu maço.
- Acho que te devo explicações. – Reno disse. Seus olhos miravam o chão, pensativos. – Não espero que entenda... Eu apenas sinto que preciso tentar. Não sou capaz de me afastar de você.
- Você fala como se não o tivesse feito. Dois anos não é pouco.
- Eu sou casado. – As palavras saíram desdenhosas. Shin arregalou os olhos, surpreso. Não era algo que esperasse que o moreno lhe dissesse, de modo algum. – Ao menos era até alguns meses atrás.
O silêncio tomou conta de ambos por instantes. Shin aprumou-se, sentando na cama e revelando seu tronco, também nu. Estava arrepiado, não devido ao frio.
- Desde quando...?
- Desde antes de te conhecer. Minha família sempre foi muito conservadora, eu mal a conhecia até o dia da cerimônia. Não que fosse adiantar algo, mesmo depois de casados, vivendo sob o mesmo teto eu nunca consegui sentir algo além de amizade por ela. Freqüentemente saía sem avisar, deixando-a sozinha noites a fio. – Um sorriso tristonho adornava seu rosto, enquanto buscava em sua memória até mesmo os pequenos detalhes, entre leves pausas. — Tinha um apartamento alugado em segredo no qual passava grande parte do tempo, com o pretexto de que estava viajando a trabalho. Não que me agradasse fazer isso com ela, nem mais sei quantas vezes a magoei. Mas não era uma coisa que eu conseguisse evitar, sabe. – Suspirou.
“E aí certo dia eu te conheci. Logo percebi a diferença absurda entre o que eu vinha sendo nos meses após o casamento e como eu era com você por perto. Eu nunca fui tão feliz. Você foi a primeira pessoa que eu já amei verdadeiramente... E amo até hoje. Mas essa ‘vida dupla’ não era algo fácil de se manter... Ayacomeçou a perceber que as saídas não eram‘imprevistos’ e as noites fora não eram ‘viagens de negócios’, e ficou realmente arrasada. Isso aconteceu na mesma época em quenós começamos a discutir.”
Shinlembrava-se perfeitamente dessa época, do quanto fora frustrante todo aquele mistério sobre o então namorado, sempre sumindo e , quando presente, aparentando sempre estranhamente fechado. Aquilo o chateava tanto.
- Eu queria te contar sobre ela. Sobre tudo... minha família, minha história. Você é até hoje a única pessoa que eu queria que me conhecesse por inteiro. Nunca quis esconder nada de você, que sempre confiou tanto em mim. — Seu olhar era vago e triste. As palavras saíam com dificuldade, mas estava determinado a terminar. — Mas eu tinha medo de te magoar, de que não entendesse e que se afastasse. Eu mesmo não era capaz de me entender.
“Era aniversário de Aya, eu havia prometido a ela um jantar. Me sentia na obrigação de dar a ela algum carinho ou atenção, para aliviar minha consciência. Ela sempre fora bonita, e gentil demais. Eu não a merecia,” — Repuxara os lábios num sorriso irônico. – “assim como não te mereço.
Ela se apaixonou por mim. Ela me amava, e isso me destruía.
Eu te levei para um café no mesmo dia, e acabamos discutindo. Começou a chover muito, você havia sumido e nem se eu quisesse conseguiria ir atrás de você naquela chuva, estava furioso. Para piorar fiquei preso em um engarrafamento que durou horas na volta para casa. Quando cheguei era madrugada, e o jantar fora por água a baixo. A vi chorando na sala e me senti pior do que nunca. Me esforcei ao máximo para me redimir, acabamos indo para a cama. Na hora não me importei, só queria fazer algo certo. Mas eu nunca consegui, não importa o quanto tentasse e quantas oportunidades eu tivesse.
Pouco mais de um mês depois veio a notícia de que ela esperava um filho. Ficou tão feliz que foi fácil de fingir compartilhar essa alegria.”
Shin ouvia tudo atentamente, tentando absorver tal informação. Seus olhos miravam os cobertores, que encobriam seu corpo inteiramente nu. Sua mente trabalhava rápido demais, tinha tantas duvidas e coisas na qual queria perguntar a Reno, mas não poderia fazê-lo naquele momento. Os olhares de ambos claramente se evitavam, concentrados e suas próprias memórias e pensamentos. Tudo parecia se esclarecer, e ao mesmo tempo era tão obscuro. Era tão difícil acreditar no que o moreno dizia, mesmo que fizesse sentido. Queria agarrar-se àquilo com tudo. Queria acreditar em Reno, superar aquela mágoa. Queria sentir-se feliz por amá-lo.
- Foi então que decidi e planejei minha fuga. Era a única coisa que eu seria capaz de fazer. Propus a Aya que nos mudássemos para a Holanda, ela sempre gostou muito de lá. Fomos antes mesmo de a barriga começar a aparecer. Não fui capaz de me despedir de você, nem sequer dar-lhe alguma justificativa ou explicação. Estava apavorado e triste, mas não podia fugir ainda mais à responsabilidade. – Shin sentiu sua garganta fechar. Reno evitava com todas as forças olhar para o loiro. Sentia vergonha de si mesmo, e tal arrependimento que somente ele conhecia.
“Fui o melhor marido possível durante todos aqueles meses. Não fugi mais, nem queria. Antes me sentia melhor sozinho, mas naquela época a solidão dava vontade de me jogar num canal qualquer em Amsterdam. E eram muitos, chegava a ser tentador.
A idéia de ser pai foi estranha até o ultimo minuto antes de Miwa nascer. Me entregaram um embrulhinho rosa minúsculo nos braços, e então ela abriu os olhinhos pela primeira vez. Me senti orgulhoso, amoroso. Ela se tornou a coisa mais importante de tudo.
Sempre achei meio idiota ver pais agirem assim com relação aos filhos. ‘Você é a coisa mais valiosa na minha vida’, para mim havia coisas tão melhores na vida do que a família. Havia você...
Mas também havia Miwa. Seu nascimento me fez tão feliz. Não supria a falta que você me fazia, mas me fez crer que podia superar o arrependimento que senti ao te deixar daquela forma.
Eu nunca te esqueci. Tinha a esperança de que estivesse feliz, que houvesse me esquecido. Eu só precisaria disso.
Conforme o tempo passava e minha filha crescia, os olhos que quando nasceu eram de um azul marinho tornaram-se um castanho bem claro, cor de mel. Vivos, brilhantes como os seus.”
Um esboço de sorriso surgira no rosto do loiro. Lágrimas obstruíam sua visão, mas sentia que o olhar do moreno voltara a se direcionar a ele.
Reno o via sorrir de forma amável, mas não conseguiria retribuir. Seu olhar era vazio, seu rosto não possuía expressão diante da história que se seguia.
- Minha filha faleceu no dia 20 de Abril desse ano, vítima de uma doença cardíaca que se desenvolveu por volta de seus 7 meses . Só fomos descobrir no mês seguinte ao seu aniversário de um ano, não houve muito o que fazer. Tentamos inúmeros tratamentos, o cardiologista deu a opção de uma cirurgia, porém os riscos de ela não sobreviver eram muito grandes. – Sua respiração transformou-se em ofegos descompassados, soluços. – Me senti morrer junto a ela.
“Aya entrou em depressão, e eu não pude ajudar. Não conseguia mais sentir compaixão por ela. Acabou me expulsando de casa, dizendo que não queria mais me ver, que estava cansada. Deixei-a em Amsterdam e voltei para cá, para te encontrar. Mas não sabia o que fazer, por onde começar. Me desculpe.”
Shin deixou as lágrimas quentes escorrerem por seu rosto. Ver Reno naquele estado era agonizante. O moreno chorava, desconsolado. De impulso engatinhou sobre a cama em sua direção, aconchegando-se em seu colo, envolvendo seu tronco num abraço tímido, afundando o rosto molhado em seu peito. Sentiu as lágrimas do maior encharcarem seus cabelos, apertando o abraço.
Reno parou, estático, surpreso diante ação de Shin. O corpo pequeno do loiro se encaixavaperfeitamente no abraço, afável. Lágrimas dele escorriam por seu peito, fazendo companhia as suas próprias. Aninhara-o em seus braços, em silêncio.
- Não quero mais perder quem amo. – Disse baixo, como um pedido.
- Você nunca me perdeu, Reno. – A voz do loiro saiu rouca.
Shin levantou o rosto, com olhos marejados e a expressão séria, mirando os orbes de cor curiosa do moreno. Segurou seu rosto entre as mãos, beijando levemente sua maçã do rosto, bochecha, lábios.
- Há tempos desisti de tentar esquecer. Só piorava.
-
- Reno...Agora me veio uma dúvida. – O loiro perguntou enquanto preparava um pouco de café para si e para o moreno, que se encontrava sentado calmamente à mesinha no canto da cozinha. -Como conseguiu entrar aqui?
O maior riu baixo.– Você sempre deixa uma chave extra escondida em cima do portal, para o caso de perder a sua. Eu me lembro disso.
Shin riu baixo, deixando o sangue aflorar em suas bochechas. Por um momento esquecera de que o moreno sabia daquilo. Nunca passou por sua mente que Reno fosse lembrar-se de detalhes como aquele.
- Desculpe, por ter sido assim. Não quis assustá-lo daquele jeito, mas eu não vi outro jeito de conseguir te ver. – O moreno encarava seriamente a xícara de café fresco a sua frente. Shin trouxera a sua, sentando-se em frente ao mesmo. Sua expressão contrastava com a de Reno; era tranqüila. Um sorriso tímido adornava seu rosto de forma divertida.
- Tem razão. – Sorriu, diante do constrangimento do maior. – Eu fiquei apavorado.De repente eu não sabia o que fazer, o que sentir, como reagir diante de você. Na verdade, eu achei que fosse mentira... Até você me abraçar.
Os olhos azuis do moreno analisavam atentamente a expressão de Shin. A imagem do loiro debulhando-se em lágrimas entre seus braços lhe causava frêmitos. O menor, porém, sorria docemente, ainda que evitando seu olhar.
Reno levou a xícara aos lábios, sentindo o líquido amargo lhe queimar a garganta.
- Eu te amo. – Os orbes caramelados encararam os azuis com um brilho estranho. – Tanto que não consigo entender.
Shin levantou, debruçando-se sobre a mesa para alcançar os lábios do moreno com os seus. Reno respondera ao beijo de forma carinhosa, afagando-lhe os cabelos, acariciando-lhe o rosto. Seu toque quente sobre a pele de Shin, que encontrava-se sem camisa, a deixava levemente arrepiada.
Um movimento brusco de Shin fizera sua xícara espatifar no chão ao seu lado, espalhando todo o café intocado. O susto os interrompera, fazendo o moreno sorrir e o loiro corar.
- Eu te ajudo. – Reno levantara-se, procurando um pano para limpar a sujeira.O pequeno agachara-se, recolhendo os cacos. – Cuidado para não se cortar...
Agachara-se em frente ao loiro, limpando a extensa mancha escura sobre o piso. Sentira o menor beijar-lhe novamente, quase de surpresa. Shin empurrava Reno sutilmente, fazendo-o recostar na parede ao fundo. Pouco lhe importava a sujeira ou a possibilidade de se machucar com um mero caco de porcelana.
Sentia-se seguro entre os braços de Reno, e tão confortável que poderia adormecer ali mesmo. O apartamento ficara tão iluminado em tão poucos instantes, chegava a lhe doer os olhos.
- Está amanhecendo. – A voz de Reno era um sussurro.
Sem dizer mais nada, virou-se, puxando o loiro pelos braços a fim de que os envolvesse em seu pescoço. Shin não resistiu à força do maior, que o levantou, carregando-o em suas costas até o quarto.
Deixou-o sentado na cama já desarrumada, sentindo as mãos do pequeno puxarem-no para mais perto.
- Durma um pouco, parece estar exausto. – O loiro não respondeu, a expressão séria diante da proposta de Reno.
Então deitou-se a seu lado, aconchegando-see puxando-o gentilmente. Ainda sério o pequeno cedera, escondendo o rosto em seu peito, devido à claridade. O céu estava limpo e colorido naquela manhã.
- Tenha doces sonhos, Shin. Vou estar aqui quando acordar.
“Eu prometo.”Notas finais
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