Notas iniciais
Que coisa mais linda que foi a recepção do ultimo capítulo ♥ espero que gostem desse também!

23 de Setembro, 1910

Se Elisabeta esperasse algo menor do que uma comoção geral com a novidade ela estaria sendo ingênua. Mesmo assim não pode deixar de assustar quando sua mãe deu um grito estridente e caiu para trás se jogando no sofá. Darcy pulou com o barulho súbito e murmurou algumas palavras em inglês num tom baixo. A mais velha das Benedito observou o motim que se formou sobre dona Ofélia enquanto Mariana abanava as mãos na frente de seu rosto, Cecilia avisava que chamaria o doutor Rômulo, Jane buscava água e Lídia ameaçava chorar. Apenas Elisabeta e Felisberto olhavam para cena com tédio: anos de convivência fizeram os dois serem experientes em saber quando a matriarca estava fingindo ou quando realmente estava passando mal. Essa não era uma das situações reais.

E havia Darcy. Ele estava... aterrorizado.

“O que está acontecendo aqui? Que tipo de piada é essa?”, ele sussurrou no seu ouvido.

Elisa virou rapidamente e olhou-o nos olhos.

“Por favor, jogue comigo. Finja. Eu imploro.”

Ela encontrou um olhar desesperado como resposta mas talvez seu próprio olhar fosse mais preocupante porque Darcy simplesmente balançou a cabeça derrotado e concordou.

“Eu posso voltar mais tarde. Não queria incomodar”, Darcy disse para a família. Ofélia levantou num pulo esquecendo que estava desmaiada um segundo atrás.

“NÃO! De jeito nenhum! Faço muito gosto de conhecer o senhor, por favor”, ela respondeu rapidamente.

Elisa fechou a porta atrás de si e os dois adentraram a sala de mãos dadas. Jane foi a primeira das irmãs a ter uma reação adequada. Ela se apresentou como namorada do melhor amigo e enquanto os dois se cumprimentavam, Elisabeta viu Mariana mexer a boca perguntando o que estava acontecendo. A menina apenas sacudiu a cabeça pois nem mesmo ela saberia explicar.

“Darcy, estas são Cecília, Mariana e Lídia. E esses são meus pais. Dona Ofélia e seu Felisberto.”

“Muito prazer”, ele cumprimentou todas com um beijo na mão e Elisabeta agradeceu aos céus por ele estar sendo tão convincente. “Elisabeta me falou muito sobre vocês.”

“Mesmo?”, Mariana perguntou desconfiada.

“Sim,” Darcy prosseguiu com a conversa sem se intimidar. “Nas cartas que estávamos trocando.”

As quatro irmãs se entreolharam e falaram juntas: “Cartas?”

“É, cartas. Darcy, vamos sentar. Por favor”

“Ara, Elisabeta explica essa história direito!”

Ela olhou para o homem ao seu lado que lhe direcionou um sorriso debochado. “Vamos, meu amor, conte para elas como nos conhecemos.”

“Bem... Darcy, como todos sabem, estudou com Camilo e... de tanto escutar ele falando tão bem do melhor amigo eu simplesmente não me contive e mandei uma carta para ele. Queria saber tudo que havia para saber sobre o inglês Darcy Williamson. E nós acabamos nos apaixonando!”, ela finalizou sorrindo para ele que estava com a cara vermelha. Elisa não sabia se era de vergonha ou vontade de rir.

“Mas eu nunca vi você mandando carta alguma!” Cecília contestou.

“Porque elas eram segredo!”

“Então aquele tempo todo que você ficava escrevendo naquele caderno e não me dava atenção era porque a senhorita estava escrevendo declarações amorosas?” Lídia perguntou e ela concordou prontamente. “Ah, mas eu vou buscar esse caderno agorinha!”, ela se levantou para correr mas Felisberto a puxou pelo braço. Foi só então que Elisabeta reparou na expressão do pai.

“Papai, por favor, não fique bravo por eu estar namorando escondido. A verdade é que eu não sabia se algum dia iria poder encontrar o amor da minha vida! E agora que eu encontrei eu não poderia estar mais feliz!”, ela argumentou e sentiu Darcy apertar sua mão e sorrir.

“Ara, mas a senhorita deveria era estar preocupada com os MEUS nervos! Porque você, dona Elisabeta Benedito, fez um escarcéu nessa casa falando que não iria se casar e agora já me aparece com um lorde no mesmo dia. Pois vocês vão oficializar esse matrimônio logo! Já se conhecem muito bem pelo visto.”

“Matrimônio?”, Darcy cochichou no seu ouvido.

Lorde! Esse é o título que ele tem, Elisa lembrou.

“Mamãe, Elisa disse que não se casaria porque estava com esperanças de que o relacionamento com Darcy desse certo! Enquanto isso a senhora estava empurrando para os braços dela qualquer homem que passasse na porta de casa”, Cecília a defendeu com os olhinhos brilhando de emoção. “Meu Deus! Que romântico!”

Elisabeta sorriu para a irmã e agradeceu. Mariana continuava com o rosto fechado e desconfiado. Lídia já parecia cansada do assunto que não lhe incluía.

“Mamãe, sobre essa questão do casamento...” Elisabeta começou e viu o sorriso de Darcy ficar tenso. “Eu estive pensando. Nós dois ficamos tanto tempo escondidos com a questão das cartas. Vocês mal o conhecem e, por mais que eu conheça perfeitamente o caráter que ele tem, eu acho que é um direito de vocês de conhecerem Darcy melhor. Por isso eu gostaria de saber se podemos adiar a promessa do casamento até dezembro para o ano que vem.”

“Até que a senhorita tem razão”, Ofélia concordou. “O senhor que me desculpe, senhor Darcy, mas não é só porque o senhor é um lorde que significa que é um homem bom. Às vezes o senhor pode ser burro como uma mula igual minha filha.”

Darcy tossiu constrangido e acabou se engasgando com a própria saliva. Elisa teve que dar uns tapinhas em suas costas para que ele se acalmasse.

As irmãs contestaram a afirmação ofensiva da mãe mas ela sacudiu as mãos dispensando os comentários. “Minhas meninas, vocês sabem que eu não minto. Sua irmã foi uma tonta de ter escondido essa história por muito tempo. Teria poupado o sofrimento dela e meus nervos!”

Jane sorriu docemente e decidiu interferir para acalmar os ânimos da conversa. “Darcy, conte-nos mais sobre você! Camilo me disse tanto mas creio que agora preciso saber ainda mais já que você será meu cunhado em breve!”

Todos os olhares se voltaram para seu “namorado” e Elisa sorriu ao ver ele apertar o maxilar e engolir em seco. No pouco tempo que esteve com na sua presença percebeu que ele fazia isso quando estava extremamente desconfortável. Ela apertou sua mão de leve para tentar acalmá-lo – afinal, não podia deixar ele estragar tudo agora – mas ele pareceu ainda mais importunado. Soltou sua mão e ficou ocupada puxando fios da manga do seu vestido.

Darcy começou a contar sobre sua vida e Elisa tentou manter suas expressões neutras já que, teoricamente, ela já sabia de tudo aquilo. Contou que já conhecia Camilo graças aos negócios firmados entre seu pai, Lorde Williamson, e a mãe de Camilo, Julieta Bittencourt mas haviam se tornado amigos somente quando Camilo entrou na Universidade de Paris e ele havia tornado seu mentor. Havia chegado no Brasil na noite anterior e ficaria hospedado na fazenda Bittencourt por tempo indeterminado. Era nascido no Brasil mas tinha dupla-cidadania graças ao pai inglês. Sua mãe era brasileira mas morrera ainda quando era jovem e deixara ele e sua irmã nos cuidados do pai. Permaneceram no Brasil durante toda sua adolescência até que um incidente fez com que eles tivessem que ir embora. Estava de volta agora para construir e inaugurar a ferrovia dos Williamson.

“O que você estudava na Universidade, Darcy?” Cecilia perguntou.

“Administração e engenharia.”

“Meu Deus, dois cursos?” Mariana se abrilhantou. “E eu sonho apenas com um!”

“O que você quer fazer?”, ele indagou, verdadeiramente curioso.

“Montar carros!”, ela respondeu orgulhosamente arrancando uma risada de Elisa e um suspiro alto de dona Ofélia.

“Olha, eu já disse que eu não quero saber dessas barbaridades nessa casa! Pode ir cortando esse assunto.”

“Mas mamãe, muitas mulheres já trabalham em diversos lugares e diversas profissões! Não é mesmo Darcy?”

Ele concordou com a cabeça. “Sinto te contrariar, dona Ofélia. Mas muitas mulheres já trabalham na Europa. E até mesmo votam. Tem até um livro muito famoso na Inglaterra que fala exatamente sobre as questões da mulher na sociedade. A tradução mais próxima seria algo como “A Reivindicação dos Direi...””

“A Vindication of the Rights of Woman!” Mariana e Cecilia exclamaram juntas, num inglês perfeito que Elisa nunca fora capaz de atingir.

“Mary Wollstonecraft!”, Mariana riu e Cecilia concordou rapidamente com a cabeça.

“Vocês conhecem?”

“Claro! Cecilia encontrou o livro escondido numa prateleira da biblioteca local e nós fomos travessas o suficiente para lê-lo. Acho que ninguém imaginava que alguma mulher do Vale fosse capaz de compreender alguma língua estrangeira.”

Darcy sorriu ternamente. “Talvez eu consiga uma cópia especial para vocês vindo diretamente da Inglaterra.”

As irmãs deram um gritinho de felicidade e Elisa sentiu seu coração acalmar ao perceber que seu plano estava dando certo. A mãe havia concordado em deixar de lado o curto prazo para o casório agora que estava nos planos de Elisabeta firmar compromisso com um lorde riquíssimo. Poderia enrolar esse casamento por até mais de um ano. Sabia que no fundo não iria fazer isso com o pobre coitado do Darcy. Manteria o fingimento por algumas semanas, meses no máximo, e depois fingiria estar extremamente desolada quando os dois terminassem porque chegaram à conclusão que não eram compatíveis. Depois disso procuraria outro plano, mas resolveria esse problema quando chegasse a hora. Estava tudo orquestrado em sua mente, só faltava a peça chave concordar.

O dia passou sem muitos problemas. Darcy pareceu relaxar depois que acostumou com o frenesi que era a família Benedito e quando isso aconteceu ele passou a mão pela cintura de Elisa e puxou ela para perto. Ela encostou a cabeça no peito dele e sorriu quando Cecilia olhou para os dois com olhos carinhosos. Mal podia esperar pela reação da irmã quando descobrisse que era tudo mentira. No mais, Cecilia e Jane pareciam estar encantadas com o namorado da irmã mais velha. Jane até mesmo comentou que estava surpresa com quanto ele era bom com as palavras já que Camilo fez parecer que ele não saberia se apresentar sem causar uma confusão. Todos riram da sinceridade da menina loira, especialmente Elisabeta ao lembrar da troca de farpas que ocorrera na manhã e constatar que Camilo estava certo. Mariana permaneceu um pouco desconfiada apesar de seu coração ter amolecido com a promessa do livro e Lidia não teceu comentários, o que já era uma vitória. Ofélia estava em êxtase e Felisberto estava... quieto.

O sol começava a se pôr quando Darcy levantou e anunciou que deveria ir. As irmãs e a mãe deram um abraço apertado nele e Felisberto apertou sua mão mais forte que o necessário. Elisa já estava acompanhando Darcy para a soleira da porta quando o pai pediu uma palavrinha.

“Te espero lá fora,” Darcy prometeu e fechou a porta atrás de si.

Ela se aproximou cautelosa da porta do escritório do pai. “Pois não, papai?”

Felisberto tirou os óculos e coçou a testa. Estava irritado, sem dúvida. “Minha filha, eu vou ser direto. Não há motivo no mundo para que eu não seja. Então eu devo te dizer que não aprovo esse relacionamento.”

O queixo de Elisabeta foi no chão. Não era possível que esse teatro não resultaria em nada positivo.

“Como assim? Por que não?”

“Essa história toda de namoro escondido não me faz pensar coisas muito boas sobre a honra desse rapaz!”

“Papai, ele estava na Inglaterra! Não havia modo algum de vocês o conhecerem pessoalmente. E todo o relacionamento ficou escondido porque eu insisti! Mesmo nos conhecendo apenas por cartas ele sempre quis que tudo fosse oficial. Eu que o contrariei e o senhor sabe o quão difícil é falar não para mim”, ela mentiu sem esforço e Felisberto ponderou.

“Mesmo?”

Ela concordou rapidamente com a cabeça.

“Bom, isso já me deixa mais tranquilo.”

Ela suspirou aliviada.

“Mas”, ele continuou, “isso não significa que não vou dizer umas verdades para você”, ele levantou e se aproximou da filha tomando suas duas mãos nas deles. “Eu sei que sua mãe te pressiona frequentemente e isso coloca um peso nas suas costas que eu imagino que deva ser insuportável. Isso não significa que ela te ame menos ou que espera mais de você do que das outras irmãs. Significa apenas que ela se importa o suficiente para querer que você tenha uma vida plena e completa. Que nunca te falte nada. Mas isso não pode ser um fator para você querer apressar um casamento apenas para se ver livre das imposições de dona Ofélia. Lembre-se sempre: o dinheiro se esvai, o amor não.”

Elisa sentiu as lágrimas queimando no fundo dos olhos. Nunca fora uma mulher muito romântica como era sua irmã Cecilia. Na verdade, não era nem um pouco romântica mas isso não significava que ficaria feliz em se encontrar presa num casamento de conveniência. Sonhava em encontrar o amor mas haviam coisas mais importantes na sua lista de prioridades. E agora se via fazendo caminhos turvos para se esquivar de anseios que nem mesmo eram dela.

“Eu o amo, papai”, ela mentiu e sentiu uma lágrima escorrer. “Mais do que tudo.”

Felisberto sorriu satisfeito. “Espero que essas lágrimas sejam de felicidade”

“Elas são.”

“Bom, sendo assim, eu ordeno que você lave o seu rosto e vá despedir do seu namorado.”

Quando apareceu do lado de fora da casa, Elisabeta já estava mais composta mas seus olhos ainda estavam avermelhados e inchados. Darcy estava de costas para ela brincando com Tornado e ao escutar seus pés tocando a escada ele riu.

“Então sua mãe é obcecada por casamento?”

Uma risada sem graça escapou de seus lábios e isso fez com que ele virasse. Franziu o cenho quando percebeu que ela havia chorado. Não sabia lidar muito bem com emoções exacerbadas.

“Aconteceu alguma coisa?”, ele indagou, preocupado.

Ela negou com a cabeça e suspirou. “Peço desculpas por ter te jogado para o meio dessa bagunça. Em minha defesa, o senhor nunca questionou qual era meu pedido e pareceu muito ávido em cumpri-lo seja lá qual fosse”

“É porque eu não imaginava que a senhorita fosse me pedir para fazer uma loucura dessas!”

“Seja bem-vindo à família Benedito”, ela sorriu. “Aqui temos loucura como um sobrenome oculto. Espero que minha família não tenha te intrigado muito.”

“Não tanto quanto você me intriga”, ele confessou.

“Mesmo?”

Ele concordou, resignado. “Por favor, me conte melhor essa história.”

“Não tem muito o que dizer além do que você já pôde presumir.” Elisa puxou algumas folhas da árvore mais próxima e estendeu para que Tornado pudesse comer. Darcy fez o mesmo e ela achou fofo que ele estivesse sendo agradável com seu cavalo. “Minha mãe sempre está pronta para lembrar a extrema necessidade das filhas se casarem com homens de posses e hoje em especial ela resolveu decretar a minha sentença. Até o final do ano eu deveria estar casada.”

“Sinto muito que tem que ser assim para vocês”, ele disse e parecia sincero.

“Eu também. Mas de verdade,” Elisa começou e segurou as mãos dele para que ele parasse e pudesse olhar nos olhos dela. Seu pai sempre falava que a verdade estava escondida nos olhos de uma pessoa e ela acreditava veementemente no ditado, “eu realmente sinto muito por ter te colocado nessa situação. Foi um impulso. Um ato de rebeldia sem pensar. E eu entenderei perfeitamente se você não quiser continuar com essa história absurda. Aliás eu devo lhe avisar que essa farsa permanecerá apenas por algumas semanas, apenas até que mamãe esqueça que ela está desesperada para me casar. Agora se você decidir que não pode continuar com esse teatro eu peço, por favor, em nome da minha honra, espere alguns dias até que eu possa contar a verdade para os meus pais.”

Darcy estava admirado e assustado que o cérebro da moça pudesse funcionar dessa maneira tão bizarra e ao mesmo tempo tão fascinante. Nada sobre o raciocínio de Elisabeta fazia sentido mas ao escuta-la explicar seus motivos tudo se organizou e pareceu bastante lógico.

“Eu não me importo”, ele decidiu por fim.

“Tem certeza?”

“Sim. Eu já estava crente que esse Vale seria entediante demais para mim, talvez você seja a aventura que eu preciso e mereço.”

Elisabeta ficou indignada. “Você realmente não consegue elogiar alguma coisa sem ofendê-la não é mesmo?”

“O que eu disse?”, Darcy se sobressaltou.

A menina revirou os olhos. “Deixa pra lá. Agradeço muito que o senhor concorde com mais umas das minhas insanidades. Mas acho que devemos reservar um dia para conversar e colocar nossa história em dia. Não podemos correr o risco de entregar nossa farsa porque você não sabe qual é minha cor favorita.”

“Qual é sua cor favorita?”

“Vermelho. E a sua?”

“Muda a cada dia”

“Qual seria a cor de hoje?”

Ele deu um sorriso torto que gritava sarcasmo. “Vermelho.”

Elisabeta empurrou seu peito de leve e ele riu. Era a primeira vez que ele realmente havia rido desde que o conhecera e ela decidiu que ele ficava mais bonito quando fazia isso. Não que ela fosse admitir em voz alta.

“Enfim. Além disso temos as questões das cartas. Se eu estivesse realmente apaixonada eu iria guardar todas as cartas para mim, então acho que deveremos forjar algumas para manter a veracidade da história.”

“Eu posso te escrever algumas cartas e você pode me responder”, ele sugeriu.

“Não há tempo para isso”, ela dispensou o comentário. “As cartas não precisam ser sobre nossos pensamentos reais. Apenas precisam ser coesas com o que já foi dito.”

Ele bufou. “Você vai me deixar tomar alguma decisão nessa história?”

“Você tem alguma sugestão relevante?”, ela indagou com a sobrancelha levantada. Darcy pensou por alguns segundos e acabou negando com a cabeça. Elisa sorriu amarga e concluiu: “Então não!”

O namorado balançou a cabeça resignado. “Tudo bem faremos do seu jeito. Mas agora devo ir, perdi o dia inteiro de trabalho.”

Elisabeta respirou fundo e conteve a vontade de dar uns tapas em sua própria testa. Tinha esquecido completamente do contexto que haviam se conhecido. Darcy percebeu sua reação e sorriu. “Não se preocupe. Eu me diverti bem mais aqui do que lá. Aliás, já que estamos trocando favores, acho que é sua vez de me conceder um desses.”

Ela concordou com a cabeça.

“Posso voltar com Tornado?”

A menina jogou as folhas no chão e olhou para ele como se ele tivesse perguntado se a Terra era redonda.

“Óbvio que não! Está ficando louco?”

“Qual o problema? Ele claramente gosta de mim”, ele argumentou deixando explícito pois Tornado comia as folhas tranquilamente em suas mãos, “e, caso a sua idade avançada esteja atrapalhando sua memória, eu devo lembrar que foi a senhorita que me proibiu de usar o automóvel.”

Elisabeta nunca fora uma pessoa agressiva. Mas naquele momento queria dar um bom empurrão em Darcy para que ele caísse no chiqueiro junto com os porcos. Percebeu que gostava mais da sua personalidade quando ele estava tímido e constrangido, não quando ele se sentia confiante o suficiente para fazer troça dela.

“O senhor é um grosso!”

“E a senhorita é completamente maluca!”, ele retrucou sorrindo. Elisa bufou.

“Tudo bem, o senhor pode pegar o Tornado mas apenas porque eu realmente te proibi de vir de automóvel e ele por algum distúrbio mental gosta de você”, ela respondeu dando uns tapinhas no cavalo. Fora traída pelo melhor amigo.

“Ótimo”, ele respondeu enquanto soltava o cavalo da cela que estava preso. “Isso me dá uma desculpa para voltar amanhã e te ver.”

Ela revirou os olhos e fez uma careta. Para um lorde inglês ele poderia ser bem brega.

Darcy puxou o cavalo e Elisa olhou no fundo dos olhos de Tornado mandando uma mensagem silenciosa de reprovação para seu amigo animal.

“Sabe, eu estive pensando”, Darcy se aproximou e se apoiou na cela ao lado, toda sua altura fazendo sombra em Elisabeta.

“O que?”, ela questionou.

“Acho que como seu namorado... seria...” ele olhou para os céus como que pedisse ajuda com as palavras. Encontrou alguma escrita nas nuvens e sorriu, “prudente... que eu te desse um beijo de despedida.”

Ela semicerrou os olhos e sacudiu a cabeça.

“Talvez seu pequeno cérebro não tenha compreendido, mas nós não somos namorados de verdade. Estamos fingindo.”

“Bom, nesse caso talvez eu deva roubar um beijo seu.”

“Você não ousaria.”

“Você não me conhece.”

Ela sentiu a boca ficar seca porque era verdade. Realmente não o conhecia.

“Pois desista porque eu não vou te beijar. Pode tirar seu cavalinho da chuva.”

Ele olhou confuso pra o céu. “Está chovendo?”

Elisa não conteve a gargalhada que escapuliu dos seus lábios. “Não! É uma expressão! Agora vá embora daqui porque eu não estou aguentando mais ver o seu rosto.”

Darcy sorriu e montou na garupa de Tornado. Se aproximou dela e tirou uma folhinha que havia grudado em seu cabelo.

“Até amanhã, namorada”, ele despediu e saiu galopando.

Ela não teve tempo de responder porque sua mente só pensava que talvez ela não acharia tão ruim se ele tivesse sido ousado o suficiente para beijá-la.

Notas finais
Num nível de shipper Darlisa, quem é você: Cecília ou Tornado?