Play Pretend
4 Capítulo 4
Notas iniciais
28 de Setembro, 1910
Darcy não a surpreendeu. De certa forma talvez tivesse realmente surpreendido a moça porque ele não apareceu por três dias e certamente ficaria desaparecido por mais tempo se não fosse a inquisição constante da mãe. Dona Ofélia já se preparava para o pior: ter a filha abandonada antes mesmo de noivar. Foi em meio à pressão da mãe que Elisa acordou cedo na manhã de sábado e rumou em direção da ferrovia.
Se fosse sincera, também estava sentindo falta da presença de Darcy. Ele não estava mentindo quando disse que a vida no Vale poderia ser entediante – não que ela fosse admitir isso. Muito pouco acontecia na cidadezinha e todos pareciam se conhecer e tirar prazer em fofocar uns dos outros. Nada disso a agradava. Por isso que conhecer Darcy foi como um fôlego novo para sua rotina costumeira, apesar de seus encontros serem resumidos em provocações e irritações.
A menina cavalgou até os limites da cidade e foi recebida pelo mesmo homem que havia conhecido quando encontrou a estação ferroviária pela primeira vez. Ele pareceu reconhecê-la e agora a chamava pelo nome, como se soubesse que ela iria voltar. O homem, que se chamava Vicente, avisou que Darcy não havia chegado ainda mas que tinha recebido ordens que ela podia entrar no escritório e ficar à vontade quando quisesse.
Elisabeta aproveitou o momento sozinha para explorar o cantinho do inglês. Se sentiu abusada e invasiva por estar bisbilhotando um lugar que não lhe pertencia mas a curiosidade falou mais alto. Na verdade, nem era curiosidade o nome do que estava sentido. Era mais um anseio de saber mais sobre aquele homem que havia entrado na sua vida de repente. Não sabia nada sobre Darcy Williamson além das coisas que todos sabiam. Queria algo que fosse dela. Algo que ninguém mais soubesse.
Ele era organizado, ela já havia percebido isso desde quando entrara no escritório pela primeira vez. As pastas na estante atrás da escrivaninha eram separadas por data e idioma. Na parte mais baixa da estante haviam vários livros de economia e engenharia e, escondido no fundo da estante, estava um livro com um compilado de poesias de Lord Byron. Estava em inglês e nas bordas das páginas haviam algumas anotações, também em inglês, numa caligrafia perfeita. Ela sorriu e colocou o livro em cima da mesa. Sabia que Darcy era apaixonado por literatura mas não imaginava que fosse ao ponto de manter poemas por perto no trabalho.
Havia um móvel do outro lado da tenda com dois porta-retratos e quando Elisa se aproximou ela viu uma fotografia antiga com um casal e duas crianças. Ela passou os dedos sobre a imagem reconhecendo rapidamente Darcy e o que só poderia ser seus pais e sua irmã. A foto do lado era de uma moça com cabelos compridos. Não era possível ver seu rosto por completo mas ela supôs que deveria ser sua irmã já adolescente. Havia também um caderno ao lado mas quando abriu e percebeu que era uma espécie de diário, ela decidiu que tinha ido longe demais e parou de investigar.
Elisa estava sentada na cadeira de Darcy, montando uma torre com algumas cartas de um baralho que havia encontrado em uma das gavetas da escrivaninha quando ele chegou. Ele a observou em seu momento de concentração por alguns segundos e ficou impressionado como ela parecia pacífica quando observada de fora. Quando começavam a conversar, no entanto, toda aquela serenidade era substituída por brasa e calor.
“Elisabeta!”, ele chamou. A menina estava tão entretida no seu passatempo que assustou e acabou derrubando a torre. As cartas se espalharam na mesa e caíram no chão.
“Meu Deus, Darcy! Será que você poderia ser menos escandaloso?” E lá estava o fogo novamente.
“Peço desculpas”, ele disse enquanto se abaixava para recolher as cartas. “Mas a culpa não é minha se a senhorita é facilmente impressionável e muitíssimo distraída.”
“Tive que encontrar alguma forma de distração já que o senhor me manteve esperando”, ela retrucou. “Aliás, o senhor me manteve em espera por três dias!”
Darcy despejou as cartas que estavam no chão em cima da mesa e sentou em uma das cadeiras na frente dela. Abriu um sorriso lento. “Sentiu minha falta?”
“Eu não. Mas minha mãe sim. Já estava em busca de um novo pretendente para mim.”
“Já fui trocado por dona Ofélia? Achei que minha personalidade valesse um pouco mais.”
“Nem um pouco. Você é apenas um futuro promissor, nada mais que isso.”
Ele franziu o cenho com a afirmação mas deixou passar.
“Tive que ir para São Paulo urgentemente. Alguns problemas do passado que insistem em retornar”, ele se explicou e soava exausto. Foi então que Elisabeta realmente viu ele. O homem estava desalinhado, sem o costumeiro paletó, apenas com uma camisa branca que nem mesmo tivera paciência para fechar todos os botões. As mangas estavam dobradas e o cabelo parecia um furacão. Ele parecia péssimo.
“Algo que eu possa ajudar?”
“Nada que você possa resolver”, ele respondeu e ela tentou não ficar ofendida.
“Eu posso ir embora se você quiser”, ela ofereceu já se levantando. Ele sacudiu a cabeça e segurou sua mão.
“Não. Por favor, fica.”
Elisa sorriu e voltou a sentar. Não passou despercebido para ela que era a primeira vez que suas mãos encostavam sem que eles estivessem fingindo.
“Eu adorei essa cadeira”, ela comentou tentando levantar os ânimos dele. Empurrou a cadeira para trás e fez com que ela girasse. Darcy a olhava como se ela fosse lunática. “Acho que vou levá-la para casa.”
“E onde eu sentaria?”
“No chão!”, ela respondeu com uma risada. Ele não se conteve e também riu.
“Ah, devo te avisar que o baile será semana que vem.”
“Já? Acho que não tenho nenhuma roupa adequada.”
Elisabeta revirou os olhos. “Darcy, você usa terno todos os dias!”
“Mas um baile demanda algo mais elaborado, não? Ou aqui no campo não se fazem assim?”
E lá estava ele com a mania de ser ofensivo “sem querer”.
“Não, aqui no campo nós fazemos exatamente como na cidade. É só que ninguém importa se o senhor vai estar com um terno completo ou calça e blusa.”
“Perdão. Achei que como o baile era em nossa homenagem talvez eu devesse estar mais arrumado. Mas já que ninguém importa, vou aparecer em trajes de banho.”
Elisa sentiu sua pele ficar vermelha e não sabia se era porque ele tinha razão ou se era graças a imagem que apareceu em sua mente de Darcy com pouca roupa.
“Mudando de assunto”, ela começou, ávida para acalmar seus pensamentos, “acho que devemos aproveitar esse raro momento de privacidade e organizar nossa história de amor.”
“Eu posso pensar em diversas coisas mais interessantes para fazermos com nosso tempo a sós, mas tudo bem”, ele concordou enquanto levantava. Passou para o lado de dentro da escrivaninha onde ela estava, puxou alguns papéis da primeira gaveta e colocou na sua frente.
“Está na hora de escrever como nos apaixonamos.”
Eles passaram horas escrevendo as falsas cartas. Ela começava anunciando o que iria escrever na sua carta e ele já elaborava uma resposta. Depois, trocavam os papéis entre si e faziam alguma mudança necessária. Decidiram que estiveram trocando correspondências por três meses: tempo que incluía a chegada de Camilo no Vale e a viagem de Ema para Paris quando conheceu Darcy. Ele rebateu que Camilo e Jane estavam namorando há apenas um mês e não faria sentido ela ter mandado uma carta antes, se não era tão próxima do amigo. Realmente não faria, mas ela lembrava de Camilo citando o melhor amigo desde o primeiro encontro, no baile de boas-vindas em Junho. Além disso, se antecipassem a primeira carta para Agosto eles entrariam em contradição pois Ema tinha viajado apenas em Julho. Acabaram fazendo uma linha do tempo com os eventos em ordem cronológica para que não se confundissem e foram enfiando suas pequenas mentiras nos espaços vagos. Essa parte decorreu sem muitos embates para a surpresa dos dois.
Foi somente quando Elisabeta anunciou o que poderia ou não ser feito quando eles estivessem na presença de outras pessoas que Darcy protestou.
“Elisabeta, casais se beijam o tempo todo!”
“Mas nós não somos um casal!”, ela argumentou.
“Eventualmente as pessoas vão desconfiar da nossa falta de afetividade.”
Ela sacudiu a cabeça. “Creio que não. Sou uma pessoa muito reservada e você também.”
“Mas você me beijou na bochecha! Em praça pública. Na minha opinião, e creio que na da sua mãe também, isso não é ser discreta. Eu vi a expressão que ela te olhou.”
Era verdade. Dona Ofélia não ficou muito feliz com o exibicionismo dos dois. Talvez Elisa tivesse interpretado errado os olhares ansiosos.
“É verdade. E aquela foi a última vez que fiz algo assim.”
Ele suspirou alto.
“Tudo bem, sem beijos. Eu posso pelo menos te encostar?”
“Apenas na mão”, ela respondeu. “Nada de me abraçar pela cintura. Não me sinto confortável.”
Já era horário de almoço quando chegaram num acordo. Sentia-se cansada como sempre ficava depois de seus desacordos. Ao mesmo tempo que Darcy fazia-a sentir acordada e elétrica, sempre pronta para responder algo que superasse seus comentários, ela também se sentia esgotada quando tinham que se despedir, como se toda sua energia tivesse sido dada para ele e nunca recebera algo em troca.
“Estou faminta”, ela comentou enquanto levantava e colocava suas cartas dentro da bolsa.
“Eu também”, ele concordou. “Mas só vou receber meu almoço daqui uma hora.”
“Por que você não almoça lá em casa?”, ela ofereceu de imediato. “Mamãe realmente sentiu sua falta.”
“Mesmo?” Ela concordou com a cabeça. “Eu também senti falta de dona Ofélia. Acho que não vou poder recusar essa oferta.”
Saíram juntos do escritório e foram logo arrebatados pelo calor que fazia do lado de fora. O coque de Elisa grudava no pescoço e ela se sentiu desconfortável.
“Você veio com Tornado?”
A menina assentiu e apontou para o cavalo preso debaixo da árvore.
“Por que não vamos de automóvel? Você deixa Tornado dentro da tenda, nós almoçamos e depois você volta para a ferrovia comigo para que possamos revisar suas condições. Não sei ainda se concordo com elas por completo.”
Elisa virou e teve que cobrir os olhos para enxergá-lo. Sentiu como se estivessem repetindo o primeiro encontro.
“Eu já disse que não confio naquela máquina.”
“Então chegamos num empasse”, Darcy disse com um sorriso. “Você disse que não podemos nos abraçar e eu não consigo imaginar outra forma de cavalgar que não seja essa.”
Ela odiou que ele estava certo. Quebraria uma de suas regras se insistisse em ir com Tornado. Se fosse de automóvel, estaria dando a ele o que ele queria. Era um impasse mas ela acabou optando por ir de automóvel. Darcy chamou Vicente e comunicou que iria se ausentar por um tempo e que era seu dever manter as coisas em ordem e as necessidades do cavalo atendidas.
Foram juntos até o automóvel que estava atrás do escritório. Ele ajudou ela a entrar e Elisa ficou maravilhada com o quanto o painel era bonito — não que ela fosse admitir em voz alta. O homem rapidamente ligou a máquina e seguiu estrada. Estava indo um pouco mais devagar que o normal, ela percebeu, e se sentiu envergonhada que seu pavor fosse tão transparente. O veículo trepidava fazendo parecer que iria partir ao meio a qualquer momento.
“Não precisa ter medo”, Darcy tentou acalmá-la. “É perfeitamente seguro.”
“Não estou com medo.”
“Tudo bem”, ele disse com um sorriso sarcástico.
“Não é medo, só não estou acostumada. Tenho vontade de aprender a dirigir eventualmente.”
“E por que você nunca tentou?”, ele perguntou se virando para ela.
“Olhos na estrada, por favor!”, ela se desesperou fazendo com que Darcy risse. “Porque nunca tivemos um automóvel e não conheço ninguém que dirija.”
Ele pareceu ofendido e sacudiu as mãos para chamar atenção para si mesmo. “Eu dirijo!”
“Por favor, fique com as duas mãos no volante, eu imploro!”
Darcy desacelerou o carro até que ele parasse por completo. Saiu do veículo num pulo e arremessou as chaves para ela. “Vamos. Troque de lugar. Vou te ensinar a dirigir”, ele anunciou enquanto dava a volta pelo automóvel.
“O que? Darcy, você está ficando louco?”
“Não. Você quer aprender e eu não vejo problema algum em ensinar.”
“Mas eu não sei absolutamente nada!”, Elisa arguiu apenas pela graça de ser do contra. Darcy sorriu e ela percebeu que ele já havia entendido que ela fazia isso com frequência.
“Sem drama, Elisabeta. Vamos, troque logo”, ele disse, cutucando o ombro dela.
Ela passou para o lado do motorista com um sorriso escondido no rosto. Não lembrava qual fora a última vez que se sentiu tão empolgada, tão viva. Darcy sentou do seu lado e mostrou como colocava a chave na ignição.
“Você vai apertar aquele pedal ali”, ele disse apontando para seus pés, “e em seguida vai soltá-lo lentamente enquanto acelera.”
Ela sorriu e fez o que ele tinha pedido. Não funcionou. O carro deu um pulo e o barulho do motor se cessou. Elisa olhou para ele desesperada mas Darcy apenas sacudiu a cabeça e girou a chave novamente.
“Isso é normal. Aconteceu porque você soltou o pedal rápido demais.”
“Achei que tivesse sido devagar.”
Darcy sorriu. “Se fosse devagar, o carro não teria desligado. Tente novamente”, ele incentivou. E não deu certo. Elisabeta bufou alto e bateu na buzina, o barulho alto fazendo com que ela se assustasse e ele risse.
“Olha, deixa eu te mostrar.”
Ele começou a se inclinar na direção dela e se abaixou para pegar seu tornozelo. Quando ela percebeu o que ele iria fazer ela puxou a perna rapidamente, quase acertando o joelho no seu rosto.
“O que o senhor pensa que está fazendo?”
“Estou sendo didático.”
“Darcy, acho isso não seria de bom tom.”
Ele se levantou. “Então preste mais atenção nos seus pés dessa vez. Devagar e suave.”
Elisa olhou rapidamente para trás e viu que estavam completamente sozinhos. Não havia barulho de nenhum cavalo e os sons da ferrovia já tinham ficado para trás. Ela respirou fundo e sorriu.
“Tudo bem. Mostre o que você quer explicar, mas seja breve.”
Darcy revirou os olhos mas abaixou mesmo assim. Ele segurou os tornozelos da moça no lugar e ela ficou parada enquanto ele girava a chave mais uma vez. O motor gritou para a vida e ela se forçou a concentrar mesmo estando numa situação um pouco delicada.
“Observa. Você vai sentir que o carro todo vai tremer.”
Ele puxou seu pé esquerdo para trás enquanto empurrava levemente o pé direito para frente. Ela sentiu um tremor mas não saberia dizer se vinha do veículo ou do seu próprio corpo. Darcy levantou a cabeça e perguntou se ela estava sentindo. Elisa confirmou silenciosamente com a cabeça porque as palavras pareceram se esvair.
“Ótimo. Agora você continua empurrando esse pé”, ele continuou e apertou seu tornozelo direito de leve. A menina reprimiu um suspiro que queria escapulir dos seus lábios, “e o carro vai andar.”
E realmente andou. Assim que Darcy se reergueu, ela tirou os pés trêmulos dos pedais e o automóvel desligou novamente.
“Acho que eu entendi. Obrigada.” Sua voz estava grave novamente e ela teve que pigarrear para que voltasse ao normal. Se sentia claustrofóbica como naquele dia que ele tinha a abraçado pela primeira vez. Parecia que quanto mais respirava, menos ar recebia.
De alguma forma ela reuniu forças, ligou o carro e o fez mover. Assim que começaram a andar, Elisabeta não conseguiu controlar a risada. Talvez ele não soubesse o quanto isso significava para ela, mas significava muito. Significava tudo que ela queria ser um dia. Se sentia livre, independente e até mesmo um pouco rebelde por estar quebrando uma convenção da época. Sua felicidade era contagiante e Darcy se viu rindo com ela, saboreando do prazer de fazer parte de um momento tão importante para a moça.
Tirando alguns comentários ocasionais de Darcy, ela dirigiu sem muitos problemas. Era cautelosa e estava atenta a todos os detalhes. Queria lembrar desse dia para sempre e definitivamente não queria passar vergonha na frente dele.
“Vamos passar na Casa de Chá antes”, ele avisou. “Quero comprar uma sobremesa para minha sogra.”
“Eu vou dirigindo até lá? No centro do Vale?”
Darcy deu de ombros. “A não ser que você não queira.”
Elisabeta respondeu com um sorriso travesso e seguiu rumo à Casa de Chá. Ao invés de se sentir intimidada pelos olhares curiosos das pessoas quando chegaram no centro, Elisa se sentiu poderosa. Como se não houvesse nada no mundo que pudesse impedir-lhe de algo. Ela parou o carro na frente do estabelecimento de Dona Agatha, um pouco mais bruscamente do que o esperado, e pulou do veículo antes que Darcy pudesse abrir a porta para ela. Entrelaçou seus dedos com os dele e entraram juntos no local. O rosto do inglês brilhava com orgulho e admiração.
“Dona Agatha, gostaríamos de pegar uma torta”, Elisa comunicou quando chegaram perto da bancada.
“Claro! Temos várias saídas do forno agora. Mas antes eu gostaria de saber quem é este senhor que te acompanha”, ela questionou, curiosa como sempre.
“Darcy Williamson. Construtor da ferrovia São Paulo-Vale do Café”, ele se apresentou.
Elisa viu o olhar de dona Agatha mudar de curioso para uma tentativa de ser sedutora e tentou fortemente não revirar os olhos.
“Nossa, Elisabeta! E o que você faz com um homem desses aqui?”
“Viemos comprar torta, eu já disse”, ela tentou desviar o assunto.
“Não, não. Quero saber o que...”
“Nós somos namorados. E qual torta a senhora sugere? Estamos com um pouco de pressa”, Darcy explicou rapidamente, não dando espaço para que ela fizesse suposições e fofocas mais tarde. Ela sorriu para ele em um agradecimento silencioso e ele respondeu com uma piscadela.
“Ah! Claro, sim. Bom, temos torta de limão, laranja... Temos a mais nova torta de maracujá, que é bem saborosa. Feita especialmente por mim!” Elisa pensou ter ouvido um duplo sentido nas suas palavras mas ignorou.
“Na verdade... Elisabeta, qual você gostaria de escolher?”
“A torta de chocolate é minha favorita”, ela respondeu com um sorriso.
“Torta de chocolate será a que levaremos então”, ele anunciou e Dona Agatha foi buscar a sobremesa com um sorriso amargo por ele não ter escolhido uma das suas sugestões.
“Obrigada por ter explicado a situação”, Elisa disse quando eles ficaram sozinhos.
Darcy sacudiu a cabeça. “Não há nada que eu odeie mais do que pessoas curiosas e suas expectativas. Elas criam uma história absurda nas próprias cabeças e ficam revoltadas quando não atendemos às expectativas. É melhor que elas saibam o que somos de uma vez.”
“Sendo assim, acho que nem precisamos ir ao baile. Todos vão saber que estamos namorando em poucos minutos se depender de Dona Agatha”, ela respondeu, rindo.
Ele sorriu também, olhando nos olhos dela. “Talvez. Mas não perco a oportunidade de dançar com você por nada.”
Dona Agatha chegou naquele momento com a torta embrulhada e Elisa agradeceu aos céus por não ter que responder o que tinha dito. Eles pegaram o pacote e saíram do estabelecimento. Estavam descendo as escadas quando Darcy parou de repente fazendo com que ela trombasse em suas costas.
“Aquela é sua irmã?”, ele perguntou apontando para a menina que estava do outro lado da rua, perto do quartel. Reconheceu facilmente as roupas e os cabelos cacheados.
“Sim, é Lídia”, ela confirmou.
“Com quem ela está conversando?”
“Para quem não gosta de pessoas curiosas o senhor está soando como um hipócrita”, ela riu, enquanto apoiava as mãos nos ombros dele. Ele se virou e, por estarem da mesma altura, Elisa pode ver com clareza sua expressão. Ela lembrou da primeira vez que o viu, o rosto sério fazendo que ele parecesse mais velho do que realmente era. Mas agora ele não estava apenas sério. Parecia... perturbado. Ela olhou novamente para a irmã e reconheceu o homem de terno azul e chapéu branco. Sorriu ao ver que Lídia o importunava mais uma vez.
“É Diogo. Um amigo da família, se posso assim dizer. Por que pergunta?”
Darcy franziu a testa. “Diogo?”
“As pessoas o chamam pelo sobrenome, Uirapuru. Ele mora em São Paulo mas às vezes passa algumas temporadas no Vale.”
“E ele é amigo de vocês?”
“Sim, amigo de Lídia... Darcy, o que está acontecendo?”
Ele se afastou, parecendo descrente e chateado. Entregou a torta para Elisabeta e começou a descer as escadas.
“Elisabeta, me desculpe. Não vou poder almoçar com você hoje.”
“O que?”, ela perguntou enquanto descia as escadas atrás dele. “Como assim?”
“Acabei de lembrar que tenho um compromisso”, ele respondeu, entrando no carro. Ela correu até ele e parou do seu lado.
“Até um segundo atrás você não tinha nada! O que está acontecendo? Você conhece Uirapuru?”
“Não”, ele respondeu rapidamente. “Peço desculpas por não te deixar em casa. Por favor, volte com a sua irmã. Não é seguro voltar sozinha, ainda mais agora.”
Não passou despercebido que ele olhava diretamente para Uirapuru enquanto falava em códigos.
“O que tem agora?”, ela questionou. Darcy sacudiu a cabeça se recusando a falar. Ela tomou seu rosto nas mãos, ignorando por alguns segundos as regras que eles haviam definido mais cedo. “Você pode confiar em mim. Por que a mudança de humor tão súbita?”
Ele segurou suas mãos e retirou elas do seu rosto. Deu um sorriso cansado como se aquilo fosse a única coisa que pudesse oferecer no momento. “Eu tenho que ir, Elisabeta. Deixarei Tornado em sua casa mais tarde, não se preocupe. Com licença.”
Ela se afastou do carro e ele deu partida, seguindo em frente e deixando Elisabeta com os sentimentos num turbilhão e com o questionamento de quem Darcy Williamson era de verdade.
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