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23 Capítulo 22
Notas iniciais
Ally
As coisas estavam indo bem, mesmo com os dois seguranças que se mostravam sempre por perto ainda que discretamente. Eram exigências do meu pai e de Austin, tudo por causa do Erick. Eu não esperava que ele fosse aparecer aquela noite, já fazia algum tempo desde que eu havia me livrado dele e do inferno que era a minha vida. E agora eu paro pra pensar e vejo o quanto tudo mudou, amanhã será o primeiro dia de Austin na empresa de meu pai.. e nossa! tenho que admitir que isso está me deixando mais feliz do que eu deveria. Minha vida há muito não era normal, boa ou se quer tranquila, mas depois que me entendi com Austin tudo melhorou. Eu sei que não posso colocar minha mão no fogo nesse relacionamento que criamos tão de repente, mas a noite em que passei com ele me consumiu por inteira, levou meus pensamentos e tudo que eu tenho. Não posso negar que nunca havia me sentido assim antes por ninguém.
É errado, quem sabe, sentir todo esse turbilhão de sensações depois de tudo o que eu passei, mas tem algo naquele loiro, algo que me ganha por completo. Não existem mais barreiras, eu só quero viver.
– Ally? – a voz de Cassy adentrou meus ouvidos. A olhei desatenta, ainda perdida em pensamentos.
– Não me diga que está pensando naquele.. prefiro não dizer o nome. Me dá nojo só de sentir as palavras chegando na minha boca. – disse fazendo uma careta, eu sorri tranquila.
– Não, na verdade... estava pensando no Austin. – confessei um pouco vermelha.
O final de semana havia passado, estávamos em plena segunda na primeira aula do dia, mas logo que Austin saiu de minha casa após o café da manhã com meu pai eu liguei para Cassy e contei tudo que havia acontecido, ela ficou um pouco em choque depois de me ouvir dizer que Erick havia aparecido em meu quarto. Conversamos um pouco e ela se ofereceu para dormir comigo, mas eu havia recusado... queria sentir o cheiro de Austin nos lençóis, eu sei que parece meio bobo, mas eu precisava disso, precisava relembrar a forma como ele havia me amado mesmo depois de eu confessar toda a minha história com Erick. Eu ainda não havia contado sobre minha noite com o loiro, nem sobre o fato de ele ter dito que me amava ou eu a ele.
– Graças a deus. – ela suspirou aliviada, um sorriso brotando em seus lábios.
– Ele foi tão protetor, me senti segura, sabe? Eu nunca havia me sentido assim.
– Eu fico tão feliz amiga, você não sabe o quanto me sinto bem em ouvir isso de você. Chega daquela fase escura.. eu sempre te disse que Austin era bom, você devia ter acreditado em mim. – me disse convencida, eu soltei um riso.
– Até parece Cass, você estava louca por ele... se eu tivesse acreditado naquela época teríamos brigado. – ela riu também.
– Na verdade até brigamos, mas por motivos opostos. – me lembrou.
– Verdade, mas chega disso.. água passadas não movem montanhas. Me conta do Dez, descobriu algo sobre a garota que estava com ele? – perguntei lembrando-me da tal menina. Notei minha melhor amiga fazer uma careta.
– Na verdade não, mas o ruivinho quer conversar comigo depois das aulas.. e eu sinceramente não estou com bom pressentimento. Se ele terminar o que mal temos vou pirar, parece que nenhum cara dá certo pra mim.
– Mas fique ciente de que se for mesmo isso quem sai perdendo é ele, não são os caras que não dão certo pra você.. simplesmente ainda não nasceu aquele preparado para ter alguém tão perfeita quanto você amiga, fato. – sorri e ela riu me dando um breve abraçinho.
– Você não existe, a essa hora da manhã subindo minha autoestima.
– Claro, amigas são pra isso. – sorri enquanto voltávamos a anotar alguns temas da aula, eu contaria sobre minha noite depois.
...
Austin
O relógio indicava o início de um novo dia, mas eu continuava largado na cama perdido em meus próprios pensamentos. O final de semana se passou arrastado, pois depois de tantos ocorridos minha mente não conseguia se desligar, minhas pálpebras não fechavam e o sono não vinha. Era demais para minha pobre cabeça lembrar que eu havia dormido com Ally, que Erick havia aparecido e que o Senhor Dawson havia me contratado como estagiário de sua empresa na área de arquitetura. Era demais pensar na dedicatória da minha mãe naquele velho exemplar na biblioteca do Lester, e era inaceitável que meu pai não atendesse nenhuma de minhas ligações depois de eu insistir durante todo o tempo após sair da casa de Ally.
– Mas que droga. – resmunguei baixo quando o despertador enfim tocou lembrando-me que além de o dia estar começando ainda por cima se tratava de uma segunda, de um dia maçante de aula e de um estágio depois do almoço na empresa do meu inimigo.. ou meu sogro? Eu não sabia mais quem ele era.
Me levantei ainda contra minha vontade e busquei pelo banheiro a fim de tomar um banho frio, talvez assim eu conseguisse acordar meu corpo desse estado meio em transe que ele se encontrava.
...
Chequei mais uma vez meu celular antes de pegar as chaves da harley e chamar o elevador, não havia nenhuma mensagem de meu pai ou ligação perdida. Onde será que ele andava? Algo devia estar acontecendo, afinal de contas eu imaginava que depois da tão esperada festa ele me procuraria para saber se implantei a escuta no escritório do Lester ou não, e por lembrar dela eu teria que dar um jeito de busca-la. Talvez marcar um encontro com Ally, não sei.. mas eu precisaria bolar algo para consegui-la de volta.
Eu já havia pego meu rumo, estava indo até a portaria do prédio apenas para checar se havia alguma correspondência pra mim, com sorte meu pai poderia ter mando algo e eu não estava enganado.
– Senhor Austin? Chegou um envelope hoje cedo para o senhor. — o porteiro me disse assim que apareci.
– Bom dia Fred, tudo bem, pode me dar. – sorri amigável, mas já sentia minhas mãos suarem.
– Aqui está. – me entregou, eu peguei e continuei caminhando até a garagem para pegar a harley.
O envelope pardo em minhas mãos estava mexendo com a minha sanidade, seria do meu pai? Mas eu não esperaria mais para descobrir, eu o abriria e saberia. Rasguei com cuidado para não estragar o conteúdo e então me deparei com 2 passagens aéreas para a Austrália. Mas que diabos estava acontecendo? Procurei por mais alguma pista e enfim encontrei um pequeno bilhete.
Austin, tenho certeza de que tudo deu certo em sua missão esse final de semana, não duvido de sua capacidade brilhante. Mas dessa vez não poderei me deslocar até ai para buscar informações, estou ocupado cuidando de alguns negócios da empresa e por isso não retornei suas ligações. Ordeno que não me incomode mais, apenas pegue as passagens e se prepare para uma visita.. e antes que me aborreça com perguntas futuras quero deixar claro que a segunda passagem é para que traga sua linda namorada, Allycia Dawson... acho que está na hora de eu conhece-la, não? E não pense em rejeitar, isso pode trazer péssimas consequências.
Mas que merda era essa? O que ele estava pensando? O que pretendia me obrigando a levar Ally comigo? eu não poderia permitir isso, não poderia deixar que ele se aproximasse dela. Eu sabia o quanto meu pai podia ser perigoso, o quanto ele odeia os Dawson... mesmo achando que ele não colocaria o plano a perder fazendo algum mal a Ally eu ainda tinha receio, eu a amava demais para querer coloca-la em perigo. E mesmo que ele ainda fosse meu pai eu tinha completa convicção de que ele era exatamente isso, um perigo iminente. Além do mais ele teria que fingir uma doença terminal, afinal de contas era essa a história que Ally conhecia sobre meu pai, que era um senhor doente.
Olhei mais uma vez as passagens, elas seriam para daqui algumas semanas, cairia num feriado local do mês seguinte na quinta feira o que nos dava a sexta imprensada de brinde. Eu não levaria Ally, eu não queria leva-la e não iria, meu pai que se danasse com essas “péssimas consequências” ele não seria capaz de botar o plano a perder, ou seria?
...
Ally
Estava no apartamento de Austin, as aulas haviam terminado e nós almoçamos em um restaurante próximo ao prédio. Estávamos esparramados em seu sofá apenas curtindo juntos os últimos momentos antes de ele precisar ir embora para o seu primeiro dia de estágio na empresa de meu pai. Ele estava um tanto estranho, eu não saberia dizer qual o motivo, pois ele nada havia comentado sobre.
– O que você tem? Está tão pra baixo.. – disse aos sussurros em seus braços.
– Impressão sua, estou apenas um pouco cansado.. muita coisa pra estudar, e além do mais estou um pouco nervoso com o estágio hoje. – sorri contra seu corpo, levantei minha cabeça para olha-lo.
– Não precisa disso, você sabe que é um ótimo estudante de arquitetura.. eu já vi alguns projetos seus. E meu pai te adorou Aus, juro. Foi moleza demais para você conquista-lo. — ele sorriu de lado, suspirei.
– Você diz isso porque ele é seu pai, mas eu precisarei ralar muito para merecer esse estágio.
– Claro que sim, mas como já disse... você é ótimo arquiteto e vai se sair bem. Quem sabe não consegue um emprego lá quando se formar? Seria ótimo. – ele entrelaçou seus dedos nos meus, sorri com seu gesto.
– Sim, seria. Mas vamos com calma, certo? Ainda faltam alguns anos para isso.
– Tudo bem... de qualquer forma queria mudar de assunto, te perguntar algo. – disse enquanto passava a sentir uma leve carícia feita por seu polegar em um dos meus dedos.
– Pode dizer. – respondeu-me. Ele me olhava com atenção.
– Bom... você é amigo do Dez, certo? – ele assentiu – Então... sei que não é legal perguntar isso, mas o que diabos ele está aprontando com Cass? Se não puder falar tudo bem, vou entender, mas estou bastante preocupada com ela. – ele me olhou sereno.
– Olha, não queria contar as coisas dele, mas de qualquer jeito você logo iria ficar sabendo, afinal ele marcou de conversar com Cassidy ainda hoje. Na verdade, a ex dele está na cidade e está bagunçando as coisas, ela quer voltar. Mas antes que você pense algo ele não traiu Cass, apenas não tinha contado a verdade ainda... por que a ex está hospedada na casa dele, a família de Dez é bastante apegada a ela.
– Nossa, que confusão. Eu não podia imaginar tudo isso, Cass está tão na dele... não queria que sofresse ou ficasse mal. Acho que já está bom de tanta desilusão amorosa pra ela. – suspirei pesadamente.
– Não se preocupe, Dez não fará nenhum mal.. ele está realmente interessado na sua amiga.
– Me alivia muito ouvir, ela realmente não merecia passar por isso de novo. Já basta um certo loirinho que chegou bagunçando tudo! – brinquei e por um segundo achei que ele teria ficado vermelho. Austin com vergonha? Ah, isso era novo demais.
–Não fale assim, prefiro não lembrar disso.. sei que é uma droga esse lance antigo entre eu e sua melhor amiga. Mas... você sabe que não significou nada, na verdade nenhuma nunca significou alguma coisa antes de você. – senti seus dedos apertarem um pouco mais os meus, ainda com delicadeza, mas era intenso. Ele estava se declarando, mas estava sem jeito.
– Acho então que a nossa questão anterior à festa já está mais do que resolvida. – disse enquanto o olhava nos olhos, um pequeno sorriso brotou em seus lábios. Eu queria ser sua namorada.
– É? E o que nós decidimos sobre isso? – sorriu me fazendo rir.
– Qual é... seja mais corajoso, diga de uma vez que não vive sem mim. – rimos juntos, seu corpo agora se movendo, ele estava por cima. O ar mudou, tudo mudou.
– Não vivo sem você. – disparou, fechei meus olhos e então senti seu beijo.
Começamos devagar, mas cada avanço aumentava a proporção da situação. Seus braços arrodearam meu corpo, nossas línguas travando uma disputa intensa. Senti seus dedos irem de encontro à pele da minha lombar afastando a camiseta que eu usava aos poucos e devagar.
– Tão macia.. – sussurrou quase que inaudível.
Passei minhas mãos por sua jaqueta, e então ele se apressou tentando retira-la.
– Aus, você não pode se atrasar... – disse ainda querendo mais.
– Podemos ser rápidos... – ele riu e eu também.
– Estou falando sério... – disse novamente, enquanto ele sorria ainda por cima de mim.
– Tudo bem linda, tudo bem. – se rendeu aos risos enquanto sacudia sua jaqueta para ajeita-la novamente em seu corpo, mas no processo um pequeno envelope escorregou de algum bolso que a mesma possuía no seu interior.
Ele olhou para meu busto, onde descansava o que havia caído. Eu sorri, mas ele não me pareceu muito normal.. tenso, talvez? Pegou rapidamente o envelope de cima de mim e voltou a colocá-lo dentro de seu bolso na jaqueta. Franzi meu cenho.
– O que era Austin? – perguntei mais séria agora, ele saiu de cima de mim e passou a andar em direção ao seu quarto.
– Nada demais, vou guardar. – disse. Sua voz não parecia abalada, mas eu sabia que tinha algo errado. Ele estava escondendo o jogo.
Demorei um tempo para reagir, eu não sabia se deveria exigir explicações, mas poxa... ele não estava normal, aquele envelope não era normal. Me levantei decidida e dei largos passos até seu quarto, mas me bati de frente com seu corpo, ele estava voltando pelo corredor.
– Austin, o que tinha no envelope? – perguntei enquanto nos encarávamos. Ele sorriu.
– Nada amor, esquece isso.. tá? Era só um documento da faculdade, mas eu já guardei. – mentiu, eu tinha certeza dessa mentira.
Austin
Droga, eu não esperava que essa porcaria caísse.. eu nem ao menos lembrava de ter guardado no bolso da jaqueta, foi inevitável minha surpresa e tensão quando me toquei do que se tratava. Ela estava agora me encarando como se eu fosse um criminoso, ela queria ver o envelope... mas o que eu diria? Ao menos indo até meu quarto me deu tempo suficiente de esconder o bilhete de meu pai e a segunda passagem, eu poderia dizer que estava voltando para visitar meu pai doente. Seria uma boa desculpa.
– Diz logo, você está muito estranho.. já tinha achado isso desde que te vi. – cruzou seus braços, a coisa tava ficando feia. Eu só tinha essa saída, então resolvi jogar as cartas.
– Tudo bem, olha Ally.. eu não queria dizer isso agora, mas vou voltar para a Austrália por alguns dias, no feriado do Mês que vem. Ver como anda meu pai... – disse esperando que colasse. Ela relaxou sua expressão e eu quase suspirei aliviado, mas mantive minha pose.
– Mas por que não quis contar amor? Tá tudo bem. – suavizou ainda mais.
– Eu não queria causar uma impressão errada com essa minha ida repentina logo agora que nos acertamos e tudo o mais... eu pretendia contar num momento mais adequado. Estava inclusive pensando em não ir, não me sinto bem sabendo que você vai ficar aqui todo o feriado com esse Erick solto por ai. – era uma meia verdade, eu realmente não queria que ela ficasse tão vulnerável perante aquele imbecil, eu me sentia protetor em relação à ela.
– Aus, você tem se tornado um fofo a cada dia, sabia? Mas não se preocupe com Erick... acho até que poderíamos evitar tudo isso. – me respondeu com um largo sorriso.
– É? Que jeito? Vai me prender no seu quarto? Eu iria adorar. –brinquei enquanto arrodeava sua delgada cintura com meus braços. Ela riu.
– Larga de ser bobo, acho que... seria uma ótima ideia se eu fosse junto com você! Sabe... eu nunca fui à Austrália e gostaria muito de conhecer um pouco mais sobre você, loirinho. – completou me fazendo quase ter uma sincope.
– Não acho que.. – tentei dizer ainda pensando em como faze-la desistir. Ela me olhou confusa.
– Se for por conta do seu pai que está muito doente.. eu entendo que ele não queira ver ninguém de diferente em sua casa, esse tipo de situação deixa a pessoa muito sensível e eu entendo de verdade. Mas posso ficar num hotel, sairíamos apenas quando você pudesse. – tentou mais uma vez, o que eu diria? Fiquei sem palavras, ela pareceu se dar conta de alguma coisa e novamente começou a falar.
– Olha desculpa, achei que você iria ficar feliz.. sei que é tudo recente entre nós, achei apenas que.... esqueça! Eu não tenho que achar nada, ta tudo bem... afinal estamos nos conhecendo e eu não tenho o direito de te pedir isso. – me disse dando um pequeno passo para trás, meus braços saíram de sua cintura com o afastamento entre nós.
– Ally.. eu não quis dizer nada disso, não comece a pensar.. – tentei, mas ela recuou ainda mais.
– Aus, olha a hora! Se não se adiantar vai chegar atrasado e não pega bem! Anda logo. – me interrompeu enquanto olhava seu relógio dourado de pulso, logo depois foi diretamente até o sofá e pegou sua bolsa. Desisti de tentar dizer algo, talvez fosse melhor que ela ficasse magoada em vez de leva-la comigo para o covil do velho. Mas, aquilo me partia o coração, eu a amava.
...
Eu havia insistido muito para que Ally aceitasse minha carona, eu a deixaria em casa antes de ir para a empresa de seu pai, mas ela preferiu pegar um táxi junto com um dos seus seguranças que ficou esperando na rua enquanto estávamos em meus apartamento. Estava nítida a situação desconfortável entre nós, um clima pesado... ela achava que eu não dava o devido valor ao nosso relacionamento e eu me coçava por dentro para dizer que não era esse o motivo de não querer leva-la comigo. Estava tudo uma grande merda.
– Sr. Moon? O Senhor Dawson o aguarda em sua sala, queira me acompanhar. – Cindy, a secretaria, disse fazendo com que eu imediatamente me levantasse e a seguisse.
– Olá Austin, queira sentar. – Lester Dawson se pronunciou assim que entrei em sua imponente sala de negócios. Eu apenas me surpreendi mais uma vez quando ele me olhou daquele jeito como se me conhecesse a anos, ou como se gostasse de mim como alguém realmente próximo.
– Claro Senhor. Estou muito honrado em estar aqui. – disse tentando ser cordial, ele abriu um sorriso.
Passamos a conversar sobre negócios, sobre o funcionamento da empresa e de como tudo acontecia em cada processo que dizia respeito a área de arquitetura. Por um momento eu passei a não lembrar que ali era o possível assassino da minha mãe, e fiquei fascinado com sua habilidade em administrar uma empresa de cosméticos tão grandiosa... eu queria me culpar por conversar com ele dessa forma, mas então me lembrava da dedicatória do livro, minha mãe o amava... então ele não poderia ser um monstro, ou poderia?
– Bom, acredito que já conversamos o suficiente, um dos meus funcionários será seu supervisor, tenho certeza que irão se dar bem e que aprenderá bastante conosco.
– Também estou convicto disso sr Dawson, acredite em mim, darei o meu melhor para que não se arrependa de ter oferecido o estágio.
– Meu jovem... eu jamais me arrependeria, não depois do que fez pela minha filha. Você devolveu a vida a ela, então eu tenho uma dívida com você. – sorriu e me pareceu tão sincero.
– Fazer sua filha feliz é um presente pra mim. Não há dividas aqui senhor. – respondi com um pequeno sorriso.
– Me chame de Lester, não há necessidade do Dawson Austin. – pediu simpático, eu apenas concordei de cabeça e então me retirei de sua sala indo diretamente para o setor que ele havia me indicado, o trabalho iria começar.
...
O tempo passou tão rapidamente que eu nem havia sentido, já faziam exatos 30 dias que eu estava trabalhando na empresa do Lester, e todo o tempo gasto aqui havia sido incrível, eram tantas coisas para se aprender, eu estava completamente fascinado por todo o trabalho. Meu supervisor era Gale, um cara apenas um pouco mais velho do que eu, nós nos demos bem e trabalhávamos juntos sem nenhum problema ou desentendimento.
Ally ainda estava um tanto distante depois daquela maldita conversa sobre minha ida à Austrália, estava tudo tão calmo... meu pai nem ao menos havia entrado em contato comigo, eu não tinha decidido se iria ou não, não sabia se as ameaças dele contidas naquela carta era de se levar a sério, mas também precisava conversar com ele, haviam muitas coisas em suspenso. A escuta que eu havia implantado na casa dos Dawson me rendeu algumas dúvidas, havia sido difícil de pega-la novamente.. meu relacionamento com Ally não estava tão bom como antes da conversa sobre a viagem então ir até a casa dela não era algo frequente, mas numa tarde ensolarada quando decidimos tomar um banho de piscina eu consegui me esgueirar e resgata-la. O que eu ouvi era tão estranho, não havia muitas informações, apenas conversas banais do Lester ao telefone, mas uma frase me chamou a atenção e desde então não consegui esquecer.
“Já te disse... já disse que esse namorado da minha filha me lembra demais ela, são os mesmos olhos. Eu as vezes acho que ele poderia ser...” e então a outra pessoa na linha o interrompia.
“Você tem razão, devo estar louco” – e o Lester completava com isso.
Mas o que diabos isso significava? Ele desconfiava de mim e do meu pai? E com quem eu me parecia? Com Mimi? O pior era o final... o que eu poderia ser? O que ele queria dizer com aquilo? Depois desse dia tentei diversas vezes faze-lo conversar mais, perguntava coisas aleatórias sobre algo referente à sua infância, ou algo que remetesse ao passado. Estávamos um pouco mais próximos, coisa que eu não imaginava ser possível, mas ele era legal comigo e continuava me olhando daquele mesmo jeito afetuoso, eu não sabia mais o que fazer.
– Quando é mesmo sua ida a Austrália? Esta próxima não é? – Ally me perguntou enquanto jantávamos em um restaurante próximo de sua casa.
– Sim amor, está perto...mas ainda não me decidi. – revelei, ela me olhou enquanto descansava o guardanapo em seu colo.
– Aus, o que eu represento pra você? – me perguntou, essa conversa estava pendente a tanto tempo. Me surpreendi que ela quisesse começa-la agora.
– Sabe que te amo Ally. – disse com um pequeno sorriso.
– Sei que começamos a ficar juntos a pouco tempo, mas achei que gostaria de me levar com você. Não podemos evoluir isso que temos se você não me deixar te conhecer melhor.. você esta sempre reservado, não fala sobre sua mãe ou sobre seu pai... seu passado! Sabe o quanto custou pra mim me abrir dessa forma? Custou tanto.. eu me entreguei pra você e olha como nós estamos. Eu nem sei o que eu sou sua, você nunca se quer me pediu nada. – despejou sobre mim, era tudo verdade... ela não me conhecia, não sabia quem eu era. Mas pra mim também era difícil, por motivos que eu não poderia explicar.
– Olha o Dez, poxa...ele e a Cassy se resolveram e estão juntos, aquela Trish nem teve espaço. Eles são namorados agora, e eu e você? Nós somos dois estranhos, na verdade... você que é o estranho! Minha vida é um livro aberto, o seu é um segredo. – continuou e cada palavra acertava forte o meu peito, ela tinha razão, mas eu não poderia oferecer mais do que isso a ela, ainda assim também não poderia explicar meu motivos.. eu só podia ficar calado e ouvir tudo que ela tivesse a dizer.
– Chega, estou cansada do seu silêncio depois de tudo que eu disse! Vou embora, eu não mereço isso.. achei que você tinha mudado por mim, achei que depois de tudo que passamos estávamos construindo algo bom, mas estive enganada. Eu... – pausou e então seus olhos marejaram e ela olhou pra mim, aquilo me doeu a alma e fez suar frio.
– Acabou Aus. – me disse enquanto desviava seu olhar, tentei colocar minha mão sobre a sua na mesa numa tentativa de para-la, mas ela não aceitou. Se levantou e me deixou, aquilo me rasgou o peito de uma maneira que nem posso descrever.
Mas o que eu faria? Levaria ela para a Australia numa tentativa de tê-la novamente para mim e depois o que? Depois a deixaria em perigo.... perigo por conta do meu pai. Eu não sabia o que fazer, eu queria ser egoísta e deixar tudo de lado, leva-la comigo, mas eu não poderia arrisca-la.. mas e se eu a deixasse meu pai seria capaz de cumprir suas ameaças? Eu não saberia dizer.
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