Notas iniciais
Olá, anjinhos! Bom, primeiramente gostaria de pedir perdão pela demora da atualização. Tive alguns problemas pessoais nesse meio tempo, isso me atrapalhou na escrita. Neste capítulo, escrito com muito carinho, teremos somente a narração do Gaara, ao lerem vocês entenderão o porquê. Enfim, boa leitura!

Capítulo III – Vírgula

Escrito por @Moonkiss

Morrendo jovem, e eu estou jogando duro. É assim que meu pai fez de sua vida uma arte: beber o dia todo. [...] Eu ouço os pássaros na brisa de verão, eu dirijo rápido. Eu estou sozinha à meia-noite, tenho tentado muito não entrar em problemas, mas eu tenho uma guerra em minha mente. Então eu apenas sigo em frente.

— Ride, Lana Del Rey.

• • •

Gaara

— Sasuke, responda logo a sua namorada! — resmungou Naruto enquanto terminava de varrer o chão — A Sakura não para de me mandar mensagens perguntando por você!

— Se você não tivesse dedurado o Gaara e eu, ela não estaria te incomodando. — rebateu Sasuke de cenho franzido, prestando atenção ao cortar o cabelo de Sai. Irritado, Naruto parou e apoiou o cotovelo na ponta da vassoura.

— Eu não tive culpa! E ninguém mandou vocês dois encherem a cara!

Sasuke e eu apenas o ignoramos. Ouvir as reclamações dele está fora de cogitação, principalmente porque não pretendo aumentar ainda mais a minha dor de cabeça. Sentia náuseas desde que acordei e até agora o remédio que Karin nos ofereceu não parecia fazer efeito nenhum. Além de ter que aturar as insinuações de Ino Yamanaka, eu não estou em boas condições de trabalhar hoje. Hesitei em vir para o estúdio, no entanto, prefiro evitar que Orochimaru se irrite comigo. Ao menos o braço cheio de pontos cirúrgicos não incomodava.

Ontem à noite, Naruto acabou descobrindo a nossa tramoia: após o jogo de videogame, ele estranhou a minha ausência e a de Sasuke, então nos encontrou no quintal já embriagados. E, apesar de não haver intenções maldosas, contou para Sakura sobre o nosso estado quando esta lhe questionou o motivo de seu namorado chorar escandalosamente aos pés da cama às duas horas da manhã. Naquele horário eu já tinha ido para o meu quarto, mas pude escutar os gritos dela, recheados de xingamentos e de broncas. Quando bebo costumo ficar mais quieto do que o normal, porém, Sasuke Uchiha é totalmente o oposto.

— Diz para a Sakura relaxar, afinal, beber um pouco não mata ninguém. — falou Sai, que estava sentado em frente ao espelho e o usou para olhar Naruto. Este, com a pá na mão, jogou toda a sujeira na lixeira.

— É, um pouco não mata mesmo, mas no caso desses dois...

— Desligue o celular e quando fecharmos o Sasuke resolve a própria DR*, entendeu? — bradou Orochimaru de repente, o que me fez notar sua presença. Ele se virou para Sasuke com uma expressão furiosa — Gaara é a primeira vez, mas você eu já estou cansado de ver vindo trabalhar de ressaca, quase a um passo de te mandar pro olho da rua!

— E o que falta para fazer isso? — interpelou, pausando o trabalho e observando Orochimaru por cima do ombro. Seu olhar transbordava deboche.

Apesar de estar numa sala separada, por causa da porta aberta pude ver todos os presentes no local interromperem as próprias ações. Vixe, esse cara é maluco. A sorte do Uchiha é que no momento há apenas três clientes aqui, pois, se o estúdio estivesse consideravelmente cheio, Orochimaru estaria mais enfurecido do que agora. O clima de tensão fez com que todo mundo se entreolhasse, como se fofocassem através de contato visual. Senti-me em um reality show, daqueles bem caóticos. Neji, que barbeava Shino Aburame, não pôde omitir sua decepção; ele contava conosco em relação a nossa postura, tanto para uns com os outros quanto para com o chefe, já que a estreia da banda em palco será no porão do Snake Skin*. Não podemos perder essa oportunidade, sobretudo porque Orochimaru cedeu o espaço para nós sem reclamar — embora seu verdadeiro interesse fosse atrair mais clientes por meio do show. O olhar dele é como o de uma serpente prestes a atacar, algo que ressaltava suas lentes de contato com a íris em tom de âmbar e a pupila vertical. Respirou e expirou, abrindo enfim um sorriso forçado. Sua voz soou firme e impaciente:

— Saia do meu estúdio agora.

Sasuke, retribuindo a expressão afrontosa, largou o pente, a tesoura e o avental na penteadeira e simplesmente saiu. O estrondo causado pelo bater da porta de vidro quase me fez crer que a construção inteira iria desabar. Naruto e Karin tentaram interceptá-lo, mas Kiba segurou-os, logo este primeiro decidiu terminar o corte de cabelo de Sai. O chefe, no mesmo instante, cruzou o corredor e se direcionou ao escritório a passos largos. Sem delongas, Neji, tomado pela raiva, cochichou algo no ouvido de Shikamaru, que o substituiu no serviço, e correu atrás de Orochimaru.

Não sei o que esperar depois dessa demissão repentina; a Fire Will talvez corra o risco de cancelar o próprio show, caso Orochimaru cisme em recusar de repente o espaço para a banda graças à imprudência do Uchiha. Boquiaberta, Ino olhou para mim quase risonha. Eu a ignorei e, preocupado, voltei a tatuar a flor de lótus que ela tinha escolhido em seu cóccix. Estremeceu um pouco com o toque da agulha, porém, logo relaxou. Enquanto manuseava a máquina para finalizar a tatuagem, imaginei o tamanho sermão que Sasuke iria receber quando chegássemos em casa. O erro dele foi confrontar o chefe, que não aceita desaforos. Entendo que ele estava agindo de forma incorreta em vir trabalhar de ressaca quase sempre, no entanto, não o julgo por não seguir os conselhos da própria namorada ou os princípios da ética profissional, mesmo que Sakura e Orochimaru estejam certos. Sasuke, assim como eu, precisava se distrair.

Ao concluir o trabalho e guardar os equipamentos de barbearia, Shikamaru trocou um amigável aperto de mãos com Shino, que caminhou até Karin para efetuar o pagamento, e andou na direção da sala onde estamos com os polegares escondidos nos bolsos do jeans. Ele encostou-se no batente da porta, estalou o pescoço e perguntou para Ino, sua amiga de infância:

— E você, está ficando mesmo com o Sai?

— Eca! — suponho que ela fez uma careta enojada — Ele é tão repulsivo quanto o Sasuke!

— Ah, para, Ino. Duvido que você ainda não tenha inveja da Sakura só porque ela conseguiu o Sasuke.

— Inveja? Nem um pouco, já superei essa derrota, somos amigas agora. E para que ter inveja daquele pedaço de tábua quando se tem tudo isso aqui? — disse sugestivamente, gesticulando para o próprio corpo. Shikamaru conteve uma risada.

— Sei...

— Eu te juro, Shika! Sasuke pra mim é passado. E, afinal, existem muitos outros marinheiros que esta sereia pode enfeitiçar... — Ino, sorridente, jogou uma piscadela para mim por cima do ombro. Fingi que não era comigo.

Ino é amiga dos rapazes, não minha. Desde o Ensino Médio, a garota tenta por todos os meios ter algo comigo — o que eu nunca consegui entender, visto que deixava nítida minha aversão por ela. Não enxergo Ino com maldade e tão pouco me atento as suas tentativas de me seduzir. E beleza nela não faltava. Possuía uma aparência angelical, mas seu conteúdo contradizia esse fator, sendo uma menina que passava bem longe da minha lista de interesses.

— Ah, já ia me esquecendo! — sem ainda desviar a visão de mim, ela falou com manha — Queria te perguntar uma coisa...

— Diga. — grunhi, a voz um tanto abafada por conta da máscara. O tom rígido pareceu não abalar Ino.

— O show da Fire Will será no sábado que vem, não é?

— Certo.

— O Suigetsu disse que irá preparar a cerveja artesanal, é verdade?

— Sim. — findando a tatuagem, comecei a limpar a região e aplicar um pouco de pomada — Já finalizei. Use sabonetes antissépticos e pomada, não se exponha ao Sol, não tire a casca da pele, não a coce e nada de alimentos muito gordurosos e condimentados. Quando você passar no balcão, a Karin vai te dar nosso cartão de visita e nosso manual de instruções. Nele tem as informações mais detalhadas sobre como cuidar da tattoo durante os primeiros dias, se tiver alguma dúvida estamos disponíveis via WhatsApp. Entendeu?

— Entendi, obrigada!

Após colocar o plástico filme, me desfiz das luvas e de todo o restante dos materiais descartáveis. Havia do outro lado da sala um espelho de chão. Pedi para Ino ficar diante dele e peguei outro espelho, desta vez de mesa, para posicionar atrás de si até que a tatuagem no cóccix fosse refletida no espelho maior. Ela avaliou e, encantada, tirou uma foto com a ajuda de Shikamaru. Tinha me chamado para uma selfie, entretanto, recusei. Eu detesto aparecer em fotos e não pretendo dar esperanças à Ino, pois se sabe lá como ela iria interpretar se eu fizesse o contrário. Sem sucesso, apanhou sua jaqueta jeans claro e andou até mim enquanto eu devolvia o refletor para a bancada.

— Adorei a tattoo, você tem muito talento! — elogiou com a voz maliciosa, vestindo a jaqueta. Subitamente ela me deu um beijo no rosto — Até breve, gatinho...

Indignado com a audácia de Ino, meus olhos a acompanharam até a porta, mirando-a como quem estaria prestes a cometer um assassinato. Shikamaru, até então com a coluna escorada na parede, enfim parou de reprimir uma gargalhada. Tentou pôr a mão na boca para abafar o riso, mas foi em vão; ele gargalhou tanto que abraçava o próprio corpo. Se eu tivesse notado que o objetivo dela era me beijar, iria desviar a todo custo. Meus globos oculares reviraram, e, encenando uma pose feminina, tentei imitar a voz aguda de Ino:

— “Até breve, gatinho”!

— Ai, ai, segura essa onda, meu amigo. — zombou Shikamaru, recompondo-se — Ela não tem jeito mesmo...

— Deveria ter. Qualquer dia eu ainda vou me aborrecer sério com essa garota.

— Ah, qual foi, Gaara? A Ino é chata, mas é gata. Por que não lhe dá uma chance?

A terrível dúvida de simplesmente mudar de assunto ou de chutar a cara dele me corroeu, gerando em mim um rosnado quase audível. Mas, por ter pelo menos um pouco de senso, dei preferência à primeira opção. Não gosto de ficar com alguém sem compromisso, e, mesmo que gostasse, Ino Yamanaka continuaria sem chances. Na gaveta da bancada, recolhi um novo par de luvas, um rolo de papel toalha, uma garrafa de álcool 70%, um pouco de gaze, sabão líquido e um borrifador de água a fim de realizar a desinfecção das superfícies. Cínico, calcei as luvas e murmurei:

— Eu queria saber o que ela tem a ver com a flor de lótus...

— O que significa a tatuagem da flor de lótus? — indagou depois de um bocejo. Arranquei um pedaço do papel toalha.

— Pureza e elevação espiritual. É algo que Ino Yamanaka não busca.

— Não vou discordar. — ele esboçou um sorriso sarcástico e em seguida projetou o queixo na direção da bancada, da cadeira e da maca hidráulica — Quer que eu desinfete as superfícies para te adiantar?

— Quero sim, valeu. Então vou fazer a esterilização. — retirei novamente os produtos da gaveta, agora para Shikamaru — Repete o procedimento três vezes, por favor.

— Com intervalos de um minuto?

— Certo. E usa as luvas.

Ele assentiu e começou a se preparar devidamente para a higienização do local. Ainda sentindo aquela pulsação dolorosa dentro da cabeça, juntei uma parte do equipamento e os materiais de limpeza para realizar a esterilização. Quando terminei, apanhei a outra parte e a esterilizei com o uso da autoclave. Já concluído o processo, incluindo o de Shikamaru, guardei os instrumentos e fui até Karin. Ela lia uma revista de moda atrás do balcão.

— Qual é o meu próximo horário, Uzumaki? — perguntei, apoiando os cotovelos sobre a madeira. Sem interromper a mastigação do chiclete, Karin apanhou sua agenda, verificou a anotação e me respondeu:

— Às 11:30 com Ibiki Morino. — pôs a agenda de volta no lugar — Gaara, posso ver seu portfólio depois? Quero fazer uma tattoo nova.

— Obrigado. Pode sim.

— Ah, o remédio funcionou? — desta vez ela fez contato visual comigo, ajeitando os óculos ao levantar o rosto. Percebi que o sabor do chiclete era de hortelã através de seu hálito.

— A náusea passou há alguns minutos, mas a dor de cabeça continua.

— Pegue leve na próxima, hein?

Karin alinhou um sorriso esperto para mim, o retribuí e me afastei do balcão. Mais clientes chegaram ao estúdio, devido a isso todos estavam ocupados, com exceção de Naruto. Não quis estorvar ninguém, por mais que esteja curioso para saber se a conversa entre Neji e Orochimaru obteve bons resultados, então evitei papear com os rapazes — e tentar fugir de Naruto, tanto pelas reclamações dele sobre a minha embriaguez quanto pelo incidente na suíte. Retornei a minha sala no intuito de desligar a TV conectada à Internet, pois costumamos colocar alguma música de preferência dos clientes para relaxarem durante o processo da tatuagem, e Ino optou pelo gênero musical que eu mais detesto: teen pop.

Fui ao banheiro masculino exclusivo para os funcionários. Já em frente ao mictório, prestes a abrir o zíper da calça, escutei alguém entrar. Era Naruto. Cacetada. Ele, assobiando distraidamente, desferiu um pequeno tapa camarada em meu ombro e parou para urinar ao meu lado. Olhei bem a cara dele tal qual um grego olharia um troiano e vice-versa. Naruto, por fim, reparou que eu o encarava com irritação. Impediu o próprio ato de desabotoar a bermuda e inquiriu:

— Que foi?

— Não acredito que você vai mijar bem do meu lado!

— Ué, e daí?!

— Regra número um do banheiro masculino, Naruto: nunca mije no mictório ao lado do seu colega! — exclamei de cenho enrugado. Ele reproduziu a mesma expressão.

— Ah, Gaara, para de palhaçada! Você sabe muito bem que o meu negócio é futebol!

— Não me interessa, Naruto, isso é estranho! Pula um!

Aos resmungos, Naruto trocou para o próximo mictório, e assim cumprimos o que tínhamos que fazer. Moleque doido. Depois de alguns segundos, ouvi um suspiro pesaroso dele, e logo puxou conversa:

— Olha, eu só quero conversar contigo.

— Argh, o que foi agora? — rumorejei, sem deslocar meu foco em um ponto fixo do azulejo branco da parede.

— Me conta a verdade: como você quebrou o espelho da sua suíte?

Apesar de reconhecer que a qualquer momento Naruto ou Kiba poderiam me fazer essa pergunta, me senti perdido, sem uma carta dentro da manga. Nem mesmo há alguma mentira que possa inventar. Não queria explicar a ele que eu tinha surtado, não por vergonha, mas por preferir poupar palavras que sequer brotam na garganta. Estou cansado e desanimado, não consigo buscar mais forças para caminhar e minha mente mais do que nunca se encontra num caos total, é tudo que eu saberia dizer. Se nem eu sou capaz de me entender, quanto menos Naruto. Bufei.

— Você não vai me deixar em paz, não é?

— Não mesmo.

— Eu soquei o espelho. — revelei, ainda aborrecido, já fechando o zíper e dando descarga — Não conte a ninguém, caso contrário, eu mato você.

— O que está acontecendo com você, Gaara?

— Como assim? — disse, andando até a pia. Ele abotoou a bermuda.

— Não se finge de sonso! — seu timbre de voz endureceu um pouco e suas sobrancelhas se uniram. Naruto pausou por um tempo — Você anda se mutilando?

— Claro que não, Naruto! — correspondi o mesmo tom, apertando o dosador de sabonete líquido para lavar as mãos. Ele também acionou a descarga, se aproximou e apontou para os meus pontos cirúrgicos.

— O soco foi tão forte ao ponto de te deixar assim?

— Sim.

— Olha — Naruto, abrandando-se na fala, fez sua higiene na outra pia —, sei que eu sou chato, mas faço isso porque me importo contigo. E você ultimamente anda muito estranho. Bom, mais estranho do que o normal...

— Eu não mudei, sempre fui assim.

— Não venha com essa, você está pior! Você não sai mais de casa a não ser para vir trabalhar e em casos de emergência, nem dá mais os seus passeios de moto! Você não conversa mais comigo, você bebe e fuma com mais frequência, mesmo depois do diagnóstico da Dra. Tsunade, vo... — o interrompi, já utilizando o secador de mãos:

— Espera aí, como você sabe da minha consulta com a Dra. Tsunade? — ele arregalou os olhos e os fixou em um canto qualquer. Muito fulo, elevei a voz — Naruto, você leu meus exames?

— Eu tinha que ler! — vozeou também, tirando as mãos debaixo da torneira automática — Tinha que saber o que está acontecendo com você!

— Você sabe que eu odeio que mexam nas minhas coisas!

— OK, não faço mais isso! Mas, por favor, Gaara, como seu amigo eu quero que você se cuide! Você tem consciência do que o cigarro pode te causar a essa altura?

Mesmo com as mãos secas, prossegui de costas para Naruto. Eu tenho consciência do que o cigarro pode me causar. Talvez seja por este motivo que eu ainda fumo. Ergui a vista e fitei meu reflexo no espelho horizontal. Vi a minha primeira tatuagem cravada no lado direito da testa. “Amor”. Tatuei a palavra “amor” por causa do meu nome: Gaara, “o demônio que só ama a si mesmo”. Rasa me registrou assim a contragosto da minha mãe, que escolhera os nomes dos filhos mais velhos. Ele alegava que um de seus descendentes precisava possuir um chamado forte para ter futuramente uma personalidade forte. Que fosse um guerreiro cheio de si. Eu sempre odiei o meu nome. Desenhei a tatuagem com doze anos apenas por impulso, em um momento de revolta, porque tinha decidido cumprir a minha sina. Contudo, eu não me amo. Não amo quem eu sou. Não amo o que eu fiz no passado. Repudio o homem com quem me deparo no espelho, se é que posso chamá-lo de homem. Acho que, em relação ao significado do meu nome, herdei somente a parte demoníaca. Não sinto o sangue bombear o coração.

— Gaara... você quer se matar? — falou Naruto, quase em um sussurro. Não o olhei, não pisquei.

— Sai daqui, Naruto.

— Cara, o irmão do Sasuke é psicólogo, você tem que procurar uma ajuda profissional. Todos nós nos preocupamos contigo. Você se lembra da sua mãe? Não quero que você aca... — o cortei com um grito:

— Naruto, por favor, saia daqui.

Finalmente senti os pés no chão. A sensação de ter o olhar dele sobre mim durou alguns segundos. Então Naruto saiu, cada passo seu como se fosse quebrar o piso de tão impetuoso. O eco que os tênis dele provocavam soava tal qual o tique-taque da bomba relógio dentro do meu cérebro. E não me refiro à enxaqueca persistente. Ele abriu a porta e me observou. Seu semblante é apenas uma imagem turva no reflexo, visto que me recusei a notá-lo.

— Só não quebre o espelho daqui também.

A frase emitida só fez sentido para mim quando Naruto já havia batido a porta. Não pretendia gritar, entretanto, não achei outra opção a não ser aquela. Ou era o grito ou ele me veria chorar. Finalmente senti as lágrimas descerem quando uma gota se pendurou no meu maxilar travado. Eu não choro desde que fugi de casa. Não conseguia mais chorar até então. Minha mãe dizia que o choro é a dose diária para a cicatrização de cada ferimento do coração. Eu discordo. Se a teoria dela está certa, por que nenhum ferimento meu foi cicatrizado quando eu costumava chorar? Sobretudo o ferimento que se abrira no meu peito quando eu a vi morta?

Não são todas as feridas que o tempo cura.

O casamento de Karura e Rasa era deveras conturbado. Minha mãe era sábia e todos que necessitavam de um bom conselho iriam procurá-la, mas sua sabedoria não foi o suficiente para que resolvesse os próprios problemas com o marido. Meu pai, após o nascimento de Temari, assistiu a falência da própria empresa. Outrora bem sucedido em tudo que fazia, chegou cegamente à conclusão de que sua frustração seria recompensada no álcool e na cocaína. Meus irmãos e eu presenciamos ou escutamos escondidos muitas, muitas brigas entre os dois. Brigas que às vezes terminavam em agressões físicas. Havia dias em que ela nos levava para a casa de Yashamaru, temerosa de que Rasa nos machucasse ou algo semelhante quando voltasse depois de algum tempo fora. Meu tio não aceitava aquele relacionamento abusivo. Dentro de si ela também não, porém, jamais soubemos por que mamãe não se divorciou. Embora sua vida fosse um inferno, perto de nós e das outras pessoas Karura mantinha um puro e lindo sorriso. Falava para Deus e o mundo que sua única razão de viver era os filhos. Todavia nenhum dos três, nem mesmo eu, na época com seis anos de idade, foram capazes de ser o seu pilar.

Numa manhã de sábado, ao retornarmos depois de passarmos a noite na casa de Yashamaru, ninguém apareceu para nos atender. Meu tio, que nos acompanhou, tinha uma cópia da chave e a usou para entrarmos. Lembro até hoje do silêncio fantasmagórico que pairava em todos os cantos. “Sua mãe deve estar dormindo ainda ou saiu sem nos avisar”, Yashamaru nos disse. Eu fui investigar, apesar de estranhar a sensação de que algo sombrio ocorrera enquanto não estávamos lá. Subi as escadas para ir ao quarto dela. Ao cruzar o corredor, percebi devido à porta aberta do banheiro um corpo estendido no chão. Senti medo. Corri e constatei que se tratava de minha mãe. Não havia sangue em parte alguma; somente um frasco de remédios calmantes jogado ao seu lado, cada comprimido espalhado pelo piso. Seus olhos, azuis como o oceano, permaneceram abertos, e foi a primeira vez que pude enxergar dor neles. Um mar revolto, que não transmitia mais aquela serenidade que eu conhecia. Estavam em carne viva, provavelmente chorou até o último segundo. Meu grito embargado fez-se ouvir na casa inteira.

Por alguns anos achei que meu pai tinha envenenado-a. O que poderia pensar, se eu era apenas uma criança? Conforme fui crescendo, entendi o que era a tal overdose de que tanto Yashamaru contava sobre para os vizinhos quando estes lhe perguntavam a causa da morte de minha mãe. E também entendi que o crime de Rasa foi matá-la no sentido emocional. Que ela partiu por conta própria. Não a julgo. Não acho que Karura foi egoísta, como várias pessoas acharam. Eu acho que ela foi forte por muito tempo, e, igual a qualquer outro ser humano, chegou ao seu limite. Eu a amo bem mais do que as poucas coisas que já amei na vida. E sempre vou amá-la. Nunca intencionei fazer uma homenagem para Karura por meio de uma tatuagem porque nunca será o suficiente. Sempre estará tatuada em meu coração, e isto basta.

Naruto tocou em meu ponto fraco mais excruciante.

“Gaara... você quer se matar?”

Assim como Karura, talvez eu esteja chegando ao meu limite. No entanto, eu odeio a palavra “suicídio”. Odeio porque sei o problema que um suicídio pode irradiar, tal qual um vírus contagioso numa cidade pequena. Um suicídio não cessa um sofrimento, apenas o aumenta. Mesmo que eu não condene a escolha da minha mãe, reconheço que ela deveria ter contornado a situação de outro modo. Era jovem, bonita, inteligente e gentil. Qualquer homem em sã consciência se apaixonaria, se ela houvesse se divorciado e recomeçado a vida. Abriria uma floricultura do jeito com que sonhava, conheceria lugares que desejava conhecer e muitos outros objetivos que ela possuía. Além do mais, sua família não teria se desfeito tão abruptamente. Mas aquele ponto final é imutável.

Não tenho a beleza, a inteligência e a gentileza dela. Contudo, ainda tenho sonhos. Tenho amigos. Tenho uma vida, que, embora seja amarga, ainda é uma vida. Não aguento mais conviver com o barulho nos confins da minha mente. Mas não quero dar um ponto final. Vou tentar traçar uma vírgula. Não guardo tantas esperanças, porém, não suporto a ideia de morrer como minha mãe morreu. Ela, aliás, também não suportaria isso. E é por este motivo e outros que preciso tomar uma providência.

Minhas mãos, fracas e trêmulas, não conseguem sustentar mais os meus braços. A temperatura gélida do mármore se destoa com a quentura da minha pele. Meus olhos ardem como se tivesse chorado rios de lava. Meus dentes trincados só agravam a enxaqueca. Meus músculos faciais doem, úmidos de lágrimas e de suor. Meu peito arfa pungentemente com a alta frequência cardíaca. Pouco a pouco sinto o meu corpo e o ambiente outra vez. Antes cabisbaixo, vejo novamente meu reflexo.

Estou destruído. Uma boa parcela dessa destruição foi culpa minha.

Paro de apoiar as mãos na pia e lavo o rosto na intenção de disfarçar a vermelhidão. A água é dolorosa de tão gelada, mas me faz despertar. Já apresentável, me viro para a direita e dou quatro passos. Observo a lixeira. O que farei agora será quase que uma atitude masoquista, contudo, não desejo mais brincar com fogo. Nem que eu tenha que ser internado. Reluto. Um, dois, três, quatro, cinco segundos. Reviro o bolso da calça e tiro o maço de cigarros. Ainda que a cocaína seja uma droga ilícita, eu sou tão patético quanto meu pai por tentar escapar das minhas provações através do tabaco. Amasso-o e jogo-o no lixo. Caminho até a saída sem olhar para trás.

No corredor, confiro as horas no relógio de parede. Ainda tenho vinte minutos de descanso até o senhor Morino chegar. Ao passar pelo balcão, ouço de longe o volume alto da música que Karin escuta com os headphones enquanto continua lendo. É Ride.

É um tanto inusitado assumir que curto a Lana Del Rey. Gosto tanto da canção que, mesmo contrastando com o som de heavy metal tocado na TV do local, me atento somente a ela. Lembro-me do monólogo feito por Lana no início e no final do videoclipe dessa música; com os problemas pessoais ao longo da juventude, ela, a fim de tentar escapar de seus fantasmas, procurava sempre a diversão e relevava toda angústia acumulada em sua mente, apesar de cansada por se sentir louca. Ela apenas seguia em frente. Comigo as circunstâncias são semelhantes.

Aproveitando que a cliente escolhia um piercing de orelha na cartela, Naruto prepara a pistola para furo. Suspiro e vou atrás dele. Toco seu ombro. Ele se vira, aparentemente um pouco ofendido ainda, dada a sua expressão séria. Peço com segurança:

— Me passa o contato de Itachi.

Notas finais
OBS.: *DR = Discussão de Relacionamento, ou seja, briga entre namorados; *Snake Skin = Pele de cobra. Isso é tudo, pessoal, agora vocês já sabem como o Gaara decidiu também frequentar a clínica de Itachi. No próximo capítulo, que tentarei postar rápido, veremos como será a aproximação entre ele e a Hinata. Os dois ainda possuem muitos segredos sobre o próprio passado, fiquem de olho! Gostaria de saber a opinião de vocês, espero que estejam curtindo a fanfic! Beijos, honeys, desde já agradeço a atenção de cada um!!