Piltover's Finest
14 Capítulo 13 - 2...
Notas iniciais

Terminando de enxugar o rosto e com determinação férrea, Caitlyn aparecia repentinamente na porta do escritório de Johan, entrando e já lançando ordens enquanto sua cabeça maquinava incessantemente após o tempo com Vi.
– Johan, preciso de um favor seu. Uma série deles, na verdade. — falava com pressa, como se já soubesse de algo, mas precisasse ainda desesperadamente obter provas para suportar sua hipótese. — Preciso que peça para Edmund grampear alguns telefones e sondar alguns números de celular. E agora é oficial. — empurrou um pequeno papel dobrado para o oficial à sua frente.
O senhor respirou lentamente, sentado em sua cadeira. Guardou o papel sem lê-lo.
– ...já tem ideia de quem...?
– Ainda tenho minhas dúvidas... Sérias dúvidas... — suspirou. — Mas se seguirmos essa pista, podemos pelo menos evitar que algo mais... trágico aconteça. — viu o homem assentir com a cabeça, e então o silêncio tomou conta da sala... — ...Vou mandar aumentar a vigilância na cela de Vi. — falou, de repente, e então calou-se.
– É uma medida sábia. Você sabe que ainda não podemos descartá-la como...
– Sem opiniões. — cortou-o. — Lembre-se que, por muito pouco, você saiu da lista de suspeitos também.
Johan respirou fundo. Era verdade. Não imaginava, ao certo, quantos suspeitos existiram na lista da xerife, mas ele fizera parte deles e com razão. Passara um bom tempo investigando por conta própria e até mesmo confrontando decisões de Caitlyn por acreditar estar certo. Bom... Ele ainda acreditava que estava certo, mas agora algo muito discretamente o incitava a imaginar se não teria se enganado em algum ponto... De todo modo, talvez teria sido mais fácil se tivesse jogado aberto com a menina desde o começo. Talvez. Mas ela era realmente filha de seu pai. Realmente, o sangue do xerife corria fervente naquelas veias... Hah, a menina estava chegando mais uma vez a uma resposta. Esperta! O homem tapou a boca e riu levemente consigo mesmo.
– O que foi, oficial?
– Nada, só... — olhou para ela admirado. — Você já está na cola de quem armou isso, não é?
A xerife sorriu.
~¨~
– ...E QUE MERDA É ESSA?! VOCÊ ANDA NEGOCIANDO COM ZAUN? ELES SABEM ALGO SOBRE OS CRISTAIS?
– Hey, hey, hey; baixa a bola, colega! Zaun o meu rabo; eu precisei é chamar alguém pra começar a dar conta do trabalho que você tá enrolando pra fazer! Que que é; tá amarelando, putinha?
– CALA A BOCA, EU JÁ DISSE QUE VOU DAR UM JEITO NISSO EM...
– CALA A PORRA DA BOCA VOCÊ E ME ESCUTA: última chance, bebê. Uns amiguinhos nossos vão colar no Sul da cidade daqui uns dias... Inclusive alguém que você especialmente não tolera muito. Seria bem... interessante se você, de repente, atraísse a xerife pra lá. Huhuhuhum! — era sensível, de longe, o veneno nas palavras de Dohran. — Você sabe o que fazer... Dá um perdido na polícia, faz eles olharem pro outro lado, aproveita a oportunidade... BANG! Os cristais são seus. — riu novamente, contando com uma vitória quase tranquila. — Estamos combinados?
– Combinado.
– Ah-ahn, acho que eu não ouvi...
– COMBINADO!!! — a voz do outro lado da linha estava claramente nervosa.
– Eu te ligo pra avisar do esquema então... E lembre-se: o relógio continua girando... — sorriu e desligou.
~¨~
Após passar suas instruções para Johan, a xerife partiu para outra etapa em sua investigação. Aquilo era realmente secreto: apesar de já começar a discernir com quem podia contar e com quem devia tomar cuidado, aquela pista — a mais quente que tinha encontrado até descobrir o segredo dos mapas — tinha que ser tratada com toda a cautela e sigilo absoluto, até mesmo de seus oficiais mais próximos. Principalmente deles. As digitais coletadas na maçaneta da porta secreta... Podiam alterar drasticamente o balanço entre os suspeitos do caso e alterar o rumo da investigação... Entretanto, a xerife, esperta como uma raposa velha nestas situações, já arriscava um palpite para o resultado daquela análise. Só precisava confirmá-lo para possuir evidências concretas.
– Tobias? — perguntava pelo nome do rapaz ao entrar no compacto laboratório da perícia na delegacia.
– Ele foi a uma conferência na Academia Yordle, xerife. Acredito que não venha hoje. — de uma sala anexa, surgia uma mulher de cabelos loiros desgrenhados, presos num coque já um tanto desfiado e querendo cair. Os astutos olhos azuis pareciam mais interessados num retângulo gelatinoso com uma série de risquinhos que ela trazia nas mãos do que na xerife com quem falava. — É um assunto que só pode ser tratado com ele?
– Hum... Ele é quem faz as análises de impressões digitais para mim, geralmente...
– Ora, nada que qualquer aprendiz de laboratório não saiba fazer...
A xerife quase corou por um momento. No mesmo instante, lembrou-se de quem era a cientista com quem falava. Tirou do bolso a fita adesiva colada a uma superfície plástica que trouxera consigo para pedir a análise.
– Bem, se você pudesse me ajudar, eu agradeceria imensamente, Elle.
A cientista tirou os olhos do gel e sorriu.
– É claro que posso. Diga se existe alguém mais habilidosa que eu num laboratório forense?
De pronto, a jovem mulher retornou à sala, fazendo alguns pequenos ruídos que a xerife facilmente identificou como materiais sendo arrumados numa bancada. Voltou para aquela sala principal da perícia onde a xerife se encontrava. Tirou as luvas de látex e bateu as mãos no jaleco branco, limpando-as, aproximando-se já com o olhar curioso fixo no pedaço de fita adesiva que Caitlyn tinha em mãos.
– Hum, esta é a evidência? Interessante... Mas por que este improviso; por que o uso de uma técnica de coleta tão... — de repente, pareceu dar-se conta de estar em frente à "sua chefe" e tentava escolher uma palavra adequada para completar seu pensamento. — ..."rudimentar"?
– Olha, Elle, preste atenção. — a xerife interpretou a pergunta como uma retórica. — Essa análise que estou te pedindo é importantíssima e extremamente sigilosa. Significa que você não deve comentá-la com absolutamente ninguém, nem disponibilizar os resultados para outra pessoa que não seja eu. Entende? Trata-se de um caso delicado demais... Essas digitais — levantou a amostra. — devem existir apenas para você e eu, até que o caso seja fechado.
– Ora, mas isso fica cada vez mais interessante...
– Elle, concentração: você me entendeu bem? — Caitlyn parecia especialmente preocupada com aquela pista.
– Sim, sim, claro. — foi esta uma das poucas vezes que Elle desviou seus olhos da ciência para pousá-los sobre a xerife, dando-lhe assim prova de sua confiança. — Afinal, por que eu iria querer dar corda pra qualquer assunto com alguém mesmo?
Olhando pela última vez para a pista em suas mãos, como se pedisse ao Universo para que aquilo desse certo, a xerife entregou-a para a cientista com um leve sorriso no rosto. Ora, se Elle não era uma profissional competente! E aquele seu desinteresse natural quanto às outras pessoas, tocado por uma pontinha de "eu sei que sou a melhor", tinha também seu aspecto positivo, certamente: ela não iria mesmo comentar sobre aquele "segredo" com ninguém. Primeiro, porque provavelmente não se interessaria em conversar mais do que o estritamente necessário com qualquer pessoa que fosse mesmo. Segundo, pois ela buscava sempre demonstrar, de sua forma silenciosa e irrefutável, a marca de impecabilidade e excelência que a permitiam sua única vaidade de dizer que sim, ela era a melhor profissional que qualquer um poderia um dia sonhar em conhecer. Caitlyn riu.
– O que foi, xerife?
– Nada. Nada... Desculpe; vou deixá-la trabalhar.
Havia lembrado de quando ouviu, por acaso, uns oficiais comentarem sobre a atitude da perita ao negar as ordens dadas em relação a um caso e ligar diretamente para o gabinete do prefeito, exigindo que ele tomasse uma providência e ordenasse à polícia que prendesse para averiguação outro suspeito que não era o foco da investigação em curso, deliberadamente confrontando o oficial encarregado do caso. Resultado: ela estava certa e o caso sofrera uma reviravolta fantástica, com o verdadeiro culpado sendo preso sem sequer ter tempo para pensar em sumir na cortina de fumaça que tentara lançar.
Com seu sorrisinho vitorioso enviesado no rosto, saiu do laboratório para assistir o real culpado ser levado à prisão após o julgamento. Na porta da delegacia, após o camburão da polícia ligar as sirenes e partir, um dos policiais, fascinado, tentou puxar assunto com ela. "Caramba, que jogada foi essa de ligar para o prefeito?! Como você descobriu que era ele o verdadeiro culpado?" Ela apenas virou de costas e voltou cantarolando para seu laboratório.
"This is a man's, a man's world..."
Caitlyn logo esquecera daquilo e não havia quase nunca entrado em contato com a cientista até então. Agora, em menos de um minuto de conversa, sentia que simpatizava com ela.
Retornando ao corredor da delegacia, já imaginava a próxima providência a tomar: ir ao balcão de recrutamento e reformular a guarda após o ataque da zauniana, mandar aumentar a vigilância sobre a cela reforçada de Vi, arrumar também um tempo para prestar as condolências às famílias dos policias mortos em ação... Suspirou. Seguia seu caminho tranquilamente, quando de repente ouviu seu nome no corredor.
– Caitlyn! — Jayce chamava-a de dentro de sua sala. — Caitlyn, tem um momento?
– Desde que seja rápido... — disse, sentando-se na cadeira à frente.
– Dohran. Tenho péssimas notícias... Ele está negociando com alguém aqui dentro da cidade para fazerem uma troca que envolve os cristais. Contudo, esse ataque estranho que aconteceu hoje de madrugada não parece ter ligação com o caso... Estamos sofrendo um ataque direto de Zaun, mas isso não é nem o mais intrigante, Caitlyn... O negociante de Dohran vem daqui da delegacia. — ele afirmou, sério.
– O que?!! — a xerife fingiu como uma boa atriz seu sentimento de surpresa.
– Sim... Não consegui descobrir muito mais, mas além disso um papel importante que estava aqui, no meu escritório, sumiu antes que eu pudesse mostrá-lo pra você... Uma carta de Dohran, com destinatário certo, que encontrei aqui na delegacia na ocasião em que o informante...
A carta.
Aquela carta.
Ela sabia do que se tratava... E como se desenrolava aquela história.
– ...perigo; e não é só isso, Caitlyn: me parece que um enviado de Dohran e o outro negociante vão se encontrar algum dia próximo para fecharem a negociação. Temos que estar atentos às ruas, temos que agir rápido!
– Conseguiu ao menos descobrir onde vai ser este encontro?
– Não, ainda não tenho ideia... — fez-se um breve silêncio. Os olhos de Jayce pareciam preocupados, mirando a xerife; suas mãos fechadas em punho, apertadas sobre a mesa. A xerife olhava para o lado, pensativa.
– Você tem uma opinião formada sobre o caso, não tem, Jayce?
– Contra fatos não há argumentos, Caitlyn. Tenho minhas suspeitas. Você sabe bem quais são.
Caitlyn olhou bem para ele. Sim, Jayce havia deixado bem claro da última vez que se reuniram quais eram as bases de seu argumento; quem ele acreditava ser o culpado traidor. De fato, aquele raciocínio fazia sentido... Até as evidências começarem a ser levantadas. Algo ali não se encaixava nas histórias contadas até então, e ela sabia muito bem que peças eram aquelas. Já imaginava como estas realmente se encaixavam e começava a ter um vislumbre de como era aquele misterioso quebra-cabeça montado da forma correta... E não gostava do que via. Lembrou que tinha ainda que passar no balcão para fazer o remanejamento da Patrulha.
– Desculpe, Jayce, tenho que ir... — ia levantando-se da cadeira e virando para deixar a sala, quando sentiu algo segurar sua mão e puxá-la levemente, impedindo-a de sair.
– Espere, Caitlyn! — a mulher virou-se e viu que era o oficial quem a segurava. Jayce levantou-se de sua cadeira, ainda segurando a mão dela, contornou sua mesa e aproximou-se. — ...Quero que tenha cuidado com essa investigação. Eu... — aproximou-se bem mais do que normalmente se permitia. — Eu me preocupo com você, Caity... — passou o dorso da mão levemente pelo rosto da xerife. — Não quero que se machuque por confiar demais naquela... Naquela delinquente.
– Jayce, acho que não está na hora de...
– Não, por favor, me escute. — segurou o rosto da xerife com a mão que a acariciara. — Eu só quero o melhor pra você. Pra essa cidade. Ela? Você acha que ela conseguiria algum dia ser fiel a alguém? Só tem um lado do qual Vi sabe jogar, Caitlyn, e é o lado dela mesma! Vê como ela troca fácil entre nós e Dohran, de acordo com o que lhe é mais conveniente?
– Jayce, por favor, pare...
– Johan também está tentando há tempos abrir seus olhos; não me surpreenderia se fosse ela a traidora de todos nós aqui, mas não é isso que eu quero discutir aqui agora. Eu estive do seu lado na Patrulha por tanto tempo, Caity... Só o que eu quero é que você não seja iludida por aquela canalha. Só o que eu quero... é... — o herói lentamente fechava os olhos e começava a aproximar o rosto cada vez mais do da xerife, passando o outro braço por trás de sua cintura e envolvendo-a calidamente...
– Jayce. Jayce! — ela tentava caminhar para trás, desviando o rosto de seu colega de longa data com veemência. — OFICIAL!! — gritou, autoritária, empurrando-o para longe de si com força. O herói parecia acordar bruscamente de um momento de transe, assustado. A xerife parou grudada à porta, arrumando o cabelo e a roupa com uma expressão furiosa. — QUE DIREITO O SENHOR ACHA QUE TEM PARA FAZER UMA COISA DESSAS; EU NÃO DEI NENHUMA PERMISSÃO!
– CAITLYN...
– POSTURA, OFICIAL!
A dama de ferro observou-o, ofegante, por alguns segundos, e então saiu da sala com seus passos ríspidos e marcados, sem comover-se um milésimo sequer. O homem de estatura enorme e forte, vergonhosamente empurrado para longe, enquanto recebia a bronca da xerife apresentava uma postura abatida e indignada, como um pobre miserável apaixonado... Mas ao ver aquela desgraçada desafiante atrevida sair, com toda aquela maldita "soberania" dela, o brilho de seus olhos aparentemente emocionados quase não pôde conter agora um terrível rancor enterrado: trazia consigo uma fúria gélida contida consigo há muito tempo; um espectro bestial que rugia agora dentro de si, fixando sua ira irrefreável naquela que já o abandonara à ruína outras vezes. Metida a justiceira... Humpf. Ela não fazia ideia do que o termo "justiça" significava...
Voltando ao corredor, a mente de Caitlyn girava, estupefata, fazendo-a sentir-se ligeiramente tonta. "Foco, foco, garota... Estamos perto; só mais um pouquinho..." Sentia o sabor fresco e doce de um caso que se aproximava de seu fim, mas ao mesmo tempo era tocada pelo desespero ansioso de ver o final tão próximo... E, ainda assim, não poder tocá-lo. Não ainda. Calma... A xerife chegou ao balcão atrás da recepção, que encerrava os arquivos sobre a disposição dos grupos policiais e onde eram feitos o recrutamento e as designações de postos dos oficiais, e o desenho da Patrulha na cidade era montado.
– Hatz? Haha, como vai aqui?!
– Bem, bem, xerife! O trabalho é parecido com o da recepção, mas o salário é bem melhor.
– Que bom, espero que esteja feliz e recuperado de... Bem...
– Está tudo certo; eu a perdoei. — o oficial falava da cabelo-rosa, abanando a mão para a xerife como se dissesse que não se preocupasse com aquilo. Ela sorriu.
– Hatz, preciso dos últimos registros e mapas sobre a distribuição da Patrulha. Depois da tragédia de ontem... Preciso remontar a guarda. — o oficial assentiu com a cabeça e prontamente foi procurar tais documentos. A xerife pensou mais a fundo e lembrou-se dos mapas em seu computador. — Hatz, você pode me trazer também o desenho da Patrulha na cidade no início do mês passado e a distribuição específica no centro da cidade no mesmo período?
– Com certeza, senhorita. — ele berrou de dentro dos arquivos. Voltou com os documentos organizados em mãos. — Aqui estão.
– Ok, obrigada. — ia saindo, quando lembrou-se de algo mais. — Ah sim, Hatz, você poderia recrutar os oficiais que trabalham aqui dentro da delegacia e formar um pequeno grupo para aumentar a vigilância acerca da cela reforçada? Eu agradeceria...
~¨~
– Ok... Vamos lá... Você prometeu que ia voltar a se exercitar pra perder essa pancinha... — o guardinha falava consigo mesmo, tomando coragem em frente ao "puxador de peso" da academia da polícia, quando por acaso ouviu a conversa de dois policiais que passavam sobre o quão chato seria ter que ficar de vigia na cela daquele trator desgovernado, e que esperavam que a hora-extra paga fosse bem gorda para esse serviço. — Reforço na cela da senhorita Vi? — peculiar.
Desistindo "tristemente", de uma vez por todas, de iniciar seus exercícios, o guardinha dirigiu-se ao balcão de recrutamento.
– Ei, Hatz! — chegou no balcão, acenando e sorrindo com sua cara incrivelmente jovem e boba.
– Heeey... — o oficial retribuía com um sorriso amarelado e não muito animado.
– Hatz, eu ouvi que estão precisando de policiais para reforçar a vigilância na cela...
– Poxa, rapaz... Até estávamos precisando, mas olha só, eu já falei com um pessoal, chamei uns caras mais "da pesada", porque você sabe como é, né, pra segurar ela...
– Mas eu posso ajudar. Quer dizer, eu já fui encarregado dela, e tipo... Foi bem tranquilo.
– Haha, espera: encarregado daquela bola de demolição, um guardinha que nem voc... — o oficial calou-se quando observou o guardinha fechar a cara e observá-lo fixamente. O rapaz parecia estar cansado de não ser levado a sério entre seus colegas. O oficial pigarreou, voltando a ficar sério, e retomou. — Desculpe, não posso colocá-lo. A guarda já está montada. — viu o guardinha suspirar desapontado e virar-se para ir embora. Sentiu-se mal por ver o rapaz partir daquela forma, e então decidiu dar-lhe uma chance. — Mas... — Hatz retomou, alto e claro. O guardinha parou. — ...preciso substituir o policial que faz a ronda noturna.
O guardinha voltou, interessado.
~¨~
Em sua sala, a xerife tratou primeiro de reorganizar a guarda da cidade, que contava agora com um preocupante rombo após o ataque no zoológico. Após montar o novo esquema e marcar a data da alteração, passou para os registros do início do mês anterior. Observou primeiro o mapa geral da cidade. A região a Oeste, onde se localizavam as minas de cristal arcano, estava completamente vulnerável. O policiamento nos arredores também era estratégico, de forma que qualquer chamado demorasse bem mais que o desejável para ser atendido por ali. Retirou de sua gaveta o mapa da cidade com a sobreposição que copiara dos arquivos de Jayce... Batia. A data registrada na alteração do desenho da Patrulha era de três dias antes do incidente... Ela não havia feito nenhuma alteração nesse período, lembrava-se bem disso... Mas alguém, que aliás tinha consigo a cópia do mapa, o fez.
– Como você é cara-de-pau... — sussurrou para si, indignada.
Depois, passou para o mapa do centro da cidade, com os registros de quais grupos de oficiais patrulhavam a região na ocasião da ocorrência no mercado central. Ia começar a compará-los, com raiva, quando a sirene estridente da delegacia soou por todo o prédio...
– Droga!
Aquele era o sinal que deixava a todos tensos. Significava que algo muito ruim acontecia e a polícia devia estar preparada... Era a segunda vez que tal sinal soava em 24 horas. A xerife observou pelo vidro de sua sala a correria que começava a se formar. Levantou-se de sua mesa num salto, saindo com a intenção de seguir seus oficiais e informar-se sobre o que estava acontecendo, cumprindo assim com nada mais que sua obrigação de atender imediatamente um chamado daqueles.
– David, o que está acontecendo?! — perguntava para um dos policiais que geralmente fazia parte de seu grupo quando precisava atender pessoalmente a um chamado.
– UMA EXPLOSÃO NA LANCHONETE DA AVENIDA SUNSET; O TRÂNSITO FOI BLOQUEADO EM TODO O CENTRO DA CIDADE E AQUELE PRÉDIO... — o policial, exaltado, parou para recobrar o fôlego, ofegante, falando agora num tom amargurado para a xerife. — ...aquele prédio não existe mais... — o oficial visivelmente queria chorar. A xerife levou uma mão à boca.
– ...Milena!... — sussurrou, lembrando-se de ter sido alegremente convidada para o noivado do oficial com a mocinha simpática da lanchonete. Colocou uma mão sobre o ombro do rapaz e outra em seu rosto, enquanto o oficial afogava-se na própria angústia. — Calma, David; eu sei que eu vou parecer hipócrita, mas tenha força! Ela pode ter tido sorte e escapado, mas só saberemos disso se formos até o local. — o oficial começou a enxugar as lágrimas.
– Está bem... Eu vou... Eu vou pegar a viatura.
De súbito, a xerife lembrou-se dos documentos deixados em sua sala. Não, não podia deixar aquelas coisas ali, não agora sabendo onde se escondia o inimigo. Tinha que colocá-los em um local seguro, fora da delegacia, e tinha que fazer isso na surdina.
– David, não pegue a viatura! — correu até o rapaz que saía e puxou-o, dando a nova instrução quase num sussurro. — Pegue o meu carro; vou precisar urgentemente passar em casa após resolvermos isso.
O rapaz assentiu com a cabeça e recebeu a chave das mãos da xerife, seguindo então para o outro estacionamento, onde os carros particulares dos oficiais ficavam. Enquanto isso, Caitlyn seguiu como um tiro para sua sala, reunindo rapidamente todos os papéis, dobrando os mapas, escondendo tudo em pastas comuns que colocou dentro de sua bolsa. Trancou a sala e saía para pegar seu carro com David, quando viu Hatz.
– Hatz! — desviou-se de sua rota e foi até ele, correndo. — Hatz, por favor, fique de olho pra que ninguém tente entrar no laboratório da perícia; por favor, tome cuidado; tome conta de Elle... — ela falava, baixo e apressadamente, quando foi bruscamente interrompida... Ouviu-se um estouro colossal, vindo justamente de... — Céus... — do... — Céus!!! — O ESTACIONAMENTO!!!
Com os olhos em brasa e uma bola de espinhos na garganta, a xerife, assim como muitos outros oficiais que ainda estavam na delegacia e foram surpreendidos por aquele estrondo, correu desesperadamente para a saída lateral que dava para o estacionamento interno da delegacia, onde estava seu carr...
– NÃO!!! — ela caiu no chão ao abrir a porta, os joelhos não suportando a surpresa e repentinamente enfraquecendo-se, enquanto um rio de lágrimas de desespero e culpa brotavam de seus olhos. Levantou-se, negando a ajuda dos oficiais, e desceu correndo as escadas. Seu carro... Estava... Despedaçado. Ela havia mandado David ir buscá-lo. E agora o pobre rapaz estava... — Não, céus, por favor!... — tinham montado uma armadilha para ela. Seria explodida junto com seu carro como um barril de pólvora assim que acionasse o motor; mas o desgraçado que havia planejado aquilo não contava com aquela saída mais cedo... Nem contava com o pobre David... A xerife via o esqueleto carbonizado ser tomado pelas chamas enquanto o carro se consumia naquele inferno de fogo e cheiro insuportável de gordura queimada. Levou a mão à boca e tremia... David!
– Xerife, a senhorita quer que chame alguém para acompanhá-la para casa?
– Não... — ela falava com a voz trêmula de choro. — Não agora, oficial. Precisamos atender à ocorrência primeiro... E avisar a família de David.
O homem respirou fundo e amparou-a para que voltassem à delegacia e pegassem outra viatura.
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– PUTAQUEOPA... QUE MERDA É ESSA?! — mais uma vez aquela maldita sirene a acordara num susto, fazendo o coração bater na garganta, e percebia a agitação lá fora entre os policiais. Entendia o que estava acontecendo. — Meu pai, mas o que foi agor... — um outro som pavoroso a surpreendeu em sua cela. Uma explosão. Na área da delegacia. Não... Não, aquela merda tava ficando grande demais, e perto de atingir o ventilador e... — EI!! EEEI!! O QUE ESTÁ ACONTECENDO?! HÃ?! EI, ALGUÉM! ALGUÉÉÉÉM!!!!! ME FALA, QUE MERDA É ESSA; O QUE QUE TÁ ACONTECENDO?!!! ME... ME DEIXEM SAIR!!! DESGRAÇADOS, ME DEIXEM SAIIIIIR!!!!!!
Ofegante e apavorada com o que podia ter acontecido lá fora, Vi começou a bater na porta de sua cela, pedindo alguma informação... Mas então as batidas suplicantes viraram murros enraivecidos, e os murros viraram socos, e aquela euforia terrível de saber que um desastre acontecia e não ter informações evoluiu para uma fúria de socos monstruosos e chutes que começavam a deformar a porta de ferro da cela reforçada de forma preocupante.
Mas os vigias de reforço estavam lá e eram bem preparados. Sabiam que esse comportamento insano, uma hora, viria a acontecer. Ficaram apenas observando, silenciosos e prontos, a porta da jaula do leão, que se entortava...
~¨~
Foi o inferno conseguir chegar no loca da ocorrência, na Avenida Sunset, mesmo com as sirenes dos carros da polícia girando e piscando a todo vapor, pedindo passagem em meio ao congestionamento que se formava naquele movimentado fim de tarde depois que várias ruas do centro foram fechadas devido à explosão da lanchonete.
Ao avançarem através das faixas de isolamento riscadas de preto e amarelo da polícia, era possível ver a desolação na qual se encontrava o local antes tão alegre, iluminado e cheio de vida na cidade... Agora, era só uma enorme cratera. Os prédios comerciais ao redor, com seus enfeites chamativos e letreiros neon, estavam agora todos apagados; alguns, mais próximos, também destruídos... Os bombeiros já haviam apagado quase toda a chama da destruição, e começavam agora as pouco esperançosas buscas por sobreviventes, enquanto a polícia interrogava aqueles que estiveram presentes na ocasião e tiveram a sorte de viver para contar o que viram...
A louca de cabelo azul.
Todas, ou pelo menos grande parte das testemunhas, falava agora nessa maldita louca de cabelo azul, aparecendo do nada com aquela estatura digna de pena e o sorriso desvairado no rosto, distribuindo bombas e terror pela cidade. Jinx. Disseram que era chamada de Jinx.
– O que temos até então?
– O mesmo estilo do ataque ao zoológico, xerife. Caos, terror, granadas; tudo isso sem nenhum motivo aparente. Achamos novamente isso... — o policial levantou um saco plástico que continha um... pedaço estourado de metal. Olhando bem, era um pedaço de uma granada, mais precisamente a "cabeça" dela, mas com uma estranha modificação, transformando a cabeça da granada literalmente numa cabecinha de tubarão ou crocodilo... — É o mesmo tipo de explosivo utilizado no zoológico e percebe-se que tem uma assinatura bem própria...
– Sim... Ela está tirando com a nossa cara, como se não tivesse medo nenhum de se esconder... — apertou as mãos, nervosa. De repente, olhou em volta e seus olhos imediatamente travaram-se num rosto conhecido... — Espere um minuto, oficial, eu já volto...
Virou-se e saiu correndo em direção a uma outra pessoa que partia ao longe. Havia acabado de ser interrogada por um policial e fora dispensada; tinha os braços cruzados em volta da cintura, como se abraçasse a si mesma para obter assim algum conforto, o olhar perdido enquanto vagava pela rua destruída, ainda sem saber ao certo o que fazer...
– MILENA! — a xerife gritou para impedir que fosse embora, acenando para ela enquanto corria em sua direção. — Milena... Graças aos deuses; você está viva!
– Hah, xerife! — a moça pareceu repentinamente encontrar um ponto de luz no mar negro e revolto; um farol ou ancoradouro no qual pudesse se sentir segura, talvez? A xerife abraçou-a. A moça, um pouco menos aflita, sorriu e chorou ao mesmo tempo. Por fim, afastou-se da xerife, sorrindo. — E David? Onde ele está? Deve estar morto de preocupação, coitado!
Caitlyn parou de respirar por um segundo, o peito enchendo-se de uma repentina angústia e um sentimento de culpa inexplicável. Puxou um pouco de ar.
– Milena... Eu... Preciso te dizer algo. Algo que não é nada bom para eu falar e... infelizmente, pior ainda pra você ouvir... Milena, ...
Vendo-as de longe, a xerife falava algo com dificuldade, cabisbaixa, escolhendo com cuidado as palavras e ousando poucas vezes buscar o olhar desiludido da moça, julgando-se parcialmente culpada pelo sofrimento estampado nele. Milena jazia os olhos atentos, fixos no relato doloroso da xerife, enquanto seu sorriso aos poucos se esvaía, dando espaço para uma terrível expressão de dor e tristeza. Levou a mão à boca e apoiou-se na xerife para permanecer de pé; Caitlyn amparando-a como podia e tentando prosseguir com a maior cautela possível a história. A jovem, repentinamente, desabou, quase caindo diretamente no chão se não houvesse a xerife ali para segurá-la. As lágrimas e gritos de dor da moça obliteraram todos os outros acontecimentos naquele momento...
A luz do farol lentamente se apagara.
~¨~
Terminados os interrogatórios e a investigação da área pela polícia, só o que restava era retornarem para a delegacia para concluir o trabalho do dia e levar as coisas em frente. É um trabalho que demanda muita força de espírito lidar com situações como esta todos os dias, ver pessoas sofrerem dessa forma todos os dias, e ter que seguir em frente sempre. Caitlyn sabia bem disso e justamente por este motivo é que imergia tanto nos casos em que trabalhava, buscando encontrar o culpado o mais rápido possível e, assim, trazer alguma espécie de conforto para os familiares e amigos.
Adentrando novamente o prédio e indo para o estacionamento interno da delegacia para ver como iam as coisas por lá, a xerife se depara com o som de um Hatz estressado, discutindo com alguém, aparentemente sem chegar a lugar nenhum.
– Mas as ordens foram claras; você deve ser mantida em segurança, dentro do laboratório, e não ficar aqui no meio d...
– Danem-se suas ordens, oficial! Isso aqui é um atentado e ocorreu dentro da área da delegacia e eu, como perita, tenho mais que o direito, tenho o dever de averiguar as causas disso.
– Pois você é teimosa como um... Como...!
– Ai, e você é chato! Chato que nem aqueles mosquitinhos no verão que ficam grudando na gente, torrando a paciência, atrapalhando o tempo inteiro!
No estacionamento, com as chamas que envolviam o carro já há muito extintas, Elle, com suas enormes e grossas luvas antitérmicas e o jaleco branco, estava agachada, quase enfiada no meio dos escombros do carro, mexendo insistentemente em algo enquanto discutia desinteressadamente com Hatz, que fora incumbido da tarefa de manter a ela e ao laboratório intactos enquanto o resto da Patrulha mobilizava-se para atender ao outro atentado.
– Ei, o que está acontecendo aqui?!
– Xerife! Eu estava guardando a entrada do laboratório, quando essa mulher me sai de lá como um búfalo em debandada, com essa luva e uma maleta na mão, e quer vir aqui ao pátio olhar o carro destruído! Eu tentei mantê-la no laboratório, mas ela não...
– ACHEI! Hah! Mas... Hum. Esperava que fosse um dispositivo muito mais amador que este, talvez massa de detonação e alguns explosivos ligados ao motor; isto é uma armadilha muito bem elaborada e pensada para parecer que a explosão fosse natural a olhos leigos... Não que eu entenda muito de hextech, mas...
– Elle, o que é isso!? Lembra do que eu tinha te pedido, a importância daquilo... E você sai e deixa o laboratório vazio?! Vulnerável a quem quiser entrar e mexer nos resultados da...
– Já está pronta, trouxe ela comigo; aqui.
Mais atenta ao tal dispositivo que encontrara no carro do que à bronca que levava da xerife, a perita tirou de seu bolso um envelope lacrado, junto com o pedaço de fita adesiva que a xerife lhe entregara, e devolveu ambos para ela.
– Tenha certeza, esses resultados não passaram por outros olhos senão os meus. Se quiser discuti-los, agora estarei de volta ao meu laboratório. — disse aquilo enfatizando a última frase, mentalizando atingir pontualmente o policial que a "escoltava", e retirou-se do local.
– Obrigada, Hatz. Fez um bom trabalho. — a xerife deu um tapinha no ombro do rapaz, dispensando-o da função e agradecendo-o, enquanto mantinha os olhos fixos no envelope. Apesar da ansiedade em desvendar o mistério e acabar com o caso, tinha receio de abri-lo... Estranhamente, não se sentia mais tão segura na delegacia, que antes fora quase como um lar para ela. Queria ir para casa, terminar sua investigação lá, mas havia outro problema: se tinham tentado explodir seu carro, quem diria que seu apartamento era seguro? Não... Precisava de um outro lugar para ficar...
Lembrou de alguém que poderia ajudá-la.
~¨~
Envolvido pela escuridão da noite, o aconchegante apartamento embebia-se de uma melodia triste, uma bela sonata nascida das mãos de um habilidoso pianista de anos e anos atrás, reverberando melancolicamente pelo apartamento pouco iluminado vinda do antigo gramofone, uma relíquia estupendamente bem conservada por seu dono. O homem, no apartamento, termina de preparar o café e serve-o numa caprichosa xícara de porcelana com detalhes em ouro puro, ganha de presente pelo zeloso serviço prestado a uma respeitável família de Ionia. Estava prestes a aconchegar-se na enorme poltrona para desfrutar de seu café e sua solidão, quando inesperadamente a campainha toca... O homem levanta. Vai atender à porta.
– Caitlyn. — sorri seu sorriso charmoso de ex-espião.
– Andrès, não queria abusar de sua hospitalidade, mas...
– Entendo. Johan contou o que aconteceu com seu carro; já passei também por isso.
– Posso passar a noite aqui então? Tenho receio que também tentem fazer algo ao meu apartamento.
– Claro, sem problemas. É natural que se sinta assim. Afinal, nós, investigadores, acabamos sendo meio paranoicos. — riu. — Vamos, entre, por favor. Já jantou? Está servida de alguma coisa?
– Não jantei ainda, mas obrigada, eu me viro com algo. Sabe... "Paranoia". — riu.
– Haha! "A única refeição segura é aquela que eu mesmo preparo". Sim, sábio. Bom, sinta-se à vontade.
Andrès voltou a tomar nas mãos sua xícara de café e dirigiu-se para a poltrona, enquanto a xerife acomodava suas poucas coisas — incluindo seu rifle que, ainda bem, não estava no carro explodido — em algum lugar entre a sala e a cozinha. Partia para a cozinha, preparar algo para comer, quando lembrou-se de uma pequena coisa.
– Andrès?
– Sim.
– Não conte a absolutamente ninguém que eu estou aqui.
O senhor fez um sinal de "zíper na boca" e recostou-se em sua poltrona. A melancolia da noite, agora na presença dela, parecia muito mais bonita. As notas continuavam a soar no gramofone. Ah... Como era bela aquela sonata.
~¨~
Após sua pequena janta, a xerife serviu-se também de uma xícara de café e foi sentar-se em seu canto improvisado, a fim de organizar suas evidências e fechar, de uma vez por todas, aquela investigação. Em seu notebook, fez a descrição de cada uma das provas encontradas, explicou-as e demonstrou onde cada uma se encaixava no caso e o que significavam, obtendo aos poucos um relatório completo e impecável sobre aquela investigação de forma que, qualquer que fossem as circunstâncias, poderia ser apresentado e facilmente compreendido pelo juiz, não restando dúvidas quanto ao culpado e a decisão de prendê-lo...
A última coisa que deixou para fazer em relação àquilo foi abrir o envelope que Elle havia lhe entregado. Sentia, ao mesmo tempo, orgulho e medo daquela prova... Aquilo poderia ser uma confirmação ou uma mudança definitiva no caso... Quase prendendo a respiração, rasgou um dos lados do envelope lacrado e retirou o conteúdo de dentro. Para sua surpresa, havia não uma, mas duas folhas ali. Hah... O que? Dois grupos de digitais?... Aquilo era intrigante... E interessantíssimo! Abriu-as e começou a ler.
– ...haha, Elle, sua gênia, filha da mãe!!
A xerife sorria à toa, verdadeiramente animada com aquele resultado! Um pouco brava, sim, mas... Haha! O caso estava fechado e da maneira mais inacreditavelmente perfeita, como ela nunca poderia imaginar, com o acréscimo daquela evidência muito bem recuperada por Elle. Hah! Ia comprar uma caixa de bombons para ela na semana seguinte... Só precisava agora confrontar este suspeito e levá-lo ao tribunal. Inacreditável. Realmente inacreditável... Precisava ligar para a perita para confirmar aquilo. Faria cópias de todos os dados referentes ao caso pelo menos três vezes em locais diferentes e pensava também em imprimir ainda uma cópia do relatório, enquanto tentava entrar em contato com o celular de Elle.
– Alô?
– Elle?
– Xerife?!
– Sim! Céus, garota, eu não consigo acreditar... Esses resultados estão mesmo certos?
– Claro que sim; colocaria minha não no fogo por eles. Acredite: fiquei tão surpresa e confusa quanto você ao descobrir um segundo resquício de impressões digitais... Devo acrescentar que não foi nada fácil a análise; fita adesiva definitivamente não é o melhor material para coletar digitais... E base em pó compacto? Xerife, a delegacia não anda tão sem recursos assim...
– Haha, eu sei... É que, realmente, foi um improviso feito muito às pressas... Mas obrigada pelo serviço, Elle, realmente.
– Xerife, tem outra coisa que acho que deva interessar. — Elle estendendo uma conversa? Deveria ser importante. — O dispositivo que retirei do seu carro é muito provavelmente a causa daquela explosão. Ainda estou aqui na delegacia; queria dar uma olhada melhor nele, mas acho que cheguei num ponto em que estou quebrando a cabeça à toa. Como eu comentei, trata-se de techmaturgia; é como se o Capacitor Hextech do seu carro tivesse sido modificado de alguma forma para... Não posso dizer ao certo como, mas parece que ele não aguentou a energia aplicada e gerou uma explosão. E isso, com o capacitor instalado tão próximo ao motor... Bem... Vimos o estrago.
– Mas que porcaria... O atentado foi mais que premeditado então; foi é feito com muito capricho.
– Sim, "capricho", eu usaria este termo. De toda forma, minha maestria se estende às áreas da Biologia e da Química; sugiro que busque alguém mais versado em Techmaturgia. O professor Heimerdinger certamente poderia ajudá-la... Ou Jayce, afinal é ele o inventor do Capacitor Hextech...
– É, aposto mesmo que Jayce poderia me explicar muito bem o que é isso... — a voz da xerife soava sarcástica.
– Bem, então vou para casa agor...! — a frase de Elle foi interrompida de súbito do outro lado da linha, de uma forma estranha que fez Caitlyn preocupar-se.
– Elle? Elle! Ei, responda; está tudo bem aí?
– Eu... — fez-se um breve silêncio, como se ela estivesse prestando atenção numa instrução sussurrada por outra pessoa. — É só... Uma cuba de eletroforese minha quase caiu da bancada, hah. Me assustei. — aquilo estava estranho. — Ahn... Tenho que ir, xerife, está ficando tarde. Até.
– Até... — o celular foi desligado bruscamente na cara da xerife. — ...mais.
Ora, aquilo não cheirava nada bem... Nada bem mesmo! Queria, por via das dúvidas, ir ver como estavam as coisas na delegacia, mas tinha antes que fechar aquele inacreditável relatório com a descrição da evidência das digitais e como ela se encaixava como uma luva naquela história... Respirou fundo, receosa... Haviam oficiais à noite cuidando da delegacia. Não eram muitos, agora com o grande desfalque no número de policiais, mas julgavam ser o mínimo suficiente para deixá-la protegida. Passou uma mão pelos cabelos, pensativa... Aprendera da pior maneira a não depositar tanta confiança assim na Patrulha ultimamente, visto que havia maçãs podres no cesto... Mas o que podia fazer, sozinha e fortemente ameaçada, naquele momento? Suspirou.
– Céus, por favor, não deixem nada de ruim acontecer a Elle...
Digitava no notebook como se toda a Runeterra dependesse daquilo. A contagem regressiva já estava terminando.
~¨~
Desligou o celular, tensa, guardando-o lentamente no bolso do casaco, e virou-se de costas.
– ...você aqui. Agora.
– Surpresa, doutora?
– Estranhamente, não. — "amedrontada" seria um termo melhor, mas Elle negava-se a admitir ou sequer demonstrar aquilo. — E então... O que vai fazer?
– Hah! Que pessimismo, doutora Elle... "O que vai fazer?"... Está me tomando por inimigo?
– Não classifico as pessoas dessa forma, mas se você está aqui, tem um motivo muito plausível que eu agora imagino qual seja... A última questão a responder então é exatamente esta. "O que vai fazer?".
O homem suspirou.
– Tão inteligente, com tanto potencial para ser uma das mentes mais brilhantes do futuro de Piltover... — ele se aproximou distraidamente da perita. — ...pena que decidiu abrir a boca na hora errada.
– UGH!
A cientista tomou um golpe descomunal no estômago que a fez ir ao chão dobrada sobre si e deixar cair de suas mãos o objeto que tinha retirado do carro. O agressor apagou-a finalmente com um lenço embebido em clorofórmio.
~¨~
– Vocês ouviram isso?
– Sim... Como se alguma coisa tivesse se quebrado... ou algo que caiu...
– Hey, *FIU!* guardinha! Vem cá. — um dos vigias da cela reforçada assoviou para chamar a atenção do rapaz. — Fica aqui com o Ahro vigiando a cela enquanto a gente vai ver o que que é isso.
O guardinha, que trazia consigo uma bandeja de comida e um copo de água que seriam a janta da prisioneira, apertou o passo para atender ao pedido do colega. Colocou a bandeja no chão e abriu a portinhola, passando a refeição por debaixo da porta para a mulher.
– Ok! Estamos a postos! — falou, levantando-se e colocando-se numa posição desnecessariamente formal diante da cela. O policial ao lado disfarçou um risinho de escárnio.
Vi observou a portinhola se abrir e a comida entrar. Ótimo. Seu passaporte pra fora dali. Esperou um pouco até achar o momento propício. Pôde perceber, ao longo do dia, que a vigilância sobre sua cela havia aumentado. Haha, aquela galera não tava pra brincadeira! Mas, convenientemente, algo acabara de acontecer obrigando os policiais a saírem dali. Sorte? Humpf, finalmente algo parecia virar a seu favor nessa merda de vida. Esperou tempo suficiente — nem mais, nem menos — para saber que a maioria dos oficiais tinha se afastado e então deu início ao seu plano.
Do lado de fora, ouviu-se o som de vidro se quebrando.
– AAAAAII!!!
– O que foi isso!?
O vigia de plantão abriu uma pequena viseira na porta da cela para observar o que acontecia lá dentro.
– ...merda!
O policial começou a mexer nervosamente num molho de chaves, procurando a que abria a cela. Tinha visto a prisioneira ajoelhada, o copo de vidro estatelado no chão, quebrado, e a mão da mulher coberta de sangue que ainda jorrava, manchando a cela, enquanto a outra mão apertava esta, tentando conter o sangramento.
– Droga de brutamontes burra... Tem que se machucar desse jeito bem no meu turno?!!
O vigia abriu a porta enquanto o guardinha vacilava ao seu lado, sem saber ao certo o que fazer. — E você, o que é que tá fazendo parado aí?! Vai limpar essa merda toda; joga esse vidro no lixo! ...idiota...
Vi respirou fundo e olhou de relance para o vigia metido a fodelão que a escoltava. Tratava os outros que nem lixo. Filho da puta... Haha. Não podiam ter mandado alguém mais apto pra tomar um belo soco na cara. Seguiram pelos corredores até a enfermaria sem serem atrapalhados, o vigia com toda sua irritante insensibilidade e Vi, com sua dor e seu momento de fragilidade mansa completamente forjados. Entraram na saleta vazia marcada com uma cruz vermelha.
O guardinha terminou de limpar a cela suja de sangue e cacos de vidro, quando parou e observou o ambiente ao redor... Hum... Estranho... Os outros vigias que tinham saído ainda não haviam voltado... Será que... Não, não posso abandonar meu posto. Mas, peraí: não tem nada pra vigiar aqui! Vamos lá ver o que está acontecendo.
Sentada sobre a maca da enfermaria sem necessidade nenhuma, Vi reclamava da dor o tempo todo, como uma criança propositalmente irritante, enquanto o policial naturalmente mal-humorado e agora também estressado procurava alguma coisa para colocar naquele ferimento.
– AAU; isso tá doendo!
– Não ia doer tanto se você fosse menos idiota. — retrucava o guarda, finalmente encontrando um pequeno rolo de gaze para fazer o curativo, guardado dentro de uma das gavetas da pia.
– Tá ligado que eu posso te denunciar formalmente por... alguma coisa parecida com "maus-tratos". AAII!
– Quer parar de fazer escândalo, sua...
– Vá se foder, otário! — respondeu com uma careta de dor.
– Haha! Agora eu posso te denunciar por desacato a autoridade!
– Ah, é?
– É sim... — o homem respondia, vitorioso e distraído, enquanto abria a garrafinha de água oxigenada.
– Então acrescenta mais essa na sua denúncia, babaca. — de repente, o homem sentiu uma mão em sua cabeça, rápida como um relâmpago, empurrando-a com violência na direção da pia.
Vi levantou-se da maca como um raio, ligeira e silenciosa, e bateu a cabeça do policial no mármore frio da pia, fazendo o homem cair desacordado na hora. A adrenalina estava a mil em seu sangue e ela teve que parar por um instante para colocar os pensamentos no lugar e organizar o que faria a seguir. Percebeu no chão as marcas de sangue e então olhou para sua mão cortada. Pegou o vidro de água oxigenada sobre a pia e derramou o líquido sobre o ferimento.
– Aaah, puta que pariu! Como essa porcariazinha queima!
Pegou o rolo de gaze e enrolou de qualquer jeito sobre o machucado, apertando um pouco para estancar o sangramento. Levantou o policial e colocou-o dentro do banheiro da enfermaria, trancando a porta mas deixando a chave ainda no trinco. Alguém viria soltá-lo de manhã. Agora, precisava ser extremamente cautelosa. E rápida...
O rapaz vinha subindo as escadas, saindo do pavilhão das celas e adentrando a delegacia, quando avistou um vulto sorrateiro passando pelo corredor... Seus colegas não haviam dado sinal de vida até agora. Será que..? Começou a tirar a arma do coldre e perseguir o vulto com velocidade considerável.
– PARADO AÍ; NÃO SE MEXA!!! — gritou o rapaz, nervoso.
O guardinha apontou a arma para o vulto e lançou a luz de sua lanterna sobre ele.
– Droga!! — ela murmurou entredentes quando foi ofuscada pela luz.
Ambos quase tiveram um ataque do coração quando o pequeno feixe de luz clareou o local: Vi porque tinha sido descoberta em meio à sua fuga e o guardinha por perceber que era sua amiga — sua incontrolável e titânica amiga — que ele teria que enfrentar agora. A fugitiva ofegou e o guardinha engoliu em seco, tudo se passando em questão de milésimos de segundo.
Ela não pensou duas vezes; estava novamente na mira de uma arma muito próxima a ela, e mesmo que o rapaz não atirasse tão bem, as chances de acertá-la eram muito consideráveis... E ela estava sem as luvas. E logo mais policiais chegariam. Ignorou o ultimato de seu amigo e correu para onde sabia que os documentos que precisava roubar estariam. Sabia, de alguma forma; sentia que eles estavam lá, esperando-a... Infelizmente, pobre de seu colega se tentasse impedi-la.
Quando a mulher começou a correr, o rapaz sentiu-se desesperado. Não tinha condições de competir com ela se de repente a rebelde decidisse bater de frente. Atirar era uma saída... mas não muito desejável. Ainda assim, correu atrás dela com todas as forças que pôde reunir, ignorando quaisquer reclamações que seu corpo um tanto fora de forma faziam. Era seu trabalho. Mais que isso, seu dever de honra. Mesmo que ele não quisesse entrar nesse embate com uma de suas poucas amigas... era necessário. E essa noção de justiça o rapaz tinha muito bem determinada dentro de si.
Atravessaram quase todo o prédio numa perseguição frenética em meio aos corredores escurecidos do local, o guarda correndo com a arma ainda em mãos e gritando para a fugitiva parar, enquanto a mulher ganhava distância, sumindo a cada virada brusca que dava, mudando de direção entre os sombrios corredores. O rapaz respirou fundo e apertou ainda mais o passo, correndo o mais rápido que pôde até que...
...vazio. Deparou-se com uma pequena região mais aberta e vazia. À sua direita encontrava-se o corredor com os escritórios dos oficiais maiores — Jayce, Johan, a xerife... — e, ao fim, a recepção com a porta de entrada principal da delegacia. Se ela tivesse simplesmente fugido, ele ainda teria tempo de vê-la atravessando a porta, ou teria ao menos tempo de ver a porta arrombada fechando-se lentamente... Ao invés disso, um completo nada tomava conta da área escura iluminada fracamente pela luz da lua, criando uma atmosfera azulada e fria em comparação ao calor terrível de seu corpo após a corrida... Não. Ela ainda estava lá, em algum lugar...
Havia sentido que tinha simplesmente flutuado como uma bala perdida por sobre os degraus que desciam em direção à oficina, e a primeira coisa que fez foi esconder-se debaixo da escada, esperando deixar de ouvir os passos desesperados que a seguiam. Droga! Droga, droga, merda, CACETE!!! Justo agora aquela porcaria toda tinha que dar um jeito de dar errado e ferrar com todo o esquema que tinha montado pra acabar de vez com aquilo... Sentiu a garganta apertar. Estava tão perto, tão perto... "Para com isso! Para com isso agora, sua frouxa! Você já tá na metade do caminho; começou tudo isso e agora vai desistir?! Pff! Você não merece o título de 'demolidora'..."
– Cala a boca... — disse para si mesma. Ela olhou firmemente dentro da escuridão, buscando projetar mentalmente o caminho da oficina que a levaria aos projetos de Jayce que ela vira semanas atrás. Ela ia acabar com isso. Ela ia dar um fim em tudo isso, e ninguém iria impedi-la, de forma alguma... não viva. De repente, avistou uma fraca luz em uma das saletas de acrílico... Saiu de seu esconderijo e se aproximou um pouco mais naquela direção... Convenientemente... — Caaaraaaalho... — sussurrou para si mesma. Tinha identificado o cômodo. Os documentos!
Depois de titubear por alguns instantes, o rapaz ouviu o ruído de algo caindo em uma das salas cuja porta encontrava-se à sua esquerda. Sem hesitar, adentrou o local, empunhando sua arma e utilizando a lanterna para buscar a fugitiva em meio à escuridão. Beco sem saída.
– ...o que é isso?!
O rapaz entrou no laboratório da perícia, aterrorizado e surpreso com o que via: o local estava parcialmente destruído, como se uma grande briga tivesse se dado ali, e os oficiais que haviam deixado de vigiar a cela da prisioneira para ver o que tinha acontecido estavam todos caídos no chão, apagados, alguns quem sabe até gravemente feridos... O guardinha ofegava, confuso. O que tinha acontecido ali?! Vi passara por aquele lugar? Foi ela quem fez tudo aquilo? Se foi... Ele começava a sentir uma pontada de raiva; como alguém era capaz de fazer aquilo com pessoas inocentes, mesmo tendo sido trancafiada por elas?! Aquilo... Aquilo era obra de um monstro! Ouviu novamente o barulho de algo metálico caindo no chão. Percorreu o local com a lanterna e deparou-se com um oficial cujo rosto parecia uma amora; inchado, vermelho e surrado. O homem tentava agarrar algo para levantar-se, mesmo seu estado físico claramente mostrando que ele não conseguiria aguentar ficar de pé, mas conseguira pelo menos segurar um pedaço grande de papel pardo que estava sobre a bancada do laboratório e puxou-o para baixo, derrubando tudo o que estava em cima dele, inclusive o pequeno refratário de metal que caíra no chão chamando a atenção do guardinha. O rapaz se aproximou, apoiando as costas do homem com cuidado.
– Oh, céus!... Céus, céus; oficial, quem fez isso a vocês?!!
– E... El... — o homem mal conseguia falar. Seus pulmões pareciam fracos e a boca, inchada e machucada devido a vários golpes, não conseguia articular o som das palavras direito. Sentia grande dor. — Elle... Ele... Lev... Elle.
– O... O senhor está dizendo que "ele levou Elle"? A cientista?
– S-sim... Lev...
– Ele quem? Pra onde?
– J... — o homem não aguentou e caiu desacordado. O guardinha checou o pulso e a respiração. Estavam fracos, mas o policial ainda estava vivo; desmaiado. Então mais alguém tinha estado na delegacia naquela noite, alguém nem um pouco bem intencionado...
Espere. E onde estava Vi então?
Os fios rosa, desajeitados, iam ganhando nova intensidade aos poucos; a cor chamativa cada vez mais vibrante conforme aproximava-se da iluminação fraca da saleta onde eram guardados vários documentos da polícia. Hum... Aquilo era estranho... Quem deixaria um abajur de mesa ligado daquela forma? É luz; é algo que se nota, é algo que a pessoa percebe que esqueceu ligado, volta e apaga... Enfim, não convinha reclamar da sorte, e que sorte... Olhou para a parede enquanto se aproximava do local, vendo a quantidade de rolos de papel guardados naquela espécie de colmeia; quantos daqueles teria que abrir até encontrar os documentos certos — os projetos de Jayce — dispondo de um tempo tão curto?! Porém, quando entrou na saleta, teve vontade de gritar de alegria!
– Haha!!! — colocou as duas mãos sobre a boca para abafar o riso. Estava maravilhada! Aqueles documentos, justamente os que vira quando Jayce estava mostrando-os para aquele carinha estranho, estavam lá, abertos sobre a mesa como se ninguém mais tivesse tocado em nada naquela sala desde aquele dia! Fantástico, e de fato muito conveniente... Muito conveniente. Hum. Estranho. Aproximou-se da mesa com cautela...
– PARADA AÍ, VI! — o guardinha surgiu do nada, a arma e a lanterna apontados em sua direção. — Parada aí, por favor... — nos olhos do rapaz, via-se a dúvida atroz que o acometia. Ele não a considerava uma pessoa má... Mas ela certamente havia feito muita coisa errada...
Vi continuou onde estava, a centímetros de pegar os documentos sobre a mesa. Não se mexeu um milímetro. Olhava diretamente nos olhos do amigo, séria.
– Cara, me escuta, eu não quero fazer mal a ninguém. Eu juro, e que eu morra se estiver mentindo... — ela controlava a respiração conforme falava. A dúvida de uma pessoa com uma arma na mão é perigosa. — Eu preciso acabar isso que o Dohran começou antes que seja tarde demais...
– Você está fugindo... E roubando!
– Eu sei, eu pareço uma víbora, eu sei; mas não é verdade! Você tinha confiado em mim, eu lembro... Poxa, você é um dos únicos que poderia entender que eu não sou culpada! ...pelo menos não disso que me acusam.
– Traição!
– Eu não sou traidora, não sou!! — Vi falava com uma desesperança latente na voz. Ela não era culpada por aquilo e todos ali corriam perigo enquanto ela estivesse de mãos atadas; ela poderia levá-los a resolver de vez aquele empecilho; como ninguém conseguia entender?!! — Pode parecer que eu to tentando te iludir, mas acredite, se eu quisesse mesmo fazer alguma merda eu não usaria palavras... Guardinha... Por favor, escute...
A arma nas mãos do rapaz tremia. Ele a segurava com força, o braço estendido em direção a Vi, sem chance nenhuma de escapar daquele disparo certo... Os olhos dela brilhavam. Desamparada. Completamente sozinha. De novo. Droga! O rosto do policial ficava vermelho, os cantos dos olhos enchiam-se...
– E-eu... — ofegava, sentindo o peito apertar. — Eu... não posso deixar você ir. Me desculpe, senhorita Vi... — algo escorreu de um dos olhos. Com dificuldade, a visão parcialmente ofuscada pela luz difusa que a água em seus olhos permitia captar, o rapaz observou aquela intransigente figura de cabelo rosa respirar fundo, de olhos cerrados, num momento de decisão e preparação silenciosos dentro de si mesma...
– ...Certo. Você não pode me deixar ir... — expirou levemente todo o ar que havia tomado para dentro de si... — ...mas eu não posso me permitir ficar. — ...abriu os olhos ferozes. — Infelizmente.
Num movimento súbito, a mulher puxou com uma mão tudo o que havia sobre a mesa e, com a outra, atirou o pesado móvel para cima, virando-o quase em cima do policial e fazendo o rapaz atirar por reflexo numa direção qualquer bem mais acima de onde Vi estava, o susto dando tempo suficiente para a fugitiva virar-se e retirar aleatoriamente mais uma pilha de qualquer coisa da parede de documentos e correr em outra direção, oposta ao tiro. O policial desviou-se da mesa que quase o atingira e já preparava-se novamente para mais um disparo, mas percebeu que havia perdido de vista por um momento a mulher que ele perseguia; olhou desesperadamente ao redor e pôde avistar o rastro de rosa que se movia diante de seus olhos, ainda muito próxima, e mirou nela com pesar, mas então a mulher estacou os pés no chão, percebendo, assustada como um animal caçado, a mira da arma que se voltava para ela, e mudou a direção da corrida, obrigando o policial a virar-se novamente, porém sem tempo o suficiente para desvencilhar-se do salto que a mulher, repentinamente transformada em um leão rosa em sua mente, deu em direção a ele, caindo em cima do policial e derrubando-o, imobilizado no chão e com a arma caída fora de seu alcance.
Vi estava em cima dele, segurando seus braços e pernas com quase nenhum esforço, ofegando mais devido à carga sentimental que fora jogada sobre si durante aquela loucura do que à toda a movimentação insana que tivera que fazer neste curto espaço de tempo. O policial se debatia, em vão, tentando escapar a todo custo para cumprir seu dever como autoridade, pará-la e prendê-la novamente. Tarde demais; o leão já estava à solta e com as garras cravadas nele... A moça observou com pesar a reação do cara que tinha sido ali seu único amigo...
– ...me desculpa, guardinha. Não queria que fosse assim. — segurando-o pelos braços e pernas, olhando-o de frente, deu uma cabeçada realmente forte no homem, para que ficasse apagado por um bom tempo... Levantou-se quando percebeu que ele já não se movia, levando uma mão à própria testa, um tanto zonza... Olhou os papéis que roubara caídos no chão. Tinha... Tinha dado certo. Ao menos essa primeira parte tinha dado certo. Não sentia-se feliz, mas constatava que tinha funcionado. Agora era só continuar firme, levando aquilo em frente, até o final. Reuniu os papéis espalhados pelo chão, separou-os rapidamente entre o que era de interesse e o que tinha pego a mais, e saiu correndo, derrubando a porta da delegacia e fugindo apressada com o produto do roubo nas mãos.
~¨~
Caitlyn adormecera exausta, com o notebook ainda ligado, sob a luz baixa do abajur que colocara para trabalhar em seu canto separado entre a cozinha e a sala de Andrès. O anfitrião levantara de sua poltrona e se deparara com tal imagem, indo buscar para ela um cobertor. Retornou e cobriu-a, a xerife fazendo um leve movimento e então ajeitando-se enquanto ainda dormia. O homem sorriu, observando-a daquela forma, e então virou-se para ir também dormir...
...o som repentino do celular da xerife tocando chamou a atenção dos dois.
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