Pique-esconde
1 Não podemos mais brincar
Pique-esconde
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— Vamos brincar de pique-esconde? Você conta!
— Tá legal! Um…
Lembra de quando brincávamos de pique-esconde? Você sempre me fazia contar e corria em disparada para algum lugar. Você sempre ganhava, nunca encontrava-te. E não irei, nunca mais.
É estranho lembrar, e dolorido também, de quando nos divertimos juntas, como éramos tão próximas.
Doze… treze…
Nós sentávamos juntas na sala de aula, trocamos bilhetinhos, nos divertimos rindo das outras garotas. Elas eram apenas as outras garotas e nós, bem, nós éramos nós duas.
Vinte e quatro… Vinte e cinco…
Perdi as contas de quantas vezes dormimos juntas na sua casa. Risadas, pipoca e filmes. Às vezes outros amigos juntavam-se a nós, e com algumas piscadas e gestos de cabeça trocamos informações sem que ninguém mais soubesse.
Trinta e seis… trinta e sete...
Na faculdade, ouvia você reclamar todos os dias do curso que escolheu, e apenas o professor bonitinho das aulas de terça conseguia manter seu interesse.
E quando aquele babaca quebrou seu coração e eu quebrei a cara dele, cuidamos uma da outra. Gelo para minha mão e sorvete para o seu coração partido.
E tudo ficou tão frio…
Quarenta e oito… quarenta e nove…
Quando mudamos de cidade trocavamos mensagens diariamente. No feriado visitei sua casa nova, a sua cara! Você não veio na minha.
Mas um dia você não me respondeu, escrevendo algum tempo depois que havia esquecido.
Cinquenta… cinquenta e um…
As mensagens tornaram-se escassas, meus recados desejando saber como estava e lhe contar as boas novas acabaram por se acumularem sem retórica, até que um dia desisti.
Sessenta e dois… sessenta e três...
Certa noite você me escreveu, após longas semanas, dizendo que tinha saudade e estava louca para me ver. Queria me contar sobre o rapaz que havia conhecido. Meu coração se aqueceu. Sorrindo lhe respondi na mesma hora, sem retorno.
Setenta e quatro…. setenta e cinco...
No meu aniversário me desejou feliz aniversário, “estou com saudade”. Agradeci de forma forma curta, e perguntei quando poderíamos nos encontrar. Não marcamos nada.
Oitenta e seis. Oitenta e sete...
“Você viu? Ela casou”. Foi assim que descobri sobre seu matrimônio. Nenhuma ligação, nenhuma mensagem, nenhum convite. Nas fotos que compartilhou no seu perfil vestida de branco ao lado do seu marido, você estava radiante. E mesmo com o peito pesado, me alegrei por vê-la feliz.
Noventa e oito… Noventa e nove…
Há um bom tempo não lhe procuro mais. Às vezes me pergunto se lembra de mim, se guarda essas lembranças com a mesma importância que eu, ou se já as esqueceu. Não saberei.
Cem…
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