Pieces Of A Heart
2 Pieces of a heart II
Notas iniciais
Muitas semanas se passaram depois que eu mandei a minha ultima carta dentre tantas outras ao Gerard. Muitas semanas no mesmo frenesi, na mesma melancolia, contei cada segundo em espera de uma resposta cuja até agora não recebi. Penso as vezes que ele não irá me responder, que ele não pisa mais naquele endereço uma vez chamado de nosso, que ele esta seguindo a vida dele como uma pessoa normal, que deixa o passado para traz e segue a vida da forma que dá. Se for assim, eu deixei de ser uma pessoa normal há muito tempo, primeiramente quando o conheci, aqueles olhos risonhos, aquela alegria meiga e infantil que o rondava, o sorriso doce, mas que ao mesmo tempo continha um ar de uma malicia adulta, experiente.Quando ficamos íntimos vi que não havia mais volta para aquela vida normal de antes cuja qual eu não me preocupava em voltar, afinal, eu não queria voltar a minha mera existência de antes, porque finalmente eu estava sentindo o que é estar vivo. Sempre que eu sentia sua presença próxima, seu perfume, sua alegria ou sua sombra, não importava que parte dele fosse, só por ser um pedaço dele que estava ali comigo, já me fazia rir, me fazia sentir-me feliz por saber q eu tinha alguém, fazia-me sentir protegido, acolhido. E depois quando ele partiu. Deixei minha normalidade ser possuída por isso que sou agora, um ser indecifrável, frágil, frio, sem sentimento algum, sem vontade de nada, vivo pelo impulso de meus pulmões em sugar o oxigênio a minha volta e não pelo impulso que antes vinha de meu coração de procurar fazer aquele ser que andava de mão dada comigo sorrir a cada esquina virada.
Ninguém conseguirá entender como eu me sinto, afinal, esse sentimento é meu, quem acreditou em um para sempre foi eu, que apostou todas as fichas vitais nesse jogo foi eu e quem está sozinho, sem rumo e sem vontade de ter um rumo, sou eu. Posso dizer que as vezes meu espírito grita dentro de mim, grita com ódio por eu estar sendo tolo em esperar ele voltar, grita por eu não pensar em outra coisa a não ser nele, grita por eu não ouvir os gritos e só ouvir minha mente me massacrando a cada pensamento libertado, mas ao invés de eu seguir meu espírito, eu o apertei forte dentro de mim, o sufoquei com o vazio e o afoguei com minhas lagrimas presas. Só ouso o julgamento, a culpa cuspida por mim mesmo, ouso vários porquês que me incriminam por essa dor que eu sinto agora, mas nada do que eu pense consegue explicar, consegue satisfazer meu coração que busca um motivo para tudo ter se tornado um simples nada. Eu perdi uma pessoa em minha vida, mas parece que todas sumiram, ou será que fui eu que desapareci de minha própria vida? Moendo as réstias de meu coração e o transformando em um colar de desespero cujo este,= todos podem ver a mostra em meu estado de silenciosa dor a qual carrego assim, presa em alguma parte não vital de meu corpo a qual não sei onde fica e por isso não sei como arrancá-la de mim. Tenho medo de me acostumar a ficar assim, nesse vazio, nesse estado de não ligar para mundo, de não sentir falta de nada, não sentir falta de ninguém, a não ser o dono daquele sorriso pequeno e singelo, daquele cabelo bagunçado, dos olhos sonolentos mas cheios de uma divertida travessura, das mãos aquecidas pela xícara de café matinal, daquele corpo pulando sobre mim ao tentar me despertar nas manhãs. Manhãs... Elas não são mais as mesmas sem essas imagens rondando minha cozinha, sem aquele cheiro gostoso da cafeína invadindo meu quarto, minhas narinas. Eu não sou mais o mesmo sem essa presença, nem imaginar consigo, porque sei que seria uma farsa e tudo que eu queria, era que isso se tornasse novamente minha realidade todas as manhas, as tardes, as noites, todos os agora voltassem a ser repletos de planos, de sorrisos, de caricias. Repletos daqueles momentos que agora são invisíveis, aqueles momentos que mesmo simples se tornaram tão impactantes na minha cabeça, para meu coração. É inexplicável o quanto a dor se torna mentalmente física e torturante. É como se seu coração realmente estivesse sido apunhalado, como se ele pudesse de repente parar de bater, é como se seus olhos tivessem ressecado por suas lagrimas terem esgotado, como se sua garganta fosse invadida por um punho, que a torce e a aperta fortemente dentre os dedos das lembranças e com a força da realidade presente. Sua energia é levada, sua vontade é tomada, e assim você entra no automático durante todo o desenrolar dos dias, que parecem tão longos capazes de serem comparados á anos.
Sinto-me um bobo por ficar esperando o nosso final feliz, em acreditar que um dia vou vê-lo novamente aqui dentre meus braços para poder lhe encher os ouvidos com meus versinhos cafonas, com minhas frases matinais bregas, mas que porém, possuem toda a sinceridade de alguém que se apaixona toda manhã pelo mesmo rosto. Ou que pelo menos podia se apaixonar, já que agora não mais posso vê-lo, nem abraçá-lo. Como um objeto proibido, só posso o ver através de uma foto, só posso lhe falar através da escrita que não pode nem mesmo ser respondida, em respeito a quem está agora ao seu lado. Sinto-me preso dentro de mim mesmo, tendo de gritar esse amor no maior silêncio possível, já que agora eu amo sozinho. Porque isso é o amor, isso é romance. É você ter inspiração o dia todo pra falar coisas bonitas, é você buscar tudo de si para fazer tudo por alguém, é você encontrar mil e uma formas de dizer “eu te amo”, de mostrar que ama mesmo e ama apenas essa única e preciosa pessoa, esta que no fim consegue deixar de lhe amar para amar outra pessoa, esta que abandona suas rosas vermelhas e singelas, seus versinhos rimados e simples, seu amor estúpido e sincero. Abandona tudo por um novo começo, enquanto você começa a conhecer um pedacinho de seu fim. É ai que você começa a olhar para si como um nada, já que você deu seu tudo e mesmo assim não foi o suficiente, é ai que você começa a se comparar com os outros e ver como você é insignificante, como você foi tolo, como agiu feito uma criança, sorriu feito uma criança, foi feliz feito uma criança, enquanto outra pessoa mostrava maturidade, seriedade, futuro. Eu nunca quis viver o futuro como quero agora. Apenas queria fazer o melhor do presente e acreditava que assim o “para sempre” iria se formar, mas não vi que o presente já estava acabado. Eu sorri tanto que meus olhos fecharam e quando eu os abri Gerard havia sumido, haviam o levado para tão longe que meus olhos não podiam alcançá-lo para mostrar o que há dentro de mim, tão distante, para algo tão bom, que nem mesmo se ele soubesse o caminho de volta ele arriscaria se aproximar de mim novamente. E tudo isso porque eu fechei meus olhos por alguns segundos para sentir como seu perfume entrava suave em meus pulmões e acariciava meu coração que pulava ativo, envolvido no ritmo quente e confortante de seu abraço. Esse piscar leve de olhos eu trocaria por todo meu sangue, todo meu ar, todo meu tudo, só para tê-lo de novo a vista de meus olhos, por mais que ele não quisesse olhar no fundo deles novamente, eu trocaria tudo para poder vê-lo vagando por aqui, para observar em silencio e com atenção seus movimentos pela cozinha enquanto, desajeitado, tentava seguir uma receita qualquer só para me impressionar. Mal sabia ele que a coisa mais magnífica do mundo já estava ali na minha frente, dançando entre ingredientes e louças lambuzadas. Era ele. Dando-me o prazer de observá-lo sorrir, ou até mesmo odiar algo que saia das expectativas da receita. Mesmo que eu soubesse que nunca mais fosse o ver ali, eu não trocaria aquele momento por nenhum outro, não mudaria absolutamente nada, porque assim como cada segundo que passei com ele, essa imagem é insubstituível em minha mente.
Mas assim, como todas as ondas que chegam à praia voltam para o fundo do oceano, você voltou para o mundo. Saiu por aquela porta e foi arrastado daqui. Eu só espero que você não se afogue dentro dessa pessoa que você escolheu, por que talvez depois eu não saiba mais te salvar, nem te manter seguro, nem te reconhecer como antes. Talvez o nosso futuro se torne apenas um depois igual ao agora, ou um antes modificado pelos erros. O fato é que não quero repetir tudo de ruim, nem tudo de bom. Queria apenas poder continuar a fazer novos momentos entre a gente, novas lembranças para cobrir as velhas, novos sorrisos para disfarçar as lagrimas. Apenas coisas novas. Mas você sumiu; como se eu fosse me tornar o pior tormento de sua vida. E eu posso ter mandado as cartas para um endereço vazio, mas mesmo assim eu me agarrei à chance de que você lê-las-ia. Gerard, por que eu não consigo te odiar por ter me abandonado assim? Por que eu não quero distância de uma pessoa que me mentiu tantas promessas? Por que eu ainda te amo mesmo você sendo o maior causador de minha dor?
Olhei pela janela de meu quarto que dava de frente com um grande lago, depois olhei para o céu, começava a ter tons de um nublado leve. O dia estava frio, o inverno se aproximava violentamente do lugar. Voltei meus olhos ao ponto de luz mais forte que havia dentre as nuvens, me feriu um pouco, mas permaneci a fitar o foque. Será que Deus podia me ver de lá de cima? Será que ele não dava valor a um simples sentimento humano? Por que não conseguia ver nada de bom em lugar algum? Nada que representasse Deus ou algo assim? Fechei meus olhos sentindo mais uma conhecida lagrima quente descer por meu rosto. Por quê? Por que eu estava assim? Por que não me recupero? . A este ponto já não era mais uma lagrima, mas sim uma linha de água que descia dolorosamente sobre minha face. Meu rosto ficou quente, minhas mãos geladas, meus ouvidos surdos. O silencio daquela casa me fazia alucinar por vezes, fazendo meu coração acelerar tão forte e tão de repente a ponto de me deixar tonto, assustado.
Mas um som soou muito mais alto e muito mais nítido do que qualquer outro naquele mês. A campainha tocou despertando meus olhos e acordando meus ouvidos. Senti meu coração acelerar, não de ansiedade, mas de medo. As chances de Gerard voltar aqui foram transformadas em puro terror pela minha mente, por meus sonhos. As vezes que via objetos dele de relance pela casa, mas que ao voltar os olhos era apenas um lugar vazio agora. Momentos assim fizeram uma fobia dentro de mim. Cheguei a pensar que ele viria até aqui apenas para me reprimir, para mandar eu me afastar de vez, para eu desistir. E se não for ele lá embaixo? Se for algum amigo ou parente? Irão me ver neste estado. Vão me julgar me criticar, me chamar de tolo. Falarão que eu estou perdendo tempo, que deveria esquecer, ou até mesmo me tirariam daqui. Isso não podia acontecer, eu precisava ficar aqui para caso ele volte, eu não poderia sumir como ele, não! O desespero correu por minhas veias ao pensar que as chances de não ser Gerard eram muito maiores, e que eu poderia ser levado dali.
A campainha soou novamente. Sai da cama com os joelhos doloridos pelo tempo que ficaram imóveis. Corri me vestindo descentemente o mais rápido que pude. Uma calça preta e
um moletom grosso vermelho sobre as roupas que já vestia para ganhar tempo. A campainha soou pela terceira vez e em meu corpo jazia mais sangue bombeado em 5 minutos do que no mês todo. Desci as escadas que ficavam de frente para a porta correndo, vacilando nos últimos degraus. Acho que meus joelhos estavam a ponto de romperem com tamanho esforço. Segurei-me ao corrimão evitando uma queda brusca que me daria bons hematomas.
Parei a mão no trinco da porta imaginando quem poderia ser que estava ao outro lado daquela madeira esculpida. Poderia ser Gerard, tão próximo... Como poderia ser qualquer outra pessoa que não tem o que fazer e vai à casa dos outros tomar café. Meu humor virou para esse lado: parente chato que quer comer de graça.
Abri a porta sem ver quem estava á minha frente. Na verdade demorou alguns segundos para perceber quem estava ali. E quando percebi; meus olhos fotografaram cada milímetro daqueles olhos os encaixando perfeitamente na moldura dos meus. Dentro de mim uma mistura de felicidade, desespero, magia e medo se misturaram, dando talvez a única sensação que lembrava algo bom em meses. Meu corpo poderia dar a volta ao mundo correndo, mas no momento, apenas congelou. Parei ali sentindo a força de um raio correr em cada nervo me acordando do transe.
--Oi Frank.
Gerard sorriu de leve, posto no degrau abaixo de mim. Eu queria falar tantas coisas, que minha língua não funcionava mais. Desviei meus olhos dele tentando entender o que estava acontecendo comigo.
--Posso entrar? Eu não tinha nada pra fazer e pensei em vir tomar um café com você. Se não se importa, claro.
Minha cabeça desaprovou o meu pensamento maldoso de instantes antes. O olhei quieto, eu não queria me acordar daquele sonho. Gerard estava ali, e ao contrario de meus pesadelos, ele arriscou sorrir pra mim, ele estava mesmo ali. Gerard fez uma cara triste com meu silencio e ameaçou se virar.
--Calma!-Disse
Coloquei a mão em seu ombro o impedindo de ir. O olhei desconcertado com minha situação. Eu havia o tocado, sentido seu tecido em minha pele. Tão próximo; tão perto. Não poderia deixá-lo ir de novo, não tão fácil, não como a ultima vez. Quando ele me disse adeus, e saiu pela porta calmamente, eu achei que ele iria voltar logo e não o impedi. E então as horas pesaram sem resposta. Agora o ver era como uma vitoria de minha esperança e um fracasso de meus demônios. Tirei minha mão de seu ombro rapidamente quando ele olhou para mim.
--Entra Gerard. -Disse de forma tímida.
Houve uma guerra tão grande dentro de mim para que isso acontecesse que agora minha mente estava como um campo após uma batalha. Arrasada e com tantas coisas mortas jogadas, tantas criaturas criadas e alimentadas. Mas quando eu olhei para aquelas duas pedrinhas verdes brilhantes que formavam seu olhar, uma luz muito mais forte do que a do céu passou dentro de minha alma, lavando-a de todos os monstros e os restos mortais do que uma vez foi a dor, preenchendo-me com uma sensação de passado, com a esperança do futuro, com o desejo de mais uma vez, lutar por meu presente e não mais esperar ele vir até minha porta.
Gerard estava aqui, mas isso não queria dizer que ele era meu de novo, nem que ele queria ser meu de novo. Eu não sei o que exatamente ele quer, não sabia o que devia fazer, quem sabe eu apenas devesse deixar levar, quem sabe o cara lá de cima olharia para meus sentimentos não apenas como um sopro de vento, mas talvez como um sopro de vida.
Notas finais
Se curtirem deixem um review, obrigado (:
Fale com o autor