Ver Shang Tsung frente a frente naquele momento era algo completamente estranho pra mim. Eu jurava que ele havia morrido pelas mãos de Shao Kahn, mas parece que ele conseguia driblar até mesmo a morte.

— Pensei que soltaria alguma piada ou algo parecido ao me ver — falou Shang com certo cinismo.

— Só queria saber como escapou das mãos de Shao Kahn...

— Isso não vem ao caso, ser terreno. — ele se levantou e ficou olhando para mim do alto — e então me diga, gostou do resultado do seu heroísmo?

Levantei-me sem tirar os olhos do feiticeiro. Em seguida dei-lhe um soco e vociferei:

— A culpa disso tudo é sua!

Ele colocou a mão na boca e sentiu um pouco de sangue em seus dedos. Voltou seu olhar para mim e disse depois de uma risadinha:

— Ah Johnny! Que piada ruim é essa? Sabe, eu deixei que Jacqui me visse. Eu sabia que havia um soldado da FE filmando tudo. Ela é uma moça muito esperta e decifrou bem rápido o enigma.

Em seguida ele formou um portal e me jogou nele empurrando-me com o pé. Parei em cima do resto de um prédio. Pude ver Fujin lutando sozinho contra alguns tarkatâneos. De repente um daqueles seres enfincou uma lança nas costas dele, pude ouvir o seu grito de dor. Coloquei minha mão na boca para não gritar e chamar a atenção dos algozes. Fujin caiu no chão e outro tarkatâneo bateu com uma pedra na cabeça dele matando-o. Eu estava deitado de bruços olhando tudo aquilo e pude perceber a aproximação de Shang Tsung. Ele se agachou e ficou olhando o movimento. Olhei para ele e voltei a culpa-lo:

— Isso é culpa sua!

— Johnny, Johnny... sinto lhe dizer que não fui eu quem fez isso, foi você!

Fiquei sem resposta diante da afirmação ali exposta. Salvei a vida de alguns, mas em troca da morte de outros. As mortes que estavam sobre meus ombros não eram só de alguns amigos, mas de milhares de pessoas, principalmente as que estavam sob aqueles escombros em que pisávamos.

Ergui-me com certa dificuldade até ficar em pé. A lembrança da morte de Fujin passava na minha mente como um looping. Enquanto isso, o feiticeiro dava uma gargalhada e disse me rodeando, como um leão espiando sua presa.

— Você achava mesmo que ia ser do jeito que queria? Era só impedir a morte de alguém ou evitar algum outro tipo de acontecimento e pronto?

Baixei a cabeça, coloquei as minhas no bolso do colete e fiquei olhando para chão. De repente recebi um soco na minha boca, fazendo com que eu caísse naquele chão cheio de pedras. Senti dores em meu antebraço, o qual recebeu mais impacto na queda. Olhei para ele e aquele sorriso sarcástico não saía de seu rosto. Ele se agachou a minha altura e continuou:

— Já deve ter ouvido falar do efeito borboleta... suponho.

Permaneci calado e tentando me erguer, mas Shang Tsung colocou um dos pés sobre minhas costas.

— Se não sabe eu explico — ele falou — qualquer coisa que você mude no passado, por menor que seja você cria algo totalmente diferente no futuro. E foi isso que fez. Você salvou Bi-han da morte e isso causou... o que estamos vendo hoje.

Ele tirou o pé das minhas costas e consegui ficar sentado. Respirou fundo e falei sem olha-lo:

— Eu... só queria salvar meus amigos...

— Ah que fofo! Quis bancar o heroizinho e se tornou um dos piores vilões da história! E eu ainda sou tido como vilão.

Mergulhei em um arrependimento que fez uma angustia tomar conta de mim. Quando vi a bota de Shang Tsung estava indo contra minha boca com um chute. Acabei deitado novamente e com minha boca sangrando. Consegui olhar para ele e ele portava um colar com uma pedra verde, era praticamente igual ao que aquela menina carregava. Veio uma suposição de que aquela pedra era responsável pela abertura da fenda. Então, mesmo na certeza que eu não seria atendido pedi:

— Shang Tsung, por favor, deixe-me voltar no tempo...

— Está louco? — ele perguntou em tom de sarcasmo — está tudo como eu queria que estivesse.

O feiticeiro, sem demora, levantou minha cabeça pelos meus cabelos e disse próximo ao meu ouvido:

— Não sei se você sabe, mas Sindel criou um dispositivo poderoso e que em contato com o sol, o Plano Terreno irá se transformar em pó. — ele olhou para o céu — e parece que isso não irá demorar muito.

— Você vai morrer também... — falei com muito esforço.

Ele me soltou e disse depois de uma gargalhada:

— Como é que vocês falam... Isso irá valer a pena!

Olhei no lado oeste e pude ver um brilho se aproximando, provavelmente era o dispositivo do qual Shang Tsung havia falado. Comecei a me arrastar para derruba-lo e pegar o colar, mas ele pisou em minha mão, me fazendo gritar de dor. Ele se agachou até mim e me ergueu segurando-me pelo pescoço. Fui erguido e meus pés não sentiam o chão e comecei a sufocar. O feiticeiro olhava para mim com desdém e falou:

— Iremos morrer juntos, Cage, juntos!

De repente ouvi um barulho de um tiro muito alto. Shang Tsung me soltou e caiu no chão, com os olhos arregalados. A pele de seu rosto envelhecia de forma rápida. Eu podia ver que ele tentava se recuperar do tiro que levou nas costas e saiu na barriga. Olhei para frente e vi Bi-han com uma escopeta. Ele se aproximou, apontou a arma para a cabeça de Shang Tsung e disse:

— Agora você morre!

Em seguida ele apertou o gatilho e cabeça do feiticeiro ficou com um buraco enorme na região do olho. Bi-han se agachou e tirou o colar com a pedra verde do corpo de Shang Tsung e me entregou.

Eu estava ainda anestesiado ao ver toda aquela cena e peguei o colar lentamente. Percebi que Bi-han estava ferido na região da clavícula e logo falei:

— Você está ferido...

— Johnny! Agora você pode arrumar o mundo.

— Bi-han, me... me perdoe... eu

Ele tirou um papel dobrado do seu bolso e disse colocando-o em minha mão:

— Arrume essa bagunça e entregue isso ao meu irmão.

Levantei-me o mais rápido que pude. Estendi a pedra pra frente e dela saiu uma luz verde. Ali se formou uma espécie de portal. Dei uma ultima olhada para Bi-han que disse:

— Não deixe que esse mundo aconteça.

Engoli seco, respirei fundo e disse:

— Adeus.

Fechei os olhos e entrei na fenda.

(...)

Acordei com um sol forte do verão em meu rosto e ainda era sete e meia da manhã, pelo que vi no relógio ao lado da minha cama. Passei a mão no rosto e levei um susto ao ver Cassie sentada na cama me olhando.

— Poxa pai! Acordando cedo sozinho... nem precisei de sacudir.

Coloquei a mão na boca e levantei ficando sentado ao lado da minha filha. Passei as mãos em seus cabelos e meus olhos ficaram marejados.

— Pai, você está bem?

Dei uma risada boba e perguntei:

— Posso lhe dar um abraço, filha?

Ela deu um sorriso e abriu os braços. Dei-lhe um abraço apertado e chorei de soluçar. Provavelmente ela não estava entendendo o motivo de eu estar daquele jeito, mas ela nem perguntou, apenas aceitou aquele abraço. Depois ela voltou seu olhar para mim e disse com um sorriso lindo:

— Prometo não contar essa loucura para mamãe.

Beijei-lhe a testa e pedi para que ela me esperasse para tomar café. Cassie saiu do quarto me deixando só. Respirei fundo e comecei a cogitar a ideia de que tudo o que eu havia passado não passava de um pesadelo. Levantei-me e comece a arrumar a cama. Assim que ajeitei meu travesseiro, um papel caiu no chão e eu fui pegá-lo. Para a minha surpresa, era um envelope em que estava escrito: Para Kuai Liang, com uma letra bem bonita por sinal. Concluí que o que eu vivi havia sido real.

Coloquei o envelope no bolso da minha jaqueta e fui tomar meu café.

Enquanto eu passava a pasta de amendoim no pão, perguntei por Sonya e Cassie respondeu:

— Ela vai hoje ao Lin Kuei pra visitar o grão-mestre. Ver se está tudo bem... sabe como é né?

Coloquei o pão pronto na mesa e perguntei, pois o que havia mais vivo na minha memória era a morte da Sonya, a guerra, o corpo sem vida de Kuai Liang... coisas que até hoje me deixam consternado.

— Desculpe pela pergunta, filha, mas quem é o grão-mestre dos Lin Kuei?

Cassie engoliu o pedaço de pão e respondeu:

— Que eu saiba é Kuai Liang.

Senti um alívio em meu coração. Eu havia conseguido consertar as coisas e isso me deixava muito feliz. Ela se levantou para pegar um suco de laranja na geladeira e perguntou desconfiada:

— O que está acontecendo papai? Abraçou-me daquele jeito, perguntou quem é o grão-mestre dos Lin Kuei...

Respirei fundo e dei uma resposta simples:

— Depois eu conto para você.

Em seguida me levantei e fui me vestir para ir ao quartel das FE. De lá eu iria o Lin Kuei. Eu estava muito ansioso para ver a reação de Sub zero ao ver a carta.

(...)

Cheguei no clã, graças ao teletransportador. Estava um frio até agradável, para aquele lugar que tinha as temperaturas muito baixas. Encontrei Sonya na porta do grande casarão, onde Kuai morava. Ela mexia em seu celular e não havia percebido a minha chegada. Passei a mão em seu braço e ela me olhou. Um sorriso se formou e disse surpresa:

— Não sabia que viria, Johnny!

Não resisti e beijei seus lábios de um jeito que a deixou até corada. Sonya voltou seu olhar para mim e disse:

— Johnny, aqui não.

— Você é minha esposa. O que tem de mais?

Ela deu uma risada segurando minha cintura.

— Ah querido, você é uma caixinha de surpresas mesmo.

Beijei-lhe a testa e falei com uma muita certeza:

— Não faz ideia de como eu te amo.

Ouvi alguém pigarrear próximo a porta, era Kuai, mais vivo do que nunca. Senti um nó na garganta ao lembrar aquela cena onde ele estava morto sobre uma mesa. Suspirei e estendi a mão para cumprimenta-lo:

— Que bom te ver grão-mestre.

— Digo o mesmo, Cage. E a que devo a honra de sua visita?

— Bem — olhei para Sonya e em seguida para ele — preciso conversar com você.

Sonya se afastou de mim e disse:

— Vou te esperar dentro do jato.

Assenti e Kuai me convidou para entrar, A casa era praticamente com a mesma planta da outra linha temporal, apenas com algumas mudanças dos móveis. Fomos para uma salinha. Sentei em um dos sofás e Kuai perguntou se eu queria algo para comer.

— Acabei de tomar café da manhã. — sentei-me em um sofá — Bem eu... tenho algo para te entregar, mas antes preciso te contar o que houve.

Kuai ficou atônito, sentou ao meu lado e disse:

— Pode falar, Cage.

Respirei fundo, limpei a garganta e comecei a contar a história do que compõe essa obra que você, leitor, está lendo. Sim, ele pareceu bem cético, mas quando eu entreguei a carta para ele, logo perguntou:

— De quem é?

— Leia e descubra.

Kuai começou a ler em voz alta e a medida que lia, seus olhos se enchiam de lágrimas. Quando leu o nome do irmão, caiu de joelhos e chorou copiosamente. Na carta estava escrito:

Querido irmão: Há uma coisa que eu aprendi na vida: Algumas coisas acontecem apenas por acaso, e, por vezes, porque nós queremos que aconteça. Nós lutamos por aquilo que perdemos. Johnny Cage era um homem assombrado por seu passado, mas ele deu a volta por cima e conseguiu superar suas perdas. Mostrou-se corajoso o suficiente para nos ajudar numa guerra causada por um mal entendido.
Quando Johnny veio a mim, eu interiormente relutei em acreditar nele. Eu não sou o herói desta história. Eu sou um homem que foi consumido por sua própria dor excruciante, alguém que tem uma grande quantidade de sangue em suas mãos para ser considerado um bom homem. Johnny me falou tão bem de você... que senti um orgulho enorme de ser seu irmão. Seja um bom grão-mestre para o nosso clã e não deixe que o ódio e a discórdia se apodere de seu coração. Eu vou te amar para sempre ...

Seu irmão, Bi-han

Não teve como eu não me emocionar ao vê-lo daquela forma. Ele abraçava a carta contra o seu peito e dizia:

— Meu irmão, meu irmão...

Passei a mão em seu ombro até ele se acalmar. Quando se acalmou, segurou minha mão, sorriu com os olhos inchados e disse:

— Foi o melhor presente que recebi em toda a minha vida.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!