Pieces of Love

2 Capítulo 2 - Piece by Piece


Notas iniciais
Olá, Aqui vai o capítulo final. É um pouco maior, espero que não se importem.

O amanhecer chegou devagar por entre as janelas do motel.

Ele não sabe quanto tempo Dean ficou ali, apenas velando o “sono” de Cas. Não soube dizer se foi o resto da madrugada, ou se no meio dela resolveu tirar um cochilo. Mas ficou mais aliviado, porque quando acordou ele estava deitado na poltrona, dormindo. O anjo ainda continuava “dormindo”, então resolveu que, mais silenciosamente o possível, tomar um banho e procurar o café para ambos. Ficou em dúvida se devia comprar algo para o moreno, mas acabou que decidindo que não. Ao sair do banho, ainda encontrou o irmão dormindo e saiu.

Ao retornar percebeu que ele estava em seu notebook, estava entretido lendo alguma coisa. Depositou seu café sobre a mesa e foi até ele com o pedaço de torta nas mãos, sem dizer uma palavra, colocou na frente da tela, indicando que ele deveria comer. Como sempre, o Winchester mais velho não recusou e pegou o pedaço guardado em uma embalagem de plástico, abrindo-a e começando a comer.

– O que está olhando? – Sam perguntou por fim.

– Eu acordei e raciocinei um pouco... – o mais alto ficou em silêncio para que o outro pudesse continuar – Se só a lembrança fez Cas agitar todo o quarto... Imagina o que o aconteceu real poderia ter feito?! – bom raciocínio.

– Entendo, está procurando se alguma coisa aconteceu naquela cidade... – Samuel terminou de tomar seu café para poder colocar-se ao lado do irmão.

– Só que não aconteceu, abri a busca para os outros lugares, mas é meio difícil definir o que pode ter sido trabalho de um anjo, ou não. Além do mais, aposto que eles não estão mais lá – o mais novo se arrumou novamente.

– Vou procurar os jornais daquele período, deve ter alguma coisa que nos ajude. Vou à biblioteca! – antes mesmo que Dean pudesse protestar com alguma coisa, o irmão saiu.

O que seria dele sem aquele grandalhão?

Durante quase dois dias procuraram informações do que poderiam ser um ataque do anjo. Ligaram para Bobby perguntando se ele tinha alguma coisa sobre tortura contra os anjos, o que aconteciam, era pouca que havia para poder se ter baseamento. Mas achavam que alguns pontos do mapa se encaixavam. O Winchester mais velho ficou extremamente agradecido por aqueles dois estarem lhe ajudando, podia dividir o peso de seus problemas um pouco. Tudo melhoraria se Cas acordasse, mas ele parecia envolvido em um sono profundo e lá no fundo, o loiro queria que ele continuasse assim. Porque ele tinha feições relaxadas, então provavelmente não tinha pesadelos, ou visões do que tinha acontecido com ele. Era tão melhor assim.

Era um pouco tarde da noite, quando Sam tomou um banho e avisou ao irmão daria uma saída. O outro Winchester achou suspeito, mas resolveu não fazer tantas perguntas, já que ele tinha ficado quase dois dias inteiros enfurnado naquele quarto lhe ajudando quase sem descanso nenhum. Disse uma boa noite e pediu que tivesse cuidado, o mais alto sorriu fraco acenando que havia entendido. Suspirou ao ouvir a porta fechar, colocando o notebook sobre a mesa. Não consiga ler mais nada, pois o sono dominava cada pedaço do seu ser, porém não queria dormir agora. Resolveu se levantar e ir para cama, no qual o ser angelical dormia, sentou-se na beirada e pela milionésima vez, entrelaçou a mão dele na sua boa, pois a outra ainda estava com a gaze.

Usou as pontas dos dedos da mão machucada para fazer carícias na barba malfeita. Queria que ele “dormisse” em paz, mas sentia falta da voz dele. Sentia falta daqueles azuis lhe encararam com dúvida e da forma como os olhos se contraíam quando duvidava de alguma coisa. Sentia mais ainda quando ele balançava a cabeça para o lado, declarando que não tinha entendido o que tinha falado. Sentia falta de Castiel por inteiro, de quando os lábios rosados e rachados se tocavam com os seus, fazendo um tremor passar por toda sua coluna espinhal. Ao pensar nisso, pousou o dedo indicador sobre a boca levemente entreaberta.

– Cas... – sussurrou bem baixinho, num pedido mudo de egoísmo para que o outro acordasse, beijando-lhe suavemente os lábios, mas durante um bom tempo.

E parecia o conto da Bela Adormecida.

Quando o loiro se afastou, viu as pálpebras se contraírem, depois elas piscaram várias vezes como se tentasse ajustar a visão. O corpo começou a se arrumar na cama, ficando sentado em movimentos cuidadosos. Ele tocou a cabeça, fazendo uma pequena careta de dor e olhou para o lado, vendo pela primeira vez seu protegido, ficando levemente surpreso por ele estar ali.

– Dean... – sussurrou na voz rouca. O Winchester sorriu ao notar que era a voz que conhecia, que era o oceano que já velejava por algum tempo.

– Bom dia, Bela Adormecida... Ou boa noite, que seja – não pode deixar de fazer a comparação. Castiel olhou confusos para os lados.

– Onde eu...?

– Num motel, comigo e o Sam – declarou curto e seco. Parecia que ele não se lembrava do ocorrido e preferia assim.

– Ah sim... – mas só parecia. Porque o anjo lembrava-se muito bem, na verdade, as memórias fluíram quando descobriu onde estava. Tanto que baixou a cabeça, apertando os lençóis que o cobrira. Quando fez isso, notou a mão machucada do protegido, pegando-a e erguendo-a – Eu fiz isso a você, Dean?

– Ahn? – o loiro não processou assim tão rapidamente.

– Eu sei que fiquei em transe, te joguei contra parede, então eu fiz isso a você? – Dean forçou-se a sorrir para passar tranquilidade.

– Não. Eu fiz isso a mim – Castiel não confiou muito naquelas palavras, por isso baixou a cabeça. O loiro pegou o maxilar dele o fez encara-lhe – Estou falando sério, eu quebrei a janela do... De um carro, acabei me machucando – preferiu não contar que fosse o Impala, ele ficaria curioso em saber o porquê.

– Está certo... Foi muito fundo? – o Winchester voltou a sorrir.

– Já sofri coisas piores – o silêncio calmo caiu entre ambos. Aquele silêncio estava cheio de perguntas medrosas e respostas vergonhosas – Estou feliz que tenha acordado.

– Ouvi você me chamando... Não pude resistir – a sinceridade das palavras. De novo, o silêncio. Dessa vez, quebrado pelo ser celestial – Você sabe, não é? – o protegido mordeu os lábios, sabendo que poderia mentir.

– Sei... – mas preferiu não fazê-lo. E viu um Cas quase humano, que encolhia as pernas, cruzava os braços sobre os joelhos e escondia seu rosto ali, entre eles.

– Acho que estou com aquilo que os seres humanos chamam de vergonha... – Dean estava indeciso sobre o que deveria fazer.

– Não devia sentir... – não sabia que palavras achar para confortar o outro.

– Fomos enganados. Eles sabiam sobre nosso plano. Fui pego em uma armadilha simples para anjos. – o viu apertar as mãos sobre seus próprios braços. O loiro tocou a cabeça dele e um de seus braços, dando a entender que o encarasse. E foi isso que o protetor fez.

– Não quero que se culpe, isso é algo que você realmente não deve sentir. Não foi sua culpa, nada do que aconteceu foi sua culpa – falou sério fazendo aqueles azuis se encherem um pouco de dor – E eu vou pegar esses desgraçados – foi quando ele apenas lhe olhou sem expressão alguma, apenas encarando como sempre fazia, quando parecia querer ler seus pensamentos.

Ele. Não. Sabia.

Então, pegou as mãos dele, fazendo as esmeraldas raivosas lhe encarar firmemente.

– Não. Não quero que vá atrás de vingança por mim. Não quero que vá atrás de quem fez isso. Apenas esqueça... Esqueça e... – pensou um pouco antes de continuar – Fique comigo. Fique aqui. Comigo. – usou de novo a sua sinceridade, a que convencia.

Não. Precisava. Saber.

– Mas, Cas...

– O que vai fazer quando encontrá-los, Dean? – espero pela resposta que não veio – Torturá-los? E depois mandá-los para o inferno? Isso não vai fazer as coisas melhorarem. Isso não vai me fazer melhorar. – e disse a frase chave, que convenceu aquele Winchester. Mas escondia uma verdade.

– Certo... Só porque você está pedindo, Cas. – um curto sorriso se fez nos lábios do moreno.

– Obrigado, Dean.

A noite foi regada por uma troca sutil de calor entre as mãos e conversas aleatórias. Até quando as esmeraldas não aguentaram e fecharam-se do cansaço. Dessa vez, a coisa funcionaria de forma certa. Castiel iria velar pelo sono do seu protegido. Não como tinha acontecido das outras vezes.

No meio da noite, Sam retornara, ele parecia um pouco apreensivo, mas ficou surpreso ao ver o anjo acordado, cuidando do irmão. Sorriu fraco não muito disposto para conversas, sussurrando um apenas “fico feliz que tenha acordado”, recebendo apenas um fraco sorriso de volta. O moreno alto se arrumou na cama e dormiu, um pouco ansioso pelo amanhã. E quando acordou, encontrou um Dean mais sorridente e animado. Notou também, que ele havia esquecido sobre a procura pelos demônios, achou que provavelmente o anjo havia convencido a parar. Então, esqueceu também.

Deixou os dias correr. Dias que Castiel ficara ao lado do protegido sem cessar. É como se ele não conseguisse se afastar mais que alguns minutos do loiro e Samuel podia entender um pouco daquilo. Sabia que o moreno mais baixo estava sentindo-se inseguro para retornar seus afazeres, que ficar ao lado do irmão lhe trazia conforto, já que ainda não estava totalmente recuperado do trauma. Algumas semanas passaram-se dessa forma. Progressivamente, o anjo conseguia ter um pouco de autonomia até esse dia, em que dissera que iria voltar o que fazia.

Retornaria ao Céu para reiniciar seus afazeres, ainda era um anjo e devia algumas contas para os seres lá de cima. E também, era uma forma de seguir em frente, de conseguir deixar o que acontecera pra trás. O Winchester mais velho não parecia muito feliz, porém, concordou em deixá-lo ir. Não podia prendê-lo para sempre. Não devia fazer isso. Restou apenas suspirar quando o viu sumir diante de seus olhos. Precisaria torcer para que melhorasse. Voltou a sua rotina respeitando o espaço dele. Caçou, ajudou, quase morreu e agora respirava aliviado por ter sobrevivido, passando-se uma semana.

Uma semana sem ter qualquer notícia do anjo. Não rezara porque sabia ele estava fazendo a parte dele e faria a sua também. Estava terrivelmente preocupado, mas precisava confiar nele, para que pudesse retornar. Sabia que ele não seria o mesmo anjo de sempre, mas conseguiriam se arrumar e achar uma saída saudável para isso. Cas estava confiando nele para pudesse ajudá-lo e com certeza estaria ali para dar todo o apoio e suporte o possível. Não esquecera totalmente sobre ir atrás dos demônios, mas o ser celestial tinha pedido com palavras firmes, então faria questão de guardar em algum lugar de sua mente e tentar esquecer sobre isso.

Bom, até aquele maldito demônio aparecer.

Dean estava encostado sobre o capô do Impala, tomava uma cerveja enquanto admirava o céu escuro, procurando-o lá em cima. Era uma cidadezinha perto da Califórnia, então fazia um pouco de calor naquela noite. Estava tudo relativamente bem, quando escutou a voz atrás de si.

– Dean... Dean... – ao olhar de onde o som viera, um homem branco, vestindo roupas negras, com as mãos escondidas sob o sobretudo sorria minimamente olhando para cima – Procurando pelo seu anjo? – o loiro apertou a garrafa que segurava, ignorando a provocação. Crowley.

– O que faz aqui, seu demônio bastardo? – o sorriso aumentou e olhos claros viraram para o humano.

– Eu vim fazer uma oferta... Sabe, um acordo – o Winchester arqueou uma das sobrancelhas, demonstrando suas suspeitas.

– Acordo?

– É... Eu ouvi por aí que precisa de ajuda... – o loiro bufou, virando o rosto.

– Ninguém precisa de sua ajuda, Crowley. Saia daqui, antes que...

– Antes do que? Você está desarmado, sem seu irmãozinho querido e seu amado anjinho está cheio de problemas lá em cima – a última frase trouxe a atenção do humano, saindo do capô e indo para frente do Rei do Inferno.

– Problemas?

– É, problemas, Dean – falou como se fosse obvio – Ou você acha mesmo que iam aceitar de braços abertos e cheio de mimos um anjo todo quebrado? – Crowley bufou quanto aquele tipo de estupidez – Parece que você não aprende mesmo nada com os anjos. Castiel é um anjo de alma quebrada pelo o que aconteceu com ele... Almas quebradas significam fraqueza, não é isso o que o Céu quer. Não importa se não foi culpa dele, ele é um guerreiro e deve agir como tal a todo o momento – a realidade se abateu sobre Dean. Ele tinha toda razão – Por isso, eu vim fazer um negócio com você... – o loiro pareceu pensar em alguns instantes.

– Que tipo de acordo? – o rei deu outro sorrisinho.

– Seu anjo está com a alma quebrada, não posso fazer nada quanto a isso, mas... – deu uma longa pausa, aumentando a curiosidade do outro – Posso amenizar os estragos. – aquelas frases incompletas estava irritando o Winchester.

– Fala logo, Crowley! O que quer?!

– Quero mexer com a cabeça do seu anjo – o humano se assustou – Posso entrar na mente dele para apagar as memórias do que aconteceu, assim, se ele não lembrar é mais fácil de lidar com tudo. E a única coisa que você terá que fazer é... Convencê-lo a me deixar entrar. – a suspeita ainda perneava as esmeraldas.

– É para isso que você me quer? Convencer o Cas a deixar você mexer com a cabeça dele? – novamente, Crowley fez uma expressão de obviedade.

– Eu podia simplesmente encurralá-lo e apagar as memórias dele, mas isso levaria tempo e alguns de meus homens. Mas para quê se eu tenho um jeito muito mais limpo de lidar com isso, que é você, Dean. Castiel sempre escuta o que você diz, sempre obedece a seus pedidos. Sei que jogando todo esse seu charme irá convencê-lo a me deixar... Fazer – o Rei estava conseguindo o que queria. Convencendo o maior a sua frente a ouvi-lo e sabia que logo teria o que queria. As pessoas faziam coisas loucas por amor.

– Mas como eu vou saber que não é apenas uma trapaça sua? – o demônio ia responder, quando uma voz rouca veio atrás dele.

– Porque é uma trapaça – logo a lâmina ia transpassar o corpo de Crowley, quando ele sumiu e reapareceu um pouco a frente dos dois.

– Se não é o melhor anjo da guarda que o Céu já conheceu... – Castiel estava de pé em frente à Dean, segurando sua espada de matar anjos e demônios, enquanto o Rei estava de braços abertos como se tivesse fazendo uma apresentação – Como você sabia que eu estava aqui? – perguntou incrivelmente interessado.

– Eu senti... – o entendimento passou pela expressão que o demônio fez. As safiras encararam o seu protegido – Não acredite nele, Dean. É uma mentira, ele não sabe se isso vai funcionar, porque ele nunca fez antes, descobri pouco tempo como mexer com as mentes angelicais, mas isso não significa que ele saiba bem. Se por acaso conseguir, não sabe o que vai apagar da minha mente, quais serão as memórias e nem quais são as consequências – sério com a expressão impassível. O Winchester o encarou sem saber ao certo no que acreditar.

– Como... Você sabe? – perguntou cuidadoso.

– Porque ele já veio me fazer essa oferta e eu recusei – respondeu rápido sem perder a seriedade – Eu ainda sou um anjo, ainda sei o que os demônios podem ou não fazer contra nós – a frase não foi dita diretamente para o humano, mas sim para o Rei do Inferno, que sorriu demonstrando sarcasmo.

– Um anjo, não é? – havia ironia também – Tenho que admitir, Castiel, até que você é bem poderoso mesmo... Merecia o cargo que tinha. Está de pé a minha frente, sem tremer muito... Mas e se eu fizer isso? – Crowley estalou os dedos que consequente levou o moreno celestial a pôr as mãos à cabeça, largando a espada ao chão, a expressão se contorcendo de dor – Oh... Não tão forte assim, não é? – as poucos o anjo se ajoelhava sentindo cada veia do corpo de Jimmy queimar, sua visão ficava embaçada, sentia os cacos se mexerem.

– Cas! Cas! – Winchester se abaixou tentando apará-lo ao seu lado. Não sabia o que fazer, então apenas direcionou o olhar para o causador de toda aquela dor.

– Você... – aquele ódio refinado guardado a sete chaves estava se libertando – O que está fazendo a ele? – esbravejou, vendo o sorriso sarcástico do Rei aumentar.

– Sabe, Dean, eu nunca tinha entendido o porquê você ter se apaixonado por esse anjo. Até aquele dia – o sorriso se tornou... Demoníaco – Entendi que aquela raiva e pureza eram realmente encantadoras... Os gemidos e expressões de dor! Eram magníficos! Você tinha uma vadia de verdade que respondia a todos os estímulos. A criou muito bem, Dean Winchester! – Crowley soltou uma gargalhada maligna, enquanto aumentou a tortura para o anjo, que gemeu de dor nesse instante.

– Então, foi você! – Dean se levantou avançando em passos decididos, só enxergando a raiva.

– Se te conforta, foi somente eu. Não deixei que outros seres encostassem nele, não gosto de dividir o banquete – o loiro pegou a espada pronto para dar um golpe, mas o Rei sumiu e apareceu ao lado de Castiel.

– Eu vou te matar, Crowley! – gritou em plenos pulmões.

– Me matar? – declarou sardônico. Esticou a mão em direção ao humano, o levantando e começando a sufocá-lo – Você nem pode salvar sua própria vida! Como poderá me matar?! – então, com a outra livre, tocou o ombro do anjo, que gritou de dor, explodindo os vidros dos carros próximos. Chamou atenção de duas pessoas dentro do quarto próximo.

– Ele não, mas eu posso – uma voz surgiu atrás do Rei, que mal teve tempo de se esquivar do ataque, conseguindo um corte profundo no ombro. Sumiu e reapareceu, alguns metros do Winchester, olhando para seu agressor.

– Mas quem diabos...? – um homem baixo de cabelos um pouco longos e olhos claros estava um pouco atrás de Castiel, empunhando uma espada idêntica a dele. Dean se libertou do seu sufocamento.

– Gabriel, prazer, Crowley... Agora, se tem amor à vida, sugiro que suma – foi exatamente o que o Rei fez, sumiu. Logo, o arcanjo guardava sua arma, abaixando-se até segurar os ombros do moreno com suas mãos – Hey, irmão... Acorde, está tudo bem agora – havia um tom de cuidado e gentileza naquela voz. Segundos após, Sam apareceu ao lado do irmão para que pudesse ajudá-lo a levantar.

– Ga-Gabriel... – Castiel disse com uma voz fraca, levantando o olhar para o outro ser celestial. O Trickster se permitiu sorrir de lado.

– É, em carne em osso – segundos depois, o anjo moreno já havia desmaiado – Opa, opa – o arcanjo o segurava para que não desabasse no chão – Dean, quer dá uma ajudinha aqui? – não que não tivesse força, mas precisava quebrar aquele contato fraternal.

O loiro pegou o anjo pelos braços, levando-o para o quarto. Algumas pessoas apareceram nas janelas dos quartos, curiosas saber o que aqueles quatros homens fariam, ou que confusão se armara. Cochichavam nervosas um para outras dentro dos quartos, após as suas atividades, principalmente as mulheres. Gabriel decidiu que daria um jeito naquilo depois que acalmasse as coisas com os irmãos Winchesters. O mais velho dos irmãos, colocou o moreno sobre a cama, retirando os sapatos, sobretudo, gravata e terno. Havia cuidado e preocupação naqueles toques. Quando o arrumou o anjo, voltou-se para os dois que ficaram lhe encarando.

– Então, Gabriel... O que faz por aqui? – a pergunta tinha que ser mais séria, mas caçador mais velho não conseguiu. Estava concentrado em outras coisas.

– Passei por perto e...

– Qual é! Você acha mesmo que vai me enganar com essa ladainha?! O que faz aqui, seu arcanjo de merda?! – o menor olhou para o Winchester mais novo, que apenas concordou com a cabeça, dando permissão para alguma coisa.

– Eu estava com seu irmão – declarou sem qualquer brincadeira.

– Meu irmão?! – Gabriel suspirou vendo que não tinha escapatória.

– Nós temos um caso, ok? Então, estávamos nos encontrando! Feliz? – Dean ficou chocado, não era uma novidade que precisava saber nesse exato momento. O arcanjo suspirou e continuou falando – Podemos ter essa conversa depois... Esse assunto – olhou para o anjo deitado – É mais urgente – o caçador mais velho concordou, sentando-se na beirada da cama e acariciando o rosto angelical.

– O que aconteceu, Gabriel? – Sam perguntou com tom preocupado – Quero dizer, como isso aconteceu? – um suspiro antes da resposta.

– Crowley é um demônio poderoso. Ele é rei agora, não foi difícil para ele ter acesso as formas de torturar um anjo, montar armadilhas poderosas... Ele brincou com a mente de Castiel das piores formas possíveis – um silêncio inquietante até o mais novo questionar novamente.

– Não sabia que podia estuprar um anjo – o Trickster virou atenção para ele.

– Não foi o ato sexual terreno que o deixou desse jeito, Sammy... Foram as consequências disso.

– Quais foram as consequências? – a voz de Dean estava rouca, quase como não quisesse perguntar, não quisesse saber.

– Ele quebrou a alma de Castiel... Na verdade, não só quebrou como levou uma parte dela também – Gabriel respondeu com pesar.

– Explique de uma vez, Gabriel – o caçador mais novo pediu baixo.

– Demônios tem a alma corrompida. Anjos têm almas puras, cheia da energia divina que os demônios nunca terão, ou teriam. Crowley descobriu um jeito de quebrar e roubar as almas dos anjos através de torturas violentas com sexo, o que traz um resultado muito melhor do que o jeito normal, porque o anjo não consegue se curar, ele fica marcado com o registro de que um demônio mexeu com sua alma. E você sabe como os demônios brincam com as almas, não é Dean? – o Winchester mais velho fechou os punhos.

Ele sabia. Sabia muito bem como os demônios poderiam brincar, despedaçar uma alma, reduzir ao pó, como fazia desejar o sumiço ao invés de toda aquela tortura. Eles sabiam como corromper qualquer traço de bondade, pois mais mínimo que fosse. E Castiel... Castiel estava cheio de bondade para dar e vender, ele era um poço certo para ser corrompido. Era a alma perfeita para deixar profundas marcas. E foi o que Crowley fez. Utilizou-se de toda bondade e força do anjo para deixá-lo em pedaços, uma recordação do que costumava ser.

– O que Crowley quis dizer com o Cas está tendo problemas no Céu? – queria saber de tudo, queria ver se podia ajudá-lo. Queria está lá por ele, no lugar dele.

– O que parece, Dean... Castiel não estava sabendo lidar com o que aconteceu com ele. Não era exatamente problemas no Céu, era com o quê fazia. Ele não estava conseguindo seguir em frente, por mais que tentasse. É como se algo estivesse comendo os cacos que é a alma dele agora – o arcanjo encarou o irmão deitado. Sentiu pesar por ele, pois se havia algo que valorizava era sua família e Castiel havia provado que merecia fazer parte dela.

– Como você sabe dessas coisas, Gabriel? – Sam questionou bastante curioso.

– Posso sentir... Eu ouvi e posso ver – era uma conexão angelical, eram seus poderes.

– Ouvir? – Dean perguntou levantando-se e encarando o Trickster.

– Ele chamou meu nome, os gritos dele... Posso ver a alma dele agora, ela se desfazendo como papel – seus olhos não saíram do anjo. Dean se virou e foi até sua mochila, verificando o seu conteúdo – Não vai adiantar... – o Winchester mais velho virou para o arcanjo – Não há nada do que anjos, ou humanos possam fazer... Não adianta ir atrás do Crowley para poder pegar a parte da alma do Castiel de volta, se você conseguir vai contaminá-la como a que está dentro do receptáculo... Matar por vingança? Castiel não quer esse tipo de ódio em seu coração, Dean – o caçador mais velho parou de mexer na mochila, apenas ficou parado, de costas para outros.

– Mas eu não posso ficar parado! – declarou raivoso e desesperado.

– Eu não disse isso... – rapidamente, Gabriel se moveu para trás de Dean, que ao virar subitamente foi surpreendido com um beijo. Foi um beijo estranho, que espalhou uma corrente elétrica pelo seu corpo, como se tentasse reanimar cada célula sua. E algo se instalou em seu peito, bem no centro e espalhou-se como um calor repentino, algo que lhe deu forças. Quando os lábios se separaram, o arcanjo retornou ao lado de Sam que estava chocado – Você vai continuar fazendo o quê sempre fez, Dean... – então, puxou o caçador mais novo para fora. Antes de sair pela porta, deixou mais palavras escaparem – Continue amando meu irmão.

O loiro ficou petrificado onde estava, sem conseguir mover nenhum músculo ainda tentando processar o que havia acabado de ocorrer naqueles minutos. Quando finalmente pensou em sair do recinto para poder pedir mais explicações, ouviu barulhos a sua frente e a voz grave lhe chamando.

– De-Dean? – o anjo havia acordado e encontrava-se sentado, encarando-lhe curiosamente. O caçador balançou a cabeça e tentou colocar um sorriso no rosto, sentando-se na cama também.

– Cas... Que bom que acordou – depois disso, o silêncio se instalou e Dean não soube mais o que fazer, ou dizer. Mas fez o que achou certo. Pegou a mão do ser celestial e entrelaçou a sua, olhou fixamente nos olhos azuis e sorriu, verdadeiramente, suavemente. Então, o beijou.

O beijou sem medo, sem pena. O beijou com o amor que tinha espalhado por todo seu corpo, que seu coração pulsava. Segurou o rosto do moreno, enquanto o acariciava gentilmente. Usou de toda a sua bondade e aquela paixão inocente que Cas sempre exalava em seu beijo. Colocou naquele toque todas as palavras que não conseguia dizer, todo o conforto que queria dar e toda a importância que queria fazer. E o anjo sentiu. Sentiu todos os significados que aquele beijo trazia, deixou ser invadido por todos aqueles sentimentos que o humano exalava.

Um pedaço. Restaurado.

No estacionamento, poucos minutos depois.

– Gabriel! O que foi aquilo?! – Sam esbravejou irritado. Como assim seu... Namorado beijava seu irmão?!

– Foi a cura do Castiel, Sammy – falou em um tom displicente.

– Cura?

– É – simples. Pegou na mão do caçador e entrelaçou a sua.

– Mas você disse que não...

– Não – cortou o outro rapidamente – Disse que OS OUTROS não tinham a cura... Só que aquilo é algo que nem eu, ou você possamos fazer – o mais alto ficou ainda mais irritado sendo arrastado daquela forma com explicações tão fracas, por isso, usou de sua força e fez o arcanjo parar e olhar fixamente para si.

– Respostas claras, Gabriel – um tom seco e autoritário.

– Eu beijei Dean para fortalecer a alma dele, transferindo um pequeno pedaço da minha – o olhar continuava lá, fazendo Gabriel continuar – Somente Dean pode ajudar Castiel... Porque ele tem algo que nenhum de nós tem. Amor. Ele ama Castiel com todas suas forças e é recíproco. Quando dizem que o amor é o melhor remédio, não estão enganados. Ele conecta as almas, faz com que se tornem uma, restaura feridas de uma forma que só se pudesse ver as almas você entenderia. Não vai ser algo rápido e fácil. Mas eu sei que Dean pode restaurar a alma do Castiel, porque o meu irmão já fez isso pelo Dean... A alma dele está restaurada porque Castiel usou o amor dele como cola. É por isso que fortaleci a alma do seu irmão... Para que ele use o amor dele da mesma forma.

Sam ficou surpreso com o quê ouviu. Porém, sorriu após do choque ter passado e começou a puxar o arcanjo, voltando a andar. Gabriel podia ser tão maravilhoso.

– Da próxima vez, você me avisa antes de cometer uma loucura dessa.

O arcanjo sorriu.

Não queria que houvesse uma próxima vez.

Notas finais
Minha intenção com a fanfiction era de deixar algo meio inacabado mesmo, dando a ideia de um processo. E era para ser algo meio que rápido, mas acabou desse tamanho, enfim. Bye-bye.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!