Play Me Like a Violin

3 0.2. Um Dueto Perfeito


Notas iniciais
Olá, novamente!!! Bom, resolvi dividi o que seria um único capítulo em dois, porque achei que funcionaria melhor dessa forma. Espero que gostem! ♥

{um dueto perfeito}

Havia algo sobre a expectativa que nunca agradou Astoria Greengrass. A garota sempre detestara aquele misto de ansiedade, empolgação, esperança e medo que se embrulhava em seu estômago. Sempre detestara a espera. Talvez fosse fruto de uma vida inteira esperando pela tempestade. Afinal se houve algo que aprendeu desde cedo foi que, em sua família, ela sempre viria – com a instabilidade da mãe, a rebeldia da irmã e o caráter questionável do pai, a menina passara boa parte da infância esperando que algo ruim acontecesse. Talvez fosse o fato de ter escolhido uma profissão que a forçava a aguardar constantemente pelo próximo espetáculo. Gostava do show e de ser vista, a espera, no entanto, era sempre uma irritante agonia. Talvez fosse apenas sua natureza inquieta. O fato era que Astoria odiava esperar pelo que quer que fosse.

Havia esperado que Draco Malfoy aparecesse naquela noite. Durante o dia, confirmara a história que ele lhe contara com o senhor Fawley, então se convencera de que o veria novamente. O rapaz, porém, nunca viera. Não era como se estivesse incomodada com a ausência ou como se quisesse vê-lo novamente, era apenas que não gostava de ser surpreendida – especialmente em momentos tão íntimos quanto aqueles que compartilhava apenas com seu violino e um teatro vazio. Não gostava de ser vista de forma tão frágil. De ser pega de surpresa sem a chance de se defender e levantar suas muralhas. Esperar que Malfoy aparecesse era a coisa mais cautelosa a ser feita. Irritante, é claro, porém necessária. Ela esperou por ele noite após noite. Draco, no entanto, continuara a decepcioná-la.

Havia se passado quase dois meses, quando viu o rapaz novamente. Ele não aplaudiu daquela vez. Apenas a observou em silêncio, congelado junto a uma poltrona vermelha. Uma estátua de mármore em um suéter cinza e em graça. Astoria o encarou por um longo minuto. Draco a encarou de volta.

— Você é muito boa — ele, por fim, quebrou o silêncio.

— Eu sei — ela respondeu com a verdade, porque sempre odiara falsa modéstia. Além disso, não estava com vontade de ser simpática. Um almoço com o pai e a irmã havia acabado com qualquer vestígio de bom humor que pudesse existir dentro dela. Não sabia o motivo de ainda se dar ao trabalho de frequentar aquele tipo de evento, nunca fora próxima do pai e Daphne parecia estar sempre envolvida em uma nova confusão. Era patológica a necessidade de atenção da primogênita. Uma vozinha irritante soou em sua cabeça a lembrando que ela mesma amava os aplausos e que havia escolhido passar a vida em um palco como profissão. A recordou também de que sempre fora a filha favorita da mãe e que o pai só amava a si mesmo e o legado de seu sobrenome. Para Daphne não sobrara quase nenhum amor, então talvez ela estivesse sendo injusta com a irmã. Esse pensamento, entretanto, a irritou ainda mais. — A maioria das pessoas compra ingressos para me ver tocar. Ingressos muito caros.

Draco quase sorriu. Era estranho como ele fazia aquele meio movimento com os lábios.

— Não sou do tipo de pessoa que frequenta teatros ou assiste a concertos. — ele disse de forma calma. Segurava cuidadosamente uma caixa marrom, ela acabara de perceber.

— Tem algo contra arte, música e cultura?

Dessa vez ele riu.

— Pelo contrário, sou um entusiasta da arte, da música e da cultura. É das pessoas que não gosto.

— Todas as pessoas? — Astoria questionou apenas para irritá-lo.

— No momento? Sim, todas as pessoas. Detesto cada uma delas.

Estranhamente Astoria conseguia se identificar com tal sentimento. Naquele noite, explodiria o mundo inteiro se pudesse. Não era um mundo muito bom, de qualquer forma.

— Eu também. — ela deu de ombros — Mas não estou no melhor dos meus humores hoje. — ela não sabia o motivo de continuar falando. Aquilo não dizia respeito ao Malfoy.

— Sim, deu para perceber.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Como?

— Sua música. Havia raiva na forma como você tocou.

— Você é um especialista por acaso?

— Não, mas sei o que ouvi.

Aquilo a fez bufar, enquanto raiva crescia em seu peito. Não gostava da forma como ele lia sua música.

— Você não tem uma entrega para fazer, Malfoy? Não pode fazer isso de uma vez e apenas me deixar tocar em paz?

Draco sorriu suavemente. Devia ter percebido que tocara em algum ponto sensível. Idiota!

— Como quiser, Greengrass. Tenha uma boa noite. — disse se dirigindo ao andar dos escritórios.

Astoria duvidava que seria boa.

.

.

— Qual a sua fixação com entregas estranhas ao fim da noite, afinal? — Astoria questionou na terceira vez que se encontrou com Draco. Algumas semanas haviam se passado após o segundo encontro. Ela estava quase de bom humor naquele dia — Não acha um tanto bizarro?

— Pensei que você tivesse perguntando ao senhor Fawley sobre isso. — o Malfoy respondeu sem se abalar. A caixa que trazia dessa vez era bem grande e a moça não conseguiu não se perguntar o que haveria ali dentro.

— Perguntei. Ele me confirmou que você estava resgatando peças antigas do teatro e que as entregava durante a noite, mas não explicou seus motivos.

— Talvez porque meus motivos não lhe digam respeito, senhorita Greengrass. — apesar das palavras, a resposta não soou rude. Era apenas um fato sendo pontuado.

Astoria sorriu.

— De fato, seus motivos não me dizem respeito. Mas isso não impede a minha curiosidade, senhor Malfoy.

— Suponho que não. Suponho também que eu tenha o direito de ficar curioso ao seu respeito. Não acha bizarro tocar para um teatro vazio?

— Eu perguntei primeiro, Malfoy.

— Eu sei. E irei responder primeiro, se houver alguma garantia de que conseguirei a resposta para sanar a minha curiosidade. — ele sorriu de lado e Astoria foi acometida pela percepção súbita de que Draco Malfoy era bastante charmoso. Não bonito, embora a beleza do homem fosse inegável, mas charmoso. Havia uma diferença e ela importava.

— Tudo bem. Prometo que se, e somente se, a sua resposta para minha pergunta for satisfatória, responderei a sua. — ela disse solenemente.

— Aceito esse acordo.

— Então…?

Draco suspirou, depositando cuidadosamente a caixa grande aos seus pés.

— Estou apenas tentando evitar pessoas. Nos meus planos, encontraria o teatro vazio e poderia entregar o que precisa ser entregue e evitar olhares e comentários hostis. Não era muito agradável vir aqui durante o dia. Acho que não preciso te dizer que, no momento, não sou exatamente uma figura bem quista entre os bruxos.

Isso realmente não era nenhuma novidade, Astoria apenas não imaginara que fosse algo que o afetasse tanto. Refletindo sobre isso agora, percebia que fora tola ou que apenas não se dera ao trabalho de passar muito tempo considerando os sentimentos de Malfoy. Era claro que o afetava. Quem não se afetaria pelo escrutínio público?

— E esse é o momento em que você pontua que eu bem mereço toda essa hostilidade. Na verdade, que mereço coisa pior. — Draco disse seco.

Astoria ergueu o queixo, não gostava que fizessem sugestões sobre seus pensamentos ou suas palavras. Gostava menos ainda que fossem considerações tão genéricas. Algo que se aplicaria a qualquer pessoa no mundo.

— Talvez mereça, mas não é o que estou pensando e definitivamente não é o que iria dizer.

— O que você iria dizer? — os olhos cinzentos brilharam com algo que parecia esperança.

— Se você busca absolvição, Malfoy, não é comigo que vai conseguir. Não sou trouxa, nascida-trouxa ou mestiça, minha vida nunca esteve ameaçada. Nunca sofri qualquer preconceito pelo meu status de sangue. Não cabe a mim te perdoar. Ainda assim, minha família não teve qualquer envolvimento na guerra. Não tenho parentes ou amigos em Azkaban, punidos pelo crime do qual você foi absolvido. Logo, não carrego qualquer ressentimento contra você ou qualquer outro Malfoy. Honestamente, acho que não poderia ter encontrado ninguém mais indiferente a sua figura no mundo bruxo. Não fossem suas constantes aparições, atrapalhando meus ensaios particulares, sequer me importaria com a sua existência. Jamais pensei muito sobre você ou sobre o que poderia sentir. Era nisso que eu estava pensando.

— É bom o suficiente, suponho. — ele ficou em silêncio por um tempo, refletindo sobre alguma coisa. — Agora você me deve uma resposta, Greengrass.

Foi a vez de Astoria respirar fundo.

— Apenas gosto de ficar sozinha e ter paz e liberdade para tocar. Me perder em um momento de música pela música. Sem ter que seguir partituras ou impressionar alguém. — ela deu de ombros — Não há nenhum grande mistério aqui, Malfoy.

— Você não pode tocar sozinha em casa?

— Posso, é claro. Mas acho que sempre me senti mais em casa nesse teatro do que em qualquer outro lugar.

— Você é uma mulher estranha, Astoria Greengrass.

— Bom, você é um homem estranho, Draco Malfoy.

— Suponho que os iguais se reconheçam.

— Suponho que sim.

Os dois sorriram um para o outro e logo depois se despediram. Não havia mais nada a ser dito naquela noite.

— Por que antiguidades? — Astoria questionou, enquanto se sentava em uma poltrona carmesim.

Era a quarta vez que ela e Draco se encontravam e a moça estava começando a achar estranho conversar com ele à distância. É claro que, pensando sobre isso, sequer precisava conversar com o Malfoy. Ainda assim, era algo que, por algum motivo que não conseguia nomear, ela queria fazer. Astoria não era do tipo que gostava de conversar com quem quer que fosse. A música do violino era a única quebra de silêncio que considerava aceitável. Draco Malfoy, no entanto, era uma criatura peculiar e estaria mentindo se dissesse que ele não a instigava e mexia com seu lado curioso. Sendo assim, a moça finalmente desceu de seu pedestal, ou melhor, de seu palco, e caminhou até o rapaz.

— Como assim? — ele perguntou, se sentando ao lado dela.

— Por que, de todas as coisas que você poderia ter escolhido para dedicar seu tempo, você escolheu perseguir antiguidades roubadas de um velho teatro?

Draco deu de ombros.

— Eu gosto de antiguidades.

— Isso deu para perceber. Mas por quê?

— Você é sempre cheia das perguntas, não é, Greengrass?

— Astoria. Prefiro Astoria, se você não se importar. — ela não gostava muito do sobrenome. Ou melhor, dos fantasmas que ele carregava.

— Nesse caso, prefiro que me chame de Draco, Astoria.

— Sim, Draco, sou cheia das perguntas. A curiosidade é certamente um dos meus pecados.

— Há pecados piores para se cultivar. — ele pontuou com um meio sorriso.

— Ah, mas eu nunca disse que era meu único pecado.

Os dois riram e os sons das risadas se misturando foi surpreendentemente reconfortante.

— Acho que sempre gostei de coisas antigas. — Draco começou a lhe responder — Haviam muitas na minha casa. Algumas delas de origem duvidosa ou embebidas de magia sombria, é verdade, mas isso não costumava ser uma questão para mim. O que importava era que elas me fascinavam, me intrigavam. Depois da guerra passaram a me instigar ainda mais. Não sei explicar, mas a ideia de como algumas coisas podem ficar congeladas no tempo, presas ao passado, mesmo quando o mundo seguiu em frente, mexeu comigo.

Astoria conseguia entender o apelo.

— Então, comecei uma coleção. — o rapaz continuou — Tinha tempo e dinheiro de sobra para isso. Acabei encontrando algumas peças roubadas desse teatro, sem querer. Não havia motivo para não devolvê-las. O senhor Fawley foi bastante gentil comigo e me questionou se eu não queria trabalhar para ele, buscando as outras relíquias perdidas. Me pareceu um desafio. Uma chance de fazer alguma coisa boa, só para variar. De encontrar um propósito. Acabei aceitando e aqui estamos.

— É uma boa história, Draco.

— E qual a sua história, Astoria? — ele indagou, a olhando profundamente. Intensidade faiscando em seus olhos cinzentos.

— A minha história?

— Por que o violino?

Ela suspirou. Não gostava de falar sobre o assunto, mas não seria justo ocultar sua história, após o Malfoy ter aberto a dele.

— Por causa da minha mãe, eu acho. Ela tocava. Não para uma grande plateia ou qualquer coisa parecida. Apenas em casa, mas a música dela marcou a minha infância inteira. Talvez a minha vida inteira. Foi ela quem me ensinou a tocar.

— Ela deve estar orgulhosa de você. Sabe, a primeira violinista de uma orquestra e tudo mais.

— Ela morreu há dois anos. Antes mesmo de eu conseguir esse emprego. Nunca me viu tocar para uma plateia. — ainda doía dizer aquilo em voz alta.

— Oh, sinto muito! — Draco se apressou em dizer, o rosto pálido se tornando escarlate. — Eu não sabia.

— Tudo bem. Não é sua culpa.

— Eu não devia ter tocado no assunto.

— Nah, fui eu que comecei. Está realmente tudo bem, Draco. Quer dizer, é uma droga que tenha acontecido, mas ainda seria uma droga mesmo se eu não falasse sobre o assunto. De qualquer forma, é por causa dela que eu estou aqui, tocando todas as noites para uma grande plateia da forma como ela nunca pode. Tentando ser tudo o que ela nunca foi.

Era verdade e também uma mentira. Astoria estava tentando ser tudo o que a mãe nunca fora, não como uma forma de homenagem, mas como um modo de se afastar do fantasma que a assombrava diariamente. O problema era que, embora encarasse os holofotes todas as noites, seu brilho era uma farsa e era apenas nas sombras de um teatro vazio que tocava sua verdadeira música. A música que não ousava deixar ninguém mais escutar.

Bom, ninguém além de Draco Malfoy. O rapaz havia se infiltrado em suas trincheiras e era o único que já havia visto qualquer vislumbre de seu lado mais vulnerável. Em sua defesa, ele também já havia lhe mostrado alguns fragmentos de fragilidade. Havia um lado de Astoria que queria afastá-lo. O outro, aquele que vivia com medo de ter o mesmo destino da mãe e estava exausto da solidão, queria que ele se aproximasse.

— Você acha que estamos destinados a nos tornar nossos pais? — Astoria indagou, antes que Draco pudesse quebrar o silêncio. O silêncio que, pela primeira vez, se mostrara desconfortável.

— Merlin, espero que não. A última coisa que eu quero é me tornar os meus pais. Especialmente o meu pai.

— E eu definitivamente não quero me tornar a minha mãe ou o meu pai, mas às vezes acho que, apesar de todas as minhas tentativas, é o que vai acontecer. Não de uma forma óbvia ou idêntica. De um modo mais sutil. Como se pegar estradas diferentes não fosse suficiente e, no fim das contas, o destino final acabará sendo o mesmo. Faz sentido?

— Por Merlin, Astoria, até faz, mas não acho que consigo ter essa conversa sóbrio.

Ela riu.

— Honestamente? Eu também não.

Draco a olhou por um breve segundo. Abriu a boca, mas a fechou sem dizer nada. Pareceu ponderar uma ideia. A observou um pouco mais, então disse:

— Quer sair para beber algo e continuar essa conversa?

Foi a vez de Astoria o encarar atônita. Não estava esperando por um convite e, se fosse honesta, já nem se lembrava da última vez em que havia saído para beber com amigos. Não que ela e Draco fossem amigos. Os dois não se conheciam há muito tempo e sabiam muito pouco um sobre o outro. Mas isso não precisava permanecer dessa forma. Talvez pudessem se tornar amigos. Talvez fosse uma boa ideia. A outra opção era continuar sozinha em um cômodo grande e vazio, se agarrando a mais triste das melodias. Como a mãe fizera por toda a vida.

— Eu adoraria. — ela disse.

Draco sorriu para Astoria e Astoria sorriu para Draco. Talvez ele pudesse ouvir a música dela. Talvez ela pudesse ouvir a música dele. E quem sabe um dia, eles pudessem até mesmo compor um dueto juntos. A ideia não lhe parecia de todo ruim. Na verdade, não lhe parecia nada ruim.

Notas finais
Ultimamente tenho gostado bastante de finais abertos e romances que terminam na promessa de um romance e não em um relacionamento em si. Sei que não agrada todo mundo, mas tem funcionado para mim haha Enfim, espero que tenham gostado! ♥ Beijinhos, Thaís