Piltover's Finest
8 Capítulo 7 - Alpha Centauri
Notas iniciais

Terceira semana após o incidente na mina.
Há apenas alguns dias aquela espécie de enxaqueca começara. A início, imaginava ser o efeito de uma noite regada a bebida, seguida de outra noite insone em que o cérebro insistia em repassar infinitamente tudo o que acontecera de incômodo durante aqueles dias... Entretanto, constatou estar infelizmente errada. A dor continuava e, a cada instante que se seguia, só fazia aumentar. Tomou pela terceira vez um analgésico, na esperança vaga de que fizesse alguma diferença.
– Caitlyn, precisamos de você na viatura que está saindo pra área 84...
– Ok, já estou indo.
Levantou-se com pesar, a cabeça ameaçando explodir a cada passo que dava no chão. Parou por um instante, apoiada em suas prateleiras, respirando fundo. Pegou uma garrafa de água na bolsa e bebeu-a quase inteira; o gelado do líquido aplacando brevemente a dor. Guardou-a sentindo um profundo aperto no peito: o que diriam daquela postura? Que imagem fariam daquela situação? Obrigando-se a esquecer toda a dor que sentia — e não apenas fisicamente — , ensaiou sua postura soberana e implacável de xerife, pegou seu rifle preferido e saiu como sairia em qualquer dia comum.
Ao entrar no veículo, percebeu que Vi já esperava, sentada no banco de trás, muda, olhando para a janela. Não dera bom dia nem olhara para ela desde a reunião no último sábado.
– Bom dia, Vi.
Mais uma tentativa inútil. A mulher sequer esboçara uma reação. A xerife fingiu relevar, como faria em um dia comum. O carro foi ligado e partiram para atender à ocorrência à qual foram chamados. Nada demais.
Uma ou duas horas depois, já estavam de volta à delegacia. Vi entrou como saíra: estranhamente muda. Seguiu direto para o lugar que tornou-se seu "lugar de sempre"; a oficina aos fundos. Andando pelos corredores, Caitlyn via tudo acontecer normalmente, como sempre, mas algo parecia terrivelmente mudado. Sabia que não era verdade, mas sentia que todos a olhavam. Que a espiavam ao passar. Que eram capazes de comentar até os pensamentos que se passavam na cabeça dela, sem tê-los contado para ninguém, como se soubessem como ela se sentia, aos poucos caind...
Não, ela não podia admitir isso. Definitivamente, estava tudo bem. Sempre estivera. Ela sempre conseguiu manter a ordem na situação, por mais impossível que parecesse... Mas, ainda assim, mesmo disposta a negar até o fim, aquilo tudo a corroía.
"Você está amolecendo, Caity...."
"...talvez não sirva mais como xerife dessa cidade."
"Você confia demais na sua patrulha, xerife, e olha como aquela mina caiu..."
Todas aquelas cenas pulsando dia e noite em sua cabeça estavam enlouquecendo-a!
Sentiu o latejar dolorido mais uma vez, quase a ponto de derrubar uma lágrima. Precipitou-se para a copa, que felizmente estava vazia, para pegar mais água. Uma bolsa de gelo até, talvez... Escorou-se com a duas mãos na bancada, de frente para a pia. ...e se tentasse conversar com alguém?
Passou em frente à sala de Johan. Não, definitivamente. Ele era seu amigo, mas mais pelo fato de ser amigo de sua família. Nunca foram muito íntimos a ponto de sentar e conversar sobre essas coisas à toa... Olhou para a sala de Jayce. Bem... Não; ele lhe daria um sermão antes de ouvir metade do que ela precisava dizer. Pensou em Vi na oficina, mas logo também descartou a ideia. Se nem "bom dia" ela estava respondendo desde a reunião... Sentiu como se as paredes do lugar de repente começassem a fechar em volta de si; sentia-se sufocada. Olhou novamente a sala de Jayce.
– Jayce?
O homem levantava brevemente os olhos de seus papéis para ver a xerife meio que escondida atrás do batente da porta. Voltou para seus documentos.
– Jayce, você tem um minuto pra conversar?
Desta vez, o homem pareceu prestar atenção. Havia algo que requeria atenção no tom de voz de Caitlyn.
– O que foi? O que aconteceu? — perguntava calmamente.
Neste momento, vendo o que fazia, Caitlyn imediatamente pensou em desistir; ora essa, ia deixar notarem que havia algo de errado! Ouvia em sua cabeça a voz de seu pai.
"Um político pode mandar e desmandar, um acadêmico pode encher a cidade de prestígio, mas é o xerife quem atua como os pilares que permitem-na prosperar! Você confiaria num pilar bambo sustentando sua casa?"
De fato, ele fora sempre um homem de resistência pétrea, mesmo em seus últimos dias, já há tempos afastado de seu "dever de honra" na polícia.
– Caitlyn, está tudo bem?
Repentinamente ela retornou ao lugar e tempo onde se encontrava. Viu o olhar confuso de Jayce.
– Sim, sim, está tudo... — interrompeu a frase. — Um pouco de dor de cabeça apenas.
– Ah. — respondeu simplório, sem muita convicção.
A mulher virou-se para sair, mas titubeou.
– Jayce, o que você acha do fato de eu ser a xerife? — disse, retornando à sala.
– Como assim? — de repente, o homem se levantava estranhamente preocupado.
– Quer dizer, eu tô fazendo isso direito?
Dando um peculiar suspiro de alívio, Jayce aproximou-se de Caitlyn e a abraçou, rindo.
– Hah, você faz um bom trabalho, baixinha!
Caitlyn respondeu àquela alegação rindo e dando um leve soco nas costas de Jayce quando este a abraçou.
– Tonto.
Vi passava pelo corredor, pela primeira vez disposta a, de certa forma, pedir desculpas a alguém. Não fazia sentido descontar em Caitlyn a raiva que sentia da polícia. Aliás, ela fora a única que não a acusara aquele dia na sala de reuniões. Bem... Quase. O olhar que a xerife dirigiu a ela... Era um olhar de dúvida. Ela também duvidava, ao menos um milésimo, de que Vi estava realmente cooperando com a polícia. Mas ela estava disposta a mudar isso. Precisava acabar com qualquer sombra de dúvida que pudesse existir. E precisava fazer as pazes com Caitlyn.
Contudo, ao vê-la na sala de Jayce, abraçada a ele, rindo...
Não fazia ideia de como tinha ficado tão enfurecida tão subitamente. Ela ria junto com aquele canalha filho da puta que insistia em acusá-la. Ela... Ela estava abraçada com ele! aaaAARGH! ...vaca. Desculpa o caralho, tava tudo bem do jeito que tava pelo jeito, não é? Colérica, respirando furiosamente, seguiu a passos duros e rápidos para um outro local na delegacia. Precisava dar um jeito de espairecer um pouco.
O abraço, que para alguém pareceu durar uma eternidade, fora de fato efêmero, e logo a xerife deixava a sala vizinha e começava a caminhar para a sua. Mas, aos poucos, conforme via-se sozinha e ainda com tudo revirando-se em sua mente, foi voltando a sentir-se... Angustiada.
– Xerife, emergência no centro da cidade!
– Está bem, vamos...
– Vi ainda não apareceu.
– Ora, ninguém a chamou?
– Ela disse que não atenderia a mais nenhum chamado hoje. — uma policial, antes alheia àquilo, avisou.
– Como assim "não vai atender a nenhum chamado"? — a xerife inquiria, levemente indignada. — Eu vou falar com ela...
A xerife saiu, nervosa com o capricho de Vi. Não ligava se ela não quisesse ser educada, mas que graça era aquela de não querer atender um chamado? Chegou às escadas da oficina, mas percebeu que esta estava vazia. Deuses, onde ela teria se enfiado?
– Com licença, vocês viram a Vi sair da oficina?
– Bom, não vimos ela "sair" propriamente, mas agora ela tá lá na sala de treinamento. — um dos oficiais vestindo moletom, que acabava de sair do ginásio, indicava.
– Mas ela não parece muito feliz... — o outro completou.
Caitlyn dirigiu seus passos enfurecidos para o local referido. Chegando ao vasto ginásio onde vários oficiais, em seu tempo livre, treinavam, pôde perceber de longe que a maioria deles se concentrava num hemisfério do local, enquanto no outro um saco monstruoso de areia era dolorosamente torturado pelos socos contínuos de Vi. Ela não usava as luvas.
– Vem cá; o que você está pensando dizendo que "não vai atender mais nenhum chamado"?!
A mulher apenas continuava como sempre esteve: massacrando o saco de areia enquanto gritava com uma raiva implacável, não dando qualquer atenção ao que a xerife dizia.
– Vi, eu estou falando com você!! — nada. — VOCÊ ESTÁ SURDA?! ME RESPONDA!!!!
– PEDE PRO MERDA DO JAYCE TE ACOMPANHAR E DEPOIS VÊ SE ELE TE CHUPA TAMBÉM, VADIA! — Vi respondeu deixando de socar o saco de areia para especialmente virar-se e conseguir gritar aquilo na cara da xerife.
– O qu... OLHA O QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO! EU EXIJO RESPEITO!
– Toma aqui: pega todo ele e ENFIA NO RABO!
A xerife ofegava, olhando firmemente para Vi com os lábios apertados, sentindo vergonha do olhar de todos, que sabia que se dirigiam agora àquele ponto em que elas estavam. Se dirigiam a ela.
– Me diz; por que você está fazendo isso?...
Vi ficou da mesma forma, ofegante, suada devido ao esforço do exercício e ao esforço do grito. Não respondeu nada.
– Você vai atender ao chamado...
– Eu não vou.
– VOCÊ VAI ATENDER AO CHAMADO! — Caitlyn elevou a voz uma última vez e saiu.
Ao vê-la partindo, Vi virou-se uma última vez e socou o saco.
– AAAAAAAAAARRRGGGHHH!
A briga repentina que surgiu deixou a xerife sentindo calor enquanto caminhava pelo ginásio de treinamento. Entretanto, ao deixar o local, o corredor da delegacia pareceu de repente ser pintado de negro e azul petróleo. Em sua mente, parecia adentrar um local escuro, isolado do mundo e incomodamente frio, quando sabia que estava só no mesmo lugar, a poucos passos de sua sala. E deparou-se ainda com toda aquela angústia, aquele sentimento de sufocamento agonizante fazendo-a aos poucos sentir que perdia o ar e se apoiar na parede.
– Xerife? — o policial a chamava para a viatura, impaciente. Com o ar voltando num movimento de respiração desesperado, a xerife recompôs-se e prosseguiu.
A viatura voava para alcançar a outra que fora despachada antes devido à demora da xerife e de Vi em manifestarem-se. Caitlyn ouvia nervosa os relatos e pedidos de ajuda que os policiais que já estavam no local emitiam às outras viaturas; o coração acelerado, rezando para que chegassem logo.
– O sujeito está armado! Repito: o sujeito está armado!
– Ele fez uma mulher de refém! Céus, ele está ameaç...!
Ouviu-se o som de disparos.
– REFORÇO! ELE ATIROU CONTRA OS POLICIAIS E ESTÁ SUBINDO!
– Quanto tempo ainda vai demorar pra gente chegar lá?!!
– Já estamos chegando, xerife... Já estamos chegando!
Caitlyn temia que não os alcançassem a tempo.
– Estamos próximos, oficial; segure a situação só mais um pouco! — falava nervosa no comunicador.
Todos estavam com os nervos à flor da pele; até mesmo Vi, que havia chego mau-humorada, estava agora visivelmente preocupada com os policiais, com a refém e principalmente com o desespero que via na xerife. Acompanhavam pelo rádio, com as mãos atadas, a ação desenrolar-se no local do chamado.
– Atenção: o sujeito subiu para o terceiro andar do apartamento e está na janela com a refém, apontando a arma para a cabeça dela! Está dizendo algo...
Nesse exato momento, a viatura estacionou atrás da outra, todos saindo abaixados para se proteger e pegos de surpresa por esta guinada na situação. O policial que chegara primeiro ao local aproximou-se afobado deles.
– Xerife, pelo amor dos deuses, faça alguma coisa! Ele está descontrolado, apontando a arma pra ela e pra si mesmo, dizendo que vai acabar com tudo!
– Continue conversando com ele!
– Não dá! Não dá... Ele... Ele enlouqueceu! Está gritando que vai matar a todos!
De fato, os gritos do homem podiam ser ouvidos ao longe, enquanto ele pressionava com raiva o revólver na têmpora da mulher, puxando-a pelos cabelos, depois chorando, e então enraivecido de novo, apontando a arma para si mesmo. Caitlyn sentiu novamente uma delirante dor de cabeça tomar conta dela. Sentia-se desnorteada com a gritaria, a tensão...
– Vamos, xerife; os dardos!!!
Ela estava com os dardos tranquilizantes. Sim, podia derrubar o homem ensandecido, só precisava...
– Caitlyn, o que está esperando?!
Outro policial inquiria, desesperado, todos pressionando-a e exigindo uma ação rápida, enquanto ela tentava mirar exatamente no homem, sem ferir a refém, mas o homem gritava e se mexia e sua cabeça doía e ela lembrava de seu pai e os policiais a pressionavam e Vi gritava com ela no ginásio e Johan dizia que ela não servia para xerife e ela conseguiu pegar o cara na mira e ela puxou o gatilho e...
...ERROU.
Em questão de milésimos, pôde ver o tiro atingir o lugar errado, ao lado do homem que gritava, fazendo-o se assustar e enfurecer, e então todos assistiram, desesperados, quando o homem atirou na moça e depois em si mesmo. Todos gritaram, mas o som vinha abafado e distante aos seus ouvidos, enquanto as pessoas corriam à sua volta, choravam, horrorizadas com o ocorrido.
Caitlyn ficou catártica com o rifle em mãos quando percebeu o que ocorrera, os olhos vidrados na janela do prédio, apavorados; o queixo caído e a boca mexendo-se inutilmente, aberta, sem conseguir chorar ou articular uma palavra... Largou seu rifle favorito, deixando que atingisse o chão, e levou uma mão à boca, em choque. Vi virou-se para ela e pôde ver aquilo.
A realidade, de repente, bateu com muita força na cara da xerife... Ela havia errado... Mas ela nunca errava um tiro! E hoje ela tinha errado... e provavelmente duas pessoas pagariam caro devido ao seu erro! Começou a caminhar para trás, perplexa, deixando seu chapéu cair.
– Não... Não!...
– Caitlyn... — Vi tentava se aproximar com calma.
– NÃO! — saiu correndo, desesperada.
– CAITLYN!
Vi não sabia se podia segui-la e deixar os guardas ali, resolvendo aquilo. Enfim, teve que pensar com racionalidade e frieza: o que está feito está feito, e ela em pouco poderia ajudar os policiais... Respirou fundo e seguiu a pé a xerife até a delegacia.
Caitlyn percorreu todo o caminho de volta correndo, sem ar, sentindo toda a culpa do mundo por aquelas duas mortes. Contudo, de forma alguma chorava, demonstrando apenas um estado de pânico, desnorteada, sem saber para onde ir, não fosse sua sala na delegacia. Vi vinha correndo logo atrás, acompanhando-a com medo de que fizesse alguma besteira. A mulher chegou na delegacia, vermelha, sem fôlego; escancarou a porta e correu para sua sala.
– Caitlyn!
Vi atravessou a porta logo atrás dela, mas quando atingiu o corredor, Caitlyn já havia se trancado. Forçou, de fora, a porta da sala.
– Caitlyn! Caitlyn, abre a porta, por favor!
Na sala, a mulher sentou-se em sua cadeira e cravou os dedos na mesa, respirando agonizante, rápida e profundamente, ainda assim sem conseguir encontrar o ar, que escapava-lhe fácil dos pulmões. Deuses, o que tinha feito? O QUE TINHA FEITO?!!!! INCOMPETENTE!! INCOMPETENTE, BURRA, FRACA!!!
– Caitlyn, abra a porta!!!
Você... Você definitivamente não merece ser xerife! Se já tivesse abandonado o posto na primeira oportunidade, não teria deixado chegar a isso!
– Caitlyn!!!
PARE DE BRINCAR DE POLÍCIA! VOCÊ NÃO SERVE PARA SER XERIFE, PILTOVER TE ODEIA E VOCÊ É SÓ UM PESO NA VIDA DE TODOS!
– NÃÃO!!
– CAITLYN, POR FAVOR, ABRA A POR...
De súbito, a porta da sala da xerife se abriu e Vi foi bruscamente empurrada para o lado por Caitlyn, que saia novamente da delegacia correndo... Fugindo...
~¨~
( https://www.youtube.com/watch?v=_N_Ck1KcAEo )
Sozinha, no telhado esquecido de um dos prédios mais altos da cidade, a morena sentava-se, encolhida, abraçando as próprias pernas, o queixo repousado sobre os joelhos, os cabelos castanhos, lindos, caídos sobre suas costas e seus ombros como um manto fluido e reluzente de beleza... O delicado rosto, tão belo, no entanto, escondia-se. Escondia-se entre os joelhos e os cabelos e escondia-se entre a tristeza de um sentimento horrível de fracasso. De falha para com suas atribuições. Sentia-se desgastada. Desgastada e fraca... Até onde pôde aguentar tudo isso sozinha, deuses; até onde pôde carregar sozinha os problemas da cidade em suas costas? Não poderia ir mais adiante que isso? Era aquele então seu limite?
Afundou o rosto nos joelhos, apertando os olhos com angústia e evitando chorar, quando a própria tristeza, entalada em sua garganta, feria-a como uma bola de espinhos, rasgando-lhe por dentro o pescoço. Rasgando-lhe por dentro o peito...
Ouviu um som de algo aproximando-se e tratou de tentar recompor-se e ficar alerta. Quando olhou para o lado, no telhado, pôde ver uma janela abrir-se — a mesma que sempre usava para subir até lá — e, dela, surgirem duas mãos, que se cravaram no telhado e puxaram para cima um corpo. Esguio. Feminino.
No escuro, o vulto, desorientado, olhava em todas as direções como se procurasse algo. Finalmente, virou na direção que a xerife se encontrava e parou, como que averiguando se era aquilo mesmo o que procurava. Logo em seguida, impulsionou-se para cima, trazendo o resto do corpo e colocando os pés no telhado, subindo sobre ele e engatinhando até aproximar-se.
– Hah! Imaginei que você pudesse estar aqui.
O vulto se pronunciou, fazendo soar uma voz conhecida. No meio de toda aquela tristeza, poder ouví-la era até agradável... Mas lembrou-se de horas antes, na delegacia, o ódio com o qual aquela mesma voz a alvejava como flechas incandescentes... Preferia estar sozinha. Nestes momentos, era sempre melhor estar sozinha. Dos pilares de Piltover, ninguém precisava conhecer as dores. Mas o vulto se sentou por lá. E, provavelmente, por lá ficaria.
– Nossa!... Você tem uma visão linda daqui.
O vulto observava como a vista daquele telhado contemplava toda a extensão da cidade, com sua movimentação noturna e suas luzes, mas não deixava de mostrar também o quão lindas eram as estrelas, ou o horizonte do mar além das construções...
Caitlyn acompanhou a visão. Era exatamente por isso que gostava daquele lugar. Exatamente por isso que fizera deste o seu lugar. Toda a agitação de Piltover parecia tão pequena lá em baixo, tudo tão engraçado, tão... bonito! Mas o céu e o mar além do concreto da cidade... Aquilo sim era o que a fazia subir até ali; constatar que, mesmo nos dias mais pesados, havia beleza e uma vida tão simples ali, a minutos dela... Só isso já fazia tudo valer a pena.
Mas, nessa noite, a lua não brilhava. Lembrou-se do que a trouxera até ali e voltou a se fechar, ainda não ousando mover-se para retornar ao lugar onde estivera sentada, e que agora o vulto ocupava.
– Eu fui uma idiota hoje à tarde...
– Então o que você está fazendo aqui, Vi? Como encontrou esse lugar? — perguntou com a voz sôfrega, porém grave e forçosamente enraivecida.
– Hum... Desculpa, mas... Te segui algumas vezes. Ultimamente, quando eu reparava que você estava... "alterada"... você sumia por algum tempo à noite... e vinha para cá. Mas eu sempre te vi apenas até entrar no prédio. Nunca imaginei que tivesse um abrigo tão maravilhoso!
– Isso não é um abrigo. — decretou, ríspida.
Vi olhou para ela. Caitlyn estava tão abatida que mentia coisas óbvias para tentar inutilmente continuar demonstrando que estava bem, que estava no controle e que nada a atingia. Vi reconhecia aquilo. Reconhecia o fato de ter que mentir para si mesma para sobreviver. E lembrava do quanto isso, no fundo, era doloroso.
Não conseguia olhar para o rosto de Caitlyn. Não somente porque estava escuro, mas porque fora uma estúpida com ela, porque só piorou uma situação que já atingia seu limite e, principalmente, porque sabia que veria essa dor estampada no rosto dela, e isso Vi não conseguiria aguentar. Mirou então o olhar para o céu, para as estrelas.
– Sabe, o brilho de algumas estrelas viaja dezenas de anos-luz até chegar à nossa vista, iluminando o céu noturno. Dezenas de anos-luz é um caminho muito longo a ser percorrido no meio do vazio e do escuro... — virou-se para Caitlyn. — ...mas, um dia, a luz chega.
Caitlyn virou-se ao ouvir aquilo, e ficou observando-a no meio do nada. Foi assim por alguns segundos. Estase. Silêncio. Até que Vi desviou o olhar, soltando um breve riso e abaixando a cabeça.
– Minha infância é um borrão, desde que eu tenho seis anos. Só o que eu consegui guardar foram os sentimentos mais intensos. Raiva... Frio... Fome... Hah, deve ser por isso que minha memória meio que é uma merda hoje em dia! — riu, não necessariamente alegre, mas tentando fazer Caitlyn sorrir. — Mas tinha um lugar... Desse lugar eu nunca me esqueço! Acho que ainda deve existir, era um prédio... Só tinha acho que dois andares, tipo um prédio comercial. Ficava meio afastado da cidade, era abandonado. Que nem eu e as outras crianças. Era o lugar perfeito pra gente! Hehe... — Caitlyn mantinha o silêncio e a distância. — Bom... Geralmente, depois de um tempo que a gente ficava num lugar, roubando ou pedindo dinheiro, o lugar ficava "marcado", então a gente saía antes que a polícia percebesse e nos encontrasse. Mas, daquela vez, não. Eu não saí dali. Os outros foram embora, mas eu decidi ficar, sozinha. Poxa, de alguma forma, aquele lugar era a minha casa! Minha primeira e única casa! Eu desenhei nas paredes. Eu mexi nas tralhas que tinha lá, mudando de lugar. O segundo andar eu arrumei todo como se fosse o meu grande quarto, e toda noite eu sentava lá, em cima de um armariozinho, no meio de duas grandes janelas; deixava o vento bater e a brisa da noite vir, trazendo com ela um pouco de tudo o que havia lá em baixo... Os sons... Os cheiros... — Vi fechou os olhos, deixando o leve vento que soprava acariciar seu rosto, respirando fundo... — Por muito tempo, mesmo depois de ir embora dali, hora ou outra eu sempre acabava lá. Às vezes fugindo de gente. Às vezes fugindo da chuva... Às vezes, só pra fugir do mundo e me colocar no lugar. Até o dia em que eu aprendi a bater, e nunca mais fugi. Também nunca mais voltei pra lá...
– Por que você está me dizendo isso?
Vi apertou os lábios, estreitando os olhos, mas ainda tentando sorrir para Caitlyn, mesmo que lhe doesse.
– Hah, eu não sei! Eu não sei... Heh. Eu... Só... Não sabia o que te dizer. E aí lembrei disso... — segurou firme para que as lágrimas, suprimidas há anos, não caíssem. Em vão, pois a primeira, não mais aguentando tanto tempo de reclusão, rolou, abrindo caminho para todas as outras que esperaram uma vida para cair. Ainda assim, tentava sorrir, mesmo que inutilmente. "Por favor, Caity... Sorria...".
Caitlyn, observando-a, podia perceber em sua voz, em sua respiração entrecortada, que Vi surpreendentemente chorava. Chorava e tentava, muito mal, esconder isso. Não soube o que fazer; nunca esperaria dela este momento. Ela, que era sempre debochada. Ela, que era sempre indiferente. Ela, que sempre tinha uma resposta pra tudo, mesmo que fosse estúpida ou não lá tão ortodoxa... Caitlyn sentia inveja de não ter aquele desapego natural dela. Aquela soberania... Mesmo com todas suas imperfeições, Vi era para ela o exemplo de liderança, o exemplo de força de vontade... E agora encontrava-a ali, sendo derrubada por algumas memórias e um punhado de lágrimas... Tão passível de dor quanto ela... Tão... humana quanto ela.
Meneou a cabeça negativamente, o rosto se convertendo numa máscara de lágrimas e compaixão. Atirou-se para a frente, envolvendo Vi nos braços e protegendo-a no aconchego de seu colo. No momento em que abraçou-a, Vi finalmente desabou por completo, permitindo-se chorar realmente, um choro desconsolado e profuso de anos de ressentimentos acumulados. Abraçara Caitlyn com força, como se houvesse a possibilidade dela, de repente, desaparecer dali, deixando Vi novamente no escuro e sozinha, como estivera quase toda a vida. A xerife estreitou-a nos braços, vertendo suas próprias lágrimas enquanto enxugava as dela.
– Shh... Shhh... Está tudo bem, Vi... Eu estou aqui... Shh, calma...
Vi chorava a ponto de soluçar e perder o fôlego, os olhos enterrados no colo de Caitlyn... Quando finalmente conseguiu controlar um pouco as lágrimas, afastou-se, virou-se para ela e disse, dificilmente.
– Caitlyn, demorou tanto tempo pra chegar alguém e realmente mudar algo na vida de merda que eu levava... Tanto tempo! E, céus, você na verdade não faz nem ideia do quanto é árduo levar essa vida toda errada e sozinha!... Por favor, essa tristeza que você sente... Não guarde-a só pra você. Não ache que você é forte apenas porque não chora, porque por dentro você está morrendo e implorando desesperadamente pra alguém te encontrar e mudar isso; eu sei! — Vi voltou a ser tomada pelas lágrimas, enterrando a cabeça nos ombros de Caitlyn. — Essas coisas que te dizem...Eu já te disse, estão todos errados, porque você não é fraca, nem está amolecendo! Eles é que têm medo de como você continua resistindo, de como é forte e é a única que tem a coragem de se arriscar a fazer a aposta que ninguém mais quer; então, por favor, não desista da sua tarefa... Caitlyn, não desista de mim!...
A xerife quebrou ao ouvir tudo aquilo. Ao mesmo tempo, fazia o que mais temia: desmoronar na frente de alguém. Mas também era forte, forte por ela e por Vi, que parecia precisar infinitamente dela naquele momento. Sentiu por ela algo imensurável, como se pudesse partilhar com ela cada dor sua, cada pensamento que passava por sua cabeça, mas também quisesse partilhar cada alegria, comemorar cada vitória...
– Eu prometo que não vou mais pensar em deixar de lutar... E prometo que não vou desistir de você.
De forma peculiar, sem ao menos perceber, enquanto se permitia chorar e desabafar, a xerife ia aos poucos sentindo-se livre de toda aquela angústia segurada por dias e que a machucava. Ia recobrando sua energia, a certeza de que era capaz de seguir em frente não importa o que acontecesse. Tinha um motivo para continuar lutando, um motivo que não era somente manter a ordem num lugar que a desafiava a cada dia, trazendo quase nada em retorno.
Vi, também sem notar, havia chego ao que queria: que Caitlyn não fizesse o que ela fez. Que não deixasse chegar ao estado em que ela chegou. Queria que soubesse que estava tudo bem em chorar às vezes, mesmo que ela própria não o fizesse, o que contribuíra para o desenvolvimento de seu hábito destrutivo ao longo do tempo. Eram lições importantes que se tiravam de noites horríveis.
Secando as últimas lágrimas, a xerife ergueu o rosto de Vi, segurando-o pelo queixo. Sorriu.
– Hey, hey! Eu quero conhecer esse tal lugar um dia, ok?
A xerife finalmente dera a Vi o mais belo dos sorrisos. A rebelde, observando-a, de repente viu-se com milhares de coisas passando por sua cabeça, o que a impediu de falar por alguns instantes. Enfim, respirou fundo e retribuiu com um sorriso maravilhado.
– Vem, vamos voltar pra casa...
Os dois vultos desceram e a janela no grande telhado se fechou. O vento sacudiu as copas das árvores lá em baixo, e algumas folhas que se depositavam em cima do telhado voaram. Uma estrela no céu apresentava um brilho sem igual...
...há 4,4 anos-luz, eram duas estrelas girando em torno uma da outra.
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