E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias? E de cada
pergunta minha vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos de quem pensa.

(Cecília Meireles)

Aos poucos eu estava compreendendo o que estava acontecendo naquele mundo.. Eu havia alterado algo no passado que ainda não conseguia identificar o que era que acabou culminando em todos aqueles acontecimentos.

Eu ainda estava na sala de Briggs quando senti o celular vibrar. Olhei no visor e vi o nome da minha assessora Jessy. Jacqui sorriu e disse:

— Fique a vontade para atender.

Eu atendi e Jessy já veio falando:

— Johnny, onde você está? Já são três e meia da tarde e falta pouco para a première.

Fechei os olhos e respondi dando as costas para a general:

— Jessy, eu estou em Washington, não vou conseguir chegar a tempo.

— Mas o que você foi fazer aí sem me avisar? O que eu vou fazer agora? O que vou dizer a imprensa?

Eu estava prestes a responder quando senti o toque da mão de Jacqui em meu braço.

— Eu posso te ajudar nisso.

Voltei meu olhar para a general que estava de braços cruzados olhando para mim. Dei um suspiro e falei para Jessy:

— Vou dar um jeito!

— Eu espero – minha assessora respondeu com um tom de histeria – e, por favor, não faça mais isso!

Em seguida ela desligou.

Guardei meu aparelho celular no meu bolso, voltei minha atenção para Briggs e perguntei:

— Como você vai fazer para me levar para Hollywood antes das seis da tarde?

Com um sorriso sarcástico respondeu:

— Eu tenho um aparelho que usamos para tele transporte. Usamos para missões urgentes ou quando precisamos para um lugar muito longe com rapidez.

Ela fez com que eu a acompanhasse e entramos em uma sala restrita. Então eu vi diante de mim um grande esquife larga, com um vidro lustroso e em volta toda a parte mecânica. Era bem parecido com o tele transportador que eu já conhecia.

— Você vai entrar nessa cabine de vidro, segurar aquela barrinha de ferro no lado esquerdo e pensar no lugar que você quer estar e voilà.

Aproximei-me da máquina, coloquei a mão nela e disse:

— Queria ter um desses em casa.

— É o sonho de todo mundo – falou Jacqui em tom de brincadeira.

Já que eu estava praticamente na frente da “nave” que me levaria para casa, pedi para ir ao hotel pegar minha mochila que eu havia deixado lá.

— Não quer que um dos meus soldados a pegue pra você?

— Se não tiver problemas

— Não há problemas nisso.

Em seguida dei o nome do hotel e ela saiu, me deixando só naquela sala, cheia de controles e máquinas das quais eu nunca decorei o nome. Dei uma olhada nas telas de monitoramento e era possível ter a visão de todo o quartel das FE. Algumas câmeras também monitoravam o lado de fora do quartel, não eram muitas, mas era o suficiente para aquela instituição.

Depois de mais ou menos quinze minutos, Jacqui já estava de volta com a minha mochila nas costas. Logo peguei a mochila e falei, me sentindo sem graça:

— Nenhum soldado veio te ajudar?

— Eu que peguei das mãos dele. — ela respondeu colocando a mochila no chão.

Peguei a mochila e fui até a cabine de tele transporte.

Jacqui se aproximou da máquina, apertou um dos tantos botões que estava na lateral fazendo se abrir a porta de vidro que cobria a cabine. Eu entrei e segurei na barra de ferro que Briggs indicou e pensei no meu quarto.

De repente ela segurou meu braço e acabei me assustando. Jacqui sorriu e disse me entregando um objeto semelhante a uma chave de carro com um pequeno botão esverdeado e me disse:

— Vamos amanhã de manhã ao Lin Kuei e preciso de você bem cedo aqui. Isso lhe ajudará a vir para cá mais rápido. Apenas aperte esse botão verde.

Apenas anui com a cabeça pegando o objeto.

Coloquei a mão novamente na barra de ferro e pensei no meu quarto.

— Está pronto, Cage? – ela perguntou.

Respirei fundo e respondi:

— Sim, estou.

Eu já me encontrava em meu quarto como em um passe de mágica. Estava do jeito que eu havia deixado antes de eu sair. Caminhei alguns passos e coloquei o objeto que Jacqui me deu em uma gaveta na escrivaninha.

Foi então que a senhora Fernandez entrou em meu quarto e levou um susto ao me ver lá.

— Como eu não lhe vi entrar, menino? – disse ela ofegante e com a mão no peito.

Fui até ela e respondi:

— Vim para cá num modo nada convencional.

— Depois você irá me explicar essa história. Agora precisa se arrumar para a première. A Jessy já está a caminho.

— Certo, vou escolher minha roupa.

— Mas já escolhi para você.

— Não precisava tomar esse trabalho para si. Eu poderia...

— Deixe disso. Sempre fiz isso e nunca reclamou. Vamos, fique aí que já vou lhe trazer a roupa.

Em seguida ela saiu deixando-me só no quarto.

Eu não estava acostumado a ser servido daquela maneira e o tempo todo eu tinha que lembrar que eu estava em outro mundo, pois essa era a definição certa que se poderia colocar naquele momento.

Não vou negar, mas a première foi incrível. Tiraram fotos minhas até os meus olhos arderem e os músculos do meu rosto doíam de tanto eu sorrir. Desde que comecei na vida de ator eu desejava ser prestigiado e reconhecido como eu estava sendo, mas aquele dia eu sorria e por dentro uma angústia tomava conta de mim.

Quando chegamos a casa, eu e Jessy fomos correndo ver como ficaram as fotos nos jornais e nas redes sociais. Ela lia com entusiasmo alguns comentários de fãs e de outros produtores. Eu tentava prestar atenção no que ela lia, mas eu estava como que em outra dimensão, pensando na situação em que o Plano Terreno havia se metido. Jessy então começou a ver as fotos e percebeu que meu olhar estava perdido e aquilo preocupou –a.

— Johnny, tem pessoas comentando sobre o seu olhar veja. É como se estivessem...

— Perdidos — voltei meu olhar para ela.

Senti a preocupação pairando em sua feição e disse:

— O que está acontecendo com você? Hoje você acordou estranho. Foi para Washington sem me avisar falando que não viria para a première...

— Jessy — mordi meu lábio inferior — se eu tentasse te explicar acho que você não entenderia.

— Tente me explicar — ela pediu.

— Essa guerra — eu iniciei — que está acontecendo... é por minha causa.

— Como assim? Bem, eu sei do seu passado que não foi fácil. Você participou de um torneio de lutas em um mundo estranho e que conseguiu sair vivo junto com alguns guerreiros. Mas esse torneio acabou Johnny! Você tem uma vida agora!

— Mas não era para eu estar aqui, Jessy! Não era para eu ser um ator de sucesso como eu venho sendo. Era...

Naquele momento senti uma enorme confusão em minha cabeça, pois as memórias da antiga linha do tempo e a que eu estava se chocavam. Jessy se levantou e ficou frente a mim colocando as mãos em meus ombros disse:

— Pode confiar em mim.

Aquele olhar de Jessy me lembrava muito o de Cassie. Cassie, minha filhinha... ela não existia e esse fato fez com que meu coração se apertasse de uma forma que ele chegou a doer. Foi inevitável que as lágrimas escorressem pelo meu rosto. Baixei a cabeça e sequei meus olhos o máximo que eu podia, respirei fundo e contei toda a loucura para Jessy.