Picture To Burn
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
Demorou para Bia me convencer a realmente fazer isso. Eu estava a caminho da casa do meu namorado com uma suspeita de traição. Sempre achei que ele era fiel a mim, nunca tive nada a desconfiar, então estava achando toda aquela movimentação ridícula. Ela me arrastou até meu carro e me fez levar de tudo, alegando ser um procedimento complicado e demorado. Não podia fazer nada além de obedecê-la, mas no final quem iria rir de tudo era eu, então valia à pena.
Bia carregava uma mochila com vários tipos de binóculos e lentes. Assustei-me, afinal, minha amiga parecia ser da CIA ou do FBI e eu não sabia. Depois de alguns minutos dirigindo, paramos na frente da casa de Joseph.
- Bia, isso é loucura! – falei batendo as mãos no volante. – Eu não vou espionar o meu namorado.
- Eu não fiquei o dia inteiro atrás dos equipamentos pra você avacalhar com o meu esquema na hora H. – ela falou calma. – Então senta a bunda aí e espera. – ela levantou a manga da blusa e encarou o relógio. – Pelos meus cálculos, eles deveram sair em cinco, quatro, três, dois... UM! – ela me puxou até a janela para poder ver meu namorado saindo de casa. Ri quando ele saiu sozinho e foi até a garagem, abrindo-a.
- Viu? – falei orgulhosa. – Eu disse que não tinha nada a ver. Você que é uma neurótica. – ela abriu rapidamente a mochila e pegou um binóculo.
- Ai meu Deus! – ela disse pausadamente enquanto olhava pelo binóculo. – Eu sabia!
— Sabia o quê? – falei irritada. – Ele me disse que ia sair com os amigos e agora nós sabemos que ele não mentiu. Será que dá pra nós voltarmos pra casa?
- É, mas ele não mencionou que teria companhia feminina. – ela continuava olhando pelo binóculo.
— Do que você tá falando, Bia? – comecei a ficar preocupada. Ela olhava e falava com tanta convicção que vai saber né...
- Ele está com uma garota. – ela falou em um tom baixo, quase inaudível.
- O quê? – perguntei incrédula, apenas para ter certeza do que tinha acabado de ouvir.
- Ele está com uma garota. – ela falou mais alto e engoliu seco.
- Não! – eu não queria acreditar no que estava acontecendo. – Quem é?
- Ela está dirigindo a picape! – ela falou quase em um grito.
- O QUÊ? – agora virou pessoal. – ELE NUNCA ME DEIXOU DIRIGIR A PICAPE! – arranquei o binóculo da mão de Bia e vi aquela cena ridícula. Joe ao lado de uma vagabunda garota que dirigia sua tão amada picape para fora da garagem. Que ódio!
- Ele é tão... Baixo! – Bia falou com raiva. Os dois começaram a se agarrar dentro do carro. Então era verdade, Joe estava me traindo e me fazendo de idiota todo esse tempo. Ah, mas se ele pensa que eu vou ficar arrasada, correr atrás dele e implorar para ele voltar, ele está muito enganado!
- Você tem um walkie-talkie? – perguntei à minha amiga, que abriu a mochila e tirou dois. – Uma lanterna?
- Sim. Por quê? – ela perguntou curiosa.
- Já planejei minha vingança. – peguei um walkie-talkie de sua mão, puxei uma das lanternas e desci do carro. Vamos ver quem é a idiota, Joe! – Se eles estiveram chegando você me avisa! – gritei para Bia que ficou me olhando com uma cara de espanto.
Joseph era o tipo de garoto “perfeição”, justamente por isso eu nunca desconfiei de nada. Mas ele era também o tipo de garoto burro a ponto de deixar uma cópia da chave embaixo do tapete de entrada. Peguei aquela chave e coloquei-a na porta, torcendo para ser a correta. Girei a chave e a porta abriu. Era tão bom ele morar sozinho, assim ninguém me atrapalharia. Liguei a lanterna e encarei a sala escura. A casa dele era uma coisa tão organizada que eu já sabia de cor onde ficavam as coisas. Era a hora de colocar minha vingança em prática.
(Dê Play!)
Fui até as gavetas da sua escrivaninha e abri-as. Encarei aqueles papéis todos juntos. Devia ser algo importante, um documento, talvez.
- Isso é pelos dois anos que você me enrolou. – peguei a gaveta em minhas mãos e a virei sem dó no chão. Todos aqueles papéis planaram até chegar definitivamente ao chão. Fui até a segunda gaveta e fiz o mesmo, mas agora havia mais coisas que papéis, fazendo o serviço ficar mais horrível e memorável. Olhei para cima e vi todos os seus CDs e DVDs. Passei a mão pela prateleira de uma forma que fez tudo cair. Alguns CDs se soltaram da caixinha e rolaram pela sala sem iluminação. Ri e subi na mesa de centro, chutando para longe tudo o que havia ali em cima. Era patético, eu sei, mas era a minha forma de extravasar a dor.
Pulei para o sofá que, com o poder do meu salto, fez pequenos furos no estofado. Abri algumas almofadas e deixei o enchimento cair pela extensão da sala.
Peguei a lanterna e fui até a cozinha. Não era diferente da sala, tudo era realmente muito organizado. Abri as gavetas, joguei todos os talheres e copos no chão, virei as cadeiras e a mesa, abri a janela e me dirigi até a pia.
- Isso é por todas as ligações que você nunca atendeu. – abri a torneira no máximo e deixei a água encher a pia. Uma hora não tinha mais lugares para ela ir, então a cozinha começou a ficar inundada. Abri a geladeira e peguei uma latinha de Fanta Uva. Fechei a porta, ligando a lanterna novamente para subir as escadas.
Seu banheiro era impecável. Sem nenhuma sujeira ou cabelo no chão. Abri o armário do espelho e peguei um daqueles exaguantes bucal. Coloquei um pouco em minha boca e depois voltei com o líquido na garrafa. Peguei sua escova de dente e abri a tampa do vaso sanitário.
- Isso é por todos os amigos idiotas que você me fez aturar. – joguei sua escova de dente dentro do vaso sanitário e depois desperdicei todo o conteúdo da pasta de dente por cima. Entrei dentro do box e peguei a latinha de Fanta Uva no meu bolso, abrindo-a. Puxei a embalagem de seu xampu e joguei o conteúdo pelo ralo, substituindo-o pelo refrigerante. – Vamos ver quantas menininhas você vai pegar agora com o cabelo roxo, Joe. – falei para mim mesma e depois comecei a rir instantaneamente por imaginar a cena. Coloquei o xampu no lugar e peguei seu creme de barbear, escrevendo “Loser” no espelho do banheiro. Trouxe comigo um rolo de papel higiênico. Dirigi-me até seu quarto.
O quarto de Joe era seu templo, e seria o lugar mais prazeroso de destruir. Segurei seu colchão, jogando-o pela janela e vendo-o boiar na piscina no quintal. Olhei todas aquelas partituras em cima da escrivaninha.
- Isso é por todas as lágrimas que você me fez derramar. – peguei-as e rasguei-as uma de cada fez, jogando-as pelo interior do quarto. Peguei seu violão e tive o prazer de soltar todas as cordas. Desconectei o teclado de seu computador e o enfiei debaixo do estrado da cama. Abri seu armário de roupas e tirei todas dos cabides e gavetas. Joguei metade pela janela e depois peguei uma tesoura em sua escrivaninha. Sentei no chão e picotei todas as roupas que eu vi na minha frente.
Suspirei vitoriosa quando olhei o quarto destruído. Dei uma olhada pelo lugar para me certificar que não tinha esquecido nada. Parei o olhar em uma foto nossa na mesinha de cabeceira da cama. Peguei-a e desci as escadas. Antes de ir embora, joguei aquele papel higiênico pela sala inteira. O walkie-talkie começou a apitar e Bia gritou do outro lado.
- Eles voltaram! Eles voltaram! – ela falou apressada e eu saí da casa pelos fundos, dando tempo de apenas ouvir o grito de horror de Joe e da garota. — O que foi isso? – Bia perguntou ao me ver voltar ao carro toda suada e com um sorriso no rosto.
- Ele só teve o que mereceu. – falei simplesmente e abri o porta-luvas, pegando um isqueiro.
- Você não vai botar fogo no carro, né Melissa? – ela me perguntou assustada, mas ao mesmo tempo rindo da situação.
- Não. — falei enquanto pegava aquela foto em meu bolso. Liguei o isqueiro e deixei a chama consumir a foto até a metade. Dei uma última olhada para a casa e joguei a foto na calçada. Dei partida no carro e voltei pra casa com a certeza de que Joe nunca mais me faria sofrer.
Fale com o autor