Playing with my son
1 O monstro encima da cama -Capítulo Único
Eu o coloco na cama e ele me fala “Papai, veja se tem monstros embaixo da cama”. Eu olho para seu entretenimento e o vejo, outro dele embaixo da cama, me encarando e sussurrando “Papai, tem alguém na minha cama”.
Olho novamente para ele na cama, que me observa meio assustado, esperando o aval da vistoria. “Não há nada”, eu lhe digo e beijo sua testa, com mais medo do que afeto “Bons sonhos” Antes de me levantar, dou uma última olhada, constatando que não havia mais nada embaixo da cama.
Pode me chamar de louco, esquizofrênico, paranóico ou o que quiser, mas a verdade é que eu não duvidaria de você, embora eu não acredite que os personagens da cabeça de um louco possam matar alguém.
Desço as escadas automaticamente e me encaminho para a cozinha, acendendo todas as luzes dos cômodos em que passo, por medo do escuro. Se você estivesse no meu lugar agora não acharia tão infantil assim. Tiro a gaveta dos talheres e a esvazio sobre o balcão; procuro pela abertura de seu fundo falso e o removo, vendo uma pistola e duas caixinhas de munição. Pego a arma e sento-me num dos bancos do balcão e começo a girá-la entre os dedos. Parecia dançar num ritmo frenético.
Eu havia começado a notar que tinha algo estranho quando cheguei em casa três dias atrás e vi a parede da sala de estar repleta de desenhos infantis em tinta vermelha. Subi direto para o quarto do meu filho preparando-lhe um belo sermão, afinal, um garoto de oito anos rabiscar as paredes era inaceitável. Mas quando cheguei ao quarto, o vi ajoelhado ao pé da parede, com uma caneca na mão. Ele molhava o dedo no conteúdo da caneca e continuava seu desenho na parede.
“O professor me disse hoje que a arte é a mais bonita forma de expressão”, ele dissera calmamente, enquanto meus olhos não desgrudavam do corpo do nosso poodle, imerso numa poça de sangue no carpete, enquanto a cabeça do pobre bicho jazia no travesseiro do garoto.
Um tempo depois, quando encontrei minha esposa, ela estava encolhida no chão balançando para frente e para trás feito louca – não a culpo por isso -, murmurando “Esse não é meu filho... Esse não é meu filho”
Agora são exatamente onze horas. O tique taque do relógio parece estar amplificado, e soa nos meus ouvidos como uma bomba-relógio prestes a explodir. O que não é totalmente mentira visto o que vou ter que fazer. As gotas d’água caindo na pia se unem ao coro, assim como os galhos de uma árvore batendo na janela. Formavam uma agourenta sinfonia, com se predissessem a minha morte.
Levanto-me e pego uma garrafa de uísque no armário. Sei que lúcido não consigo fazer isso. Antes de virar a garrafa na boca, olho para a arma e reconsidero minhas possibilidades. Eu poderia acabar com esse sofrimento, ou tentar acabar com o causador dele. Talvez aquilo saísse e matasse mais gente, mas eu não poderia fazer nada. Com certeza é a melhor opção. Bebo um gole generoso e o líquido desce rasgando minha garganta, como se relutasse em descer.
Apóio no balcão para aliviar a tontura. Com a garrafa na mão, vou até outro armário e vasculho até achar algo que escondi ali há dez anos: Meu maço de cigarros. Minha barriga ronca.
Você deve estar se perguntando onde está minha esposa agora. Depois do episódio do cachorro, consegui acalmá-la e fomos conversar com o garoto, perguntar por que ele havia feito isso, mas ele só dizia inocentemente que queria brincar conosco, ou uma coisa muito ruim iria acontecer.
“Mas, que coisa? Você vai para um psiquiatra garoto, e se reclamar, fica um mês de castigo!” Eu me alterei depois de muito discutir. “Nós mandamos aqui! Agora me conte por que fez aquilo?”
“EU MANDO AQUI! AGORA BRINQUEM COMIGO OU ISSO ACONTECE” Então ele apontou pela janela e vimos nosso vizinho regando seu jardim, e ele acenou para nós. O garoto fez um movimento com a mão e a cabeça do homem girou 180 graus e ele caiu na grama. Eu apavorado e minha esposa soluçante brincamos com aquilo durante horas. Sim aquilo. Já não era mais meu filho. O monstro debaixo da cama, qual ele temera por anos, agora dormia calmamente encima dela. Toda vez que sugeríamos que parássemos, ele dizia não numa voz assustadora. Fora esses momentos, ele falava e agia como se fosse um garoto normal, rindo, brincando de carrinho e videogames.
Então minha mulher não agüentou mais. Levantou de surpresa e correu desabalada para a porta da frente. Olhei para o garoto, que fazia cara de curioso, e fui atrás dela. Quando cheguei lá ela estava para e na frente da porta estava meu filho.
“DEIXA-ME SAIR!” Ela gritava. Então ele fez um movimento com as mãos e ela caiu, com os pulsos sangrando. Corri até ela e derramei mais lágrimas do que eu julgara ser capaz de derramar por alguém. Gritei com ele e ele se encolheu e fez cara de choro, assustado. Por um momento achei que meu filho havia voltado até ele dizer docemente: “Eu quero um bolo de chocolate. Ou o próximo será o vovô.”.
Acendo um cigarro e dou umas tragadas, é a primeira vez em anos que o faço, eu até havia esquecido qual era a sensação. Vou morrer mesmo, não importa o estado do meu pulmão. Ponho o isqueiro no bolso e vou para a sala, me jogo no sofá e bebo outra dose de uísque, como sempre, fica um pouco melhor do segundo gole em diante. Continuo olhando para a arma, será mesmo que aquilo era real? Olhei para a porta e lembrei-me de meu pai. Normalmente ele ficava sozinho em seu quarto, só saía para tomar um ar fresco de vez em quando, mas no dia da morte de minha esposa, ele ouviu meus gritos e desceu, observando a cena sem entender nada. Tentei explicá-lo melhor do que pude o que havia acontecido, mas ele estava alterado, querendo fugir a todo custo. Dei-lhe uns calmantes um tanto fortes demais e ele desabou no sofá.
O garoto observou isso rindo. Não um sorriso maquiavélico ou malicioso. Mas um sorriso sincero de uma criança que se divertia. É isso que mais me assusta naquela coisa: sua naturalidade. Ele me pressionava para fazer o bolo, e eu cedi por medo de meu pai morrer. Uma hora e pouco depois tirei o bolo do forno. O fato de eu trabalhar como chefe de um restaurante ajudou.
“Papai, você pode colocar num prato para mim?”
“Está fumegando” respondi.
“Mas eu quero agora.”
E a partir desse momento eu entrei em seu jogo, fazendo tudo que ele queria. Servi uma generosa porção de bolo fumegante e o observei espantado, comer aquilo ignorando o fato de que, pelas leis naturais sua boca deveria estar muito queimada. Mas o que são leis naturais quando de repente seu filho único vira um monstro? Então durante quase toda a noite ele me obrigou a brincar, ler histórias e mais histórias, fazer doces e sobremesas, tudo sob ameaças de perder meu pai. Eu fazia tudo. Então no dia seguinte a criatura adormeceu e pude colocar meu plano em prática.
Peguei as chaves do carro, acordei meu pai e fomos silenciosamente para a porta, mas ela estava trancada e não encontrávamos a chave em nenhum lugar. E meu maior erro foi deixá-lo sozinho enquanto ia buscar um pé de cabra no porão. Quando voltei, ele estava pendendo do ventilador de teto, com uma corda no pescoço. E o garoto o observava, com cara de tristeza.
“Acho que ele não agüenta tortura psicológica como você” Ele disse.
Desde então ele tem feito gato e sapato de mim, prefiro não contar tudo, para seu próprio bem. Por mais que eu implorasse para que me matasse logo, ele somente dizia que queria brincar, rindo como uma criança normal. Bebo quase metade da garrafa e já estou no terceiro cigarro. Jogo-o no carpete e deixo a garrafa no pé do sofá.
Engatilho a arma.
Sei que é o fim.
Talvez eu até veja minha amada aonde quer eu vá.
Talvez eu veja meu pai.
Aponto a pistola para minha cabeça.
Puxo o gatilho.
Um clique vazio escapa da arma. Ótimo momento para falhar, penso.
“O que você está fazendo, papai?”
Viro-me e vejo o garoto na entrada da sala, com seu ursinho a tiracolo
“Não me chame de pai, seu filho da puta” Aponto a arma para ele e atiro três vezes. Dois tiros funcionaram, mas apenas um o acertou, bem no peito. Ele nem sequer vacilou.
“Ah, papai! Você não sabe jogar.”
Tudo fica escuro. Aperto os olhos a abro novamente, estou na entrada da sala de estar, chegando do trabalho. As paredes estão pintadas de vermelho. Subo correndo as escadas para o quarto do meu filho. Antes que eu abra a porta, o vejo correr e me abraçar.
“Que bom que você está aqui, papai. Como eu sou bonzinho, vou deixar você recomeçar o jogo, ok? Boa sorte dessa vez”
Como eu quero estar louco.
Não é o fim.
Quem dera fosse.
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