Notas iniciais
Entãoo vamos a mais um cap

Eu realmente achava que minha barriga não poderia ficar maior. Pelo menos tinha a esperança de que eu não fosse ficar mais inchada. Eu sabia que ia ficar assim, mas vivenciar o momento é uma coisa totalmente diferente. Não me sinto gorda. Me sinto como se alguém tivesse posto uma bomba dentro da minha barriga e ela tivesse explodido lá dentro. Bom, isso não aconteceu, mas ela definitivamente cresceu.

Acordei hoje de madrugada na cachoeira e precisei de alguns segundos para me lembrar onde estava. Todos esses meses aqui parecem um sonho. Um pesadelo no caso. Eu já estava com quase oito meses e eu não sabia o que fazer. Nem mesmo a palavra desespero se aplica a esse momento. Já havia se passado tanto tempo que eu nem mais sabia o que era viver do lado de fora dessa ilha. Não que eu tenha virado uma selvagem que nunca viu o mundo como ele realmente é, eu não virei. Mas agora eu não consigo mais sentir o gosto do café ou da torta de morango. No começo, meus pensamentos do mundo ao redor era o que me mantinha sã. O pensamento das coisas que eu gosto, mas agora eu não me lembro nem deles, e isso me assusta.

Alex vive me dizendo que eu tenho que descansar. Ele praticamente não me deixa sair da minha cama, e se eu tentar sair escondida durante a noite, ele está dormindo ao meu lado para não permitir que isso aconteça. Eu sou grata por tudo o que ele tem feito, sei que ele só quer me ajudar, mas não deixa de ser cansativo. Para mim e para ele. Não é como se alguma coisa fosse acontecer. Mas essa noite especificamente, alguma coisa aconteceu. Eu acordei suando frio, primeiro achei que fosse só um sonho que eu não me lembrava, mas foi diferente. Mesmo depois de me acalmar, me sentia diferente. Então tentei fazer exatamente o que Alex me manda não fazer. Sair escondida durante a noite.

Com delicadeza possível, dou a volta na caverna e, em passos leves, ando em direção da água, com cuidado para não acordar Alex. Tenho certeza que ele me mataria se soubesse o que estou fazendo. Eu só quero lavar o meu rosto. Eu suava mais do que o normal e pensei que poderia ser o calor, então uma água gelada não faria nada mal. Me sento no fim da pedra e observo as cascatas caindo no lago. Ergo minha mão e a água fria me acorda. Respiro fundo várias vezes na tentativa de relaxar e voltar a dormir, mas sinto essa pontada na minha barriga. Me encolho enquanto sinto a dor se espalhar. Então, quando acho que não poderia piorar, vem outra. Seguida de mais uma, e várias mais. De todos os momentos possíveis para isso acontecer, tinha que ser agora? Isso não pode estar acontecendo agora, não pode!

_Alex!- eu grito e ele pula de susto, claramente alerto.- Alex!- grito de novo e ele então percebe que não estou ao seu lado.

_Você está bem?- ele me pergunta desesperado assim que chega até mim.

_Não. Acho que chegou a hora.-digo séria e ele me não entende por um momento.

_Ai meu deus!- ele grita.- E agora? O que fazemos?- ele me pergunta e começa a andar de um lado para o outro e a colocar a mão no cabelo, sem saber o que fazer.

_Alex...- eu sussurro de cabeça baixa e ele parece não me ouvir.

_Eu não sei o que fazer.- ele diz assim que desiste de andar por aí. Eu também não sei o que fazer, também estou apavorada.

_Primeiro me ajuda aqui.- eu digo e estendo minha mão para que ele pegue e me levante.

_Tudo bem. Vamos.- ele diz incentivado e sai correndo, me deixando sozinha sentada na caverna. Quando se é com Alex, eu devo esperar de tudo. Reviro os olhos.

_Alex!- grito para que ele volte.

_Desculpa! Eu só tô nervoso.- ele diz tímido.- Vamos, respira fundo.- ele pede e eu faço.

A cada segundo as pontadas ficam mais fortes, cada vez mais dolorosas. Sempre acho que irei desabar, que não vou conseguir aguentar mais, mas Alex fica ali para não me deixar desistir. Eu não havia dado nem mesmo o primeiro passo e a dor já era insuportável. Tudo se passava como um borrão. Eu sabia que Alex estava do meu lado pela sua voz, mas eu não o via. O suor agora já é tanto que eu me sinto na água. Tudo acontece tão lentamente e dolorosamente, que me impressiono de ainda estar consciente.

Alex está muito claramente, mais nervoso do que eu.

_Achei que seu treinamento de soldado tivesse te preparado para tudo.- eu digo brincando, mas ele me olha assutado.

_Tem razão. Quando sair daqui, a primeira coisa que vou fazer é ensinar meus colegas a fazer um parto.- ele diz e volta a ficar desesperado enquanto tenta me levar de volta para a cama. Tenho dificuldade em notar a ironia em sua voz. Fico sem saber se ele disse isso entrando na brincadeira, ou se ele realmente está falando sério.

A pequena caminhada parece não terminar nunca. Cada passo é uma tortura pior do que a outra. Ao chegarmos, ele me deita na cama de folhas e com cuidado deita ao meu lado. Sinto um alívio temporário. A dor ainda é forte, mas agora é suportável.

_Como está?

_Um pouco melhor. As dores pararam... Eu acho.- respondo incerta.

_Quer água?

_Não, obrigada. Quero respirar antes que Ahhhhhh!- eu começo a dizer mais a dor me interrompe. Muito mais intensa e forte do que todas as outras vezes. Tenho certeza que meu grito poderia ter sido ouvido de muito longe.

_O que vamos fazer?- ele pergunta sem saber o que fazer.- O QUE EU FAÇO?- Ele se desespera.- Calma, respira fundo.- ele diz.

_Mas eu estou calma.- respondo

_Estou falando de mim.- ele diz e volta para suas respirações na tentativa de se acalmar, e aos poucos está inteiro.

As contrações não param e continuo com dor. Não adianta nem perguntar o que devo fazer, Alex está pior do que eu.

_Isso não para?- pergunta assustado- Como vou te ajudar?

_Eu vi o parto do Gerard- começo a explicar o que vamos fazer- Lave as mãos, vai buscar água e panos limpos.- eu digo, ele assente e depois sai correndo.- Não se esquece de uma faca!- grito depois coma esperança de que ele tenha escutado.

Tento me manter calma nos poucos segundos em que Alex está fora. Me entretenha com a visão que provavelmente está acontecendo nas matas. Um Alex, desesperado e desajeitado tropeçando em todos os galhos possíveis, escorregando em todas as poças de lama enquanto tenta ao máximo manter os panos limpos. As dores começam a aumentar e eu começo a me preocupar. Alex não voltou ainda e eu estou sozinha.

_Cheguei!- ele grita da porta da caverna enquanto corre em minha direção- tive alguns problemas no caminho- ele diz e olha para sua roupa enlameada- mas o pano e a mão continuam limpos.- termina orgulhoso de si mesmo.- Você está bem?

_Estou ótima- digo irônica e sorrindo- Dar a luz está sendo uma experiência incrível!

_Sério?- ele me pergunta como se eu fosse louca.

_Claro que não!- grito irritada e o lanço um olhar de fúria.

_Me desculpa, estou nervoso.- ele constata. Como se ninguém tivesse reparado nisso.

Ele começa a enxugar meu rosto com os panos, mas é quase que inútil. Estou suando tanto que quando ele termina de secar minha testa, o resto do meu rosto já está encharcado novamente. Alex bota uma mochila e me deita, sem antes prender meu cabelo. Porque higiene conta muito aqui. Ele tira minhas roupas e senta entre minhas pernas e eu com certeza teria ficado constrangida se a dor não fosse tanta.

_Tem um troço saindo.- ele diz com cara de nojo e eu me desespero. As contrações estão cada vez mais fortes.

_Está chamando meu filho de troço?- eu grito raivosa pra ele que se assusta com minha atitude.

_Você tem que empurrar!- ele diz ainda receoso com meu humor. Eu nunca senti tanta dor na minha vida. Eu consigo sentir meus braços moles, a energia se esvaindo do meu corpo. Eu não tenho forças para isso.

_Não dá mais, eu não consigo.- digo e começo a chorar.

_Você consegue sim! Falta pouco!

Então tudo o que me lembro é da dor. Como jamais senti. E depois, o choro.

_É uma menina.- Alex diz com uma mistura de admiração e de susto, ainda não acreditando que isso realmente acabou de acontecer.

Estou fraca, quase não consigo ver um palmo na frente. Meu cabelo está nojento e isso nem se fala na dor que ainda sinto. Mas, mais ainda do que a dor, o que sinto é alivio. Alivio de que estou viva, de que minha filha está viva e que a partir de agora, as coisas realmente não podem piorar. Me forço a levantar a cabeça e quando vejo, Alex está do meu lado carregando um bebê. O que dizem sobre amor a primeira vista, não sei se estão certo. Eu já a amo, isso é certo, mas não sei, uma parte de mim achava que um recém-nascido seria mais bonitinho. Tão pequenininha. Consigo reunir forças para sorrir. Alex a coloca em meu colo enquanto ela não para de chorar.

Ele já cortou o cordão umbilical, pelo menos é o que imagino, já que ele sai andando com ela.

_Vou limpá-la. Já volto.- ele diz e sai com ela.

Depois de um tempo ele volta com ela, mas dessa fez enrolado em uma mantinha, ou o máximo de manta que conseguimos fazer aqui. Provavelmente uma camisa dele. Ele sorri igual um bobo e não tenho dúvidas de que eu também. O dia mais feliz da minha vida.

_Ela é tão linda.- ele diz enquanto a olha. Ele a deixa em meu colo por um tempo, mas o cansaço me vence.

_Preciso dormir.- digo relutante e ele segura minha filha.

_Eu cuido dela.- ele diz, me ajuda a por o vestido de volta e eu deixo que meus olhos fechem enfim.

Notas finais
até a proxima