Piltover's Finest
3 Capítulo 3 - Jogo de gato e rato
Notas iniciais

Esperava de olhos fechados na sala de reuniões da delegacia, o aroma do café quente e forte envolvendo a atmosfera e dando uma ligeira sensação de torpeza...
Não! Abriu os olhos num sobressalto, quase pulando na grande cadeira estofada como se tivesse levado um susto. Tinha que ficar acordada e alerta, primeiro pois estava rodeada de outros oficiais que a observavam, meio entretidos, meio preocupados (Deuses, que vergonha!); segundo, pois o caso ainda não estava fechado.
Endireitou-se na cadeira, arrumando a roupa para disfarçar, e tomou um gole do café para despertar melhor. Jayce entrou na sala, trazendo consigo uma vasta papelada nas mãos.
– Finalmente, esse foi o último mineiro a depor e aparentemente já temos uma visão completa do que aconteceu.
– Hah, conte logo então, antes que a senhorita Caitlyn desmaie! — disse um dos oficiais mais antigos e amigo da família da xerife e de Jayce.
– "Ha-ha", muito bom, Johan... Vai ver onde eu vou enfiar a próxima bala... — ela retrucou com um riso discreto.
– Por favor, guardemos esse carinho todo para uma situação mais propícia, crianças. Bem, o que eu tenho a dizer não é muito diferente do que o que todos já sabem. Por mais inacreditável que seja, a história confirmada por todos é essa aí: o grupo de Dohran estava realmente com um esquema que ia quebrar nossas pernas; eles encontraram uma falha considerável em nosso sistema de segurança...
– Vergonhoso... — Caitlyn comentou, massageando as têmporas. Jayce desviou o olhar, pouco feliz, e continuou.
– Se um deles não tivesse se borrado de medo e o mineiro não tivesse reagido, provavelmente teriam conseguido se safar...
– Eles conseguiram, Jayce! — elevou-se a voz de uma Caitlyn insatisfeita e indignada. — Pelo amor, eles conseguiram! Levaram uma grana em cristais e estão soltos por aí; fizeram mais do que isso, eles causaram um alarde geral, derrubaram uma mina, três pessoas morreram!
– Foi um número ínfimo frente à magnitude do desastre...
– ...porque uma maluca voltou lá pra dentro e conseguiu tirar todos como se cavasse um castelinho de areia com as próprias mãos! Jayce, nós não estamos em bons lençóis, não está tudo bem,muito menos resolvido... — ela afundou o rosto nas mãos, depois emaranhou os dedos nos cabelos castanhos, visivelmente sentindo-se derrotada. — Me desculpe a impaciência, mas você melhor do que ninguém sabe que esse é o menor dos nossos problemas... — completou numa voz menos exaltada e mais infeliz.
Jayce suspirou.
– Entendo o que você quer dizer, Caitlyn. Mais do que a perda financeira ou as mortes, o que nos preocupa é a possibilidade deles descobrirem o que sabemos sobre os cristais. Aliás, se a menina conseguiu fazer funcionar aquelas máquinas, podemos presumir que um deles já tenha ideia do que se trata...
O clima ficou tenso na sala de reuniões. Johan foi o primeiro a se manifestar após o silêncio que abateu-se sobre todos, falando enquanto fitava o nada como se estivesse hipnotizado.
– Precisamos encontrar essa gangue... Principalmente essa garota. E retomar os cristais. Ou então... — fez um gesto com a mão, como se puxasse um gatilho.
A sugestão era clara, mas não era a forma como oficiais de polícia gostavam de pensar. Ou melhor, não era como eles deveriam pensar. Jayce retomou o rumo da conversa.
– Vamos estabelecer uma busca então: Piltover, arredores e cidades próximas. Mandaremos um ofício avisando-os da situação. Algo a acrescentar, xerife?
– Rever o policiamento da cidade. Fomos pegos de surpresa por uma falha de atenção nossa. Quero uma visão minuciosa da cidade por inteiro, para tentar verificar outros pontos que mereçam nossa atenção e providenciar o remanejamento das patrulhas. Algo assim jamais deverá acontecer de novo em Piltover... — ela suspirou, cerrando brevemente os olhos. — Dispensados.
Percebendo o estado em que Caitlyn se encontrava, Jayce esperou que os outros oficiais saíssem e se aproximou.
– Caity... Desde o início desse caso você não tem parado para descansar um minuto...
– Foi um baque...
– Eu sei! Eu sei. Mas não vai ajudar em nada você se desgastar tanto assim. Volte pra casa, descanse um pouco.
– Eu sou a xerife e estou nesse caso; não posso largar o batente sabendo o que está em jogo aqui.
Ele colocou a mão no ombro dela, fazendo com que o olhasse e prestasse atenção.
– Ouça, Caitlyn, como amigo: descanse. Nós podemos cuidar disso sem você por uns... quinze minutos. — riu.
A xerife suspirou, um pouco contrariada. Empurrou a mão do colega para soltar-se.
– Ok, ok, eu vou tirar um cochilo na minha sala! Mas se vocês não me avisarem caso qualquer coisa aconteça...
Jayce riu. Caitlyn saiu com seus passos rápidos e determinados, "ninguém me dá ordens, apenas sugestões", e fechou a porta da sala de reuniões atrás de si. Ela com certeza ia teimar em continuar estudando o caso e acabaria pegando no sono com a papelada na mão de qualquer jeito... Jayce riu ao pensar nisso.
~¨~
No fim da tarde, Vi se esgueirava por ruelas e becos, tentando a todo custo não ser notada apesar dos gigantescos punhos de ferro que levava consigo desde o incidente na mina. Eram úteis: durante aquela semana de fuga, já havia apagado com facilidade três malandros que estavam tentando alguma merda e, por acaso, cruzaram o caminho dela. Um fora um assalto à mão armada. Os outros dois eram paus-mandados de gângsteres espancando um cara.
Não que ela mesma tenha sido um "super" exemplo de vida para agora dar uma lição de moral neles. Muito longe disso... Mas, sei lá... Não sentia mais que era parte daquilo. Não sentia mais aquela gana de quando queria roubar algo. Na verdade, sempre curtiu uma briga, e isso obviamente ainda era evidente e real. Mas viver para sempre daquele jeito, na esgueira, de crime em crime, sendo fugitiva do mundo o tempo todo? Não era lá a vida dos sonhos...
Estava então presa numa espécie de limbo, exatamente no meio de tudo aquilo. Era uma criminosa procurada pela polícia e era também uma desertora que não podia voltar pra sua gangue. Não era uma "cidadã de Piltover" propriamente dita, embora tenha nascido e crescido pelos arredores esquecidos da cidade. Também não tinha casa ou conhecidos em nenhum outro lugar. Então estava assim: fugindo e se escondendo nos becos há já mais de sete dias.
Mais escurecido o céu, a moça de cabelo rosa-choque podia mover-se melhor sem ser detectada... Eis que, passando próxima a uma entrada mal iluminada entre dois condomínios bem velhos, ela percebe algo que lhe chama a atenção. Uma mulher parada nas sombras com umas sacolas de compras num braço, o outro esticado segurando uma chave, como se fosse destrancar a porta em frente, e um homem todo de preto atrás dela, uma mão contornando-a e tapando-lhe a boca, a outra segurando uma faca pelas costas...
Aquilo automaticamente ativou a imagem do bar anos atrás na cabeça de Vi. Lembrou do que acontecera, de como se sentiu e o que fizera com o canalha, e logo concluiu que, infelizmente, aquela mulher provavelmente sequer tentaria pensar em fazer o mesmo... Cerrou os dentes. Cerrou os punhos. Alguém tinha que agir.
– Escuta aqui, vadia: você vai abrir essa porta e não vai fazer um barulhinho sequer, senão eu te esfolo. Eu vou pegar umas coisas no seu apartamento... E quem sabe a gente não pode se divertir um pouco depois, hein? Huhuhum!...
Uma lágrima escorria pelo rosto da mulher, quando de repente algo surgido do nada atingiu os dois, levando-os ao chão. A mulher levantou-se rapidamente, recolhendo suas coisas que haviam sido espalhadas na queda, desesperada, quando então viu o que a atingira. Era... Alguém. Alguém? Uma coisa estranha, rosa e metálica, um tamanho meio desproporcional, que segurava o agressor contra o chão enquanto o desgraçado se debatia. A coisa virou a cabeça, tentando ver onde a mulher estava; encontrou-a e gritou.
– O que você tá esperando; entra na casa!
Era... outra mulher segurando o cara!
– O que...
– ENTRA LOGO!!!
A cidadã estremeceu de susto e, trêmula, destrancou a porta, entrou e ouviu-se o som da porta sendo trancada novamente.
– Agora você. Tava a fim de brincar? Que tal SOCO, SOCO; BATE, BATE?
Conforme entoava a cantiga infantil, Vi esmurrava o homem com as grandes luvas, ou esmagava sua cara contra a parede, de acordo com as "ordens" da música. "Soco, soco", ela socava o estômago do homem no chão; "bate, bate", ela o segurava pela cabeça e batia-a no chão; "soco, soco", mais uma sequência com os punhos; "vira, vira", segurou-os pelas pernas e bateu o corpo contra a parede da esquerda, depois contra a da direita. Puxou-o pela lapela do sobretudo preto e apoiou-o de pé na parede da direita. "Soco, bate", socou-o, depois enterrou a cabeça do cara na parede; "soco, vira", mais um murro e atirou-o na parede esquerda, o homem já não parando de pé; "soco, bate e VIRA!", soco, enterra a cabeça e atira o canalha na parede oposta! Haha! Ele nem se movia.
Vi respirou fundo, aplacando a agitação, e então relaxou os ombros. Percebeu que a mulher que não fora vitimizada observava o espetáculo da janela, e prontamente fechou as cortinas quando cruzou o olhar com o de Vi. "Humpf... Mal agradecidos...". Só quando virou-se para fugir a moça percebeu que mais alguém assistira tudo da entrada do beco. Merda!
Chegou mais perto — a pessoa não se moveu um milímetro — e percebeu que se tratava de um dos mineiros do incidente da semana passada! Porcaria... Pior ainda: ele tivera a oportunidade de vê-la bem duas vezes e podia dar uma descrição completa à polícia, indicando inclusive que ela ainda estava lá, vagando pelas ruas de Piltover! Contudo, surpreendentemente, o homem não fez nada disso. Não saiu correndo pra avisar a polícia ou coisa assim. Ao contrário; acenou para ela para que o seguisse em silêncio.
Atravessaram várias vias secundárias, evitando ruas com movimento, mas também evitando a escuridão total dos becos. Chegaram a uma região um pouco mais distante das outras construções, um morro com poucas casas pequenas construídas. Entraram em uma delas. Basicamente, era um cômodo só, dividido em "cozinha" atrás de um balcão, "sala de jantar", que era uma mesa de quatro lugares em frente à porta, "sala" no lugar onde havia um tapete, um sofá e uma TV, e "quarto", uma cama aparentemente velha num canto discreto. O único cômodo de verdade era um banheiro, separado do resto por paredes e uma porta. Uma janela apenas, ao lado da porta de entrada.
O homem mal fechou a porta, Vi já virou-se e prendeu-o contra a parede com a enorme mão de ferro.
– O que você quer?! — ameaçou
– O que você quer? Só estou te tirando da rua, menina. Você tá precisando de um esconderijo.
– E você, papai Noel, com essa barba branca, veio me dar um de presente?
– Se é assim que você vê...
A voz grave do homem podia facilmente ser assustadoramente ameaçadora, mas ele falava com serenidade apesar da carranca. Vi deixou que o homem se soltasse da parede.
– Você tem ideia de quem eu sou e do que posso fazer. Por que ajuda?
O homem olhou para o rosto da jovem, analisando-o, e então foi para a cozinha como se ignorasse a pergunta. Encheu uma caneca de água e pôs no fogo.
– ...porque eu acredito em segundas-chances. E queria que meu filho tivesse aproveitado a dele.
Vi mexeu nas manoplas, como se as ajeitasse. O homem indicou a mesa, oferecendo que se sentasse. Ela puxou uma cadeira e se acomodou.
– Você é uma ladra. E uma briguenta, pelo jeito.
A jovem meio que surpreendeu-se, não esperando aquilo,e logo fechou a cara.
– Mas a sua atitude, voltando duas vezes pra aquela espelunca caindo aos pedaços? Pff! — o homem riu, acendendo um cachimbo. — ...você não é "má", ou assim eu espero. Você só está perdida, menina.
– Hah! Tô perdida desde sempre então... — revirou os olhos, depois desviou o olhar para o lado.
– Quem sabe?...
Ela olhou bem para o velho armário que pitava o cachimbo, tranquilo, à sua frente. Foi o mesmo que deu-lhe a bronca e depois agradeceu-a do lado de fora da mina. Empinou o nariz, diminuindo a abertura dos olhos até que fossem apenas duas pequenas fendas acima do nariz, numa expressão um tanto cômica como se estivesse julgando-o.
– Qual o seu nome?
– Barthrax.
O velho empurrou dois pratos de miojo sobre a mesa. Ela olhou para o homem... Olhou para o prato de miojo... Olhou para o homem...
– Acho que não dá pra segurar o garfo direito com essas luvas.
– Se eu tirá-las e você tentar qualquer mínima coisinha estúpida, eu te arrebento com as mãos mesmo.
Vi desativou as manoplas e retirou-as. Surgiram duas mãos pequenas em comparação à magnitude daquelas luvas. Duas mãos normais. O homem reparou em como estavam feridas, provavelmente pelo atrito constante com aquelas peças de ferro, mas não comentou nada. A jovem estalou os dedos, aliviada. Terminou o prato em tempo recorde, mas não pediu para repetir.
– O que tem o seu filho pra te fazer querer me ajudar?
– Foi assassinado quando quis voltar pro grupo com o qual ele andava. Você deve ter percebido que não estamos num palácio de Demacia... Pra ele, não era o bastante, era um moleque ambicioso. Também não queria ser mineiro. Acabou por envolver-se no crime com uma dessas... gangues da redondeza, que nem a sua. Dinheiro "fácil". Eu pedi para que deixasse disso enquanto ainda podia e voltasse pra casa; ele disse que não queria. Que estava melhor assim... Mas as coisas começaram a apertar e ele não conseguiu mais segurar a barra. Fugiu e voltou pra casa. Humpf... Não se larga uma gangue assim... Fizeram pressão pra que ele voltasse. Mesmo não querendo, ele voltou. Seria pior se não o fizesse. Hah, grande porcaria, do mesmo jeito. Quando ele voltou, mataram ele.
– Você entende que eu não tô fugindo só da polícia então, né?
– Entendo. E, de um jeito ou de outro, uma hora você vai ter que lidar com as consequências de tudo que você fez, menina. Mas, depois do que eu vi na mina, e agora no beco, e depois dos outros caras que você apagou esses dias? ...merece uma chance.
– Espera, como você sabe dos outros caras?!
O velho riu.
– Ué... Ninguém aparece por aí como se um caminhão tivesse passado por cima três vezes se não tiver cruzado com você! Caminhões não cabem em becos...
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