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16 Última carta : de Erwin


Notas iniciais
o aniversário é meu mas o presente é de voces eiukjhneoklnf E GRAÇAS A DEUS EU TERMINEI ISSO, não ficou do jeito que queria mas quem liga.

Rivaille se olhou no velho espelho de seu camarim, os olhos cansados, minúsculas rugas embaixo dos olhos e os inconfundíveis fios brancos nas têmporas. Não era mais aquele jovem esguio de antes, sentia o peito pesado sempre que olhava a amarelada foto do homem que havia amado boa – senão toda – a sua vida. Puxou a foto devagar do espelho, o rapaz loiro sorria com um cesto de algo que Rivaille não conseguia se lembrar ao certo, porém se lembrava claramente daquele dia. O sol estava forte e o vento abafado, tomaram sorvete até ficarem roucos. E naquela mesma noite ele o havia levado para uma volta de moto, nunca havia sentido o coração bater tão rápido, a adrenalina correndo por suas veias e fazendo os olhos fecharem com o vento frio da noite. Olhou mais uma vez a foto e sentiu os olhos arderem levemente, respirou fundo e passou o polegar sobre a foto, sorrindo sozinho enquanto as pequenas lágrimas escapavam.

O luto de Rivaille não havia sido fácil, doloroso até de se ver. Um efeito dominó em todos ao seu redor; o sol que aquecia seu coração havia se apagado há dez anos. Deixou de cantar e voltou a beber. Fora isso, nada mais importava para ele, dias solitários vieram quando Ellen arranjou outro emprego, mas o que realmente o surpreendeu em tanto tempo foi à confissão da jovem. Um amor gritando dolorosamente enquanto chorava, implorava por algo que Rivaille não queria mais, não importasse de quem. Se entregar a outra pessoa era desgastante, doía. Criar o sonho de uma vida perfeita não era mais o desejo de Rivaille, ele só queria sentar e esperar a dor em seu peito passar de uma vez. Mas não conseguia. Não podia seguir em frente sem ele, sem a voz dele, o cheiro. Sentia tanto a falta de Erwin que doía mais do que ele imaginaria suportar.

O mais estranho ainda era a presença de Jean em sua vida, entrando sem bater, dividindo segredos e estranhas juras. Quando Rivaille perguntou por que ele ainda estava ali, segurando sua cabeça para que o cabelo não caísse nos olhos enquanto vomitava Jean respondeu algo que deixou Rivaille boquiaberto.

–Ele me pediu pra cuidar de você.

A partir daquele dia Rivaille prestou atenção em tudo ao seu redor, o que seu estado havia feito às pessoas que mais apreciava. As havia machucado, mostrado lados que não sabia que ainda existia, um lado que havia prometido nunca mais mostrar; tinha feito uma promessa para Erwin, ele precisava aguentar. Onde estava toda aquela força que demostrava nas inúmeras cartas que trocaram anos atrás? Se perguntou como conseguiu deixar tudo daquele jeito, viveu os cinco primeiros anos da morte de Erwin preso nos próprios pensamentos, imaginando como seria se nada daquilo tivesse acontecido; se ele ainda estivesse ali. Eram sonhos inalcançáveis para Rivaille agora. Nunca teve coragem que mexer nas coisas que Erwin havia deixado para trás, assim como aquela última carta guardada no fundo da gaveta junto com as outras, algumas ainda tinha o cheiro úmido da terra, outras já amareladas e amassadas nas pontas, tinham manchas avermelhadas e escuras.

E agora ali, sentado uma última vez o veludo grosso de sua cadeira Rivaille tentava controlar os tremores nas mãos, era a primeira vez em anos que tocava naquela carta ainda lacrada, engoliu em seco ao olhar a caligrafia tremida de Jean no envelope.

–Sem coragem? – perguntou Jean na porta.

–Um pouco. – a voz de Rivaille era tremula, respirando o mais fundo que conseguia ao passar os dedos sobre o lacre amarelado – Acho que estou com medo.

–É só uma carta – disse Jean se aproximando lentamente, sentando-se em um banco ao lado da mesa, Rivaille riu nervoso com a comparação, só uma carta, aquela carta representava os últimos suspiros de Erwin. – Quer que eu abra?

–Não.

Tirando coragem de Deus sabe onde, Rivaille tirou as folhas de dentro do envelope, engolindo em seco o choro quando começou a ler:

Rivaille,

Eu só queria pedir perdão por todas as lagrimas que fiz você chorar, e por toda a dor que fiz você sentir. Não era a minha intenção fazer você sofrer desse jeito, nos poucos dias em que passei ao seu lado quando pensei que finalmente poderia viver o resto da minha vida com você eu percebi o quanto você tinha medo, o quanto você cuidava de mim e eu não pude retribuir o meu amor da forma com que sonhamos naquela noite no telhado; queria poder envelhecer com você, sonhar com você, segurar sua mão e beijar cada poro de seu corpo, acordar com sua voz, ter a aquela vida feliz que agora só você pode ter. E por favor, atenda meu pedido egoísta e a viva intensamente.

Eu era a pessoa mais feliz do mundo ao seu lado, e Deus sabe o quanto eu me arrependo por não ter de ouvido e não responder o chamado da guerra. Me parte o coração ao apenas imaginar a dor que você sentirá quando a essa carta chegar em suas mãos e eu não estarei com você para acalmar suas lágrimas, mas eu sei que você vai aguentar essa, por favor Rivaille, aguente firme. Eu sempre estarei com você, guardado em seu coração onde você jurou me proteger. Mesmo que eu morra Rivaille, você tem que se manter forte, não fraqueje. Viva por nós dois, sorria. Viva intensamente a vida longa e alegre que eu sei que você terá; não se prenda a minha morte Rivaille, por favor.

Compre aquela casa, crie o cachorro e pinte as paredes, eu preciso saber que você não desistiu. Que você está bem sem mim. Não deixe a dor de corroer, nós dois sabemos onde isso acaba; você se esforçou tanto para simplesmente abandonar tudo isso que construímos juntos; é injusto com você, com os seus sonhos, eu espero que me perdoe por tudo, por te fazer sofrer desse jeito. Eu, Rivaille eu só quero que você saiba que eu te amava mais do que um da sonhei amar alguém, até conhecer você eu não sabia o que era isso; eu quero que seja feliz. Me perdoe por não estar ao seu lado, eu te amo e sempre amarei.

Eternamente seu.

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