Bella’s POV


Liguei o chuveiro e soltei um suspiro de alívio quando a água gelada bateu na minha cabeça e escorreu pelo meu rosto. Pouco a pouco, senti a tensão se diluir e descer pelo ralo — mas não completamente. Nunca completamente.


A voz do Sr. Schimmer, do RH, repetia aquelas palavras em looping na minha mente:


“É apenas um corte que a empresa precisa fazer, Srta. Swan.” Ele estava visivelmente nervoso. E suado. “Você é uma moça empenhada, irá encontrar outras oportunidades. Estou certo disso.”


Mentiroso.


Eu não sou empenhada. Sou, no máximo, mediana — e estou ciente disso. E sei que vai ser duro encontrar qualquer coisa tão boa quanto a vaga de barista na Bulldog News.


Quando terminei o banho, desliguei o chuveiro e tateei em busca da toalha. A escuridão, causada pela falta de luz, não me impediu de encontrá-la, mas me fez vacilar quando fui sair da banheira e tropecei na dobra do tapete.


Levantei-me com dificuldade, apoiando-me na privada feito uma idosa após uma queda, sem forças sequer para xingar e colocar a raiva para fora. Eu estava cansada. Cansada dos perrengues, de todo mês atrasar o aluguel, de já ter sido despejada de dois lugares, de estar na terceira demissão em menos de dois meses, de meu diploma não garantir porra nenhuma e de nada funcionar pra mim.


Não xinguei, não praguejei nem amaldiçoei o universo por minha situação medíocre estar se repetindo há mais tempo do que o esperado. Mas jurei a mim mesma que daria a volta por cima.


Mesmo que custasse a minha — quase — inexistente dignidade.



Edward’s POV


Quando as enormes mãos do homenzarrão agarraram meu colarinho, vi minha vida inteira passar diante dos meus olhos.


— Ainda sem a chave de acesso, Midnight?


— Estou no processo! — minha voz saiu entrecortada pela falta de ar. Eu mal conseguia piscar enquanto aqueles olhinhos azuis me fitavam de tão perto. — Eu disse que precisava de um pouco mais de tempo! Aqueles códigos são difíceis de quebrar e…


— Estamos fartos das suas desculpas!


Conhecido como Zhirkov, ele faz parte da máfia russa de Seattle — mas não é o cabeça. Eu diria que é uma espécie de cachorro bem adestrado. E, infelizmente, no momento, sou eu quem está envolvido com o pessoal dele.


Ser um bom hacker até me rende oportunidades valiosas, mas muitas delas — especialmente as que envolvem grana alta — acabam colocando minha cabeça em risco. Mas não se engane, eu não sou medroso ou frágil. Poderia facilmente derrubá-lo usando seu peso e tamanho contra ele mesmo. No entanto, com a máfia é melhor parecer fraco.


— Eu só preciso de mais dois dias! — arrisquei, sentindo o suor do nervosismo brotar na testa. — Dois dias, Zhirkov! E vocês terão acesso às contas bancárias dos Zhao!


Os olhos azuis do russo me analisaram, à procura de incertezas na minha voz ou nas minhas expressões. Ele levou algum tempo para concluir, mas, quando o fez, largou a gola da minha camisa, pouco se importando por ter me derrubado no chão — na verdade, pareceu se divertir com isso.


— Mais uma chance. Você tem quarenta e oito horas a partir de agora.


Zhirkov conferiu o relógio de bolso que tirou do colete e me encarou com frieza por um segundo antes de se virar e sair do beco mal iluminado.


Ajeitei os óculos no rosto e me levantei devagar, apanhando a mochila que o infeliz fez questão de atirar para longe. Por sorte, meu equipamento não havia sofrido danos. Enquanto me preparava para sair do beco, meu celular vibrou.


A mensagem de Emmett dizia:


Fala, mané! É o seguinte: consigo te colocar lá dentro, mas vc precisa arrumar uma mina gostosa e firmeza pra ser sua esposa. De preferência uma q seja fácil de manipular hehe o prêmio é aquele: 100 mil em dinheiro + o imóvel onde vcs vão ficar. Me encontra amanhã às 14h, no Bulldog News!!


— Será essa a luz no fim do túnel, afinal? — murmurei, digitando agilmente uma confirmação do encontro. — Espero que não seja um trem.


[...]


Subi as escadas do prédio sem ânimo. Cada passo era um sacrifício que rangia sob meus pés. Antes mesmo de chegar ao corredor do terceiro andar, já podia ouvir os gritos da proprietária, a Sra. Wu. Ela socava a porta do 304 e dizia, em uma voz mais controlada do que realmente aparentava estar:


— Quarenta e oito horas, Srta. Swan! Ou paga, ou eu chamo a polícia!


Parei diante do número 302 — o meu apartamento — e enrolei um pouco para encontrar a chave certa no molho, observando discretamente a senhora de um metro e meio passar ao meu lado resmungando em chinês.


— Olá, Sra. Wu. É sempre bom vê-la!


Dei um sorriso simpático e falso. Sempre funciona.


— Boa noite, Sr. Carson! Ao menos o senhor paga o aluguel em dia e é simpático. Quando me trará aqueles biscoitos novamente, hm?


— Amanhã, Sra. Wu — acenei para ela. — Tenha uma boa noite!


Ela desceu as escadas sem pressa, apoiando-se no corrimão para checar a limpeza, e desapareceu de vista. Só então a porta do 304 se abriu minimamente, mas sequer era possível enxergar o interior do apartamento — estava tudo um breu.


— Sem luz de novo, Swan? — segurei um riso frouxo enquanto destrancava a minha porta. — É difícil ver a Sra. Wu tão brava.


— Aquela mulher me odeia.


A jovem de vinte e poucos anos saiu vestindo uma camisola do avesso. Tossi e desviei o olhar quando percebi que o tecido era um pouco transparente demais. Isso automaticamente me fez lembrar das palavras de Emmett: “você precisa arrumar uma mina gostosa e firmeza pra ser sua esposa.”


— Droga.


Ouvi-a xingar e, em seguida, a porta bater.


— Eu tenho velas, se precisar! — disse em voz alta antes de entrar no meu apartamento.



Bella’s POV


Bati a porta com tanta força que o som ecoou pelo corredor. Minhas mãos automaticamente apertaram o tecido da camisola que selecionei no escuro, sem saber ao certo o que estava vestindo, e senti o rosto inteiro queimar, ruborizado.


A voz do rapaz falando sobre as velas me fez suspirar em um misto de vergonha e tristeza. Odeio estar em uma posição em que preciso solicitar a ajuda de desconhecidos. Só não odeio mais do que meu estado miserável atual.


[…]


Sentada no sofá da sala do esquisitão do 302, aceitei a xícara de café recém-passado. Ele me deu um pacote de velas e me deixou usar as tomadas para carregar o celular e o notebook. Muito mais simpático do que eu esperava. E eu já não estava mais usando a camisola comprometedora.


— Seu apartamento é…


— Careta?


— Não. Organizado.


A planta era igual à do apartamento que eu ocupava, mas a disposição dos móveis dava outro aspecto — bem pensada e prática. Não havia muita decoração além de livros e discos, mas os móveis eram bem escolhidos — seminovos, notei — e tudo ornava muito bem. Era minimalista em uma proporção agradável e aconchegante.


— Desculpe, qual é seu nome mesmo?


— Pode me chamar de Eddie. E você é a Srta. Swan.


Dei uma risada sarcástica e balancei a cabeça.


— Parece que eu sou.


— Faz pouco tempo que você se mudou, não?


Ele sentou-se na poltrona adiante com uma caneca de café nas mãos. Observei sua postura descontraída, mas algo indicava que estava pouco à vontade. Talvez a forma como seus dedos tamborilavam na porcelana. Seu colarinho estava mais amarrotado que o restante da roupa, como se tivesse sido puxado pelo pescoço.


Mas ele era bonito. Bem bonito.


— Hã, o que disse?


Eddie sorriu. Um sorriso tão bonito quanto o restante do pacote, mas os óculos ocultavam o que eu mais queria ver: seus olhos.


— Perguntei há quanto tempo você se mudou para o 304.


— Dois meses — respondi, dando um gole no café. — Mas eu sou reservada, e é provavelmente por isso que você me viu tão poucas vezes, Eddie.


Outro sorriso. Dessa vez, mais faceiro.


— Bom — ele começou, tirando os óculos — eu sempre vejo a caixa de correios do 304 cheia de contas. Imaginei que estivesse ocupada trabalhando para pagá-las.


Arqueei uma sobrancelha, sentindo-me levemente ofendida.


— Certo. Eu agradeço pelas velas, já vou indo.


Deixei a caneca sobre a mesa de centro e me levantei.


Ele fez o mesmo, percebendo tarde demais o peso de suas palavras.


— Espera, eu…


— Obrigada pelo café. Boa noite.


Atravessei o corredor em passos rápidos e tranquei a porta ao entrar no meu apartamento. Eu estava com raiva. Quem aquele mauricinho pensa que é para comentar sobre minhas dívidas?



Edward’s POV


Droga.


Bati a cabeça na parede, murmurando coisas desconexas sobre o quanto fui estúpido por começar o assunto usando a quantidade de contas na caixa de correios dela.


Peguei o celular no bolso e digitei uma mensagem para Emmett:


Encontrei a mina perfeita, mas não sei como abordar o assunto.


Ele respondeu no minuto seguinte:


Chama ela pra tomar um café amanhã de manhã.


Observei as palavras na tela do celular e ponderei por um momento. Emmett tinha razão: um encontro tornaria a situação menos estranha. Foi mancada chamá-la para meu apartamento depois de vê-la de camisola e ainda ser indelicado ao tocar no assunto das dívidas cedo demais.


Suspirei pesadamente, abri a porta e atravessei o corredor. Dei três batidas na porta do 304 e, como esperado, não houve resposta.


— Sinto muito pela indelicadeza, Srta. Swan. Gostaria de convidá-la para um café amanhã pela manhã.


Silêncio. Mesmo assim, insisti.


— Estarei te esperando na escada às nove.


Encostei a testa na porta.


— Boa noite, Srta. Swan.


Ouvi a respiração pesada do outro lado, e isso me fez sorrir, satisfeito.


Notas finais
Adoraria ler seu comentário! :)