Playing God

1 Playing God — capítulo único


Considerar a imortalidade no tempo em que nascera era algo estapafúrdio. Vidas não vingavam por muitos anos, crianças morriam por tão pouco, enquanto pessoas de idade eram abandonadas a própria sorte. A própria vida naquele tempo era algo descartável.

A mera ideia de se viver era questionável.

E aquela não era uma realidade que o apetecia. Ele não queria ter de vir a este mundo mais uma vez, só para ter a sua mera estadia arrancada de si por algo tão pequeno como uma doença, uma má formação ou a condição de sua família. Nada disso fazia sentido quando ao final da equação ele terminava sem um corpo.

A vida que não fosse eterna, que não fosse em terra, não o interessava. Era um desperdício pensar em não aproveitar tudo o que ele tinha, tudo o que poderia oferecer — tudo o que poderia ser.

Desde que viera a esse mundo, sua vontade de existir se sobrepunha a qualquer outra coisa. Qualquer outra coisa. Ele deveria ser eterno. Ele já não tinha uma missão a ser cumprida, um débito a ser quitado, algo a ser aprendido em vida. Tudo o que ele queria era prevalecer acima de tudo.

E sua vontade fora atendida.

Uma força que ele desconhecia fora aberta, como um terceiro olho. Algo vil e negro escutara atentamente seu desejo, o anseio mais profundo de seu ser, e fora generoso o suficiente para lhe oferecer uma solução para seu dilema.

Seu coração não era mais puro. No breve ato de seu nascimento fora quando ele tomara essa decisão, seu corpo morrera para que algo novo tomasse conta, algo que lhe tirava toda a humanidade. Ele já nascera corrompido em sua nova vida, a última que ele teria. Ali nascera Muzan Kibutsuji, o primeiro e último rei dos demônios.

Sua ambição era visceral, sua vontade, inabalável e sua força insuperável. Ninguém poderia colocá-lo abaixo e finalmente, ele seria eterno. Finalmente. Seu corpo sobreviveria a qualquer inconveniência terrena e nada lhe tiraria a vida, nada. Exceto por um fator.

O custo de seu desejo.

Sua forma, por mais bela e poderosa que fosse, não suportava a vida diurna. Fora um grande inconveniente descobrir isso, quando o mero raio solar queimava sua pele suave e alva, a transformando em cinzas no menor dos relances.

Assim ele escolhera a noite e fizera seu nome sobre ela. Enquanto tivesse o luar sobre si e o vento frio guiando seu caminho ele estaria bem. Seu corpo era magnífico, parecia entender completamente do que ele precisava e quando precisava por isso, quando a amargura de não ser completo o tomava ele procurava por uma solução, e ela viera tão rápida quanto uma chuva de verão.

Suas células eram poderosas, carregavam em si algo que o corpo humano nunca seria capaz de sustentar — sequer absorver — se não fosse por aqueles que aguentassem a transformação. De abandonar a vida humana para se tornar um demônio. Era fantástico como acontecia, seu próprio ser vibrava por completo quando uma criação vingava e, automaticamente tudo dentro daquele corpo o pertencia. Da audição ao tato, era como se ele ganhasse novos membros mesmo estes não sendo parte de seu corpo. Assim ele fez luas, maiores e menores, vidas tristes que haviam perdido seu sentido e estavam a um pé de cederem a insanidade. Elas seriam o suficiente para que seu poder aumentasse, e ele colhesse as informações que lhe eram tão necessárias. Ele finalmente teria tudo aquilo que mais desejou, havia uma flor capaz de lhe fazer completo, capaz de deixá-lo invencível até mesmo perante ao grande e poderoso sol, mas encontrá-la era quase impossível. Mesmo com pesquisas e luas por toda uma região ao seu lado.

E depois de séculos ele estava ficando impaciente.

Suas luas menores eram fracas, não resistiam as pessoas que caçavam a espécie que ele criara. Pois o preço de ser um demônio era devorar vidas humanas, e ele sentia em seu sangue, cada mísera vida sendo arrancada de si. Ele era tão grande, cobria cidades, seu desejo estava mais do que atendido, ele era único.

A cada nova transformação, mais informações ele conseguia. Muzan via e ouvia, através dos olhos e ouvidos daqueles que transformava. O sol estava logo ali.

Conquistando o sol, ele seria indestrutível.

A terra tremeria a seus pés.

Se não fosse por aquela mulher nojenta.

A primeira, aquela que viera antes das luas, antes de sua grande dominação em massa. Aquela maldita médica que ele persuadira em sua teia.

Tamayo.

Fora ela a primeira que aguentara a dor de perder a vida em troca da eternidade, a única que fora capaz de viver para sentir o que era se transformar em um demônio — por mais que ali, ele a houvesse convencido de que isso ajudaria a curar sua família — aguentara a dor de perder aqueles que mais amava e estivera ao seu lado, por um longo tempo.

Até não estar mais.

Ela, com suas presas e garras alongadas, pegara seus dois indicadores os torcendo, quebrando seus ossos, até que eles apontassem para ele mesmo.

Seu corpo não se regenerava como era a norma, algo lhe drenava força enquanto suas células corriam feito loucas atrás de uma reversão. Nada dava resultado.

Um sorriso grotesco estava em seu rosto.

Sua pele enrugava na mesma velocidade em que voltava a ser vistosa e jovem.

Ela nunca sorrira assim perto dele.

Aquele corpo não aguentaria até que ele superasse o sol.

— Chegou a sua hora. Pague por seus pecados, Muzan Kibutsuji!

Notas finais
Eu não gosto do Muzan, mas ele é interessante e, era o único personagem que se encaixava bem na letra de Playing God, do Paramore.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!