Piratas
13 Finalmente livres
Notas iniciais
Calos tomou o leme e sugeri a todos que descansassem para a batalha que viria daqui á algumas horas. Dylan me deixou na cabine, com uma bandeja de comida, mas eu não estava com fome. Queria apenas descansar um pouco e quem sabe, sonhar com alguma coisa que fizesse mais sentindo do que a minha nova realidade.
No exato minuto em que deitei na cama, soube que não iria conseguir dormir. Meu corpo estava acordado demais para conseguir descansar, mesmo que fosse por apenas alguns minutos.
Dei voltas pela cabine, enquanto comia uma maçã, pesando no que diria aos Reis e Rainhas quando os visse. Talvez conta-se a verdade sobre a minha volta, ou quem sabe eles entenderiam sem mesmo perguntar. Imagino que possamos ser de mais alguma ajuda. Afinal, estávamos do outro lado até alguns dias.
Passado uma hora, comecei a me armar. Guardei as espadas nas minhas costas, escondi facas nas botas e nas mangas das minhas roupas. Olhei no espelho, mirando o floco de neve cinza perto do meu olho. Passei os dedos por ali, sentindo a pele elevada no local. Dessa forma, o desenho parecia uma cicatriz, como se uma faca tivesse me cortado e a pele não tivesse se regenerado completamente.
Cambaleei um pouco para o lado quando o navio parou. Senti o mesmo descendo e depois de longos minutos, parar completamente em terra. Pela janela podia ver as árvores e até mesmo um esquilo gordo em um dos galhos. Peguei minha pena da sorte, presente de Pan antes de partir, e a coloquei no cabelo.
Destranquei a porta. Um vento frio me atingiu quando saí no convés. Flocos de neve vinham da região sul e soube que os narnianos estavam enfrentando sérios problemas. Eu nunca vi Arthur e Airan usando os poderes antes, mas não deve ser bom quando eles decidem o fazer.
—O navio vai ficar aqui. -disse autoritária. -Carlos e Edward, vocês ficam para tomar conta. Se acontecer algo, mando alguém avisar.
—Sim, capitã. -os dois responderam juntos.
Descemos do navio e seguimos pela floresta. Os minutos passaram rápido enquanto andávamos e logo chegamos ao acampamento dos narnianos. Poucos estavam presentes. Os demais deviam estar no campo de batalha.
—Seguimos para o sul. -disse a Scott que ia na frente. -Estejam preparados para qualquer coisa quando chegarmos. -disse aos marujos.
Ouvimos os gritos e sons de armas se chocando á quase meio quilometro de distância. Tirei minhas espadas do suporte das costas e fiquei em posição de ataque. Chegamos ao campo de batalha onde uma guerra sangrenta tinha continuação. Mas metade do campo estava coberto de gelo e neve. Dava para ver Airan coberta de roupas brancas e lançando estacas de gelos para todos os lados. Não vi sinal de Arthur.
—Vamos! -exclamei.
Corremos em direção ao campo atacando os inimigos. Tentei chegar na Airan, mas cada vez que me aproximava, cinco guerreiros apareciam na minha frente. Se não fosse Ian e Chloe protegendo a minha retaguarda, eu teria morrido. De novo.
Cortei a garganta de um lobo e vi Pedro enfrentando Arthur. Caspian e Edmundo estavam perto dele, mas ocupados demais para ver que Airan se aproximava perigosamente com uma espada feita de gelo na mão direita.
Abri caminho em direção a eles. A espada de Pedro escorregou de suas mãos e Arthur levantou a dele para um golpe final. Ouvi o grito aflito de Lúcia e Susana vindo de algum lugar. Não tive tempo de procura-las. Levantei minhas espadas que se chocaram contra a do Arthur.
Ele me olhou surpreso, mas girou a espada no pulso tentando acertar meu pescoço. Abaixei no momento exato e passei a lamina da espada por sua barriga. Sangue prateado correu do ferimento e Arthur cambaleou para trás. Uma queimação começou nas minhas costas, mas não tive tempo de me importar.
Senti um corte fundo passar pelo meu braço e me virei bloqueando um ataque de Airan. O sangue pingava na neve branca manchando a mesma de vermelho.
—Ela devia estar enfeitiçada! -grita Airan para Arthur enquanto me ataca.
Eu sabia que tinha algo errado! Estavam todos certos. Mas se já quebrei metade do feitiço, como faço para recuperar minhas lembranças?
—E eu não sei? -grita Arthur bloqueando Pedro.
A lamina fria da espada passou pela minha perna e quase caí. Airan sorriu quando chutou meu peito descoberto de qualquer armadura. Bati a cabeça no chão vendo tudo ao meu redor girar. O ar saiu dos meus pulmões e eu me apoiei nos cotovelos tentando respirar de novo. Airan chutou meu rosto e o sangue subiu pela minha garganta. Cuspi tudo em cima da neve.
Tentei ficar de pé, mas o corte na perna ardia a cada movimento.
—Devia ter continuado do nosso lado. -Airan sorria maliciosamente. -Agora vai morrer da forma mais estúpida possível.
Airan agarrou meus cabelos com força e me fez ficar de joelhos. A espada foi colocada rente a minha garganta. Eu sentia a lamina começando a cortar. Minha visão entrou em foco novamente e meu rosto estava próximo do Pedro. Ele também estava de joelhos com a espada de Arthur em sua garganta.
Algo molhado atingiu o topo da minha cabeça e desceu pelo meu rosto. O aperto na garganta afrouxou e a espada de gelo caiu no chão se quebrando em centenas de pedaços. Levei minha mão tremula a testa vendo o sangue prateado de Airan que caiu em mim. Olhei para trás no exato momento em que Dylan tirava a espada do corpo da garota. Ela escorregou para o chão com sangue saindo da boca e do ferimento.
O grito de Arthur ecoou por todo o campo. Era um grito de pura raiva que logo foi cortado pelo sangue que saia da sua boca. Ele caiu de joelhos e pude ver Edmundo atrás dele com a espada manchada de sangue prateado.
Quase que imediatamente, uma queimação tomou conta das minhas costas e de parte do meu rosto. Pedro me segurou antes que eu cai-se no chão. Sangue prateado escorria pelo meu rosto e imagino que das minhas costas também. A queimação se intensificou. Lágrimas desceram pelo meu rosto e minha respiração ficou desregular. Meu corpo tremia e sabia que iria desmaiar a qualquer momento.
—Alice, olhe pra mim! -disse Pedro me deitando na grama.
Meus olhos estavam revirando sem qualquer controle meu. Olhar para Pedro era uma tarefa impossível no momento. Apoiei meu corpo com os cotovelos e cuspi sangue prateado na grama. Perdi todas as forças dos braços e cai de novo, dessa vez fechando os olhos.
Pisquei os olhos várias vezes tentando me acostumar com a luz que entrava pela fenda da tenda. Usei minhas mãos para me erguer por cima das almofadas. Olhei para um estandarte com a figura de um leão. Aslam.
De repente, as memórias atingiram a minha cabeça. Cada dia dos últimos meses, que eu prontamente havia esquecido, reapareceram na minha cabeça. Tive que me deitar de novo para poder assimilar tudo antes que enlouquece-se. Pisco algumas vezes sentindo a minha têmpora doer.
Tento ficar de pé imaginando que a minha perna vai reclamar pelo corte feito. Mas não há corte em lugar nenhum. Lúcia deve ter algo relacionado com isso.
Minhas armas estão postas sobe uma pequena mesa de madeira negra juntamente com roupas limpas. Olho para baixo percebendo que estou com um vestido azul simples. Espero que tenha sido uma das meninas que me vestiu essa roupa. Mas imagino que toda a minha tripulação desmaiou quando Arthur e Airan morreram.
Mesmo descalça, ando um pouco pela tenda, observando as coisas ao meu redor. Não tinha nada de mais por isso decidi sair. O sol descia pelo horizonte dando ao céu tons de laranja e rosa .Olhei para os lados procurando por um dos Reis ou Rainha, mas só havia um guarda do lado de fora. Aproveitei a solidão para trocar de roupa, calçar minhas botas e guardar as minhas armas.
Sai da tenda andando pelo acampamento, tentando achar alguém conhecido. Vi Pedro e Caspian discutindo algo aos sussurros perto de uma tenda enorme.A cho que os meus marujos estão ali dentro.
—Alice! -Lúcia veio correndo em minha direção e me abraçou. -Você acordou! Como se sente? -Lú sorria aliviada.
—Bem. -disse olhando pra tenda. -Cadê os meus marujos?
—Estão se recuperando. -disse Susana sorrindo de lado.
—O que aconteceu? -perguntei.
—Depois que Arthur e Airan morreram você e seus marujos tiveram um tipo de ataque.Caíram no chão e começaram a gritar e sangrar ao mesmo tempo. Trouxemos vocês para o acampamento e Lúcia deu um pouco do tônico dela á cada um.
Por instinto, levei minhas mãos para perto dos meus olhos onde tinha a tatuagem de floco de neve. Não senti o relevo característico dela e nem vi as outras tatuagens que cobriam os meus braços com linhas prateadas.
—Certo.-esbocei um sorriso.-Obrigada!
—Voltamos para Cair Paravel essa noite. -informou Caspian. -Converse com seus marujos e tomem uma decisão. Apoiaremos ela seja qual for!
Fiz uma pequena reverência, coisa que não faço frequentemente, e caminhei até a tenda em que eles estavam. Suspirei aliviada por ver todos os meus marujos bem. Alguns dormindo e outros conversando em voz baixa.
—Capitã! -os que estavam acordados se levantaram.
—Podem descansar. -sorri aliviada.- Quando todos estiverem acordados vamos para o navio e lá conversamos sobre o noso futuro.
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