Plane Crash
4 A ilha
Notas iniciais
Acordo com os raios de sol que invadem meus olhos. Não posso dizer que foi uma das noites mais confortáveis que tive, mas depois de tudo o que aconteceu ontem, o ombro de Alex parece a melhor coisa. Ele ainda está dormindo. Sentado e encostado no metal do avião ele dorme com a boca aberta. Ele parece uma gracinha assim. Me levanto lentamente tentando não fazer barulho e o acordar. Saio na areia e o dia não poderia estar mais bonito. O sol está nascendo e se reflete na água, agora clama, do oceano. Se fosse qualquer outra ocasião, eu adoraria o momento, mas depois de dormir poucas horas, no chão e estar com dor, meu humor por ter sido acordada seis horas da manhã não é muito bom.
Fico em silêncio por um tempo, simplesmente aproveitando o som e o calor do sol, mas rapidamente vou em direção da água. Ainda estou suja de areia, sangue e todo tipo de sujeira que se pode imaginar, sem falar que meu cabelo parece um ninho de pássaro. A água está fria.
Poderia ficar ali por muito tempo. Meus ferimentos ardem, mas isso é um bom sinal, certo? A temperatura é revigorante e imediatamente
acordo por completo. Tento limpar minhas roupas o máximo que pude, ou pelo menos o que sobrou dela.
_Acorrdou cedo.- Alex diz sonolento enquanto caminha em direção a água.
_Você devia entrar. Ajuda a acordar. Parece que está precisando.- eu digo assim que saio.
_Acho que nunca acorrdei ton cedo na minha vida.- ele se joga na água. Pego uma placa de metal qualquer, levo para a margem e me sento.
_O que devemos fazer agora?
_Porrque tem que me lembrrar.- ele resmunga- Há tanto parra se fazerr. Tenho uma lista. Pode escolherr o que fazerr primeirro.
_Comida conta como uma delas? Porque estou morrendo de fome.- digo e ele ri. Alex sai do mar e se senta ao meu lado. Ficamos assim por um tempo, esperando que o sol nos seque.
_O avion vem con un rrádio. Podemos tentarr falarr com alguém e depois prrocurramos comida.- ele sugere
—Porque demorou tanto para fazer isso?- pergunto animada e esperançosa. Se aquilo é um rádio, eu não sei mais o que é uma televisão. O aparelho parece um telefone, mais 20 vezes maior. Cheio de botões que não entendo, um fio que o conecta ao painel do avião e mais um monte de coisas elétricas que não entendo. Alex parece entender, porque clica em botões e levanta alavancas específicas. Até que uma hora eu começo a estranhar. Pode ser complicado, mas não se demora quase uma hora para ligar um rádio. Alex está irritado. Pelo jeito que se move e a tensão em seu braço, é perceptível que alguma coisa não deu certo.
_O que aconteceu? Porque não está funcionando?- eu pergunto com medo de sua resposta.
_Non está funcionando.- ele começa decepcionado- Non sei porrque. Tudo está em perrfeita orrdem.
_Já viu se tem bateria?- pergunto tentando ajudar.
—Pouca, mas tem.
_Sinal?- pergunto duvidosa e ele me olha como se eu fosse louca. Essas coisas não precisam de sinal?
_Non é possível que prrecise de sinal.- ele diz para si mesmo e volta a olhar para o aparelho. Se ele não tivesse jogado o radio na areia, ainda teria adivinhado que a resposta não foi a que ele queria.
_Prrecisa de sinal. Non faz sentido. Já é implícito que quando você sofrre um acidente de avion, non vai terr sinal no lugarr! Se forr
parra terr sinal, non faz diferrença o aparelho existir ou não.Uma raiva me sobe a cabeça, mas sei que preciso manter a calma.
_Vamos procurar comida? Porque eu com certeza não sei como fazer isso.- digo e estendo minha mão que ele pega.
—Aonde vai?- pergunto quando ele dá meia volta
_Tenho uma faca e um revólverr aqui. Vão ajudarr.
_E o que fazemos para sobreviver aqui?
_Boa perrgunta. Prrimeirro, achamos comida parra hoje e cocos parra beberr água. Já temos un pouco da chuva, mas prrecisamos de mais. Depois vasculhamos os escombrros e vemos o que pode serr aprroveitado. Fazemos un lugarr parra dormir.
_Como sabe isso tudo? -pergunto curiosa. Não é sempre que existem aulas sobre como se sobreviver em uma ilha perdida.
_Na aerronáutica. Temos que nos prreparrarr parra todas as situações.
_Que bom que você está aqui então. Que bom que ele está aqui mesmo. Passamos a manhã procurando por frutas. Subimos em árvores e conseguimos algumas coisas. Comer nunca teve um gosto tão bom.
Descansamos por um tempo e resolvemos olhar os destroços. Alex disse para procurar coisas que poderiam servir de cama, ou parede ou para se fazer uma mesa. Encontrei nossas malas e deixei perto do avião. Alex cortou os bancos do avião e fez duas camas dentro do avião, se aquilo pode ser chamado de cama. Com umas lonas e pedaços da asa, fechamos os buracos e a parte da porta que faltava. Passei horas procurando galhos secos, mas depois da chuva de ontem foi praticamente impossível. Assim que consegui fazer uma pilha razoável, Alex fez fogo. Você deve estar achando muito legal, fazer fogo através de madeira e pedras, mas as coisas não foram assim. Tinha fósforos no avião. Ainda bem, porque facilitou muito.
O dia foi ainda mais desgastante do que ontem. Andar na areia durante o dia inteiro fez todos o meus músculos morrerem.
Estava tão exausta durante a tarde que resolvemos parar por ai mesmo. Sempre ficávamos com calor, pulávamos no mar, quando nos sentíamos desidratados, bebíamos a chuva e quando ficávamos com fome, acabávamos com as frutas. Se continuarmos assim, vou perder mais peso em um dia do que perdi na minha vida inteira. Me deito em uma placa de metal perto da fogueira. Podemos estar no mediterrâneo, mas a noite ainda é friazinha.
_Acha que eles vão nos resgatar?
_Clarro que sim. Esse é o trrabalho deles. Se non nos acharrem eu mesmo os prrocesso.- ele diz em tom de brincadeira e eu rio.- Vamos ficarr bem.- Seu abraço é reconfortante e sei que enquanto ele estiver ali, vou estiver segura.
_Obrigada. Por tudo. Sei que posso não ser a melhor das pessoas para se ficar preso em uma ilha, mas você teve paciência comigo e me ensinou tudo. Não sei o que teria sido de mim sem você aqui.
_Sem eu, você non terria caido aqui.- ele diz de cabeça baixa.
_Provavelmente- ele abaixa a cabeça ainda mais.- Mas o que é a vida sem um pouco de aventura?
_Você devia descansarr. Amanhã vamos procurrar água e ajuda. Reclamo mentalmente. Amanhã será um longo dia. Deito achando que não conseguirei dormir, mas assim que minha cabeça toca o banco, tudo fica escuro.
Os reparos de ontem fizeram efeito. Acordo e ainda parece escuro. Até acho que ainda é madrugada, mas vejo que Alex não está aqui. Escuto esses sons do lado de fora e saio para ver o que está acontecendo.
_O que é isso? Há uma mesa, feita de madeira, em cima há uma grande variedade de frutas, alguns peixes já cozidos. Me surpreendo na hora. De onde ele tirou hora para fazer isso tudo? _Porque fez isso?- pergunto maravilhada
_Un agrradecimento, porr non me culparr pelo o que acontecer.
_Eu que tenho que agradecer, ficou muito legal.- digo sincera e ele sorri orgulhoso de si mesmo.
_Deve ter acordado cedo.
_Na verrdade, você acorrdou tarrde. Son quase meio dia.- ele diz e eu engasgo. Meio dia? Eu realmente estava cansada.
_E você não me acordou?
_Non quis. Você parrecia um anjinho dorrmindo.
_E para onde vamos hoje?- pergunto mudando de assunto.
_Dentro da florresta. Verr se existe outrras pessoas, encontrarr um riacho. Algo assim. Terminamos de almoçar e seguimos para a mata.
_Esperra, vai entrar descalsa?- ele pergunta como se fosse uma péssima ideia. Eu também suspeitava.
_É descalça ou de saltos? Qual acha melhor?- Tento tirar sarro da situação, mas ele me olha como se eu fosse um enigma.
_Tenho outrro sapato na minha mala. Esperra aqui. Ele sai em busca do tênis e volta pouco tempo depois. Tinha a esperança de que algum jeito não fosse ficar tão grande e desengonçado, mas minha sorte nunca é boa.
—Ficou linda- ele diz tentando não rir.
_Vou ir sem ele se não parar de rir.- eu ameaço e ele fica serio na hora. As horas demoraram para passar como nunca antes. Eu já não
aguentava mais andar, ver rochas e árvores iguais. Não tinha ideia de como Alex sabia para onde estava indo e nem como ele saberia o caminho de volta, mas resolvi dar um voto de confiança para ele e acreditar que ele poderia nos tirar de lá. Não vimos traços de civilização em
lugar nenhum e eu já tinha desistido há muito tempo. A água também não apareceu. Toda a água que tínhamos já tinha acabado, estava com sede e de mau humor. Não vimos muitos animais durante nosso trajeto. Alex ficou com sua arma em mão todo o tempo caso algo aparecesse e fosse comestível, mas nem isso aconteceu. Eu só queria parar, deitar e não levantar nunca mais. Alex continuava falando palavras de incentivo e ás vezes me empurrava para que eu conseguisse andar, mas nada conseguiu me ajuda. Já tinha desistido há muito tempo quando Alex para de andar abruptamente. Olhava para o chão e bati contra ele com força. Me levanto para tentar entender o que o fez parar quando vi a coisa mais bonita que vi desde que cheguei nesse lugar. Uma cachoeira.
A água cai em cascatas e forma um lago em baixo de um jeito tão maravilhoso que tenho certeza que chorei na hora. Uma fonte infinita de água. Faço a única coisa sensata para se fazer nesse momento. Tiro o sapato e como uma louca desengonçada, pulo na água. Congelante e insaciável. O que descreve esse milagre. Não me importo com a terra, com bichos, com nada. Simplesmente me jogo e bebo o máximo que meu corpo consegue aguentar. Nado como uma criança feliz que acaba de receber doce. Alex me olha e ri de mim do lado de fora. Nado em sua direção e estendo minha mão. Ou ele é idiota, ou achou que eu pedia ajuda para sair da água, porque assim que ele a segura, eu o puxo para o lago. Ele tem essa cara de durão, como se dissesse que se você fizer qualquer tipo de piada ao seu lado, ele não rirá. Ele tem essa cara de mau que é linda. Por isso quando o joguei na água, tinha certeza que ele ia me afogar ou algo do tipo, mas o que ele fez me impressionou mais ainda. Ele abriu um grande sorriso e começou a jogar água em mim. Exatamente como dois adolescentes. Em um passe de mágica, todo o cansaço, todo o mau humor se foi. Só conseguia pensar nos litros de água ao meu redor. Não consigo lembrar da última vez que me diverti assim. Um simples gesto que pareceu mudar tudo. E como qualquer louco feliz, resolvemos pular de cima da cachoeira. Não queria admitir que estava com medo. E se tiverem pedras lá e se eu escorregar?
_Nada vai acontecerr. É segurro. Te prrometo.- ele tenta me acalmar.- Vou prrimeirro.- ele diz e com a maior energia pula. Solto um grito e corro para a beirada, ter certeza que ele está bem. Assim que sua cabeça aparece, meu corpo tenso relaxa e sou tomada pelo alivio. Ele grita lá de baixo, não consigo ouvir direito, mas tenho certeza que tem algo a ver com “É segurro! Pode pularr. Eu te pego”. Mesmo depois
de tudo o que ele fez por mim, ainda tenho minhas dúvidas. Mas pulo. 5 segundos. 5 segundos de pavor e agonia onde só conseguia pensar que eu iria morrer. Mas assim que toquei a água gelada e percebi que ainda estava viva, me alegrei. Pode parecer estranho, mas nunca fiz nada assim. Pular de uma pedra há 10 metros do chão é o máximo de radical que já fiz na vinha na minha vida. Sinto braços fortes me puxando para cima e quando abro meu olhos, vejo o par de olhos azuis mais bonitos que já encontrei. Seu rosto está tão próximo que ele poderia me beijar. E me surpreendo mais ainda quando ele faz isso.
O beijo de Alex era bom. O lugar, o clima, tudo favorecia aquele momento para ser perfeito, e poderia ter sido se eu não tivesse me separado de seus braços. Ele me olha sem entender e eu fico sem saber o que dizer.
_Me desculpa, eu só, eu só não consigo fazer isso agora.- digo envergonhada e saio de perto. Saio da água e me sento na beira. Alex
continua na água, vai até de baixo da cachoeira e some por um tempo. Começo a ficar preocupada então pulo na água procurar por ele. De tudo o que imaginava que estava acontecendo, essa eu com certeza não adivinharia. Há uma caverna atrás da cascata. Escura o suficiente para não ser notada. Em um canto, água jorra de uma mina e escorre pela caverna inteira, até chegar em um laguinho do outro lado. Olho para o outro lado e a água caindo tampa a visão.
_Deverríamos ficarr aqui. Está escurrecendo.- ele diz e eu concordo. Entrar nessa mata de dia foi assustador, quem dirá de noite. Alex age como se o momento entre nós nunca tivesse acontecido, o que é bom em parte. Adormeço pensando em May. Ela ficará furiosa quando descobrir que rejeitei um príncipe russo.
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