Piltover's Finest
12 Capítulo 11 - Contagem Regressiva
Notas iniciais

4...
Os primeiros barulhos começavam a ser ouvidos na rua; em geral raros ruídos de automóveis que saíam ou voltavam na madrugada, passando quase silenciosamente pela janela do apartamento cuja luz permanecera acesa a noite toda. A jarra da cafeteira jazia vazia num canto da mesa, servindo como peso para as pilhas de papel que começavam a se amontoar em frente à xerife. Esmiuçara cada detalhe dos acontecimentos até então, iniciando uma investigação extensa e completamente nova. Finalmente, algo começava a despontar no horizonte daquele intrincado caso, um dos poucos reais desafios capazes de confundir e estressar Caitlyn. Embora esse fosse um caso realmente diferente de todos os outros.
Nunca antes precisara fazer uma limpa dentro de casa. Nunca antes precisara preocupar-se em investigar a própria delegacia. Confiava em seu oficiais e confiava na Patrulha de Piltover; nunca hesitaria em confiar-lhes sua própria vida, como de fato já tivera que fazer em operações arriscadas. Foram escolhidos a dedo e treinados para a perfeição operacional. Eram hoje seu grande orgulho e quase sua família... Agora já não tinha tanta certeza sobre isso.
Por outro lado, se sempre pôde contar com eles, por que não agora? Se era certo o que diziam e seu instinto estivesse errado, a xerife teria cometido a falha terrível de trazer seu próprio algoz para dentro da corporação... e para dentro de casa. Poderia tudo aquilo ter sido, até hoje, o plano mais mirabolante e bem orquestrado executado por uma gangue das redondezas? "Mantenha os amigos próximos; os inimigos, mais ainda".
Pisava em cascas de ovos. Mas pisava com firmeza.
Olhou para o relógio na parede. Quatro e meia. Tinha algumas horas para vasculhar melhor a principal cena do crime antes que os outros chegassem. Recolheu os papéis, dando uma rápida organizada; colocou a jarra da cafeteira na pia e foi tomar um breve banho. Iria chegar bem mais cedo hoje na delegacia...
~¨~
Deitada em meio ao breu de escuridão que se tornava aquela cela à noite, a criminosa, sem cerrar os olhos por um minuto sequer, orquestrava que próximos movimentos teria que fazer. Vira onde estavam alguns projetos de Jayce naquele dia, na oficina. Aqueles ladrõezinhos de merda, num outro dia, haviam tentado roubá-los. A mando de Dohran, será? Humpf, provavelmente... Incompetentes. Deviam imaginar que ela estaria lá para pegá-los de volta. Enfim, reavidos os documentos, poderiam também estar retidos na sala de evidências. Dois lugares para procurar. Bom.
Agora, e se Jayce tivesse levado-os embora? Bem, não seria problema descobrir onde estavam se tivesse alguém que ajudasse a rastreá-los e... Droga. Essa era a parte foda de ter que fazer tudo sozinha. Pelo menos trabalhando com aqueles otários do Dohran sob seu comando as coisas ficavam mais fáceis. E se Barthrax tivesse ajudado...
Inferno! ...ok, ok, esfria a cabeça... Não importa onde esses papéis estão, era só ter acesso a eles. E isso ela poderia garantir; não era para Vi nenhum sacrifício abrir caminho rumo ao seu objetivo. Ok... Só precisava agora era da oportunidade certa. Sem as luvas, certamente seria mais difícil sair quebrando as paredes pra chegar aos projetos e depois sair dali. Teria que ser um pouco mais... "refinada".
A enfermaria da delegacia.
Poderia esperar a comida chegar, simular um acidente com o copo de vidro, tornando necessária uma passagem por lá. No turno da noite seria mais fácil; há menos policiais no lugar. Bastava apagar o que lhe acompanhava com cautela, se esgueirar para a oficina e depois sair com os papéis pela porta da frente. Sem as luvas, uns... dez policiais ela conseguia carregar. Bom, muito bom. Depois era só fugir e esperar o momento do encontro com Dohran.
No escuro, seus olhos se estreitaram.
~¨~
Chegando à delegacia, a xerife entrou sem fazer ruído por uma passagem alternativa emergencial bem escondida aos fundos. Pouquíssimos, como ela e Jayce, tinham conhecimento dessa passagem raramente usada...
Calma. A xerife deu uma rápida olhada em volta, para toda a tranqueira recoberta de pó que se depositava ali... exceto na maçaneta. A passagem havia sido usada por mais alguém recentemente. Não era nada conclusivo, obviamente... Mas guardaria isso na memória. Retirou um lenço e usou-o para abrir a porta, conservando quaisquer digitais que pudessem estar ali na maçaneta. Entrou.
Tudo estava quieto. Provavelmente, àquele horário, não era mais o turno de ronda de ninguém. Estava livre. Com cuidado, abriu a porta da sala de Johan e olhou ao redor. Nada muito impressionante, até bem parecida com sua sala... Avistou a mesa de trabalho do oficial. Todas as mesas dos oficiais possuíam gavetas fechadas a chave. Se havia algo a ser omitido, provavelmente estaria por lá. Minuciosamente, começou a trabalhar na fechadura...
Abriu.
Yes!
Observando o conteúdo da gaveta, aparentemente nada chamava a atenção a princípio. Sentou-se e começou a ler os papéis... Nada. Foi para a próxima. Casos arquivados, extratos bancários, contas pagas... Johan era um homem bem organizado. De peculiar, apenas o maço de cigarros. Havia achado que ele tinha parado de fumar. Bem... Abriu então a terceira das quatro gavetas, já tentando imaginar onde mais poderia procurar pistas já que, aparentemente, ali não encontraria nada, até que deparou-se com aquele papel...
Era um xerox de uma espécie de carta, provavelmente entregue em mãos, visto que não tinha remetente ou destinatário e encontrava-se um pouco amassada. Era o que se podia ver na imagem do xerox.
– "Ora, ora, mas vaso ruim não quebra mesmo..."– a xerife percorria o olhar sobre o papel, pronunciando mecanicamente, em voz baixa, os trechos que mais lhe chamavam a atenção. — "Viu como você é importante pra gente, Vi? Quando precisa, você dá conta do recado..." ... "Tô bem disposto a te receber de volta [...]Se você trouxer pra mim o que eu quero."... Mas o que é isso?!
Continuou a vasculhar os papéis daquela gaveta. Encontrou, bem ao fundo, o que parecia ser uma agenda e, curiosa, quanto ao seu conteúdo, decidiu abri-la para investigar. Contudo, ao puxá-la, um cartão pendeu de uma das páginas. Hum... Intrigante. Abriu na página correspondente.
"As plantas dos projetos de Jayce não puderam ser levadas. Melhor que continuem guardadas aqui na delegacia.
Caitlyn sobreviveu ao tiroteio. Falar com Edmund: 5832..."
"Edmund Jacobsen, detetive particular". Era o mesmo nome que constava no cartão, com o número. Quem seria aquela pessoa; por que Johan havia contactado um detetive particular? Pegou o telefone da mesa do oficial e discou o número indicado.
– Johan, pelos céus, isso são horas de ligar?
A xerife ficou muda, querendo saber quem era aquela pessoa e por que Johan havia entrado em contato, mas não podia responder ao telefone ou o colocaria em alerta.
– Johan? Alô? ...Ei, está tudo bem?
Ligeira, a xerife retornou o telefone ao gancho e observou mais uma vez o cartão. Era um número de celular. Poderia tentar comunicar-se, então, através de mensagens. Pegou seu celular e configurou-o para que o número não fosse reconhecido. Começou a escrever.
"Desculpe, mas houve complicações. Acho que a linha não é mais segura.
Enfim, alguma novidade? Mantenha-me informado. J."
Enviou a mensagem e colocou o celular na mesa, observando-o atentamente, esperando que tocasse com uma resposta... Bah, como assim? Você acha que um investigador responderia a uma mensagem de texto de um número desconhecido? Pff! Abandonou a ideia e continuou a procurar mais pistas em outros lugares da sala, e estava vasculhando os conteúdos de uma prateleira quando o celular vibrou na mesa. Olhou para ele, surpresa e ainda incrédula. Tomou-o nas mãos, então, com avidez.
"Consegui captar trechos de uma conversa interessante no celular de Dohran, mais ou menos antes de você me ligar. Pura sorte encontrar aquele número. Quanto à xerife, como você mesmo disse: você se encarrega. Acho que meu serviço acaba por aqui."
– "Quanto à xerife"? Johan, no que você está metido?! — sussurrava para si mesma, quase indignada ao ver o quanto estavam próximos dela e o quanto ela não sabia sobre aquilo.
Queria folhear mais um pouco aquela agenda, mas ouviu então o barulho de alguém passando pelo corredor e a luz de uma lanterna passar pela sala, momentaneamente assustando-a. Uma ronda havia começado. Retornou a agenda para o fundo da gaveta, arrumou novamente os papéis dentro desta. Os passos estavam mais próximos. Abaixou-se e começou a tentar trancar as gavetas novamente, escondendo-se debaixo da mesa. A luz da lanterna pousou sobre a sala... ... ...e então virou-se e passou reto. Caitlyn suspirou aliviada. Contudo, constatou que, por aquela ronda, já devia estar próximo das seis horas. Às sete a delegacia já estaria aberta. Precisava passar para a próxima cena.
Esperou ouvir novamente os passos do policial que fazia a ronda voltando pelo corredor, indicando o fim de seu turno, e depois dirigiu-se para a sala de Jayce. Mais austera ainda que a sala de Johan ou da xerife era a sala dele. Os outros dois mantinham a organização e a seriedade exigidos profissionalmente, mas visto o tempo que passavam naquele local, aos poucos foram fazendo pequenas modificações para torná-lo mais agradável e acolhedor. Um sofá, uma estante de livros, um quadro, uma foto de família... A sala de Jayce era quase completamente limpa, salvo por seus volumes acadêmicos na estante ao fundo, que serviam de consulta para suas pesquisas com os cristais. Havia ganho aquele espaço e começara a trabalhar diretamente com a polícia há apenas dois anos, quando foi popularmente alcunhado como "o herói da cidade". Jurando proteger Piltover de quaisquer possíveis ataques de Zaun caso a cidade-estado rival quisesse se retaliar após o magnânimo contra-ataque de Jayce ao laboratório de Viktor, que lugar melhor para fazê-lo do que estando em meio à própria Patrulha? Foi assim que o estudioso adentrara a delegacia.
Caitlyn começou a remexer as coisas do amigo. Relatórios de projetos, pedidos de fornecimento de cristais, muitos deles negados; pastas de casos em andamento na polícia... Folheou os papéis, por vezes detendo-se para ler e descobrir seu conteúdo. O próprio relatório sobre o roubo dos cristais estava impecavelmente bem escrito e organizado, com os fatos conhecidos dispostos em ordem cronológica. ...bem, não havia nada de peculiar ali. Observou a prateleira ao fundo, com os enormes e pesados livros de Jayce. Valia a pena averiguá-los? Claro. Nada deve passar despercebido numa investigação que se preze...
Começou a folhear primeiro os volumes que mais chamavam sua atenção, como os mais desgastados, indicando intenso uso, ou os volumes gigantes... Simplesmente por serem gigantes. Havia anotações nas bordas das páginas de alguns; em geral cálculos e observações cujas quais a xerife entendia pouco. Começava a se inquietar. Estava correndo contra o relógio e não conseguira encontrar quase nada de relevante! Puxava agora os livros com displicência, chacoalhando-os para ver se caía algo deles. Nada. Pegou um dos volumes menos chamativos, quase que escondido na posição mais baixa da prateleira. Folheou-o. Apenas uma inscrição idiota no final: 12-A; 45-F. Respirou fundo, irritada. Seu instinto dizia que havia alguma coisa a ser encontrada; havia! Respirou fundo de novo, acalmando as batidas aceleradas de seu coração. Quem sabe não houvesse nada ali mesmo... Ou então...
Abriu a porta lentamente, evitando fazer barulho ou chamar a atenção dos vigias, porém não havia ninguém no corredor. Dando uma rápida olhada em volta, rumou diretamente para a grande — e, no momento, escura — oficina.
Adentrando o local, fechou a porta atrás de si e acendeu uma lanterna que levava consigo. Nunca imaginara a pacata oficina daquele jeito, tão sobrenaturalmente sombria em sua aparência: o vidro acrílico que separava as saletas, quando tocado pela luz da lanterna, fazia refletir fracamente a própria imagem da xerife, contudo num tom esmaecido, como se um vulto agourento a acompanhasse nessa descida às trevas. Era difícil enxergar, a luz não era suficiente. Tinha que tatear com cuidado o caminho para evitar topar com algo e fazer um enorme estrondo que alertaria os guardas... Enfim chegou a uma sala cuja parede, toda dividida parecendo os favos de uma colmeia, servia de arquivo para os projetos e documentos que eram guardados na delegacia. No topo da parede, no eixo das abscissas, números iam de 1 a 50. Do lado direito, indo do teto ao chão, no eixo das ordenadas, marcavam-se as letras de A a J. 12-A e 45-F. Dois pontos num plano cartesiano. Foi ver que segredo tais pontos guardavam.
12-A, em geral, consistia de um conjunto de mapas de Piltover, tanto mapas gerais quanto de áreas mais específicas, como o centro da cidade. 45-F guardava plantas de projetos pertencentes a Jayce. Puxou os rolos de papel de 45-F, abriu-os sobre a mesa e começou a observar: o primeiro esboço do Martelo de Mercúrio, tecnologia de luta desenvolvida pelo estudioso após seu laboratório ter sido roubado e destruído. O Capacitor Hextech, desenvolvido primeiramente para otimizar a produção de energia a partir dos cristais, mas posteriormente adaptado também para uso individual, aumentando a velocidade de quem o carrega consigo ou do veículo em que estiver instalado... Uma ótima aquisição para a Patrulha. Havia ainda mais alguns bons projetos secundários, mas então Caitlyn começou a reparar um certo... "tom"... diferente na escrita dos projetos. Várias páginas muito gastas por escrever e apagar, comentários raivosos escritos em letra corrida nas bordas das folhas e sucessivos carimbos vermelhos do Conselho escritos claramente: "NEGADO". Era perceptível que faltavam folhas ali — Jayce teria levado-as para casa, para seu laboratório particular? — mas ainda assim, mesmo entendendo apenas razoavelmente de techmaturgia, a xerife podia dizer que aquilo eram plantas de... um canhão? Deuses, mas o que Jayce queria com um canhão?!
BRRRRRRRRRRRRRRIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMM!!!!!
A xerife deu um salto, assustada, quando o sinal da delegacia soou estridente por todo o local, avisando que daqui quinze minutos seriam sete horas da manhã. Era o sinal para os prisioneiros da delegacia acordarem e para os oficiais de plantão desempenharem as últimas tarefas de seu turno: checar as celas, levar os prisioneiros para o banho e distribuir o café. Enquanto isso, os policiais que entrariam às sete chegavam ao local.
Não tinha mais tempo, mas ainda assim, rapidamente, Caitlyn tirou o celular do bolso do casaco e começou a tirar algumas fotos daqueles documentos todos. Enrolou-os de qualquer jeito e devolveu-os a seus respectivos lugares. Quase saindo da oficina, viu em cima de uma mesa um rolo de fita adesiva transparente e teve uma ideia...
Voltando pelo mesmo caminho pelo qual entrara, ao fechar a porta da passagem escondida, a xerife tirou do bolso um pincel de maquiagem e sua base em pó que costumava deixar em sua sala na delegacia, e passou a base sobre a maçaneta que notavelmente havia sido usada. Assoprou o local e cortou depois um pedaço da fita adesiva que pegara na oficina, pressionando-o sobre o ponto onde havia passado a base, e torceu para que aquilo desse certo. Se conseguisse, teria já nas mãos a impressão digital de quem usara aquela entrada secreta para a delegacia. Sorriu. Era hora, agora, de tomar o café da manhã e "ir trabalhar".
~¨~
Retornando às oito para a delegacia, a xerife observou novamente tudo o que encontrara naquela manhã. Interessante... Havia encontrado novos fios soltos na trama e agora começava a puxá-los, e torcia para que finalmente levassem-na a algum lugar. Reiniciou o trabalho passando as fotos que tirou dos documentos de Jayce para o computador, a fim de analisá-las melhor. Enquanto a transferência era feita, pensou naquele nome e no cartão encontrado na sala de Johan. Ainda não estava satisfeita com o que descobrira sobre "Edmund Jacobsen". Na verdade, não descobrira nada, apenas sabia que tratava-se de um detetive particular e que aparentemente esteve encarregado dela, de alguma forma. Decidiu procurá-lo.
Digitou "Jacobsen, Edmund" na página de registro de cidadãos... Incrivelmente, nada viera em resposta à sua busca. Hum... Estranho... Tentou o registro criminal. Nenhum "Edmund Jacobsen" lá também? Como assim; além de tudo estava lidando com uma identidade falsa?! Em que tipo de negócio Johan estava se metendo?
...foi então que, depois de um silêncio reflexivo, pensou em tentar algo: entrou na rede interna da polícia, onde arquivavam-se os casos resolvidos e os oficiais em ação em determinado caso ou período. Digitou novamente "Jacobsen, Edmund", estendendo a pesquisa a pelo menos vinte anos atrás... A tela começou a retornar resultados. Dois, três, cinco, mais de quinze casos envolvendo "Edmund Jacobsen"... O codinome para um dos investigadores da polícia da época de Johan e de seu pai. Aposentado há anos. Entrou no registro do oficial. "Andrès Tissou". Era isso! Tinha agora em mãos uma identidade, um nome e um endereço; poderia ir interrogá-lo extra-oficial e pessoalmente. Só queria saber exatamente onde estava pisando agora... "Não me está parecendo assim tão difícil puxar o tapete sob seus pés...". Tinha que manter em mente isso para de fato não escorregar em sua investigação. Um complô de ex-oficiais era uma possibilidade extremamente paranoica, mas, de todo modo, não devia ser descartada. Vai saber...
Terminada a transferência das fotos, Caitlyn decidiu dar uma rápida olhada nelas antes de sair para encontrar seu querido "Edmund". Começou pelos protótipos, que mais lhe interessavam, mas pouco pôde extrair de informação destes. Eram o que eram e ela já havia visto e lido tudo o que estava ali. Passou rapidamente para os mapas. Piltover. Depois uma transparência com alguns rabiscos e uma estrela num canto. O mapa do mercado central com algumas marcações a lápis referentes à polêmica ocorrência atendida no mês passado (aquilo era interessante, mas não parecia especialmente revelador). Um mapa velho de Zaun com diversas anotações sobre localizações de edifícios e afins. Mais uma transparência com alguns pontos marcados ao redor do que parecia ser a cabeceira da folha...
Olhou o relógio. Deixaria para ver com mais atenção aquelas imagens à tarde. Agora era hora de prestar uma visita ao ex-oficial "Edmund".
~¨~
Um lírio rosa, belíssimo, parte de uma coleção diversa e igualmente magnífica, recebia os atenciosos cuidados do senhor, já além de seus sessenta anos. O homem observava as bolotas brancas formadas no ventre das folhas, em cima da nervura central. Galhas. Seu lírio estava sendo discretamente atacado por um inseto ou fungo. Precisava evitar isso, primeiramente para evitar uma possível morte de seu exemplar, mas, principalmente, para evitar que aquilo se estendesse à outras plantas. Se fosse necessário, pelo bem do resto de sua população, teria que sacrificá-lo.
A campainha tocou. Hum, até que esperava alguém, mas imaginou que só viesse um pouco mais tarde... Enfim, foi atender à porta.
– Bom dia, Andrès. Ou prefere que te chame de "Edmund"? — a xerife dizia em tom calmo e com leve tom jocoso, sorrindo simpaticamente.
– Caitlyn. Há anos que não a vejo.
– Tenho sérios motivos para discordar disso... — olhou firmemente o senhor à sua frente. O rosto sereno do velho perdeu seu toque de inocência e deu lugar a um notável vigor jovial, revestido com uma película de maior seriedade. O homem sorriu.
– Acho que o cão velho aqui perdeu um pouco da prática e deixou escapar alguma coisa. Deseja entrar?
Mesmo tendo que suspeitar dele, Caitlyn não podia deixar de sentir certa simpatia pelo antigo oficial. Não tinha memória sobre quem ele era, apesar do homem aparentar conhecê-la, mas lera sobre ele enquanto realizava sua busca. Fora um investigador exímio na época de seu pai, conseguindo seguir as pistas mais inacreditáveis até chegar a um culpado; infiltrando-se nas operações criminosas mais ousadas para dizer à polícia onde e como agir, ajudando a desmantelar organizações e gangues inteiras usando apenas de sua inteligência, raramente utilizando sua arma. Fosse em outra situação, Caitlyn com certeza teria adorado sentar e conversar com ele sobre seu trabalho na polícia, absorvendo toda a experiência que pudesse. Mas a jovem mulher tinha outros motivos bem definidos para aparecer ali, buscando aquele ex-oficial. Entrou na casa do senhor.
– De fato, tornou-se uma respeitável investigadora... E uma belíssima mulher, se me permite, xerife. — o senhor disse, gentilmente fechando a porta e virando-se para ela.
Fora eles, a casa aparentava estar vazia. Era o segundo andar de um antigo e aconchegante duplex, não muito grande, mas o suficiente para acomodar uma pequena estufa de flores numa confortável sacada larga, com mesa e cadeiras para a hora do chá enquanto contemplava-se a vista do velho e bem conservado bairro. O senhor, no entanto, não chegou a conduzi-la para a varanda, parando ali mesmo na sala levemente iluminada e indicando uma das charmosas poltronas estofadas de estilo colonial. A xerife acomodou-se e o investigador tomou seu lugar na outra poltrona, em frente a ela.
– Aceita um chá, café, quem sabe uma água?
– Agradeço, Andrès, mas dispenso a cordialidade. Como você já deve imaginar bem, não vim aqui à visita de um amigo.
– Entendo...
– Eu sei que você e Johan andaram trabalhando em algo ultimamente, e esse "algo" diz respeito a mim também. Nada mais natural do que eu querer saber do que se trata. Você tem algum conhecimento sobre o caso dos cristais e do criminoso Dohran que os roubou que vai além do que qualquer pessoa alheia à investigação deveria saber e eu, na condição de xerife, tenho a obrigação, a responsabilidade de me inteirar de tudo que tenha relação ao caso.
O homem hesitou um segundo, coçando o queixo com o olhar aparentemente perdido ao longe.
– Compreendo... — Andrès, ou Edmund, ainda aparentemente pensativo, falou e então respirou fundo e tornou a olhar para a xerife com a mesma vitalidade com a qual atendera-a à porta, porém um pouco mais sério. — Xerife, devo avisá-la que esta história tem duas partes, sendo que uma eu deliberadamente me proponho a discutir com a senhorita. A outra, no entanto, apesar de tanger à sua pessoa, eu me reservarei no direito de não contar até que Johan dê seu aval. Acredite em mim; ele tem motivos para querê-la longe dessa investigação.
– Me desculpe, Andrès, mas não consigo imaginar quais seriam esses motivos nem por que essa tal segunda parte da história, se fala justamente de mim, não deve ser discutida comigo. — Caitlyn falava com firmeza.
– Enfim, não vou argumentar com você, Caitlyn. Te conto o que posso; o que não posso, certamente você consegue descobrir... — ele riu e Caitlyn não pôde saber se era um riso realmente animado ou de escárnio. Relevou. — Johan me contatou semanas atrás lembrando de minha atuação na polícia e disposto a usufruir do meu serviço. Na ocasião, a senhorita acabava de resolver de forma espetacular um sequestro no mercado central que evoluíra para um tiroteio, muito embora não tenha ido muito longe em identificar os culpados ligados ao crime. Até então eu só soube do caso pelos jornais, mas dias depois Johan ligou pela primeira vez, dizendo que talvez precisasse de minha ajuda numa vertente paralela à investigação dos cristais. Eu disse que viesse conversar pessoalmente comigo caso desejasse, mas me parece que nosso querido e bem-humorado oficial deixou essa possibilidade de lado por um tempo enquanto se empenhava ele mesmo em seus trabalhos. "Tudo parecia tranquilo", como ele me disse, mas então Johan começou a desconfiar de algo... Parte que não posso revelar. Então, creio que quase duas semanas depois, ele entrou em contato novamente pedindo que eu o recebesse no horário de almoço. Conversamos e ele me passou duas tarefas. Uma delas era grampear alguns telefones, inclusive os da delegacia. Disse para ele que era impossível; eu teria que entrar lá e plantar os grampos um por um e, mesmo sendo um procedimento rápido, seria muito óbvio se eu o fizesse, além de configurar crime escutas não-autorizadas. ...mas uma linha-cruzada "acidental"... Bem... Não vejo mal nisso. — o senhor sorriu novamente, matreiro como um gato velho.
– Você sondou o sinal dos celulares que ligavam daquela área... Astuto. Sabe, de muitas formas, isso ainda configura crime... Mas continue, quero saber até onde isso vai.
– Obrigado. Bem, não foi fácil. O equipamento que tenho ainda é bem amador, mas sabendo usar, dá para realizar o trabalho. O problema é a qualidade do som e do sinal, ou quando há mais de uma pessoa utilizando o celular, o que é recorrente, e eu tenho que escolher que sinal captar e que conversa ouvir. Ah sim, antes de eu começar meu trabalho, Johan entrou em contato comigo por telefone no mesmo dia em que fechamos o negócio, algumas horas depois. Ele disse que, saindo de uma reunião, passou na sala de Jayce e se interessou por um envelope aberto, que acabou pegando e lendo. Era endereçado à criminosa que estava auxiliando a polícia...
– Vi.
– Sim, essa. E era conveniente demais que, no mesmo dia, um capanga de Dohran tivesse passado pela cidade.
– Espera! Foi num dia então que Johan saiu para almoçar, se encontrou com você, e então provavelmente recebeu uma ligação da delegacia pedindo que voltasse...
– Sim.
– ...ele chegou, teve uma reunião, onde foi informado que um capanga de Dohran havia passado pela cidade, então saiu mais cedo da reunião dizendo que precisava cuidar de seu trabalho, passou pela sala do Jayce a caminho de sua sala, pegou uma carta aparentemente endereçada a Vi e então foi ligar pra você... Faz sentido. Tudo bate; então ele tinha um álibi na ocasião em que o informante passou pela cidade... — a cabeça de Caitlyn ia organizando as datas e fatos cuidadosamente.
– Na ocasião lembro dele ter dito que o preocupava o fato da criminosa ter tido contato com o informante e, pelo jeito que Jayce falara na reunião, ele também estava alerta quanto a isso. E depois surge essa carta...
– Eu encontrei a carta. — a xerife afirmou, séria. — Eu encontrei a porcaria da carta, mas não entendo por que não me mostraram antes!
– Foi porque você estava cega, Caitlyn. — uma voz soou da porta de entrada.
Os dois investigadores viraram-se para se deparar com o oficial que estava de pé ainda próximo à porta. Havia chegado há pouco tempo e entrou sem que o notassem, mas a tempo de perceber sobre o que conversavam.
– Johan...
– Não sei o que aconteceu com você nesse caso... Por um lado, você parecia acabada, Caitlyn. Por outro, estava completamente entorpecida na presença daquela... Criminosa. — viu a xerife desviar o olhar. — Você encontraria razões para negar aquilo até o último minuto...
– Você sabe que eu não sou assim, Johan.
– Mas naquele momento eu não tinha tanta certeza quanto a isso. — virou-se para o ex-colega de farda. — O que você desembuchou até agora, seu papagaio velho de pirata?
– Hah... Apenas sobre as escutas e como você me contratou.
– Bom. Acho que vou participar da conversa a partir daqui. — Andrès fez um gesto de mão para Johan aproximar-se. O oficial buscou uma cadeira e colocou-a junto a eles.
– Bem... Você continua? — Johan respondeu com um gesto de mão para que Andrès prosseguisse. — Certo. Retomando, Caitlyn: a partir deste dia, comecei a monitorar a comunicação via celular na delegacia. E devo dizer que, com esforço, descobri coisas de suma importância relacionadas ao caso. Diante disso, comecei a não apenas ouvir as conversas, mas também a tentar rastrear o sinal: de onde vinham, pra quem iam. E, numa dessas, encontrei sem querer o sinal do celular de ninguém menos que...
– Dohran.
– Exato.
– Na noite em que eu me deparei com Johan na delegacia. — olhou para o oficial ao seu lado. — O que vocês conversaram naquela noite? E por que ligar da delegacia?
– Esta é a parte que não cabe a mim revelar...
– Eu faço isso, Edmund. — Johan finalmente saiu de sua posição contemplativa e tomou a palavra com decisão. Respirou fundo e ajeitou o cinto. — Liguei da delegacia pois foi o combinado com Andrès; seria o único número que ele deveria atender, por segurança... A outra tarefa que dei a Andrès, ou melhor, a "Edmund", foi te vigiar. Eu não podia deixar que você corresse perigo, mas com você hesitante, eu não podia tirar nem Jayce nem a mim mesmo da investigação acerca dos cristais. Portanto, designei Edmund para te vigiar por mim. Mas, quando as coisas ficaram mais sérias, decidi ligar para Andrès e pedi que continuasse apenas com a primeira parte da investigação. Eu mesmo me encarregaria de acompanhar você.
– E por que você achava que eu corria perigo? Vi?
– Não somente... Sua cabeça está a prêmio, Caitlyn.
A moça endireitou-se na cadeira com um olhar meio indignado, meio confuso.
– Mais de uma vez Andrés ouviu trechos de uma negociação envolvendo os cristais e você morta. Foram essas ligações que, aliás, levaram-no aos poucos ao celular de Dohran.
– E quem poderia querer isso?...
– Se não foi uma pergunta retórica, eu mesmo posso te fazer uma lista, Caitlyn...
A mulher fechou os olhos e apoiou a cabeça numa das mãos, seu cotovelo apoiado no braço da poltrona. Respirava fundo e pausadamente com a enxurrada de informações que acabava de receber. Havia aquela carta, e aquilo era uma prova irrefutável... Mas algo ainda não fazia sentido ali.
– Quem vocês acusariam?
– Vi. — Johan disse prontamente, sem hesitar. Andrès permaneceu quieto, mas aparentava pensar um pouco mais a fundo.
– Não faz sentido.
– Como?!
– Isso não explica a ocorrência no mercado, como foi errada a contagem de criminosos, ou como aquela carta chegou na delegacia sem ninguém ver... Johan, isso está ficando cada vez mais absurdo!
– E o que você sugere?
– ...Por enquanto, nada. — entretanto, em sua cabeça, surgiam opções. — Eu preciso ir embora. Obrigada por me receber, Andrès. Johan. — fez um sinal de despedida, pegou sua bolsa e ia saindo, quando voltou. — E me mantenham informada quanto às escutas, ou em relação a cada passo que vocês derem nessa investigação. Já está passando da hora de fechar este caso. — abriu a porta e saiu, resoluta.
– Senhor, que teimosia! Como é que o xerife lidava com isso? — Johan suspirou
– Huhum... Eu chamo de "convicção", e acho que o xerife estaria orgulhoso dela, apesar das entranhas se revirando de preocupação.
~¨~
O dia passava modorrento na delegacia, sem absolutamente nada para fazer naquele cubículo que a encerrava. Tinha pedido água duas vezes, mas bebia só para passar o tempo. Uma idiotice. Era a primeira tarde que Barthrax não vinha visitá-la. Pelo visto o homem tinha levado mesmo a sério aquele último encontro. Humpf... Devia ter imaginado que, na hora do "vamos ver", estaria novamente sozinha. A história da sua vida. Mas sentia falta da visita do velho grandalhão de coração mole... Enfim, finalmente a noite se aproximava. Por mais que não tivesse aparecido na noite anterior, esperava ansiosamente a visita de Caitlyn, mesmo que durasse apenas alguns minutos dizendo "Oi" e contando como tinha sido o dia. Mas as horas passavam... E ela não chegava...
Havia percebido-a estranha na última vez em que se viram, quando se despediram. A pressa dela em ir embora de repente, sem sequer olhar para Vi, havia deixado-a se perguntando o que havia acontecido para gerar aquela mudança repentina. É claro que ninguém era santo naquela história. Ela mesma tinha se aproveitado da ausência da xerife para usar o telefone de sua sala e planejava agora um assalto à delegacia. Será que alguém havia descoberto e alertado Caitlyn? ...não, impossível. Então o que causara aquilo? Aquela repentina distância?
Quanto mais pensava, mais se inquietava e uma incompreensível raiva a acometia. Tinha vontade de levar aquelas paredes a baixo, contar tudo para Caitlyn e fugir de Piltover levando-a embora junto. Que se foda, os outros que resolvessem tudo aquilo, ela só queria se ver longe daquele tipo de encrenca, e só queria poder desfrutar de uma vida normal ao lado d...
– Cala a boca, garota; se concentra! Esse seu mundinho feliz de fantasia não existe; o que tem é o aqui e o agora, e é isso que você tem que enfrentar. Concentra, concentra...
Repassou mentalmente mais uma vez o que faria para sair dali.
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Terminara seu horário na delegacia cumprindo com todas as obrigações de xerife. Entre um caso e outro, mantinha um olho em sua investigação particular. Acabado o expediente, fez uma cópia das fotos que passara para o computador para continuar com o trabalho em casa. Na porta, quase saindo da delegacia, olhou para trás... Sentiu a respiração ficar mais lenta, sentia cada batimento cardíaco reverberar, uma incerteza mista de... não sei. Ansiedade? Medo? Algo a tomava, de alguma forma, e a fazia ficar parada ali, hesitante. Não havia passado uma vez sequer na ala designada à prisão... Também hoje não passaria.
Em casa, após jantar, sentou-se novamente na sala com o notebook aberto, relatando o que descobrira de novo hoje e repassando novamente as pistas e ligações que tinha até então. Pois bem. Então sabia agora onde Johan estivera quando o informante passou por Piltover. De quebra havia descoberto algo mais sobre aquela intrigante carta. As coisas começavam agora a mudar de cara... Decidiu voltar à análise das fotos, quando o telefone tocou.
– Alô?
– XERIFE! CÉUS, VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR!...
Ouviu, atenta e incrédula, tudo o que a oficial, desesperadamente, tentava lhe repassar. Ao final, olhou pela janela, arregalou os olhos e levou uma mão à testa, puxando os cabelos para trás, preocupada.
– ...ok, estou indo pra aí agora!
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Alguns minutos antes.
– Tu-turu-tuu... Tchu-ru-ru! Hahahaha! UOOU! Calma aí, seu rinoceronte idiota! Você está virando uma obra de arte!
Os animais todos no zoológico se inquietavam, batendo as patas, urrando, tentando morder, arranhar ou derrubar com investidas violentas as paredes de suas jaulas e "habitats", enquanto a jovem de cabelo azul tratava de rabiscar pra lá e pra cá com tintas neon chamativas tanto as paredes quanto os próprios animais. Teve a audácia de pintar, na cara do leão, uma cara desleixada de palhaço. Agora, terminava de passar batom no rinoceronte após escrever, em letras gigantes e um tanto tremidas, seu nome na lateral do bicho. Finalmente, chutou longe o balde de tinta rosa, sacou um revólver comum e atirou, um por um, nos cadeados que prendiam os animais em suas jaulas.
– YEAH!!! A festa tá começando e os convidados de honra logo logo vão chegar!!!
– Hey, você não devia...
– Te jogar no tanque dos tubarões pra você aprender como é um tubarão de verdade, enquanto eu encontro um outro lança-mísseis mais malvado e menos chato? É, tô pensando no caso; melhor você ficar quieto.
A jovem subiu no rinoceronte e bateu com força os pés nas laterais do bicho, fazendo-o assustar e começar a correr.
– YYYYYYYYHHHAAAAA!!! HAHAHAHAHA! EI, EI, RINOCERONTE BURRO! VOCÊ ESTÁ INDO PRO LADO ERRADO! — vendo que o animal corria a esmo e não se dirigia à porta do zoológico, ela tinha que dar um jeito para que o bicho a obedecesse e seguisse na direção certa. — Vamos ver se assim você não entende; FALA AÍ, POW-POW!
Sacou uma metralhadora giratória e começou a atirar do lado que ela não queria que o animal fosse. O rinoceronte, assustando-se com os tiros, corria na direção oposta destes, indo então para onde aquela maluca queria.
– YAAY, VÊ SE EU NÃO SOU UM GÊNIO! UM GÊNIO DO MAL! UM GÊNIO MALUCO DO MAL!!! HAHA!
O rinoceronte se dirigiu exatamente para o portão de ferro do zoológico, pronto para dar uma investida de cabeça que poderia matar a doida de cabelo azul que o montava, mas então a garota atirou na direção do portão bem a tempo do rinoceronte apenas se erguer e bater com as patas nele, derrubando-o e passando por cima do portão estraçalhado para fugir do zoológico, enquanto todos os outros animais, ensandecidos, saíram desesperadamente às ruas, causando uma verdadeira confusão. Enquanto isso, a jovem ria intensamente, montada sobre o animal enorme e furioso, deliciada com todo aquele caos causado.
– Ei, mas o que é isso? Uma festa boa tem que ter um bom som e iluminação, e eu não tô vendo nada disso... Humpf... — com a cara emburrada, cruzou os braços. Em seguida, tirou do cinto algumas granadas, desceu do rinoceronte num salto arriscadíssimo e levantou a tampa do bueiro, jogando as granadas lá dentro. Depois, atirou outra na direção do zoológico.
– Três... Quarenta e um... Nove...
Ouviu-se, em sequência, um estrondo quase que ensurdecedor vindo debaixo da terra, enquanto o chão tremia violentamente com a bombas explodindo nos bueiros e lançando as tampas longe no ar. No gran-finale, uma explosão gigantesca tingiu de laranja o céu ao redor do parque zoológico, enquanto um enorme "BOOOM!", ao mesmo tempo, chamou a atenção de todos, fazendo soar as sirenes de incêndio do zoológico e de alguns dos prédios mais próximos, enquanto as pessoas corriam, aterrorizadas, gritando por socorro. A jovem respirou fundo.
– ...Ah! Isso é vida, Fishbones!!! — imediatamente, as luzes e sirenes dos carros de polícia foram aproximando-se com furiosamente. — Olha só, Fishbones, os nossos convidados de honra chegaram! Que tal dar as boas-vindas?! — enquanto os policiais desciam das viaturas e se colocavam em posição, a louca tirou das costas seu lança-mísseis. — Essa festa vai ser um estouro...
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