Ás vezes, em momentos como esse, Yami lembrava porque respeitava Charlote.

Não é que fosse difícil lembrar, é só... Com tantas provocações e farpas trocadas, às vezes ele realmente se convencia que detestava a companhia da loira. Especialmente quando ela parecia um poço de arrogância e superioridade. Isso lembrava-o que ela era uma nobre e que recebera a mesma educação irritante dos outros filhos da puta esnobes que nasceram em berço de ouro.

E então ela aparecia vestida com o manto da casa Roselei, não o azul de seu esquadrão, o vermelho sangue que carrega seu nome, o vestido verde escuro com manoplas dentadas, deixando claro que recusa qualquer desconfiança. E aqueles que tiverem algo contra a sua palavra, que podem testar a sorte contra seus espinhos.

Tudo isso por um pirralho anti-magia que sequer pertencia ao seu esquadrão. Um pirralho que nem sobrenome tinha. Foi assim que ele lembrou o motivo de respeitá-la. O motivo de amá-la.

Sua presença no julgamento pode não ter sido definitiva. Contudo, deu mais tempo ao garoto. Ao menos agora a corte precisaria arranjar outra forma de acusar Asta de ser culpado por tudo. Um que não contrariasse o testemunho de Charlote, a qual negou qualquer relação do grimólio de Asta com o demônio contra o qual lutaram e ainda defendeu a relevância do garoto na vitória contra o inimigo.

Sua postura perfeita e coletada, a voz firme e imparcial, o rosto sóbrio e confiável tornavam-na uma pedra no sapato dos inquisidores.

Yami não demonstrou o mesmo entusiasmo que Asta durante a comemoração do garoto ao ter seu pescoço salvo, embora estivesse sentindo o mesmo alívio. Enquanto Noelle repreendia-o por nem ela sabe o quê, o Capitão estava observando Charlote se retirar na companhia da douradinha antes de ser abordada por Damnatio Kira, simplesmente o responsável pelo julgamento. O maldito que quer a cabeça de Asta mais que tudo.

— Mas vai ficar tudo bem, agora! – Asta protestou após apanhar de sua “realeza” – Não é, Yami-taichou? Mas, puxa! Se não fosse a moça de vermelho eu ia estar ferrado. Quem é ela mesmo?!

Yami encarou seu subordinado com os olhos mortos. Ele realmente era tão tapado assim?

— Você é um idiota mesmo! – Noelle repreendeu-o –Você não ouviu quando anunciaram o nome dela?!

— Como que eu vou saber? – Asta choramingou magoado – Anunciaram uma tal de Lady Roselei, eu não conheço nenhuma Lady Roselei.

— Charlote Roselei – Yami falou calmamente, ele tragou um cigarro sem tirar os olhos da loira — É a Capitã das Rosas Azuis. Você devia ir lá agradecer por ela livrar seu rabo. – Yami pegou Asta pela cabeça e o saiu arrastando sob protestos – Vamos lá, eu levo você.

Kira estreitou os olhos e essa foi a maior expressão que ele conseguiu demonstrar com seu rosto cansado ao ver Yami se aproximando com uma sirene de bombeiro rugindo em sua mão.

— Ei, ei, Espinhosa. O pirralho aqui quer trocar umas palavras – Yami praticamente jogou Asta na frente de Charlote.

— Obrigada pela ajuda, Lady Roselei! – Asta disse o mais formal que pôde com uma reverência.

Charlote franziu o nariz levemente ao ouvir seu título. Ela só o tinha porque seus pais o tinham, não dizia muito de si. Ela preferia ser chamada de Capitã, pois ter sua força reconhecida valia mais que apenas o fato de ter nascido.

— Apenas disse a verdade. Não tem porque agradecer.

— Estávamos discutindo justamente o fato de Lady Roselei ter surgido como testemunha tão em cima da hora – Kira comentou com desprezo – Até ontem pensávamos que estaria inconsciente.

— Como eu estava dizendo – Charlote contrariou – Já havia acordado há algum tempo, apenas preferi me recuperar antes de anunciar minha melhora.

— E eu assumo que o Capitão do Réu já sabia de sua recuperação – Kira insistiu – Afinal, foi ele quem mencionou seu nome ainda ontem na corte.

— Não tinha ideia – Yami respondeu soltando a fumaça do cigarro – Eu e a Rainha dos Espinhos aqui não somos melhores amigos. Eu só fui bater no esquadrão dela ontem e descobri que ela estava enganando todo mundo com essa história de bela adormecida.

O Capitão dos Touros Negros não demorou a ver as intenções de Kira. Ele precisava enfraquecer o testemunho de Charlote. E o que melhor para tirar a credibilidade de uma testemunha tão sólida que associá-la ao Réu ou seus companheiros? Além do mais, se soubessem que Charlote acordou menos de três horas antes do julgamento, poderiam questionar suas faculdades mentais, alegando confusão.

Felizmente a postura de Charlote exalava confiança e firmeza. Contudo, a leitura de seu ki indicou a Yami que as manoplas estavam ali mais para impedi-la de tremer que para assustar.

— Se não se importa, alteza, eu preciso voltar ao meu esquadrão – Charlote interpôs – Esses dias tem me acumulado muito trabalho. E, como sabe, ainda tenho que conversar com minhas subordinadas. Embora elas saibam a verdade, ainda quero me desculpar com todas por não ter sido forte o suficiente para dominar a possessão.

— Mas nee-s... – A voz revoltada de Sol foi interrompida com um único erguer de mão de Charlote.

A única condição sob a Capitã permitiu que Sol a seguisse no julgamento foi a de que a garota não deveria dizer sequer uma palavra, em nenhum momento, nem mesmo para cumprimentar alguém. E a garota estava cumprindo a promessa com maestria até agora.

Sol estava se coçando para perguntar os motivos de tantas mentiras e precisou controlar a língua com todas elas. Agora, sua nee-san, sua capitã, sua heroína, dizendo que não foi forte o suficiente era demais para não exigir um protesto.

Com um simples chamado, Charlote começou a caminhar com sua subordinada atrás de si. Yami e Asta também caminharam em direção ao corredor que levava à saída, deixando Damnatio Kira sozinho, avaliando a situação.

O Capitão dos Touros Negros convocou seu esquadrão e saiu da sala de julgamento. Tomando cuidado para se manter discreto, ele aproximou-se da Rosa Azul.

— Espere no corredor. Sozinha – Yami pediu monotonamente em voz baixa – É importante.

Charlote tentou engolir o gemido baixo de frustração que escapou dos seus lábios. Manter a compostura estava ficando cada vez mais difícil, ela precisava muito descansar. Ainda por cima ela teria que estar sozinha, o que significava se livrar de Sol.

Com um pouco de dificuldade na última tarefa, a Capitã recostou-se em uma das enormes colunas do palácio e esperou meio escondida até Yami aparecer novamente no corredor. Parece que ele também se irritou com o trabalho de manter seu esquadrão longe.

— O que há, Yami? – Charlote foi direto ao ponto, embora seu tom ríspido não estivesse presente.

— Hey, primeiro, obrigado – O Touro Negro agradeceu fitando-a com os olhos mais calmos – Mas agora precisamos conversar sobre como vamos manter as coisas. Aquele desgraçado não vai deixar o pirralho se livrar tão fácil.

— Além dos magos de cura, tem poucos que sabem exatamente o tempo em que estive desacordada – Charlote interrompeu cansada – Vou falar com todos, não se preocupe.

— Desculpe de novo – Yami esfregou a mão na nuca meio sem jeito – Mas se não fizermos isso...

— Eles podem refutar meu testemunho, eu sei – Charlote completou novamente o interrompendo.

Não era de seu feitio ser impaciente. Na verdade, ela até poderia aproveitar a companhia de Yami, ela só estava muito exausta para existir no momento.

— Ei, como você está? – O moreno perguntou dando um passo à frente devagar, tentando disfarçar a preocupação.

— Bem, muito bem – Ela mentiu sem sequer oscilar.

Yami tragou o cigarro encarando-a com os olhos mortos. Então, soltando a fumaça, ele insistiu.

— Ok, é o seguinte: eu consigo sentir seu ki e eu sei que a última coisa que você está é bem. Então vamos tentar de novo. Sendo honesta desta vez. Como se sente, Charlote?

A Rosa Azul suspirou e moveu um pouco o pescoço, relaxando o ombro.

— Prestes a desabar a qualquer segundo – Ela confessou fechando os olhos e inalando profundamente.

— Eu devia me preparar para apanhar você?

A loira não respondeu, apenas corou um pouco e desviou um pouco o rosto. Ela queria dizer sim, queria pedir para apoiar o rosto nele como fizera naquela manhã (realmente aconteceu? Era um pensamento tão nebuloso que despertava dúvidas), queria passar os braços envolta dele. Contudo Charlote sabia que seu cérebro estava preparado para dar uma resposta orgulhosamente insolente e, como ela estava realmente tentando ser sincera nesse momento, preferiu optar pelo silêncio.

— Eu preciso ir – ela disse forçando-se a recuperar a compostura – Preciso chegar na base a tempo de avisar todos antes de Kira interrogá-los.

— Eu posso ir e falar com os magos de cura, para agilizar – Yami ofereceu – Não digo para falar com as suas subordinadas porque, se todas forem como a douradinha, Asta vai ter o pescoço cortado por elas mesmas. – Ele resmungou.

— Minhas meninas não são injustas — Charlote contrariou empertigando-se. Não importa se ela é apaixonada por ele, homem nenhum fala mal do seu esquadrão – Se elas sabem que o garoto não tem culpa, não vão negar sua ajuda.

— Eu sei eu sei – O Touro Negro grunhiu percebendo que acertou um nervo – Não precisa se ofender. Só estou querendo tirar o trabalho das suas costas, Espinhosa.

— E eu não preciso disso. Além do mais, eu preciso reunir com o meu esquadrão de qualquer forma – A loira meneou um tanto irritada – Estava falando a verdade quando disse a Kira que precisava contar a elas sobre o que aconteceu.

— Tem certeza? – O Capitão perguntou preocupado.

— Eu ataquei meu esquadrão, Yami. Elas precisam saber que não tive escolha, que não fui eu. Precisam saber que podem contar comigo.

— Eu sei, mas – ele aproximou-se ainda mais, eliminando o famigerado espaço pessoal – Não acha que foi esforço demais essas duas horas de julgamento? Não dá para adiar essa reunião mais um dia?

— E-eu... – Charlote limpou a garganta, corando com a proximidade, porém não se afastando – Eu preciso mostrar que estou bem e que ainda podem confiar em mim.

— Meio difícil se você apagar no meio do seu discurso – Yami rolou os olhos.

— Eu não me intrometo no seu esquadrão, então pare de se intrometer no meu – Charlote bufou franzindo a testa.

— Tá, tá, tá – Yami suspirou – Só não exagera ok? – Ele pediu tocando-a no rosto com a costa dos dedos.

Charlote acendeu como um farol de emergência e arregalou os olhos um pouco surpresa com o toque. Yami, percebendo o que fez, recolheu sua mão, disfarçando o gesto ao leva-la à boca tragando o cigarro, e recuou um passo.

— Mais cedo não conseguia nem ficar em pé direito e agora está andando com esse monte de metal aí – Ele gesticulou para o peitoral e as manoplas que Charlote usava – Você acabou de acordar depois de três dias apagada, ninguém vai julgar se você precisar de mais algum tempo descansando.

— Se não o conhecesse, Forasteiro, diria que está preocupado – A Capitã debochou com um ar esnobe.

— Porra, e eu estou – Ele afirmou como se fosse óbvio – Qualquer coisa que consiga derrubar a Rainha dos Espinhos devia ser motivo de preocupação.

E ele não estava mentindo. Ele só sentiu que Charlote corria perigo eminente quatro vezes em todos esses anos de convivência. Duas em batalha, uma no dia em que a maldição foi quebrada e na noite anterior, depois de tanto tempo desacordada. Fora isso, ele sempre confiou plenamente nas habilidades de batalha da loira pra se preocupar com sua vida.

— Nesse caso, vou mandar um sinal de vida para sua base ao final do dia – A Rosa Azul brincou com sarcasmo.

— Eu vou ficar esperando. Não marque com o selo dos cavaleiros mágicos, não tenho paciência de ler todos eles então Finral é quem os abre e responde no meu lugar.

Charlote piscou, ela não estava falando sério. E agora também não sabia se Yami estava falando sério. Afinal, ele apenas caminhou para fora da construção com a maior naturalidade.

Antes que a Capitã pudesse manifestar qualquer protesto, a voz de Sol a fez lembrar que a garota ainda a estava esperando – e agora a procurando – para voltarem para casa.